Arquivo de Outubro, 2026

‘Non vuò perder il cervello’, de Stefano Landi

De Stefano Landi [por volta de 1587 – 28 Outubro 1639], compositor e docente da Escola Romana no início do século XVII, a ária Non vuò perder il cervello, interpretada pelo conjunto Cantar Lontano, dirigido ao cravo pelo maestro Marco Mencoboni, com as vozes solistas dos tenores Riccardo Pisani e Andrés Montilla.

Em primeira gravação mundial, esta ária encerra o álbum L’eterno fòco, lançado em 22 de Maio de 2026 pela editora NovAntiqua Records e constitui uma viagem pelas árias e duetos dos quatro livros de Landi que chegaram até nós (de um total de oito que publicou em vida), acompanhadas por peças instrumentais dos contemporâneos Kapsberger, Bassani e Froberger.


‘Concerto para Viola da Gamba’, de Johann Gottlieb Graun

No dia em que passam 255 anos sobre a morte de Johann Gottlieb Graun [1703 – 1771], compositor e violinista alemão do designado período Galante, na transição entre o Barroco e o Classicismo, deixo o Concerto para Viola da Gamba em Lá Menor, GraunWV A:XIII:14, obra que exibe um profundo lirismo melancólico no segundo movimento, Adagio (Arioso).



Interpretado pelo ensemble de música antiga Akademie für Alte Musik Berlin, integra o álbum “Friedrich Der Grosse: Music for the Berlin Court” (Harmonia Mundi, 2012), projecto concebido para celebrar o tricentenário do nascimento de Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786), em cuja corte Johann Gottlieb Graun exerceu a função de Konzertmeister.



O álbum destaca o efervescente panorama musical da corte de Berlim e Potsdam durante o século XVIII. Frederico II não foi apenas um monarca de grande peso político e militar, mas também um talentoso flautista e compositor. O repertório reúne obras do próprio rei e de alguns dos compositores mais proeminentes que trabalharam sob o seu mecenato.



‘Il bianco e dolce cigno’, de Jacques Arcadelt

Do Primeiro Livro de Madrigais a Quatro Vozes, publicado originalmente por volta de 1538/1539 em Veneza, a composição ​Il bianco e dolce cigno (o cisne branco e doce) de Jacques Arcadelt [c. 1507 – 14 Outubro 1568], é considerada um expoente do madrigal italiano inicial a quatro vozes, graças às suas ricas harmonias, detalhes sofisticados e texturas sensuais.



Este madrigal consta do segundo CD do álbum triplo Jacques Arcadelt: Motetti – Madrigali – Chansons [2018], pelo ensemble vocal belga Choeur de Chambre de Namur fundado em 1987, pelo ensemble Cappella Mediterranea, fundado em 2005 por Leonardo Garcia Alarcón e pelo ensemble francês Doulce Mémoire, fundado em 1989 por Denis Raisin-Dadre. 
Em 2018, o Musica Aeterna dedicou-lhe uma emissão, aquando da passagem dos 450 anos da morte.

‘Jouissance vous donnerai’, de Claudin de Sermisy

Claudin  de Sermisy [c.1490 – 13 Outubro 1562] compôs por volta de 1528 a chanson Joyssance vous donneray; baseada num poema de Clément Marot [1496–1544], expressa uma promessa de fidelidade e amor cortêz.

Partilho esta magnífica interpretação do ensemble Graindelavoix, dirigido por Björn Schmelzer, que integra o disco La Magdalene: The Cult of Mary Magdalene in the Early 16Th Century, lançado em 2009 pela Glossa.


‘Alleluia: Lobet den Herren’, de Heinrich Schütz

Na passagem do quadringentésimo quadragésimo primeiro aniversário do nascimento de Heinrich Schütz [1585-1672], considerado o compositor alemão mais importante antes de Johann Sebastian Bach [1685-1750], fica o maravilhoso Alleluja! Lobet den Herren (SWV 38) / Aleluia – Louvado Seja o Senhor, extraído da sua monumental colecção Psalmen Davids (Salmos de David, Op. 2), publicada em Dresden em 1619, que eventualmente terá sido traduzida para a língua alemã por Martinho Lutero.
 
Considerada uma das mais grandiosas obras deste compositor do início do barroco, esta peça (17 de 26) baseia-se integralmente no texto do Salmo 150, o último livro dos Salmos, que funciona como um hino de louvor universal através da música.

 

Esta peça foi apresentada em Outubro de 2016 na Église Saint-Louis-en-l’Île em Paris, integrada no Festival Terpsichore para comemorar o 30º aniversário do agrupamento musical Capriccio Stravagante, fundado em 1986 pelo cravista e maestro norte-americano Skip Sempé, que dirigiu também o ensemble belga Vox Luminis, fundado em 2004 por Lionel Meunier. 

O estilo policoral veneziano reflecte a influência de Giovanni Gabrieli [1557-1612], com quem Schütz estudou em Veneza; o diálogo entre os coros, em estilo cori spezzati, as oito vozes solistas e a presença de vários instrumentos como cornetas, sacabuxas, fagotes, violinos, flautas de bisel e o virginal, da família do cravo, resultam num trabalho de grande qualidade e elegância.

 

 

‘Memories of Home’, de John Scofield e Dave Holland

O guitarrista John Scofield e o contrabaixista Dave Holland, nomes maiores do jazz contemporâneo, cruzaram-se em diversos projectos ao longo dos anos, com destaque para The New Standard (1996), álbum em que Herbie Hancock reuniu um sexteto de luxo que incluía ainda Michael Brecker e Jack DeJohnette.
Porém, apenas em Agosto de 2024 se reuniram pela primeira vez em estúdio para gravar Memories of Home, editado no final de 2025 pela ECM. 

As nove composições que integram o álbum, seleccionadas a partir dos repertórios dos músicos, são interpretadas com grande leveza, sinal da cumplicidade entre ambos. De Dave Holland, a faixa-título, que fecha o lado B, roda regularmente em repeat no gira-discos.



80 anos de Dave Holland, lenda viva do jazz

No jazz, o contrabaixo é talvez o meu instrumento preferido, pelo papel de equilíbrio, chamemos-lhe assim, entre ritmo e harmonia. No universo de grandes contrabaixistas como Charles Mingus, Ron Carter, Scott LaFaro, Paul Chambers ou Charlie Hadden, sem esquecer os portugueses Carlos Bica e Carlos Barreto, o destaque de hoje vai para Dave Holland, que celebra o octogésimo aniversário.

Após o ter visto actuar no Ronnie Scott’s Jazz Club em Londres (onde há uns anos tive o grato prazer de assisir à actuação da banda “Buddy Rich 100” e dois bateristas de excepção, Dave Weckl e Gregg Potter), Miles Davis convidou Holland a integrar o seu Quinteto.
Segundo a página oficial de Miles Davis, Dave Holland entrou para substituir Ron Carter, vindo a desempenhar um papel relevante na transição para o período eléctrico da música de Miles Davis, com a participação nas gravações de álbuns revolucionários como In a Silent Way (1969) e Bitches Brew (1970).

Da quinzena de títulos que gravou para a ECM ao longo das três décadas que se seguiram, tenho apenas o cd Points of View (1998), com o seu quinteto acústico reformulado, mantendo o vibrafonista Steve Nelson e incorporando o trombonista Robin Eubanks, o saxofonista Steve Wilson e o baterista Billy Kilson. 

Do álbum Question and Answer (1990) do guitarrista Pat Metheny, com Dave Holland no contrabaixo e o lendário Roy Haynes [1925 – 2024] na bateria, fica uma das minhas composições favoritas deste trabalho, H&H.