Estante

The Age of Wonder

The Age of Wonder, de Richard Holmes:
When Poets Were Scientists and Nature Their Mysterious Muse, por Janet Maslin, do The New York Times


The idea of the exploratory voyage, often lonely and perilous, is in one form or another a central and defining metaphor of Romantic science. That is how William Wordsworth brilliantly transformed the great Enlightenment image of Sir Isaac Newton into a Romantic one. As a university student in the 1780’s Wordsworth had often contemplated the full-size marble statue of Newton, with his severely close-cropped hair, that still dominates the stone-flagged entrance hall to the chapel of Trinity College, Cambridge. As Wordsworth originally put it, he could see a few yards off from his bedroom window, over the brick wall of St John’s College

“The Antechapel, where the Statue stood
Of Newton, with his Prism and silent Face.”


Sometime after 1805, Wordsworth animated this static figure, so monumentally fixed in his assured religious setting. Newton became a haunted and restless Romantic traveller amidst the stars:

“And from my pillow, looking forth by light
Of moon or favouring stars, I could behold
The Antechapel where the Statue stood
Of Newton, with his prism and his silent face,
The marble index of a Mind for ever
Voyaging through strange seas of Thought, alone.”
[The Prelude, 1850, Book 3, lines 58-64]

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«Nuno Álvares Pereira», de Jaime Nogueira Pinto
Esfera dos Livros, Junho de 2009 – 312 páginas + 24 extratextos a cores

«Foi graças à vontade política de Nuno Álvares Pereira, ao seu génio militar e à sua integridade que os portugueses, na grande crise do século XIV, conseguiram derrotar as forças de D. João de Castela. E foi ele quem guardou a nação independente, preparando-a para o novo tempo português de navegação e expansão além-mar.
Mas o que sabemos desta grande figura da nossa História que nas últimas décadas caiu no esquecimento?

Quase 600 anos após a sua morte, a canonização solene em Roma do Santo Condestável de Portugal não deixou de causar espanto e de levantar velhas questões.
Pode um chefe de guerra chegar aos altares? Pode um santo ser guerreiro e um guerreiro ser santo?
Nuno Álvares Pereira mostra-nos que sim. E não por um qualquer arrependimento tardio, por uma troca aparentemente súbita e em fim de vida da cota de malha pelo hábito de monge: entre as intrigas da corrupta corte fernandina e o poder e a glória da Casa de Avis, nas horas difíceis da revolução de Lisboa e nas batalhas de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde que marcaram a Guerra da Independência, S. Nuno de Santa Maria sempre procurou ser, no espírito e na letra, o cavaleiro perfeito, indo contra muito daquilo que, na guerra e na paz, era regra no tempo.
Jaime Nogueira Pinto reconstitui, no quadro da época, o carácter e o percurso excepcional de Nun´Álvares. Interpretando e integrando a História portuguesa na História europeia medieval, marcada por convulsões político-sociais e pela Guerra dos Cem Anos, e a partir de uma releitura actualizada das fontes tradicionais, o autor dá-nos uma biografia viva e actualizada do pajem, do cavaleiro, do chefe militar e do
homem de fé»

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A Invenção de Lisboa, Livro I – As Chegadas (Temas e Debates), de José Sarmento Matos.

Edição: 2008 – Temas e Debates,  320 p
Artigo de Paulo Moura, no Ípsilon

“A Invenção de Lisboa” é uma “narrativa histórica” sobre a cidade. O autor deambula e escreve, na primeira pessoa, coisas que um historiador não poderia escrever, mas gostaria. Não é um livro de divulgação, porque contém teses e investigação originais. Não é um livro de História, mas contém mais História do que um livro de História. José Sarmento de Matos explica porquê.

Lisboa é a única cidade para a qual foi inventada uma ciência. Não pode apenas ser estudada pela História ou pela Geografia. É como se essas disciplinas estivessem preparadas para explicar o conjunto da realidade humana, excepto certas zonas especiais. Nessas, as categorias convencionais não se aplicam. É necessário criar todo um sistema de conhecimento para conhecer esses sítios estranhos, que não se submetem à ciência, antes submetem, eles próprios, a ciência. Lisboa é assim e a ciência que a estuda é a Olisipografia.

José Sarmento de Matos é olisipógrafo e escreveu “A Invenção de Lisboa”. Foi sendo apanhado, aos poucos, por esse ramo do saber que Lisboa exigiu para si própria. Quando em 1994 escreveu, por encomenda da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), “Uma Casa na Lapa”, já estava a entrar na especialidade. Começou por contar a história de uma casa, mas a narrativa foi alastrando, pela vizinhança, pelo bairro, pela cidade e o seu passado. “Lisboa é uma cidade ondulante”, explica. “Convida à deambulação.”

Lisboa puxou por ele, pela sua curiosidade e sensibilidade estética. A formação em História da Arte levava-o por certas rotas de arquitectura, mas a cidade fez o resto: em cada muro havia muito mais do que pedras. Havia tudo. “Lisboa é uma cidade barroca, porque é surpreendente. A cada esquina há uma surpresa. Há ruas estreitas que desembocam em praças desmesuradas, há edifícios monumentais em lugares minúsculos e esconsos. Lisboa tem a mania de meter o Rossio na rua da Betesga. Há sempre coisas escondidas. Guardadas, viradas para dentro. Há paredes povoadas, grandes muros com janelas pequenas, pátios resguardados. Diz-se que são as influências árabes. Na verdade é a cidade romana, que os árabes copiaram. A cidade mediterrânica.”

É esse tecido urbano, semelhante ao de Roma, Nápoles ou Istambul (ou melhor, Constantinopla) que constrói o magnetismo de Lisboa. E também o passado que habita o presente, e os mitos que vivem nas ruas. Um deles é o de Ulisses, que, ao longo dos séculos, a cidade foi inventando, reabilitando, interpretando. Surgiu, segundo Sarmento de Matos, “pela mão dos romanos, para valorizar a gesta grega, e inscrever a cidade no mundo mediterrânico”. Mas sobreviveu até no período muçulmano, por trás das histórias de aventuras e expedições marítimas que sempre estiveram associadas a Lisboa. Histórias verdadeiras ou inventadas, mas que sempre exerceram uma função identitária na metrópole atlântica. Lisboa era vista como lugar de fronteira entre o mundo mediterrânico e o mundo do Norte, entre o continente europeu e o oceano, no que este representava de desconhecido.

Do tempo dos muçulmanos, há o registo de uma expedição de marinheiros, que se terão aventurado pelo Atlântico, à procura de novas terras. Terão sido liderados por um comandante pirata chamado Kaxkax (o fundador de Cascais?), que vivia, assim como os marinheiros seus apaniguados, na rua paralela ao rio, ao fundo de Alfama. Chamava-se Rua dos Aventureiros, por causa dessa e de outras expedições marítimas, precursoras das epopeias dos séculos XV e XVI. Também nessa época dos descobrimentos o mito de Ulisses desempenhou a sua função. É o exemplo de uma força invisível embora efectiva, cuja importância não se apreende nos arquivos, mas apenas na deambulação. Há outras realidades que só se compreendem nos lugares, nesses caminhos onde “as coisas coabitam. Basta esgravatar um pouco. Porque as épocas não são estanques, como as aprendemos na escola. As épocas influenciam-se umas às outras, entram umas nas outras. E tudo isso constitui a realidade de uma cidade, e sente-se nas suas ruas”. Por exemplo: a baixa pombalina é uma realidade definida, com uma história e características específicas, mas… “ao caminhar pela Rua Augusta percebe-se que aquelas são as vias romanas”.

História? Ciência?

Em vez da noção de “camadas”, usada pelos arqueólogos, Sarmento de Matos prefere um conceito roubado ao cinema: o “raccord”. Mais do que no campo, “onde a vida é cíclica, a cidade é uma entidade. A cidade é a superação da Natureza, pelo Homem”. Por isso tem uma vida própria. “Fernão Lopes atira-nos isso à cara quando, num rasgo de génio, põe Lisboa a falar. Lisboa é uma mulher que fala com ele e com quem ele fala.”

Sarmento de Matos sempre gostou de vaguear pela cidade. Fazia-o como método, nos seus estudos sobre os monumentos. E ia escrevendo o que via e compreendia, como um registo pessoal, para pôr alguma ordem nas observações. O resultado foi um texto histórico, sem ser História, uma descrição metódica da realidade, sem ser Ciência.

“Esse era um grande problema que se me colocou. Que nome dar àquilo?” Principalmente quando, há oito anos, depois de um encontro com Maria do Rosário Pedreira, da Temas e Debates, ficou decidido publicar aqueles registos sob a forma de uma história de Lisboa em quatro volumes. O primeiro livro dessa “Invenção de Lisboa” seria o que já estava escrito, que começa nas origens da cidade e termina nos primeiros tempos cristãos, após a conquista, por D. Afonso Henriques, em 1147. Intitula-se “As Chegadas”. Estava pronto mas, para ser publicado, teve de esperar até que o segundo volume estivesse concluído. Nesse interim, Sarmento de Matos deu-lhe a forma definitiva. “Estava escrito como um livro de História convencional”, diz.

Mas não o era. Incluía observações pessoais, especulações, cenas imaginadas. “Os verbos estavam no passado, e o narrador falava na primeira pessoa majestática. Dizia: ‘Nós vimos…’ Não: eu vi! Passei tudo para o presente e para a primeira pessoa do singular.”

Ao fazer isto, transformou o livro. “Ficou completamente diferente.” Certas ousadias tornaram-se possíveis. “É um género que permite arriscar, interpretar. Mas não é divulgação histórica, porque introduz coisas que nunca foram ditas. E é um livro sério, que propõe teorias interpretativas.” Mas não é um livro de História. Se o fosse, o autor teria de esconder muito do que descobriu. No entanto, os historiadores lêem-no com interesse. No fim, não o comentam. Não aprovam nem reprovam o que lá está de original. Não subscrevem, nem rebatem. O autor não percebe porquê. “Talvez desse muito trabalho levar as teses a sério. É mais cómodo desvalorizar isto como uma brincadeira.”

História, uma experiência

Deu-lhe prazer escrever o livro assim. Mas não foi para brincar. “Os historiadores esquecem muitas vezes que a História é também uma escrita. Não acredito muito na História como Ciência. É um testemunho individual, uma experiência.” Uma das pessoas a quem pediu ajuda para lhe rever e também para definir o livro foi António Mega Ferreira. “Ele disse-me que isto, em França, se chama um ‘recit’. Não há equivalente em português. Chamei-lhe narrativa histórica.”

Uma das características da narrativa é ter personagens. Sarmento de Matos procura-as em todo o lado. Mas não as do costume. “Dantes a História era oficiosa, ou oficial. Centrava-se no rei. Depois, privilegiou-se a estrutura, a história material. Pecou-se por excesso. Esqueceram-se as pessoas. Agora, é preciso voltar a elas, mas às pessoas comuns, que são quem faz a História.”

Outro elemento da narrativa é a perspectiva. No seu “recit”, Sarmento de Matos reflecte sobre o que vê, divaga. Mas usa outros recursos, além do monólogo interior. Em grande parte do livro, segue a narrativa de um outro observador, um normando do século XII que descreveu a cidade e a sua conquista aos muçulmanos, como se fosse um repórter. Trata-se de um cruzado que, em 1147, escreveu uma carta a um prelado inglês, Osberno, dando conta do que se passava. A missiva tem a assinatura “R.”, simplesmente. Mas é tão rica em pormenores e observações inteligentes, que revela tanto de Lisboa como do autor. No seu livro, Sarmento de Matos conversa com R. Imagina-o em vários locais da cidade, adivinha os seus pensamentos, prolonga os seus comentários e conclusões. E usa isso como método. Antes do mais, estudou o “universo mental” do cruzado. A partir daí, percebeu que ele tinha lido Santo Isidoro, e também que conhecia e se relacionava com S. Bernardo de Claraval, o teórico do “espírito de cruzada” e do fundamentalismo cristão da época. Essas conclusões permitem perceber as motivações dos cruzados que ajudaram Afonso Henriques na conquista, e dos objectivos e métodos dessa conquista.

“Só através dessa carta, do cruzado R., sabemos que a cidade foi saqueada pelos cruzados”, diz Sarmento de Matos. Porque toda a historiografia ulterior ocultou não só os acontecimentos, mas também a realidade que os cristãos encontraram na cidade cercada e conquistada. “Na Lisboa muçulmana, pelo menos metade da população era cristã. Eu acho até que era bem mais de metade. Os muçulmanos eram tolerantes, não tinham vontade de converter os conquistados, por uma simples razão: só os não-muçulmanos pagavam impostos. Convinha, portanto, que fossem o mais numerosos possível.”

Mas este facto foi escondido, bem como o de que, em Lisboa, havia um bispo. Uma das primeiras acções dos homens de Afonso Henriques foi decapitá-lo. “A igreja moçárabe era vista como um perigo”, explica. Porque teria crenças e ritos “impuros”, de influência muçulmana, é uma das explicações possíveis. A outra, que Sarmento de Matos é o primeiro historiador a admitir, é a eventual proximidade entre a igreja moçárabe e a igreja bizantina, numa época em que tinha ocorrido o grande cisma do Oriente. “Os bispos portugueses temiam que a igreja cristã de Lisboa se aliasse à igreja do Oriente.” Por isso, toda a estrutura eclesiástica de Lisboa foi desmantelada, grande parte dos cristãos exterminados. Para novo bispo, foi chamado um inglês, Hastings, amigo de R., próximo dos beneditinos e de S. Bernardo. A Sé de Lisboa, construída onde terá sido a mesquita, “foi um statement”. Uma arquitectura pesada, própria do Norte da Europa, sem nada a ver com a tradição mediterrânica da cidade.

Sarmento de Matos imagina R. a ouvir a conversa de um grupo de lisboetas, que comentavam, em tons pouco simpáticos, a construção da sé. R. ouviu-os a criticar aquele edifício estranho, que viam como uma imposição ideológica do novo poder. Compreendeu o que eles queriam dizer, porque tinha a perfeita noção da “limpeza étnica” e religiosa que estava em curso. E também porque, ao contrário do que se pensa, a língua que esse grupo de cidadãos de Lisboa falava – a língua da Lisboa que, apesar de sob domínio muçulmano, nunca perdeu o contacto com as regiões e populações circundantes – não seria muito diferente da sua.

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A Viagem do Elefante – José Saramago

1ª Edição, Novembro de 2008 – Editorial Caminho, 258 p

Em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que há dois anos se encontra em Belém, vindo da Índia.

Extracto:

“Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, e se não dizemos bons conselhos é porque a experiência de um lado e do outro, isto é, a dele e a nossa, já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, que todos a temos mais ou menos fraca. Sinais e avisos são fáceis de interpretar se estivermos de olho atento, como foi o caso do comandante quando sobre a caravana, em certa altura do caminho, caiu um rápido mas abundante aguaceiro. Para os homens da força, empenhados no penoso trabalho de empurrar o carro de bois, aquela chuva foi uma bênção, um acto de caridade pelo sofrimento em que têm vivido sujeitas as classes baixas. O elefante salomão e o seu cornaca subhro desfrutaram do súbito refresco, o que não impediu o guia de pensar no arranjo que lhe faria futuramente um guarda-chuva em situações como estas, principalmente no caminho para viena, de poleiro e protegido da água que caísse das nuvens. Quem não apreciou nada o líquido meteoro foram os soldados da cavalaria, habitualmente presumidos nas suas fardas coloridas, agora manchadas e pingonas, como se estivessem a regressar vencidos de uma batalha. Quanto ao comandante, esse, com a sua já provada agilidade de espírito, havia compreendido imediatamente que tinha ali um problema sério. Uma vez mais se demonstrava que a estratégia para esta missão fora desenhada por pessoal incompetente, incapaz de prever os acontecimentos mais correntios, como este de chover em agosto, quando a sabedoria popular já vinha avisando desde a noite dos tempos que o inverno, precisamente, é em agosto que começa. A não ser que o aguaceiro tivesse sido uma coisa de ocasião e que o bom tempo voltasse para ficar, tinham-se acabado as noites dormidas ao ar livre sob a lua ou o arco estrelado do caminho de santiago. E não só isso. Tendo de pernoitar em lugares habitados, era preciso que neles houvesse um espaço coberto para abrigar os cavalos e o elefante, os quatro bois, e umas boas dezenas de homens, e isso, como se pode calcular, era algo custoso de encontrar no portugal do século dezasseis, onde ainda não se tinha aprendido a construir naves industriais nem estalagens de turismo. E se a chuva nos apanha na estrada, não um aguaceiro como este, mas uma chuva contínua, daquelas que não param durante horas e horas, perguntou-se o comandante, e concluiu, Não teremos outro remédio que apará-la toda nas costas. Levantou a cabeça, perscrutou o espaço e disse, Por agora parece ter escampado, oxalá tenha sido só um ameaço. Infelizmente não tinha sido só um ameaço. Por duas vezes, antes de chegarem a porto salvo, se tal se podia chamar a duas dezenas de casebres afastados uns dos outros, com uma igreja descabeçada, isto é, só com meia torre, sem nave industrial à vista, ainda se lhe caíram em cima duas bátegas, que o comandante, já perito neste sistema de comunicação, interpretou logo como dois novos avisos do céu, decerto impaciente por não ver que estivessem a ser tomadas as medidas preventivas necessárias, as que poupariam à ensopada caravana resfriamentos, constipações, defluxos e mais do que prováveis pneumonias. Esse é o grande equívoco do céu, como a ele nada é impossível, imagina que os homens, feitos, segundo se diz, à imagem e semelhança do seu poderoso inquilino, gozam do mesmo privilégio. Queríamos ver o que sucederia ao céu na situação do comandante, indo de casa em casa com a mesma cantilena, Sou oficial de cavalaria em missão de serviço ordenada por sua alteza o rei de portugal, a de acompanhar um elefante à cidade espanhola de valladolid, e não ver senão caras desconfiadas, aliás mais do que justificadamente, dado que jamais se tinha ouvido falar da espécie elefantina por aquelas paragens nem havia a menor ideia do que fosse um elefante. Queríamos ver o céu a perguntar se tinham por ali um celeiro grande ou, na sua falta, uma nave industrial, onde se pudessem recolher por uma noite os animais e as pessoas, o que de todo não seria impossível, basta que recordemos a peremptória afirmação daquele famoso jesus de galileia que, nos seus melhores tempos, se gabou de ser capaz de destruir e reconstruir o templo entre a manhã e a noite de um único dia. Ignora-se se foi por falta de mão–de-obra ou de cimento que não o fez, ou se foi por ter chegado à sensata conclusão de que o trabalho não merecia a pena, considerando que se algo se vai destruir para construí-lo outra vez, melhor será deixar tudo como estava antes. Proeza, essa sim, foi o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, que se aqui chamamos à colação é tão-somente porque, por ordem do comandante e esforço da intendência da cavalaria, vai ser servida hoje comida quente para quantos humanos vão na caravana, o que não é pequeno milagre se considerarmos a falta de comodidades e a instabilidade do tempo. Felizmente não choverá. Os homens despiram as roupas mais pesadas e puseram-nas a secar em varas a jeito de que lhes aproveitasse o calor das fogueiras entretanto acendidas. Depois foi só esperar que o caldeirão da comida chegasse, sentir a consoladora contracção do estômago ao cheirar-lhe que a sua fome vai ser finalmente satisfeita, sentir-se um homem como aqueles outros a quem, a horas certas, como se de benéfica fatalidade do destino se tratasse, alguém vem servir um prato de comida e uma fatia de pão. Este comandante não é como outros, pensa nos seus homens, incluindo os colaterais, como se fossem seus filhos. Além disso, preocupa-se pouco com hierarquias, pelo menos em circunstâncias como as presentes, tanto assim que não foi comer à parte, está aqui, ocupa um lugar ao redor do lume, e, se até agora tem participado pouco nas conversas, foi só para deixar os homens à vontade. Aqui mesmo um da cavalaria acaba de perguntar o que tem andado na cabeça de todos, E tu, ó cornaca, que raios vais tu fazer com o elefante a viena, Provavelmente o mesmo que em lisboa, nada de importante, respondeu subhro, irão dar-lhe muitas palmas, irá sair muita gente à rua, e depois esquecem-se dele, assim é a lei da vida, triunfo e olvido, Nem sempre, Aos elefantes e aos homens, sempre, embora dos homens eu não deva falar, não passo de um indiano em terra que não é sua, mas, que eu conheça, só um elefante escapou a esta lei, Que elefante foi esse, perguntou um dos homens das forças, Um elefante que estava moribundo e a quem cortaram a cabeça depois de morto, Então acabou-se tudo aí, Não, a cabeça foi posta no pescoço de um deus que se chama ganeixa e que estava morto, Fala-nos desse tal ganeixa, disse o comandante, Comandante, a religião hinduísta é muito complicada, só um indiano está capacitado para compreendê-la, e nem todos o conseguem, Creio recordar que me disseste que és cristão, E eu recordo-me de ter respondido, mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Que quer isso dizer na realidade, és ou não és cristão, Baptizaram-me na índia quando eu era pequeno, E depois, Depois, nada, respondeu o cornaca com um encolher de ombros, Nunca praticaste, Não fui chamado, senhor, devem ter-se esquecido de mim, Não perdeste nada com isso, disse a voz desconhecida que não foi possível localizar, mas que, embora isto não seja crível, pareceu ter brotado das brasas da fogueira. Fez-se um grande silêncio só interrompido pelos estalidos da lenha a arder. Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então, esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é a tarefa de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor, Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva, a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo, os três fazem parte de uma trindade, são uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite, Cuidado, que está aí a inquisição, para teu bem não te metas em terrenos pantanosos, Se chego a viena, não volto mais, Não regressas à índia, perguntou o comandante, Já não sou indiano, Em todo o caso vejo que do teu hinduísmo pareces saber muito, Mais ou menos, meu comandante, mais ou menos, Porquê , Porque tudo isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada, Ganeixa é uma palavra, perguntou o comandante, Sim, uma palavra que, como todas as mais, só por outras palavras poderá ser explicada, mas, como as palavras que tentaram explicar, quer tenham conseguido fazê-lo ou não, terão, por sua vez, de ser explicadas, o nosso discurso avançará sem rumo, alternará, como por maldição, o errado com o certo, sem se dar conta do que está bem e do que está mal, Conta-me quem foi ganeixa, Ganeixa é filho de siva e de parvati, também chamada durga ou kali, a deusa dos cem braços, Se em vez de braços tivessem sido pernas, podíamos chamar-lhe centopeia, disse um dos homens rindo-se contrafeito, como arrependido do comentário mal ele lhe saíra da boca.” Via.

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Tucídides – História da Guerra do Peloponeso
Colecção Clássicos do Pensamento Estratégico
Edições Sílabo, 2008 – 1ª Edição – 736 páginas – €39,50
Tradução, Notas e Estudo Militar de David Martelo e Estudo Introdutório de Luís Lobo Fernandes

Um dos grandes clássicos, inspirador do pensamento político, filosófico e estratégico

Séc. V a.C. O mundo grego divide-se em dois blocos que se antagonizam. De um lado Atenas, com um poderio naval sem rival, do outro Esparta, sem tradição marítima mas com grande fama nas forças terrestres e valorizando como nenhuma outra cidade a formação militar dos cidadãos. É a confrontação entre estas duas realidades geopolíticas distintas que Tucídides nos descreve na sua monumental obra, escrita segundo as suas palavras «não como um ensaio para obter o aplauso do momento, mas como uma obra para durar para todo o sempre». Na verdade, a História da Guerra do Peloponeso foi, é e será uma fonte de sabedoria militar, política, moral e filosófica cristalina onde se podem beber ensinamentos sobre como se movem e o que motiva os homens na acção criadora da história.

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Cover

O Mundo Pós-Americano, de Fareed Zakaria
Gradiva, 2008

Editor da Newsweek, Fareed Zakaria aborda com inteligência e pragmatismo as progressivas mudanças no mundo operadas ao longo da última década. A hegemonia americana gerou anti-americanismo, mas também pós-americanismo, no sentido evolutivo do termo. As economias emergentes constituem-se como parceiros com quem teremos de contar no mercado global.

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Istambul -Memórias de uma Cidade, de Orhan Pamuk
Editorial Presença, 2008
Título Original: Istambul – Hatiralar ve Sehir
Tradução de Filipe Guerra; 365 páginas.

Orhan Pamuk nasceu no seio de uma família rica de Istambul, estudou no estrangeiro engenharia, arquitectura e jornalismo. Todavia, preferiu dedicar-se à literatura, a partir de 1974.
Segundo a Academia Sueca, o autor foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura 2006 porque, “na busca pela alma melancólica da sua cidade, descobriu novos símbolos para o confronto e o cruzamento de culturas”.
Alvo dos nacionalistas turcos pela sua defesa da causa arménia e curda, Pamuk é autor de uma obra que descreve as tensões da sociedade turca, entre o Oriente e o Ocidente, e tem-se, repetidamente, pronunciado contra os fundamentalismos e pelo entendimento entre as culturas.
Uma mensagem cuja importância é mais do que evidente na actual conjuntura e que vale para todos os fundamentalismos: religiosos, políticos, étnicos.

No presente livro, ilustrado com magníficas fotografias que suscitam “o prazer visual e a embriaguez das recordações” e “constituem a melhor memória da vida e da paisagem de Istambul desde 1950”, Pamuk reflecte sobre o significado de nascer num determinado local do mundo e em determinado momento da história. Via.

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