Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos Séculos XIV a XVIII

Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos Séculos XIV a XVIII

Integrada nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia, uma exposição das obras mais emblemáticas da história da astronomia, manuscritas e impressas. Na BN, até 31 de Julho.

Constituída por quatro núcleos documentais, complementados por alguns instrumentos astronómicos de época, a Exposição começa por apresentar os Antecedentes da Revolução Astronómica, com obras de Ptolemeu, Sacro Bosco, Afonso X, Regiomontano e Pedro Apiano, entre outros, mostrados através de manuscritos de Alcobaça, códices árabes, incunábulos e edições do século XVI. Em A Revolução Astronómica mostram-se raras edições de autores célebres como Copérnico, Tycho Brahe, Galileu, Kepler, Riccioli, Hevelius e Newton. Um núcleo dedicado aos Atlas Celestes reúne os exemplares mais significativos da evolução da representação das constelações, estrelas, planetas e cometas desde o século XV, com a sua enorme riqueza iconográfica. Como último núcleo, A Astronomia em Portugal exibe impressos e manuscritos de autores portugueses entre os quais Pedro Nunes, Sardinha de Araújo, Manuel Bocarro, Castro Sarmento, Eusébio da Veiga e Monteiro da Rocha, assim como edições portuguesas de autores estrangeiros.
Edições relacionadas
O Catálogo da exposição, com o mesmo título, recolhe e apresenta o rico património documental exibido na exposição, sendo amplamente ilustrado para evidenciar o interesse científico das peças assim como a grande qualidade das representações cosmográficas e de instrumentos astronómicos de excepcional valor estético. Integra, ainda, estudos sobre aspectos relevantes da História da Astronomia, por académicos portugueses.
A BNP edita em fac-símile a obra de Manuel Bocarro, Tratado dos cometas que appareceram em Novembro passado de 1618, publicado em Lisboa, por Pedro Craesbeeck, em 1619, que testemunha a existência e circulação de correntes intelectuais não aristotélicas em Portugal e o seu surgimento aquando dos debates cosmológicos das primeiras décadas do século XVII. O fac-símile é publicado conjuntamente com um estudo de Henrique Leitão.
É, ainda, editada uma colecção de 12 postais reproduzindo imagens das representações mais significativas dos astros, da abóbada celeste ou de actividades e instrumentos astronómicos.
Jornadas de História da Astronomia em Portugal – BNP, 21 de Maio de 2009
Evento complementar da Exposição, organizado pela BNP e pelo Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia, as Jornadas reunirão os nomes mais relevantes da comunidade científica nacional que, em Portugal ou no estrangeiro, se dedicam à História da Astronomia. A sessão será aberta ao público em geral.

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Tratado dos cometas que apareceram em Novembro passado de 1618

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Manuel Bocarro. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2009. 20 f. (Fac-similados)
Fac-simile da ed. de Lisboa, por Pedro Craesbeeck, 1619.
Publicado com: Manuel Bocarro Francês e o Tratado dos cometas de 1618 /
Henrique Leitão

Entre a vasta literatura suscitada pela passagem de três cometas no ano de 1618, destaca-se este pequeno livro do médico, astrólogo e sebastianista judeu Manuel Bocarro Francês [Jacob Rosales] (ca. 1593-1662). Diferentemente de quase todos os outros textos e opúsculos que então se publicaram no nosso país, o livro de Bocarro, sob clara influência de correntes estóicas, propõe uma explicação acerca da natureza desses cometas que se afasta da versão aristotélica. Bocarro questiona não apenas o que diz respeito aos cometas, mas lança uma crítica mais ampla à tradicional descrição da região celeste, crítica que, como informa, tinha articulado numa obra própria que esperava dar aos prelos rapidamente. O Tratado dos Cometas de Bocarro testemunha, portanto, a existência e circulação de correntes intelectuais não aristotélicas em Portugal e o seu surgimento aquando dos debates cosmológicos das primeiras décadas do século XVII.
Manuel Bocarro Francês é uma complexa e interessante figura de meados do século dezassete. Nasceu em Lisboa por volta de 1593 e frequentou o colégio jesuíta de Santo Antão, tendo prosseguido os seus estudos em Espanha, nas universidades de Alcalá de Henares e Seguenza. Regressado a Lisboa, em 1618 observou os cometas desse ano, preparando o Tratado dos Cometas.
Embora praticasse medicina desde que viera de Espanha, só em 1620 recebeu autorização oficial para o fazer. Os seus interesses, contudo, eram mais amplos. Bocarro foi conhecido no seu tempo sobretudo pelas suas ligações aos movimentos sebastianistas em Portugal, o que se tronou público a partir de 1624, com a publicação do Anacephaleoses da Monarchia Luzitana, uma obra abertamente sebastianista na qual, com argumentos astrológicos, provava o futuro messiânico do país. Esta publicação desagradou às autoridades espanholas e obrigou-o a fugir de Portugal.
Em 1626 publicou em Roma um pequeno opúsculo astrológico e de profetismo político intitulado Luz pequena lunar e estelífera da Monarchia Luzitana que tem o interesse de vir prefaciado por Galileu. A partir desses anos a sua vida é passada sobretudo em Hamburgo, onde veio a adquirir renome como médico, e, a partir de 1650, em Itália, onde veio a falecer, em 1662.

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Ptolomeu e Copérnico, Galileu, Kepler e Tycho Brahe. Todos eles estão representados, em alguns casos com primeiras edições, na exposição ‘Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVIII’, patente nesta biblioteca até 31 de Julho. É a história da astronomia, e a forma como ela aconteceu em Portugal, que ali se conta através dos livros

São preciosidades, livros, raros e valiosos. Alguns nunca tinham sido mostrados em público e constituem um testemunho impressivo da história da astronomia, que também passou por Portugal. Estão lá tratados da esfera celeste do século XIV que foram usados para cálculos, anotados e estudados. O livro de Copérnico (primeira edição), no qual ele estabelece a teoria heliocêntrica, também. Há livros de Galileu e de Kepler, e há atlas que mostram visões sucessivamente complexas do céu. São as “Estrelas de Papel”. Esta é uma exposição de livros de astronomia de vários arquivos portugueses, que foram publicados entre os séculos XIV e XVIII.
A mostra está patente na Biblioteca Nacional (BNP) até 31 de Julho e celebra o Ano Internacional da Astronomia, a decorrer.
Uma noção imediata que os cerca de 40 livros dão a quem percorre a exposição é a de que Portugal acompanhou a par e passo as novidades que iam surgindo nesta ciência ao longo daqueles séculos. Havia por cá quem estudasse e também quem acarinhasse e promovesse o seu estudo e a sua prática. Foi esse o caso do rei D. João V (1689-1750), que promoveu as actividades astronómicas e o ensino das ciências no País, com o apoio científico de vários astrónomos jesuítas. Foi D. João V que mandou construir, em 1722, dois observatórios em Lisboa, um no Paço e outro no Colégio jesuíta de Santo Antão (hoje o Hospital de São José), e mandou vir especialistas de fora. Mas, conta Henrique Leitão, comissário científico da exposição da BN e investigador do Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa “o monarca português alargou o seu braço mecenático à Europa e ganhou reputação internacional de protector das ciências”.
É essa a história, até há pouco completamente ignorada em Portugal, que um dos livros presentes nesta exposição personifica. Trata-se do volume Hesperi et Phosphori Nova Phaenomena sive observationes circa planetam Veneris (Observações sobre o planeta Vénus), um livro publicado em Roma pelo astrónomo italiano Francesco Bianchini, que dedica a obra, a primeira com observações detalhadas sobre Vénus, ao rei português, o seu patrono.
Outra particularidade deste livro é que ele contém o desenho dos gomos para a reconstituição do planeta sob a forma de esfera. Este primeiro globo de Vénus da História tem “mares” com nomes de portugueses ilustres, incluindo o rei D. João V e o Infante D. Henrique, atribuídos pelo próprio autor do livro.
Por incrível que pareça, ignorava-se até há pouco que existiam alguns exemplares desta obra em arquivos portugueses, e só o trabalho de pesquisa de alguns físicos, como Cândido Marciano da Silva, permitiu reconstituição de toda esta história, que será contada numa conferência científica, no âmbito da exposição, no próximo dia 21 de Maio.
Esta não é no entanto a única raridade presente na mostra, que conta sobretudo com livros das colecções da própria Biblioteca Nacional, mas também da Biblioteca da Ajuda ou do Observatório Astronómico de Lisboa. Está lá a obra central da astronomia (a mais antiga das ciências exactas), Almagesto de Cláudio Ptolomeu (90-168), na sua primeira edição impressa, que durante muitos séculos foi o pilar teórico daquela ciência. Mas há ali também um mundo de obras raras e belíssimas, que contam uma história de ciência pouco conhecida. São estrelas de papel.

Por Filomena Naves, DN

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Ver os livros de que só ouvimos falar

Alguns dos livros mais significativos da História da Astronomia podem ser vistos numa pequena exposição na Biblioteca Nacional. O espólio é nacional e os nomes estão lá todos: Ptolomeu, Copérnico, Galileu, Newton. Há história portuguesa em astros de papel
Nicolau Ferreira, no Público – 1 de Maio de 2009
Na ilustração vê-se que para lá de Saturno está o círculo de estrelas fixas à volta do Sol que veio revolucionar a astronomia, ao retirar o mundo do centro do Universo para colocar o Sol. O modelo estava distante do que hoje sabemos, com a descoberta de Neptuno e Plutão e a revelação nos séculos seguintes que o Sol não está no centro do Universo – é só um ponto luminoso no mar de estrelas que compõem a nossa galáxia que vive lado a lado com outros milhões de galáxias -, mas na altura a obra de Nicolau Copérnico fez tremer o mundo.

O livro pode ser visto na exposição Estrelas de Papel: livros de astronomia dos séculos XIV a XVIII que abriu na quarta-feira em Lisboa, na Biblioteca Nacional. O exemplar de Copérnico, que pertence à biblioteca, é da primeira edição de 1543, as folhas estão amareladas como se previa e só faltou testar com o olfacto o cheiro a livro velho, impedido pela vitrina. Mas a ilustração continua a tirar o fôlego a qualquer um, e é tão simples: o Sol no meio, rodeado pelos planetas e as suas órbitas, Mercúrio, Vénus, Terra com a sua Lua, Marte, Júpiter e finalmente Saturno, o último planeta que era conhecido na altura.
Das Revoluções das Esferas Celestes, o título de Copérnico, é apenas um dos muitos livros que compõem a exposição inserida no Ano Internacional de Astronomia, que reúne obras da Biblioteca Nacional, da Biblioteca da Ajuda e os Atlas do Observatório Astronómico de Lisboa e Biblioteca Pública de Évora. “Com esta exposição as pessoas podem ver os livros que só ouviram falar. Espero que sirva para aproximar as pessoas da astronomia, estes livros são lindos esteticamente, são uma beleza”, disse ao P2 Henrique Leitão, comissário da exposição.
O historiador da ciência da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa passou centenas de horas a ler e estudar muitos dos livros que estão expostos na sala da Biblioteca Nacional. “Pelo aspecto físico podemos tirar considerações, os livros foram mesmo utilizados, não são objectos distantes”, explica, mostrando notas laterais feitas em páginas de algumas das obras expostas, como ainda hoje quem estuda continua a fazer. Através destes acrescentos consegue-se distinguir “entre o aluno que não percebeu nada e o aluno que compreendeu o livro e até corrigiu”, diz o comissário, que não troca a leitura directa dos exemplares por cópias digitais. O que nos leva para um dos aspectos mais importantes da exposição, os livros são todos de bibliotecas portuguesas e provam que existiu um interesse e um acompanhamento do estudo da astronomia em Portugal ao longo dos séculos.
A sala está dividida por quatro temas: os Antecedentes da Revolução Astronómica, com obras mais antigas, de autores como Ptolomeu, A Revolução Astronómica, onde se mostram edições de Copérnico, Newton e Galileu, os Atlas Celestes, com a evolução da cartografia estelar, e finalmente a Astronomia em Portugal, que mostra alguns livros portugueses ou relacionadas com o país.
A obra de Francesco Bianchini de 1728, um astrónomo de Itália do século XVIII, Hesperi et Phosphori nova phaenomena…, que está no núcleo dedicado a Portugal, é uma das surpresas da exposição. O livro é dedicado ao estudo de Vénus e Bianchini faz toda a topografia do planeta dando nomes de portugueses como o Infante D. Henrique aos lugares descritos. A razão para a deferência é porque o mecenas do astrónomo foi o rei português D. João V, que Bianchini compara com a família Médici de Florença, patronos de Galileu, ou a Luís XIV de França, que deu muito dinheiro à ciência. “A primeira vez que se faz a cartografia de Vénus é com topónimos portugueses, e isto é que nos faz chorar: os historiadores estrangeiros sabiam disto, mas em Portugal ninguém sabia”, diz Henrique Leitão, alertando para o grau de ignorância que ainda existe sobre a História da Ciência em Portugal. “Bianchini é uma enorme novidade que obriga a repensar a forma como D. João V apoiou a Ciência”, sublinha o investigador. Os nomes dados à topografia não vingaram porque o que o astrónomo viu foi a atmosfera de Vénus, que está sempre a mudar. Para a exposição foi construído o planeta que o italiano observou e pela primeira vez descreveu.
A importância do mecenato que dava statu aos reis e permitia a existência de investigação científica está patente em outras obras apresentadas, como no exemplar das Tábuas Rodolfinas de 1627 do astrónomo alemão Johannes Kepler. O famoso frontispício está ilustrado com o templo de Úrano, onde apresenta vários astrónomos importantes como Copérnico ou Ptolomeu. Por cima do templo está uma águia que lança pepitas de ouro e simboliza o imperador Rodolfo II. “Todo este edifício da astronomia, de astrónomos, é devedor do patrono que paga”, explica o investigador. “Estes livros são emblemáticos, são celebrativos, têm que credibilizar o trabalho, o astrónomo tem que manter as boas relações com o mecenas.”
Obras-primas
Muitos destes livros, como o de Kepler, não podiam ser produzidos em qualquer país, não só pela capacidade científica que uma nação conseguia gerar, mas também pela própria técnica envolvida na edição dos livros. Os extremos foram os atlas de estrelas concebidos durante os séculos XVII e XVIII, que são obras-primas não só ao nível da qualidade científica, mas também da arte que acompanha cada página. O atlas celeste de Johann Bode cartografa 17 mil estrelas e em cada página tem um desenho fantástico das figuras que representam as constelações. “É uma verdadeira obra-prima tipográfica”, sustenta Henrique Leitão.
“Para resolver problemas colocados pelos astrónomos, os tipógrafos tiveram que desenvolver técnicas. Há uma simbiose muito interessante.” Para o comissário, o nome da exposição Estrelas de Papel também evoca esta relação que sempre houve entre a astronomia e a tipografia.
Henrique Leitão espera também que a exposição mostre aos visitantes a riqueza que está disponível nas nossas bibliotecas – “estes livros são dos portugueses, queremos que as pessoas tenham a consciência que este património é delas”.
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