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‘Solea’, de Miles Davis

Com excepção das versões do Concierto de Aranjuez: Adagio e alternate take, gravadas a 15 e 20 de Novembro de 1959, as restantes composições do álbum Sketches of Spain de Miles Davis foram gravadas a 10 de Março de 1960 nos estúdios da Columbia em NYC. Fica o quinto tema do LP original, ‘Solea’.


‘Blue in Green’, de Miles Davis

Os dias 2 de Março e 22 de Abril de 1959 correspondem a duas datas muito especiais para o jazz. Há precisamente 50 anos, Miles Davis, John Coltrane, Julian “Cannonball” Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e Jimy Cobb entravam no estúdio da Columbia, na 30th Street, em Nova Iorque, para gravar um conjunto de peças que mais tarde acabariam por dar forma a Kind of Blue, o mais referido e exaltado álbum em todo o jazz.
Rezam as crónicas que as primeiras peças a ser gravadas na primeira sessão terão sido So What e Blue in Green, entre as 14:30 e as 17:30, e que, depois de uma pausa para descanso e jantar, Miles telefonou a Wynton Kelly para vir para o estúdio, afim de gravarem Freddie Freeloader, na sessão das 19:00 às 22:00. Na segunda sessão de gravação, seriam registadas ainda duas outras peças esplendorosas – Flamenco Sketches e All Blues – assim se completando o line up de Kind of Blue.  – Manuel Jorge Veloso


‘Freddie Freeloader’ – Wynton Kelly’s piano solo

Wynton Kelly [2 Dezembro 1931 – 12 Abril 1971] substituiu Bill Evans ao piano no tema ‘Freddie Freeloader’, na que foi a sua única participação no álbum ‘Kind of Blue’ de Miles Davis (1959). Os solos são de Wynton Kelly, Miles Davis, John Coltrane, Cannonball Adderley e Paul Chambers.


‘Concierto de Aranjuez: Adagio’, de Miles Davis & Gil Evans

O álbum Sketches of Spain foi gravado nos estúdios da Columbia em NYC a 15 e 20 de Novembro de 1959 e a 10 de Março de 1960.
A peça central das cinco faixas que compunham o alinhamento do LP original, lançado a 18 de Julho de 1960, é Concierto de Aranjuez (Adagio), originalmente escrita para violão e orquestra por Joaquin Rodrigo em 1939. Com arranjo e direcção de Gil Evans, foi gravada a 20 de Novembro, com mais de vinte músicos a integrarem as diversas secções da orquestra.



O Concierto De Aranjuez (Adagio) (part one, alternate take), que não fazia parte do álbum original, foi gravado a 15 de Novembro (a parte dois foi gravada a 20 de Novembro) e todas as restantes faixas foram gravadas a 10 de Março de 1960.


Jimmy Cobb, the last ‘Kind of Blue’

Jimmy Cobb [1929-2020] era último sobrevivente do notável sexteto de músicos – Cannonball Adderley ( saxofone alto), Paul Chambers (baixo), Jimmy Cobb (bateria), John Coltrane (saxofone tenor ), Bill Evans (piano) que o trompetista Miles Davis reuniu em Agosto de 1959 para gravar Kind of Blue.
Morreu ontem, dia 24 de Maio de 2020, aos 91 anos.

‘All Blues’, by Oscar Peterson & Freddie Hubbard

Do álbum Face To Face, gravado em 24 Maio 1982, o tema de abertura All Blues, escrito em 1959 por Miles Davis para Kind of Blue.

Oscar Peterson, piano | Freddie Hubbard, trompete | Joe Pass, guitarra
Niels-Henning Ørsted Pedersen, contrabaixo | Martin Drew, bateria

‘Concierto De Aranjuez (Adagio)’, by Miles Davis & Gil Evans

The centerpiece of the five tracks that comprised the original 1960 LP release of Sketches of Spain is “Concierto de Aranjuez,” originally written for guitar and orchestra by Joaquin Rodrigo in 1939.
Produced by Teo Macero and Irving Townsend, it was recorded on November 20, 1959 at Columbia Studio, New York.

Miles Davis – All Blues

A 22 de Abril de 1959, Miles Davis, John Coltrane, Julian “Cannonball” Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e Jimy Cobb entravam no estúdio da Columbia, na 30th Street em Nova Iorque, para gravar Flamenco Sketches e All Blues.
Assim se concluía a gravação em Estúdio de Kind of Blue.

Miles Davis: The Complete Live at The Plugged Nickel

Volto ao standard Stella by Starlight, integrado na série de oito discos gravados ao vivo no Clube Plugged Nickel de Chigado,  pouco antes do Natal de 1965. A composição do segundo quinteto, com Wayne Shorter a substituir George Coleman no saxofone tenor, recupera os solos da explosão criativa de finais da década de 50. Back to basics…! 🙂

Stella by Starlight (Live at the Plugged Nickel, Chicago, IL) (1st Set) (- December 22, 1965) · Miles Davis
The Complete Live At The Plugged Nickel – 1965

Bitches Brew – Legacy Edition

O duplo álbum “Bitches Brew” não é de fácil digestão. Acontece que esta semana é colocada à venda a especialíssima reedição dos 40 anos, o que faz com que, além de continuarmos a querer Miles, teremos os próximos 40 anos para o degustar. No final da vida vão ver que valeu a pena o investimento.

We want Miles!

Por Rodrigo Amado – Ípsilon, 26-08-2010
40 anos depois, “Bitches Brew” regressa em reedição: um dos discos mais determinantes da história da música, cuja influência se estendeu muito para além do jazz, atingindo, em sucessivas ondas de choque, o rock, o funk ou o hip-hop. O tempo passou, mas continuamos a querer Miles
Em 1970, o Concorde realiza o primeiro voo supersónico, o Brasil vence a Itália no campeonato do mundo, e o universo da música está ao rubro. Os Beatles anunciam oficialmente a sua separação, morrem Jimi Hendrix e Janis Joplin, Iggy Pop e os Stooges gravam o genial “Fun House” e saem, pelos Black Sabbath, “Black Sabbath” e “Paranoid”, considerados os primeiros verdadeiros álbuns de heavy-metal.
Nesse mesmo ano, com os Beatles a desmoronarem-se e o heavy-metal a aparecer, Miles Davis (1926-1991), trompetista que viria a tornar-se um dos mais influentes músicos do século XX, também deu notícias. Eram notícias importantes: “Bitches Brew”, o álbum que lançou em 1970, foi um disco de culto antes de se transformar num clássico intemporal, um dos primeiros discos de jazz a estender a sua influência muito para além das fronteiras do género, atingindo, em sucessivas ondas de choque, todo o espectro musical, do rock à soul, do funk ao hip-hop. Agora que faz 40 anos, “Bitches Brew” reaparece, em reedição histórica, já na próxima terça-feira, dia 31. Reaparece é maneira de dizer: ao longo destas quatro últimas décadas, a música popular nunca deixou de estar sob influência, sob a sua influência.
Nesse ano em que editou “Bitches Brew”, Miles era já uma estrela. Levava um modo de vida aristocrático, dividido entre mulheres belíssimas (teve casos com Juliette Gréco e Jeanne Moreau), carros desportivos, uma mansão em Nova Iorque e uma “villa” de luxo em Malibu, na Califórnia. Muitos jovens, sobretudo negros, copiavam a sua forma de vestir e chegou mesmo a ser feito um anúncio para a gigante Bell Telephone em que um homem falava ao telefone com uma mulher: “Estava aqui sentado a ouvir o Miles Davis tocar ‘My funny valentine’, e lembrei-me de ligar…”.
Miles fazia-se pagar caro. Os seus concertos eram disputados a preço de ouro pelos promotores mais conceituados, para os quais à qualidade da música se somava o efeito curiosidade que a figura de Miles despertava. Uma curiosidade instigada pelos mitos que circulavam em seu redor, alimentados pelo feitio irascível do trompetista, mistura explosiva de uma desarmante sinceridade e de um ego do tamanho do mundo. Numa ocasião, perguntou ao saxofonista Bob Berg porque tinha feito um solo onde não era suposto. Berg respondeu: “Estava a soar tão bem que tive de entrar”. “Bob,” respondeu Miles, “a razão por que estava a soar bem era porque tu não estavas a tocar.”
Era implacável, Miles. Numa das raras entrevistas que deu em directo para a televisão, vemo-lo a entrar, carrancudo, e a deixar o entrevistador pendurado, de mão estendida para o cumprimentar. Senta-se sem dizer nada, e começamos a sentir os nervos do jornalista. Quando este finalmente lhe faz, com um sorriso amarelo, a primeira pergunta, “O que pensa dos Beach Boys?”, Miles atira-lhe, seco, “isso não tem piada!” e começa a falar daquilo que bem lhe apetece.
Mas havia outro Miles, aquele que um jornalista da “Playboy” confessou, ter encontrado, depois de com ele passar dois dias: este Miles exercita-se no ginásio de casa, cozinha costeletas de vitela para a família, recebe chamadas de amigos, vê televisão, dá aulas de boxe aos três filhos e, claro, pega num dos trompetes lá de casa para fazer algumas escalas a alta velocidade.
A maldição da mudança
Em Agosto de 69, Miles leva para o estúdio um grupo alargado de músicos: Wayne Shorter (saxofone), Bennie Maupin (clarinete baixo), Joe Zawinul (piano eléctrico), Chick Corea (piano eléctrico), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (contrabaixo), Harvey Brooks (baixo eléctrico), Lenny White (bateria), Jack DeJohnette (bateria), Don Alias (congas) e Jim Riley (shaker). Tendo como indicação pouco mais do que um ritmo, um “riff” ou alguns sinais, os músicos lançam-se em longas “jams” que são depois trabalhadas por Miles e Macero, utilizando técnicas de pós-produção consideradas altamente inovadoras na altura (tape loops, tape delays, reverb chambers ou echo effects). O disco, um LP duplo com uma brilhante ilustração de capa, surreal e psicadélica, composta por Abdul Mati Klarwein – tornar-se-ia um enorme sucesso comercial, com mais de meio milhão de cópias vendidas, algo totalmente impensável para um artista jazz. Apesar de considerado uma “traição” por muitos dos que veneravam o Miles dos anos 50 e 60, este novo som, espacial, pesado, escuro e intenso, coloca de novo Miles à frente das inovações musicais da década.
A liberdade dada aos músicos nas sessões de gravação tornou-se lendária, como Miles comentou em entrevista a Les Tomkins: “Quis que os músicos se mantivessem afastados do que é confortável. Há demasiada porcaria no mundo com a qual é suposto estarmos confortáveis. Temos de nos manter na ponta dos pés, a lutar.”
Foi o que ele fez, de resto. Depois de “Bitches Brew”, Miles não esperou muito tempo para mudar de novo, de forma radical, o seu som. Ele próprio dizia: “Tenho de mudar constantemente, é como uma maldição.”
Do jazz para a pop
Músico em permanente transformação, Miles tinha estado presente, sempre na linha da frente, nas grandes revoluções ocorridas no jazz durante as décadas de 40, 50 e 60, ao lado de Charlie Parker, John Coltrane, Gil Evans, Gerry Mulligan, Cannonball Adderley ou Herbie Hancock, entre muitos outros. Deste período, ficaram obras incontornáveis que marcam definitivamente a história do jazz como “Birth of the Cool”, “Miles Ahead” ou “Kind of Blue”. Mas Miles não se sentia satisfeito com o estatuto atingido, pelo contrário.
Cansado do meio hermético do jazz e fortemente influenciado pela sua companheira de então, Betty Mabry – que se tornaria conhecida como Betty Davis, assinando um par de álbuns históricos -, sentia necessidade de atingir um público mais alargado, ouvindo incessantemente Jimi Hendrix, Sly Stone, James Brown, Santana, Marvin Gaye, ou até mesmo os Beatles, dos quais louvava as técnicas avançadas de pós-produção de álbuns como “Sgt. Pepper’s” ou “White Album”. Por esta altura, aceitava reduções nos honorários, para tocar nas primeiras partes de grupos como a Steve Miller Band ou os Grateful Dead. Com impacto assegurado na história do jazz, o trompetista procurava agora deixar a sua marca na música popular. Para que esta transição acontecesse, necessitava de um som mais eléctrico, fortemente baseado no groove, e estava disposto a assumir a direcção de tudo o que acontecia, no palco ou no estúdio, inscrevendo agora nos seus discos (o primeiro foi “Filles de Kilimanjaro”) a frase “Directions in Music by Miles Davis”. Quando grava, em Fevereiro de 1969, “In a Silent Way”, colaborando de perto com o super-produtor Teo Macero, expande o seu quinteto com a entrada de Herbie Hancock, Joe Zawinul e John McLaughlin, dando início a um som que viria a desenvolver em “Bitches Brew”, um caleidoscópio de ambientes e texturas musicais, marcado por ritmos hipnóticos e improvisações incisivas e agrestes. Um som que pode agora ser visto como a perfeita banda sonora para o final de uma década tumultuosa, com o mundo a beira do colapso, refém das convulsões sociais de 69, da Guerra Fria e do pesadelo do Vietname.
Era evidente que ele vinha do jazz, mas não era evidente para onde ele ia. “Sou apenas um trompetista. Consigo fazer uma coisa apenas – tocar o meu trompete -, e é isso que causa toda esta confusão. Não sou um ‘entertainer’ nem procuro sê-lo. Sou apenas um músico. Quando não estou a tocar, estou a pensar em música. Penso nela todo o tempo, quando estou a comer, a nadar, a desenhar. Não gosto sequer da palavra jazz. E não toco rock também. Faço apenas a música que o dia recomenda.”
E os dias, em 1970, recomendavam “Bitches Brew”.
This super-deluxe edition celebrates one of the most remarkable albums in Miles Davis’s career and jazz history in general. Originally released in 1970, Bitches Brew became Davis’s first gold album. This anniversary 4-disc package offers the original album on CD plus an audiophile vinyl pressing on 2 LPs; previously unissued material including extensive live performances of much of the same music including a DVD of the entire Copenhagen performance from November 4, 1969. Also included is a 48-page 12×12 book, memorabilia envelope, and large fold out poster.

Um dos muitos colossos da discografia de Miles Davis, “Bitches Brew” assinala o sucesso das técnicas de pós-produção como parte integrante da música

Ao ouvir os seis temas originais que compõem o duplo LP de “Bitches Brew”, é difícil conceber que nem tudo é o que parece, de tal forma a música soa espontânea, instintiva e natural. Assinalando, em conjunto com “In a Silent Way”, o início da (agora) celebrada fase eléctrica de Miles Davis, “Bitches Brew” foi gravado com uma banda alargada de músicos – Wayne Shorter (saxofone), Bennie Maupin (clarinete baixo), Joe Zawinul (piano eléctrico), Chick Corea (piano eléctrico), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (contrabaixo), Harvey Brooks (baixo eléctrico), Lenny White (bateria), Jack DeJohnette (bateria), Don Alias (congas) e Jim Riley (shaker) -, aos quais se juntou um outro elemento, talvez o “músico” mais importante da banda: o produtor Teo Macero. Em conjunto com Miles, Macero escolheu excertos das longas “jams” que foram gravadas, editando-as em colagens que se tornam posteriormente imperceptíveis, e aplicando-lhes uma série de efeitos de estúdio – loops, delays, reverbs e echos – que fazem com que aquilo que é agora ouvido no disco esteja bastante distante do que foi na realidade gravado.
Em três dias de sessões onde nem tudo correu da melhor forma – em discussão com Macero, Miles chegou a aboandonar o estúdio dizendo aos músicos para fazerem o mesmo e regressando pouco depois, amuado, para continuar as gravações -, músicos e produtor construiram um admirável mundo novo. Aproximando-se dos universos de Sly Stone, James Brown, Jimi Hendrix ou Marvin Gaye, Miles e os seus músicos destilam um som poderoso onde se sobrepõem longos vamps, repetitivos e hipnóticos, e improvisações cruas e incisivas, em espiral, que fazem de “Bitches Brew” uma genial amálgama de rock distorcido, blues, voodoo-funk, jazz progressivo e riffs endiabrados.
Quando termina a sexta faixa extra desta “Legacy Edition”, que inclui ainda um DVD inédito gravado ao vivo na Dinamarca, somos impelidos a ouvir tudo de novo, procurando prolongar a sensação narcótica de abandono deixada pela música, bem espelhada nas imagens surreais e idílicas criadas para a capa por Mati Klarwein. Directo para o topo das reedições do ano!
Relacionado:
Live Jazz: Bitches Brew Remix at the Sunset Junction Festival, por Devon Wendell
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