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Rafael, O Príncipe das Artes

No próximo dia 9 de Abril ao serão a RTP2 exibe um documentário sobre vida e obra de Raffaello Sanzio.

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A vida e obra do pintor Raffaello Sanzio, um dos artistas maiores da Renascença

Um retrato cativante de um dos maiores artistas da Renascença e um dos que mais influenciou a arte moderna. Amplamente reconhecido e celebrado como um “enfant prodige”, tanto pelos seus pares como pelas gerações seguintes, Raffaello Sanzio integra, em conjunto com Michelangelo e Leonardo da Vinci, a tradicional tríade dos mestres da Renascença.

Uma história que começa na terra onde nasceu, Urbino, e passa por Florença, chegando a Roma e ao Vaticano, num total de 20 locais e 70 obras de arte, incluindo 40 das suas obras mais famosas e mais representativas.
Através de reconstruções históricas, testemunhos de importantes críticos e historiadores da arte, o documentário percorre a vida e obra do grande artista que marcou a passagem da Renascença para o Maneirismo e trouxe a arte figurativa a um nível sem precedentes.

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As “95 teses contra as indulgências” de Martinho Lutero

O gesto faz parte da lenda e, dizem os historiadores, provavelmente nem sequer terá assim acontecido. Mas ficou o símbolo: a 31 de Outubro de 1517, em pleno debate com o delegado do Papa Leão X sobre as indulgências, Martinho Lutero, até então um monge agostinho quase desconhecido, afixa as “95 teses contra as indulgências” à porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Provavelmente, o ex-monge, que estava a iniciar, sem o saber, a Reforma Protestante, ter-se-á limitado a redigir as teses nas quais contestava a compra (literal) do perdão dos pecados: os fiéis pagavam uma soma, com ela obtendo o perdão eterno.
O dinheiro recolhido permitia financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma: o Papa era um Médicis, filho de Lourenço, o Magnífico, que nem sequer era padre quando foi eleito, em 1513. Leão X nomeava cardeais o primo e o sobrinho e estava mais interessado em encarregar Rafael da decoração das Lógicas e da construção da Basílica e em entregar a Miguel Ângelo a construção do túmulo da família do que em preocupar-se com a revolta de um monge alemão.
Para Lutero, só Deus podia perdoar as pessoas e as ‘obras’ que cada um fizesse – leia-se: o que cada um pagasse – não asseguravam a salvação eterna. Com as 95 teses, rapidamente distribuídas por toda a Alemanha, nascia o escândalo. Lutero iniciava a Reforma.
António Marujo, Caderno P2 do Público de 31-10-2011

Lucas Cranach the Elder – Martin Luther as an Augustinian Monk, 1520

Corpus Christi

Após completar a Sala da Assinatura, Rafael começou a decoração da contígua Sala de Heliodoro, o que decorreu entre 1511 e 1514. Originalmente concebida como sala de audiências privadas com o Papa Júlio II, que morreu entretanto, foi o seu sucessor, Leão X (Giovanni de Medici, filho de Lorenzo, o Magnífico) a concluir a escolha dos quatro temas que visavam documentar em diferentes momentos históricos, desde o Antigo Testamento até à Idade Média, a protecção milagrosa concedida por Deus à Igreja, ameaçada na sua fé: Missa de Bolsena,  Libertação de São Pedro,  Encontro de Leão O Grande com Átila e a Expulsão de Heliodoro do Templo.

A Missa de Bolsena, representada a seguir à Expulsão de Heliodoro do Templo, teve lugar em Bolsena, perto de Orvieto.
Em 1263, um sacerdote da Boémia, perturbado pela dúvidas sobre a doutrina da transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no sangue e no corpo de Cristo, iniciou uma peregrinação a Roma. De caminho, celebrou missa em Bolsena, onde, durante a consagração da Eucaristia começou, milagrosamente, a sangrar. De cada vez que limpava o sangue, aparecia uma cruz ensanguentada no pano utilizado, um milagre que dissipou as dúvidas do atormentado padre. O pano tornou-se uma relíquia venerada, tendo permanecido na Catedral de Orvieto para homenagear a ocasião.

Em Missa de Bolsena, tal como na representação anterior, Rafael fez do Papa Júlio II testemunha do milagre que teve lugar quase três séculos antes; Em Setembro de 1506, Júlio II havia parado na Catedral de Orvieto para ver o pano manchado de sangue ali depositado e assim demonstrar a sua ligação ao milagre pelo qual a Festa de Corpus Christi havia sido instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264.
Para ser celebrada na Quinta-Feira a seguir à Festa da Santíssima Trindade, que acontece no Domingo depois de Pentecostes, a Festa de Corpus Christi acontece 60 dias após a Páscoa, podendo ocorrer entre os dias 21 de Maio e 24 de Junho.

Regresso à Escola de Atenas

A Sala da Assinatura contém os frescos mais famosos de Raffaelo Sanzio de Urbino (1483-1520), que assinalam de forma singular o início dos trabalhos do grande artista no Vaticano e o começo do Renascimento. O ambiente assume o nome do mais importante tribunal da Santa Sé, “Segnatura Gratiae et Iustitiae”, presidido pelo Pontífice, que utilizou esta sala até meados do século XVI. Originariamente, a Sala havia sido convertida por Júlio II (Pontífice entre 1503 e 1513) em biblioteca privada; o programa iconográfico dos frescos, executado entre 1508 e 1511, destinava-se assim a esta função, tendo sido certamente estabelecido por um teólogo, que propôs a Rafael representar as quatro faculdades clássicas do espírito humano, dando mostras de um elevado grau de liberdade intelectual: a Verdade, o Racional, o Bem e o Belo.
A Verdade sobrenatural está ilustrada na Disputá do SS. Sacramento (ou teologia); Na parede directamente oposta, o Racional está representado na Escola de Atenas (ou a filosofia); o Bem está expresso na das Virtudes Cardinais e Teológicas da Lei e finalmente O Belo na Poesia, representado no Parnaso, com Apolo e as Musas.

Esta vista parcial da Sala da Assinatura no Vaticano mostra Parnasus (Poesia) na meia-lua da esquerda e A Escola de Atenas (Filosofia) na meia-lua da direita

A Escola de Atenas, cujo nome original Causarum Cognitio se manteve até ao século XVII, foi inspirada no projecto do grande arquitecto renascentista Donato di Angelo del Pasciuccio (1444-1514), conhecido como Bramante, para a renovação da Basílica de S. Pedro.
Na obra, que representa a verdade adquirida através da razão, duas figuras centrais retratam a essência dos pensadores da Antiguidade Clássica e, simultaneamente, o tempo de Rafael: Platão aponta para o céu enquanto segura o seu livro Timeo, ladeado por Aristóteles com a Ética; Pitágoras é representado de lado, de modo a permitir observar a explicação do diatessaron; Reclinado nos degraus da escada, Diógenes sugere a leitura; À sua frente, Eráclito, o filósofo pessimista com traços de Miguel Ângelo; À direita, Euclides ensina geometria, Zaratustra segura o Globo Celestial e Ptolomeu o Globo Terrestre, tendo por companhia o próprio Rafael.

Em lugar de a ilustração recorrer às figuras alegóricas, como era hábito nos séculos XIV e XV, convocando o olhar para o infinito, Rafael submete o espaço pictórico às leis do plano, revelando conhecimento da arquitetura dos banhos romanos, fazendo a síntese entre o pagão e o profano. Perante esta composição expansiva, o espectador quase se alheia do facto de o espaço ser mal iluminado.

Escola de Atenas

Dispostas da esquerda para a direita, as solenes figuras de pensadores representam um verdadeiro debate filosófico: astronomia, geometria e aritmética são descritas de forma concreta, num imponente plano arquitectonicamente convergente para o eixo central do espaço abobadado.

Epicuro? afastado do centro da cena filosófica...

No primeiro plano à esquerda, um rapaz segura a tábua da harmonia musical diante de Pitágoras. Ao centro, Hypatia de Alexandria e Parmenides

Hypatia de Alexandria, a astrónoma e filósofa que os cristãos queimaram e arrastaram pela cidade, olha discretamente para o espectador; Uma hábil subversão de Rafael, tendo em conta que a obra está no Vaticano.

Platão e Aristóteles, considerados os principais representantes da filosofia grega durante toda a Idade Média, caminham em diálogo no topo das escadas

Em atitude filosófica, Diógenes de Sínope reclina-se nos degraus, numa expressão de despojamento em relação às necessidades materiais e a um estilo de vida

A figura de Heraclitus (Michelangelo?) - reclinado sobre o bloco de mármore - terá sido associada mais tarde

Euclides desenha uma figura geométrica perante um grupo de jovens.

A figura de costas com o Globo é provavelmente Ptolomeu, tendo à sua frente Zaratrusta com a esfera. À direita: Rafael de chapéu escuro e o seu amigo Sodoma

As figuras desta composição não se atropelam nem são sufocadas pelo aglomerado; sugerem movimento, numa celebração do pensamento clássico liberal, onde tudo é discutido e exercitado. A ironia reside na inserção de Sodoma e (da imitação) do próprio Rafael, numa apologética improvável à República de Platão e à própria filosofia.

Apolo e Minerva

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