Archive for the ‘ Pintura ’ Category

“Para Botticelli”, nos 500 anos da sua morte

Para Botticelli

Pressinto que o mundo cresce de teus dedos
quando num clarão mortal se rasgam asas
e faces lívidas de anjos
choram suas raízes arrancadas do chão.

Quando o vento grita em teus cabelos
que não é o mar a seara que se ondula.

Quando um perfil destrói em si a noite
e o teu peito,
onde límpida era a sua côr.

Quando uma árvore frutifica a sua solidão
e se ilumina
com um súbito canto
ou um vulto quase irreal de ser tão breve.

Quando, de olhos sangrentos,
sentes nitidamente o anoitecer
e exausto abandonas a cabeça a mãos ausentes:
náufrago de veias que prolongam a terra,
transfigurado no rosto
onde a manhã te anuncia o seu regresso.

in Silabário, de José Bento

O deus cortesão, de Velázquez

A influência de Caravaggio e Rubens na obra de Diego Velázquez (1599-1660), pela utilização do chiaroscuro e das cores primárias, está mais uma vez presente neste Los Borrachos (1628-29) – um dos expoentes da caricatura social no Barroco.
Descendente de nobres portugueses, Velázquez grangeou fama na Corte Espanhola através dos bodegones – cenas de interior com elementos de naturezas-mortas.
O seu estilo, muito próprio e inimitável, de natureza contemplativa e profundamente humanista, não fêz, porém, escola.

Los borrachos, o El triunfo de Baco, 1628 – 1629

A obra assume um especial significado na pintura espanhola, pois a embriaguês era considerada um vício desprezível, sendo borracho o maior dos insultos.
Convidar e embebedar pessoas de classe baixa dos teatros de comédia para divertimento das senhoras, era pois uma forma de entretenimento na Corte Real.
Foi neste enquadramento que Velázquez pintou Baco para Filipe IV, que o colocou no seu quarto de verão.
Este divertido Deus do Vinho, rodeado por oito bêbados com quem convive, confere-lhes uma sensação de majestade, ao coroá-los com uma hera; por isso riem para quem se ri deles: o rei.
A caricatura da censura dos nobres face aos prazer dos camponeses pelo vinho, é simultaneamente máscara e disfarce – através da visão de um deus cortesão que se diverte, de igual modo.

Francisco de Goya visionário

O gigante imóvel de punhos em riste e pronto para a batalha, sobre a multidão que foge desordenadamente com o gado, evidencia o domínio que o destino exerce sobre o homem, numa luta entre o céu e a terra.
Nesta obra onírica de Francisco de Goya (30 de Março de 1746 – 15 de Abril de 1828), estamos perante a ambiguidade de saber se o monstrengo personifica a revolução dos homens ou se representa o perigo em si mesmo.
Confesso a pouca sabedoria para compreender este quadro, pois para isso teria de entender a mentalidade humana, cujas crueldade e bondade se entrecruzam ao longo da nossa história. Vou reler Sun Tzu! 🙂

Francisco de Goya - El Coloso, 1808 - Museu do Prado, Madrid

Carnaval a gosto

Juntamente com Os Provérbios Holandeses, também de 1559, esta é a primeira de uma série de alegorias de Pieter Brugel (c.1525-1569) sobre a maldade e imprudência humanas, tendo por base o trabalho de Hieronymus Bosch O Jardim das Delícias Terrenas, em cuja composição nos é dada uma visão ao alto das pequenas figuras representadas.

Esta obra enfatiza a oposição entre o Carnaval tradicional que acontecia nas cidades e aldeias flamengas e o início dos festejos da Quaresma. As festas, meio-religiosas meio-seculares, serviam de pretexto para todos os excessos, desde a bebida ao sexo.

Vejamos a contenda entre os adversários, alegórica e severamente representados por protestantes e católicos: No meio da praça de uma pequena cidade flamenga, o Senhor Carnaval, barrigudo e sentado num barril, enfrenta, com um espeto em forma de lança, a magra figura da Quaresma, sentada num carro, segurando uma pá de padeiro como arma.

The Fight Between Carnival and Lent – Pieter Brugel, 1559

The Real Van Gogh – The Artist and His Letters

Royal Academy of Arts apresenta uma exposição do trabalho de Vincent Van Gogh (1853-1890), cujo foco é a sua extraordinária correspondência, através de 35 cartas originais, raramente apresentadas ao público devido à sua fragilidade, juntamente com 65 quadros e 30 desenhos.

Esta é a primeira grande exposição de Van Gogh em Londres em mais de 40 anos e constitui uma oportunidade única de conhecer a mente complexa de Vincent Van Gogh. Via.

Vincent van Gogh – The Letters
As cartas de Vincent van Gogh foram durante muito tempo consideradas como alguns dos mais valiosos documentos no mundo da arte, sendo que a totalidade da correspondência existente foi agora publicada numa edição jamais produzida.
Pela primeira vez, todos os trabalho referentes a Van Gogh são acompanhados das cartas, incluindo os auto-retratos, desenhos e trabalhos de outros por ele mencionados, esboços feitos nas cartas, todos reproduzidos em tamanho natural.
As mais de 900 cartas, os pensamentos e opiniões de Van Gogh, as suas por vezes complicadas relações, as dúvidas e medos pessoais e, sobretudo, a paixão nula pela sua própria arte, estão reunidas nesta edição notável.
O Museu Van Gogh Museu de Amsterdão lançou o Projecto Cartas de Van Gogh em parceria com o Instituto Huygens, The Hague, em 1994. A presente publicação presente resulta de 15 anos de dedicada pesquisa por uma equipa de editores e tradutores.
Editores: Leo Jansen, Hans Luijten, Nienke Bakker | Tradutores ingleses sob supervisão editorial de Michael Hoyles: Sue Dyson, Imogen Forster, Lynne Richards, John Rudge, Diane Webb. | Desenhador: Wim Crouwel..
Esta histórica publicação  foi assinalada através da exibição das cartas numa Exposição no Museu Van Gogh Museu de Amsterdão em Outubro de 2009 e na Real Academia de Londres, de 23 de Janeiro a 18 de Abril de 2010.




The Grand Turk Giving a Concert to his Mistress

Charles-André van Loo (1705–15 Julho 1765) foi o mais célebre de uma dinastia de pintores de sucesso. Originária de França e fixada na Holanda, a família incluía o avô Jacob van Loo (1614-1670), o irmão Jean-Baptiste (1684-1745) e o sobrinho Louis-Michel (1707-1771).
Estabeleceu-se em Turim em 1727, onde casou com a cantora de ópera Christina Antonia Somis, identificada nesta obra como a pianista que canta a famosa ária Admeto, de Handel.
Em 1734 voltou a Paris onde, no ano seguinte, se tornou membro da Real Academia de Pintura.
Esta obra, de 1737,  é um dos primeiros trabalhos do artista encomendados pelo Rei Louis XV, que o nomeou Primeiro Pintor da Corte em 1762 e, um ano mais tarde, Director da Academia.
A cena, supostamente oriental, é na realidade um concerto de câmara europeu num cenário turco imaginário, muito popular nos anos de 1730.

Charles André van Loo - The Grand Turk Giving a Concert to his Mistress, 1737 - Wallace Collection, Londres

Regresso à Escola de Atenas

A Sala da Assinatura contém os frescos mais famosos de Raffaelo Sanzio de Urbino (1483-1520), que assinalam de forma singular o início dos trabalhos do grande artista no Vaticano e o começo do Renascimento. O ambiente assume o nome do mais importante tribunal da Santa Sé, “Segnatura Gratiae et Iustitiae”, presidido pelo Pontífice, que utilizou esta sala até meados do século XVI. Originariamente, a Sala havia sido convertida por Júlio II (Pontífice entre 1503 e 1513) em biblioteca privada; o programa iconográfico dos frescos, executado entre 1508 e 1511, destinava-se assim a esta função, tendo sido certamente estabelecido por um teólogo, que propôs a Rafael representar as quatro faculdades clássicas do espírito humano, dando mostras de um elevado grau de liberdade intelectual: a Verdade, o Racional, o Bem e o Belo.
A Verdade sobrenatural está ilustrada na Disputá do SS. Sacramento (ou teologia); Na parede directamente oposta, o Racional está representado na Escola de Atenas (ou a filosofia); o Bem está expresso na das Virtudes Cardinais e Teológicas da Lei e finalmente O Belo na Poesia, representado no Parnaso, com Apolo e as Musas.

Esta vista parcial da Sala da Assinatura no Vaticano mostra Parnasus (Poesia) na meia-lua da esquerda e A Escola de Atenas (Filosofia) na meia-lua da direita

A Escola de Atenas, cujo nome original Causarum Cognitio se manteve até ao século XVII, foi inspirada no projecto do grande arquitecto renascentista Donato di Angelo del Pasciuccio (1444-1514), conhecido como Bramante, para a renovação da Basílica de S. Pedro.
Na obra, que representa a verdade adquirida através da razão, duas figuras centrais retratam a essência dos pensadores da Antiguidade Clássica e, simultaneamente, o tempo de Rafael: Platão aponta para o céu enquanto segura o seu livro Timeo, ladeado por Aristóteles com a Ética; Pitágoras é representado de lado, de modo a permitir observar a explicação do diatessaron; Reclinado nos degraus da escada, Diógenes sugere a leitura; À sua frente, Eráclito, o filósofo pessimista com traços de Miguel Ângelo; À direita, Euclides ensina geometria, Zaratustra segura o Globo Celestial e Ptolomeu o Globo Terrestre, tendo por companhia o próprio Rafael.

Em lugar de a ilustração recorrer às figuras alegóricas, como era hábito nos séculos XIV e XV, convocando o olhar para o infinito, Rafael submete o espaço pictórico às leis do plano, revelando conhecimento da arquitetura dos banhos romanos, fazendo a síntese entre o pagão e o profano. Perante esta composição expansiva, o espectador quase se alheia do facto de o espaço ser mal iluminado.

Escola de Atenas

Dispostas da esquerda para a direita, as solenes figuras de pensadores representam um verdadeiro debate filosófico: astronomia, geometria e aritmética são descritas de forma concreta, num imponente plano arquitectonicamente convergente para o eixo central do espaço abobadado.

Epicuro? afastado do centro da cena filosófica...

No primeiro plano à esquerda, um rapaz segura a tábua da harmonia musical diante de Pitágoras. Ao centro, Hypatia de Alexandria e Parmenides

Hypatia de Alexandria, a astrónoma e filósofa que os cristãos queimaram e arrastaram pela cidade, olha discretamente para o espectador; Uma hábil subversão de Rafael, tendo em conta que a obra está no Vaticano.

Platão e Aristóteles, considerados os principais representantes da filosofia grega durante toda a Idade Média, caminham em diálogo no topo das escadas

Em atitude filosófica, Diógenes de Sínope reclina-se nos degraus, numa expressão de despojamento em relação às necessidades materiais e a um estilo de vida

A figura de Heraclitus (Michelangelo?) - reclinado sobre o bloco de mármore - terá sido associada mais tarde

Euclides desenha uma figura geométrica perante um grupo de jovens.

A figura de costas com o Globo é provavelmente Ptolomeu, tendo à sua frente Zaratrusta com a esfera. À direita: Rafael de chapéu escuro e o seu amigo Sodoma

As figuras desta composição não se atropelam nem são sufocadas pelo aglomerado; sugerem movimento, numa celebração do pensamento clássico liberal, onde tudo é discutido e exercitado. A ironia reside na inserção de Sodoma e (da imitação) do próprio Rafael, numa apologética improvável à República de Platão e à própria filosofia.

Apolo e Minerva

A Natividade Mística, de Botticelli

Não existe nenhuma evidência documental que comprove se foi seguidor de Savonarola; No entanto, alguns dos trabalhos tardios de Botticelli, como A Natividade Mística, são inspirados nos seus sermões, podendo concluir-se que o artista foi atraído de forma decisiva pelo papel central que Savonarola teve nos meios político e cultural dos finais do século XV.

Tem sido sugerido que A Natividade Mística, o único trabalho existente assinado por Botticelli, foi concebida para as suas devoções privadas, ou para alguém próximo.
Não sendo uma obra convencional, pois os acontecimentos tradicionais do nascimento de Cristo, da adoração dos pastores e dos Reis Magos está ausente, esta obra inspira-se  nas Profecias da Revelação de São João e inclui, simbolicamente, textos em latim e em grego.

Em A Natividade Mística, Botticelli estabelece uma ruptura com o realismo pictórico da época, patente na desproporcionada figura do Menino, obrigando a Virgem Maria a estar inclinada dentro do estábulo.
Sob a inscrição “Glória a Deus nas Alturas e Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade” (Lucas 2:14), os anjos no céu dançam empunhando ramos de oliveira, com os quais coroam os pastores, simbolizando a paz.
Sobre o telhado do estábulo, o Céu, que se abre para revelar o Paraíso, deixa cair algumas coroas douradas.
Os anjos que apontam para o berço seguram a inscrição “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29).
Em baixo, os anjos abraçam os homens, enquanto pequenos demónios emergem das profundezas.

Sandro Botticelli – A Natividade Mística, cerca de 1500

Artemisia, de Rembrandt

A seguir à morte de Mausolus, o Sátrapa de Caria, na Ásia Menor, Artemisia mandou erguer em memória do seu rei e marido um grande monumento, o Mausoléu de Halicarnassus, que foi uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Desconheço se outras haverá, mas estas duas interpretações  da obra são inspiradoras: na primeira, Artemisia terá, simbolicamente, bebido as cinzas de Mausolus; Mais romântica é a da representação do amor que Rembrandt nutre por sua mulher, Saskia.

Rembrandt – “Artemisia”, 1634. Museu do Prado, Madrid

As Três Graças, de Rubens

As Três Graças – 1639, um dos últimos trabalhos de Peter Paul Rubens (1577-1640), ilustra a grande capacidade do artista em manipular as cores primárias para obter os tons da pele humana – com realce para o azul -, aqui utilizado numa proporção que cria uma aparente semelhança entre os tons da pele humana e os do céu.

“Elas eram as deusas do charme prazenteiro, das acções caridosas e da gratidão, sem elas nada seria gracioso ou agradável. Elas transmitiam amizade às pessoas, verticalidade de caráter, doçura e conversação. Apresentadas como três belas virgens, ou estavam completamente nuas, ou envoltas num fino tecido transparente. Mantinham-se juntas, de forma que só duas estivessem viradas para o espectador e uma permanecesse de costas”

Pieter Pauwel Rubens – As Três Graças, 1639