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Inútil Paisagem

Ponte vasco da Gama - Janeiro de 2008
Mas pra quê

Pra que tanto céu
Pra que tanto mar, pra quê

De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem

Pode ser
Que não venhas mais
Que não voltes nunca mais

De que servem as flores que nascem
Pelos caminhos
Se o meu caminho
Sozinho é nada

Recordando António Carlos Jobim e Elis Regina, também nesta preciosidade

‘Luz Teimosa’, de Fernando Lemos

'Luz Teimosa' - Fernando Lemos, 1949

nos meus pensamentos sempre as palavras lutam duas a duas pela verdade
palavras se metem dentro de outras palavras querendo ideias
sou uma caixa de vários lados com vários cantos com duas sombras
uma escura que nasce da clara outra clara que nasce da escura
a luz cintila e a sombra dorme a sombra estatela-se e a luz ergue-se
nasce cada palavra dentro de outra palavra

Fernando Lemos [3 Maio 1926 – 17 Dezembro 2019]

de que ri o mona lisa?

Luz Boa – Blue Line

É por aqui que podemos iniciar uma autêntica viagem ao Passado remoto da cidade. Bairro muito antigo, construído ao longo dos séculos ao sabor de conquistas e imigrações, a Mouraria mostra aqui um pouco da sua raça, colada a Alfama, o bairro da Fé.

Sons de fado começam a ouvir-se no circuito – e é possível que não seja somente o choro de um guitarrista a ensaiar a sua apresentação nocturna num dos inúmeros restaurantes típicos; serão certamente as vozes anónimas que o agrupamento belga Het Pakt reuniu na sua peça participada Fado Morgana.

Telas estendidas, nelas os rostos projectados, na imediata proximidade uma voz que, ao afastarmo-nos, se revela parte de um coro maior de Lisboetas, homenagem à Cidade e ao Fado, numa única cantiga, conhecida de todos – passar por lá é reconhecê-la!

Prosseguimos tacteando a Lisboa moura, medieval, pombalina, romântica e moderna. Seguimos pela Rua da Costa do Castelo, símbolo fascista que António Ferro escolheu para justificar a identidade lisboeta (ou a falta dela), o cinema português, as quatro paredes caiadas com um cheirinho a alecrim, contrastando com o amontoado de casas que se vão degradando sobre as colinas da cidade.

excertos do texto publicado aqui.

Luz Boa – Green Line

Aqui se instalou o único teatro de ópera em Portugal, feira de vaidades da alta e média burguesia novecentista.

Lune, de Bruno Peinado, ‘cai’ neste espaço ortogonal, limpo, quase asséptico, de evidente importância para a imagem política cultural, pela forma como discretamente se localiza no centro institucional de Lisboa.

A presença improvável de um astro poisado, nota surreal que é visão da própria rebeldia da Arte, que vence uma distância impossível num gesto simples: um balão insuflado, iluminado do interior, repousa provocadoramente nas imediações da “Grande Ópera”.

Ao fundo, os Armazéns do Chiado, que marcaram o espírito do comércio da Baixa durante todo o séc. XX. Se os Armazéns desapareceram na sequência de um incêndio de origem duvidosa, e ressurgiram como extraordinária operação de renovação urbana diariamente visitada por dezenas de milhares de pessoas, Luzboa reforça a imagem daquela fachada histórica, ponto de fuga da Rua Garrett…

excertos do texto publicado aqui.

Luz Boa – Red Line

Descendo pela Rua da Misericórdia, recheada de belos exemplares de casas pertencentes à aristocracia pré e pós pombalina, chegamos ao Camões, ao Palácio do Marquês de Marialva que, após o terramoto, seria até ao século XIX uma zona insalubre conhecida como os Casebres do Loreto, por albergar pedintes e doentes.

Esta praça, recente de cem anos, ostenta a estátua de Camões, uma das mais bonitas e melhor concretizadas obras de estatuária em Lisboa. Mas é de tal forma desconsiderada, que construíram um parque de estacionamento por baixo, em cima das ruínas do antigo palácio do Marquês – que por sua vez já tinha sido construído sobre uma villa romana, o que se deduz pela quantidade de vestígios romanos que surgiram após as escavações para a construção do referido estacionamento.

excertos do texto publicado aqui.

Lisboa à noite

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa, 24-08-1930

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