Archive for the ‘ Pintura ’ Category

“Provérbios Holandeses” de Pieter Bruegel

Na passagem do 440º aniversário da morte de Pieter Bruegel [1525 – 9 Setembro 1569], a representação dos “Provérbios Holandeses”, de 1559.


‘The Dutch Proverbs’, by Pieter Bruegel the Elder
Gemäldegalerie, Staatliche Museen, Berlin

O enterro do senhor de Orgaz

O enterro do senhor de Orgaz - El Greco - 1586

O enterro do senhor de Orgaz - El Greco - 1586

O enterro do senhor de Orgaz

 

“Vê, meu filho: estes olhos sem fundo
fitando o caminhante que este quadro contempla
enquanto apontas aquele corpo alado,
o nobre corpo alado entre rostos e mãos,
são os teus.
Tu és este menino
senhoril e assombrado diante dos senhores.

No teu lenço, minha firma e uma data;
na língua antiga dessa ilha secreta
que me sagrou na luz que não virá ungir-me
escrevi claramente:
“domeniko theotokópoli o fez
1578”.
Não este quadro mas a ti, nesse ano.
Proclamo assim no rigor desta linguagem,
pertença minha como de ninguém,
que te amo sobre todas as coisas:
és a obra mais sonhada e mais gerada
em mim, que existo para minhas obras.

És tão pequeno, não sei quem irás ser,
talvez não te distingas entre quem é turba
e de ti falem só por seres meu filho,
tenham tua face porque segunda vez
te dou a vida neste painel sem preço,
sustendo aí tua carne e sua graça
quando nem se suspeite o lugar de tuas cinzas.

Estes traços e cores, o vasto alento
que de mim pus neste espaço fugaz
irão levar-me longe, onde serei falado
por gentes de hoje que jamais verei,
por outras que o futuro há-de trazer-me.
Mas tu és o meu júbilo íntimo,
a mão que estreito, o corpo que adormeço
enquanto eu vivo for, corpo de mim.

Que me importa a minha obra,
importando-me muito mais que tudo, sempre,
que me dá o meu génio, dando tanto,
– se valores vãos contigo comparados,
embora os louve para dourar meu vazio?

Minha sombra ir-se-á puindo como sombra,
de nada servirá minha ambição
de querer permanecer e eternizar-me
contra o tempo feroz, dissimulado.

Alguns séculos que resistam minhas telas
ante a erosão dos juízos e dos astros
serão apenas um soluço irremível.
Mas em ti continuarei, no testemunho
que entregarás aos filhos dos teus filhos,
que o perpetuem de geração em geração:

em sua palavra em sangue a ansiar vida,
no que de ínfimo façam, pois o homem
– seja quem for – só faz coisas mesquinhas,
estarei, então um nome, ou já nem isso.

Tudo o que não sejas tu agora é nada.

in Silabário, de José Bento – Relógio D’Água, 1992

Le Désastre ou la Guerre

«Le Désastre ou la Guerre» de 1942, é uma das minhas maiores paixões na obra de Maria Helena Vieira da Silva. Em cada visita, perco a noção do tempo de contemplação da mole humana que carrega o sofrimento do terror da guerra, num fascinante exercício de poesia abstracta vertida em tela. A obra foi realizada no Rio de Janeiro (1941-1947), para onde havia emigrado com Arpad, fugindo à guerra.

Vieira da Silva - "Le désastre ou La guerre", 1942 (Col. Centre Georges Pompidou)

«Mas a pintura é tão terrível, eu trabalho com muita dificuldade, muito lentamente, com muita frequência me sinto desencorajada. Então, releio o seu artigo às escondidas e a coragem regressa.»

Correspondência de 1943, entre Maria Helena e o amigo Torres-García, que havia elogiado o quadro «Le Désastre ou la Guerre» (1942) num artigo publicado na Revista Alfar.

Achilles no seio das filhas de Lycomedes

Sabendo que seu filho teria como destino a morte certa, caso fosse combater na Guerra de Tróia, Thetis, uma ninfa do mar, disfarçou Achilles de mulher e confiou-o à guarda do Rei Lycomedes em cujo palácio, na ilha de Skyros, ele viveu com as filhas do rei.
Odysseus e outros comandantes gregos foram então enviados em busca de Achilles; Habilmente, colocaram inúmeros presentes diante das princesas, como jóias, vestes elegantes e, entre eles, uma espada.
Quando uma trompa se fez ouvir, Achilles agarrou a espada instintivamente, acabando por trair a sua identidade.

Gérard de Lairesse (1641-1711) - "Achilles descoberto no meio das filhas de Lycomedes", cerca de 1685

De Amadeo a Paula Rego, 50 Anos de Arte Portuguesa (1910-1960)

María Jesús Ávila escreveu em 2005, no âmbito da Exposição “DE 1850 AOS PRIMEIROS MODERNISMOS”, o texto que a seguir se reproduz, como que antecipando a Exposição “De Amadeo a Paula Rego, 50 Anos de Arte Portuguesa (1910-1960)”, inaugurada anteontem no MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA – MUSEU DO CHIADO.
Maria João Caetano publicou ontem no DN um Especial dedicado à Exposição, que inclui uma entrevista ao Director do MNAC, Pedro LapaEsta página foi elaborada a partir do Programa da Exposição.

Os Modernismos, iniciados com grande esforço e empenho nos anos 10 do séc. XX, por serem iniciadores haveriam de se debater, ao longo das três primeiras décadas, entre memoráveis momentos de euforia e possibilidade de futuro e momentos de perigoso reaccionarismo, como era natural num meio em que ainda dominavam estruturas sociais e culturais próprias do séc. XIX.Amadeo de Souza-Cardoso - Cabeça, c.1913
As rupturas não existiram, só lentas transformações não estruturais, que esqueceram durante anos os logros de alguns, deixaram outros pelo caminho e noutros ainda provocaram viragens conservadoras. Situação que a mudança política ocorrida em 1926 e, em especial, a definição de uma “Política do Espírito” por António Ferro e a criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) em 1935, irá favorecer. Após o parêntese que constituem Amadeo de Souza-Cardoso e o surto futurista da década de 10, confuso teoricamente e reduzido, nas artes plásticas, aos breves exemplos que representam a Cabeça de Santa Rita e as experiências órficas de Eduardo Viana, os anos 20, embora abalados por um certo desânimo generalizado, haviam de conhecer alguns importantes episódios de activismo, edição de publicações e realização de obras. A renovação formal, tímida, processa-se através de referências à organização volumétrica de Cezánne, ao Picasso classicista e, na escultura, a Rodin. Encontra em José de Almada Negreiros, Eduardo Viana, Dordio Gomes, Carlos Botelho, Abel Manta, Francisco Franco, Diogo de Macedo e Ernesto Canto da Maia, algumas das suas melhores expressões. Na década seguinte, esta vertente dará lugar a um novo academismo, o de uma “equilibrada” expressão moderna, que haveria de conferir às artes plásticas portuguesas um carácter atemporal. Daqui destacar-se-ão pontualmente, e em percursos muito individualizados, o expressionismo de Mário Eloy, Júlio, Alvarez e Hein Semke, as experiências dimensionais e surrealistas de António Pedro e, em especial, as conquistas espaciais que, em Paris, Vieira da Silva desenvolve.

O beijo

Há cento e cinquenta anos, Francesco Hayez (1791-1882) pintou O Beijo que, muito justamente, se tornou num dos símbolos da transição do Neoclassicismo para o Romanticismo Italiano. Hayez construiu a sua obra principalmente em Milão, onde foi Director da Academia das Belas Artes de Brera.

Francesco Hayez - O Beijo, 1859


Tainted Love

Pablo Picasso - Nesso e Dejanira, 1920

Héracles, que havia morto o Rei Eurytus e saqueado a cidade de Oechalia com  intenção de levar a sua bela filha Iole como noiva, encarregou Filoctetes (então amante de Iole) de comunicar à Princesa a sua decisão de a desposar. Sabendo da relação entre Iole e Filoctetes, Hércules impõe o casamento como forma de poupar a vida ao desgraçado amante. Dejanira decide então ajudar Iole, oferecendo-lhe a túnica ensanguentada do centauro Nesso, trespassado por uma seta envenenadade de Héracles ao tentar violar Dejanira; Agonizante, Nesso dissera a Dejanira que a túnica com o seu sangue tinha poderes mágicos e que se Héracles a usasse,ser-lhe-ia novamente fiel. Porém, a túnica estava impregnada de um terrível veneno e, no dia do casamento, quando Iole oferece a túnica a Héracles, este, ao vesti-la, percebe que o veneno se infiltra no corpo. Desesperado, Héracles lança-se às chamas e sobe ao Monte Olimpo, onde se juntou a Zeus.

Pablo Picasso - Nesso e Dejanira, 1920

psycho-sexual suburban dramas

Eric Fischl - Bad Boy, 1981

Na tela “Bad Boy, 1981”, um jovem rapaz lança um olhar a uma mulher nua de pernas abertas, talvez a sua mãe, enquanto lhe rouba a carteira, símbolo da sua vagina. A atmosfera sensual criada pelas tiras de luz que entram pela janela acrecentam uma dimensão sexual. Trata-se de um quadro muito complexo, ambíguo e pleno de simbolismo erótico, evocando conflitos epidianos, segredos e tabus. Um voyeurismo e envolvimento no drama torna-se inevitável para o observador, devido à identificação da nossa perspectiva com a do rapaz. Fischl tornou-se famoso no início dos anos 80, em Nova Iorque, no contexto do revivalismo da pintura e do emergir do movimento neofigurativo. As pinceladas ilustrativas e descontraidas e o estilo informal dos seus grandes quadros figurativos escondem um conteúdo psico-sexual carregado. Abordando as formas cde vida das classes abastadas dos subúrbios, Fischl expôe um mundo de ansiedades, inseguranças e desejos reprimidos que faz por baixo de uma aparência de conforto. Eric Fischl nasceu em Nova Iorque em 1948. Via.

La Madeleine á la Veilleuse, de Georges de La Tour

Através do programa “A Obra Convidada”, o Museu do Prado inaugura um novo modelo de exposição que pretende trazer aos visitantes obras notáveis de outros museus, com o duplo objectivo de enriquecer a visita e estabelecer um termo de comparação que permita reflectir sobre as obras residentes do Prado.

A obra eleita para inaugurar o programa (até 21 de Junho), La Madeleine á la Veilleuse de Georges de La Tour (1593-1652), representa La Madeleine, símbolo da redenção através do arrependimento, num cenário nocturno, iluminado por uma vela que cria violentos contrastes nos seus instrumentos de meditação – os livros sagrados, a cruz e a caveira, símbolo da morte -, objectos que constituem uma das mais belas naturezas mortas do autor. La Tour representa La Madeleine com um aspecto delicado, longe dos seus camponeses rústicos, soldados ou músicos de rua, todos de aspecto plebeu e alheios à simplicidade espiritual desta pintura.

Ainda que tendo em comum as preocupações com a luz, La Tour explorava o chiaroscuro da luz artificial, enquanto Vermeer procurava trazer a luz natural para dentro das suas obras (aqui, aqui e aqui).

Georges de La Tour - La Madeleine á la Veilleuse, 1640-45. Museu do Louvre, Paris

Camões e a Astronomia

Celebramos hoje o Príncipe dos Poetas. No dia em que passam quatrocentos e vinte e nove anos sobre a sua morte, vale a pena recordar dois conjuntos de textos que analisam as referências astronómicas utilizadas por Camões em “Os Lusíadas”:

Em primeiro lugar, a Professora Carlota Simões desenvolveu no Portal do Astrónomo oito temas (A viagem de Vasco da Gama – A LuaO SolAs UrsasO Cruzeiro do SulAs dez esferasO firmamentoOs céusO movimento dos auges e estrelas fixas ) que permitem conhecer um pouco da obra de Luciano Pereira da Silva – A Astronomia de “Os Lusíadas”.
Numa série de artigos publicados entre 1913 e 1915 na Revista da Universidade de Coimbra, LPS mostra que “Camões tinha um conhecimento claro e seguro dos princípios da astronomia, como ela se professava no seu tempo” e deduz que as ideias astronómicas de Camões decorrem das anotações de Pedro Nunes sobre os textos de Johannes de Sacrobosco, cuja obra Camões mostra conhecer com rigor, quando no Canto X coloca na voz da Deusa Tethis a descrição do mundo tal como esta é descrita no “Tratado da Sphera” , considerada a principal fonte astronómica de “Os Lusíadas”, a par da informação recolhida nos diários de bordo da viagem de Vasco da Gama e nas tábuas náuticas.

Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo,
Quem é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

Canto X – 80

Em segundo lugar, as Palestras do professor Félix Rodrigues, subordinadas ao tema A astronomia na obra de Camões – partes I – II – III –, no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Astronomia.

Giovanni Battista Tiepolo – Thetis Consoling Achilles, 1757