Archive for the ‘ Artes ’ Category

Rainer Maria Rilke – dar vida à matéria

Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

Rainer Maria Rilke [4 Dez 1875 – 29 Dez 1926] – Tradução de Manuel Bandeira
Piero della Francesca - Resurrection, 1463Piero della Francesca [c.1415-1492] – Resurrection, 1463

 

Natal

Um anjo imaginado, 
Um anjo diabético, atual, 
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, 
Paz à imaginação! 
E todo o ritual 
Que antecede o milagre habitual 
Perdeu a exaltação. 

Em vez de excelsos hinos de confiança 
No mistério divino, 
E de mirra, e de incenso e ouro 
Derramados 
No presépio vazio, 
Duas perguntas brancas, regeladas 
Como a neve que cai, 
E breve como o vento 
Que entra por uma fresta, quizilento, 
Redemoinha e sai: 

A volta da lareira 
Quantas almas se aquecem 
Fraternalmente? 
Quantas desejam que o Menino venha 
Ouvir humanamente 
O lancinante crepitar da lenha? 

“Natal”, de Miguel Torga
“Adoração dos magos” (painel da esquerda – detalhe), de Hieronymus Bosch

Frédéric Bazille

Oriundo de uma abastada família Protestante, Frédéric Bazille nasceu em Montpellier a 6 de Dezembro de 1841. Tendo-se mudado para Paris em 1862, com o objectivo de prosseguir os estudos em medicina, o seu interesse pela arte viria a proporcionar-lhe-ia a oportunidade de conhecer Alfred Sisley, Pierre-Auguste Renoir e Claude Monet.
Monsieur Bazille sustentou Renoir e Monet, participou no Salon em 1866 e morreu quatro anos mais tarde, com apenas 29 anos de idade.

Frédéric Bazille (1841-1870), Edouard Manet (1832-1883) – Bazille’s Studio, 1870

Frédéric Bazille (1841-1870), Edouard Manet (1832-1883) - Bazille's Studio, 1870

Evocação de Mário Cesariny [9 Agosto 1923 – 26 Novembro 2006]

Para prestar homenagem ao poeta, autor dramático, ficcionista, crítico, ensaísta, artista plástico e expoente do surrealismo português, deixo aqui um excerto do filme Autografia – Mário Cesariny que o realizador Miguel Gonçalves apresentou em 2004 no doclisboa, e um poema que Manuel António Pina [18 Novembro 1943 – 19 Outubro 2012] lhe dedicou.

Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nossos, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

Lope de Vega – 450 anos do nascimento

Comemoram-se hoje os quatrocentos e cinquenta anos do nascimento de Lope de Vega [1562-1635].
A emissão desta semana do Musica Aeterna, dedicada ao poeta, dramaturgo, fundador da comédia espanhola e um dos mais prolíficos autores da literatura universal, inclúi, para além da leitura de vários poemas seus traduzidos pelo meu amigo José Bento, que acabou de completar oitenta primaveras, uma passagem do “Dom Quixote” de Miguel de Cervantes e repertório de Alonso Mudarra, Pedro Rimonte, Francisco Guerrero, Sebastián de Vivanco, Luys de Narváez, Diego Ortiz, Tomás Luis de Victoria, Antonio de Cabezón, Rodrigo de Ceballos, Antonio Martín y Coll e de autores anónimos, todos contemporâneos de Lope de Vega na Espanha dos séculos XVI e XVII.
O link para o podcast será aqui colocado logo que seja disponibilizado pela Antena 2.
    Atada al mar Andrómeda lloraba,
los nácares abriéndose al rocío,
que en sus conchas cuajado en cristal frío,
en cándidos aljófares trocaba.
    Besaba el pie, las peñas ablandaba
humilde el mar, como pequeño río,
volviendo el sol la primavera estío,
parado en su cénit la contemplaba.
    Los cabellos al viento bullicioso,
que la cubra con ellos le rogaban,
ya que testigo fue de iguales dichas,
    y celosas de ver su cuerpo hermoso,
las nereidas su fin solicitaban,
que aún hay quien tenga envidia en las desdichas.
    Atada ao mar, Andrómeda chorava,
os nácares abrindo-se ao rocio,
que em conchas coalhado em cristal frio,
em cândidos aljófares tornava.
    Beijava o pé, as rochas abrandava
humilde o mar, como um pequeno rio;
o sol tornando a primavera estio,
parado em seu zénite a contemplava.
    Os cabelos ao vento buliçoso,
que a cobrisse com eles lhe rogavam,
já que foi testemunha de iguais ditas;
    ciosas de ver seu corpo tão formoso,
as Nereidas seu fim solicitavam,
que até há quem tenha inveja nas desditas.

O exílio de Rimbaud

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de Outubro de 1854 – Marselha, 10 de Novembro de 1891)
Extracto da única obra por si publicada – Une Saison en Enfer, 1873: Délires II, Alchimie du verbe
Ilustração “Portrait d’Arthur Rimbaud” de Pablo Picasso, 1960
À moi. L’histoire d’une de mes folies.
Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les paysages possibles, et trouvais dérisoire les célébrités de la peinture et de la poésie moderne.
J’aimais les peintures idiotes, dessus de portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires ; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rythmes naïfs.
Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont on n’a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de religion étouffées, révolutions de mœurs, déplacements de races et de continents : je croyais à tous les enchantements.
J’inventai la couleur des voyelles ! — A noir, E blanc, I rouge, O bleu, U vert. — Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne, et, avec des rythmes instinctifs, je me flattai d’inventer un verbe poétique accessible, un jour ou l’autre, à tous les sens. Je réservais la traduction.
Ce fut d’abord une étude. J’écrivais des silences, des nuits, je notais l’inexprimable. Je fixais des vertiges.

A Aguadeira

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

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Poema Angela Adonica, de Pablo Neruda.
Composição A Aguadeira,de Miguel Ângelo Lupi, séc. XIX – CMAG

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