Angoulême 2010 – Sélection Officielle

Festival de Angoulême – Banda desenhada desafia a crise

Por Carlos Pessoa, Público de 29-01-2010
Num cenário de restrições e de tensão entre a organização e as instituições apoiantes, começou ontem a 37.ª edição da festa francesa da BD, onde são esperados mais de 200 mil visitantes

O contrato que liga o Festival Internacional de BD de Angoulême à região francesa da Charente termina este mês e a renegociação anuncia-se dura e difícil. A crise económica impôs restrições orçamentais às instituições públicas que viabilizam o festival e aspiram a ter um maior controlo sobre os despesas – um corte de 140 mil euros num financiamento global público de 1,5 milhões de euros -, superadas este ano pelo reforço da participação financeira de entidades privadas, que asseguram os restantes 1,5 milhões do orçamento anual.

Nada disto deverá interessar muito aos mais de 200 mil visitantes que são esperados na pequena cidade francesa até ao próximo domingo. O que os traz são as grandes exposições, os concertos ou as numerosas iniciativas que animam as ruas, as praças e os edifícios durante os quatro dias do mais importante festival europeu de banda desenhada. E, sobretudo, o contacto directo com uma legião de autores em busca de um desenho ou de uma dedicatória nos álbuns dos seus heróis preferidos.

Há na programação motivos de interesse para todos. A chamada BD de “grande público” está presente através de uma exposição “lúdica e familiar” consagrada a Léonard (de Turk e De Groot), uma série de humor desconcertante que já vendeu mais de seis milhões de álbuns. A trajectória dos Túnicas Azuis (de Raoul Cauvin e Willy Lambil) é outro exemplo de concessão aos gostos populares, devidamente reconhecida por um público fiel que é responsável por tiragens superiores a 160 mil exemplares de cada novo álbum.

O Mangá Building (antigo Espace Franquin) acolhe a exposição One Piece, sobre a série com o mesmo nome, mas também todas as novidades nos diversos segmentos da BD japonesa, cinema de animação ou jogos de vídeo. É o terceiro pilar do edifício dedicado à BD comercial.

A obra de Blutch, consagrado em 2009 com o Grande Prémio da Cidade de Angoulême, é dada a conhecer através de uma grande exposição que recorda as duas décadas do seu percurso pessoal. Pela mão deste autor original é apresentado pela primeira vez em Angoulême Fabio Viscogliosi e o seu universo poético, numa antecipação à publicação pelo editor L”Association de Da Capo, uma recolha de 400 pranchas do seu personagem animal (um gato) mais conhecido.

Para o investigador e enciclopedista francês Patrick Gaumer, a exposição colectiva dedicada à BD russa contemporânea é um dos mais fortes motivos de curiosidade. “Estou ansioso por descobri-la”, confessou ao P2 na véspera de partir para Angoulême. “O festival também é isso – o prazer de descobrir coisas novas e autores novos. Darmo-nos conta também de que a banda desenhada é verdadeiramente um modo de expressão internacional.”

Os nomes destes jovens autores de um país onde o mercado da BD não tem expressão real – pelo menos nos termos em que o entendemos no Ocidente – nada dizem, mesmo aos mais conhecedores. O desafio que lhes foi proposto é sugestivo: como pôr em imagens uma identidade nacional que emergiu de um mundo (o universo soviético) praticamente desaparecido?

Cent pour Cent é a exposição que poderá levar os visitantes ao novo Museu da BD, inaugurado em Junho. Será seguramente o caso do estudioso Dominique Petitfaux, para quem esta é a “grande novidade de Angoulême”: “Cem desenhadores contemporâneos fizeram uma prancha de banda desenhada que é a reinterpretação de um grande autor clássico; podemos comparar as duas pranchas (Muñoz reinterpretando Pratt, etc.)”. São mais de 700 originais do fundo do museu, a que se juntam as 100 pranchas concebidas expressamente para esta exposição.

Outro núcleo que vale a pena explorar é o da Expo Louvre. Reúne os trabalhos de quatro autores de grande nível (Nicolas de Crécy, Marc-Antoine Mathieu, Eric Liberge e Bernard Yslaire) que há um ano deram corpo à exposição que pela primeira vez fez entrar a banda desenhada no Louvre com o seu olhar criativo e livre sobre a realidade do famoso museu.

Uma exposição monográfica permite conhecer melhor Fabrice Neaud, um jovem autor já premiado, em 1997, pelo primeiro volume da sua obra. O desenho de humor e satírico é o corpus da mostra Desenhadores de Humor, que reconstitui a cronologia deste género desde o seu aparecimento na imprensa.

Mais autores vivem da BD

Entre as iniciativas paralelas, são aguardadas com expectativa os Concertos de Desenho, cujo cenografia é assinada este ano por Zep (criador de Titeuf) para aperformance de Blutch e do seu espectáculo de lápis na mão acompanhado pela música de Irène e Francis Jacobs. Bilal assegura Cinémonstre, um documentário que revisita as suas três primeiras longas-metragens. A dupla Schuiten-Peeters, por seu lado, irá explorar os arcanos das Cidades Obscuras, megaciclo de banda desenhada desenvolvido por ambos há mais de 25 anos.

Os já tradicionais Encontros Internacionais anunciam, este ano, um leque muito sugestivo de participantes – Joe Sacco, Ivan Brunetti, Dash Dash Shaw, Davis Heatley, Kevin O”Neill, Alan Martin, Seiichi Hayashi, Bilal ou Floc”h & Rivière – que irão reflectir sobre os caminhos presentes e futuros da BD mundial.

À laia de contextualização, o relatório anual de Gilles Ratier, secretário-geral da Associação de Críticos e Jornalistas de BD, faz o balanço de 2009. Apesar da crise mundial, diz, o ano foi marcado pela manutenção do dinamismo da edição de BD de língua francesa; a convergência com outros meios de expressão (a chamada estratégiamedia-mix que engloba a edição digital, ainda incipiente, mas também suportes como o DVD ou os jogos de vídeo); e a diversificação dos leitores tradicionais.

Registou-se uma desaceleração da produção (mais 2,4 por cento, contra os 10,04 registados em 2008 comparativamente ao ano anterior), traduzida em 4863 livros, dos quais 3599 novidades. A tendência de concentração manteve-se, com nove grupos a assegurarem 60 por cento da produção. O número de autores a viverem da BD aumentou (1439, contra 1416 em 2008). Em contrapartida, o número de revistas especializadas em BD sofreu uma nova redução (64 contra 71 em 2008).

Quase uma centena de séries (99, mais quatro do que no ano anterior) “beneficiaram de enormes presenças no mercado [mais de 50 mil exemplares de tiragem] e continuaram a manter-se entre as melhores vendas de todos os tipos de livros”, escreve Ratier. A coroa de glória vai para os 1,2 milhões de cópias do álbum comemorativo dos 50 anos de Astérix, havendo mais nove álbuns que superaram os 220 mil exemplares de tiragem.

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