Bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano

O homem que limpou o pó à História de Portugal

Comemora-se amanhã o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano. Ou, mais exactamente, comemorar-se-ia, se o país que o sepultou nos Jerónimos, ao lado de Camões, não tivesse esquecido o homem que elevou a historiografia portuguesa a disciplina científica e que foi visto, por sucessivas gerações, como uma reserva moral da nação.
Por Luís Miguel Queirós – Público, 27-03-2010

Os 200 anos do nascimento de Alexandre Herculano, que se cumprem amanhã, estão a ser marcados por duas ou três louváveis iniciativas locais, enquanto o Estado, assoberbado com as comemorações da I República, ignora o fundador da moderna historiografia portuguesa e o pioneiro do romance histórico, para não referir a figura cívica que recebeu dos seus contemporâneos, numa alusão à integridade moral de que sempre deu provas, o cognome de “o homem de bronze”.

Esta tarde, a Cooperativa Árvore e o editor José da Cruz Santos promovem no Porto uma “sessão evocativa” do bicentenário do escritor, que incluirá uma intervenção de Guilherme d”Oliveira Martins, uma leitura de poemas pelo actor António Durães e o lançamento do álbum Cinco Retratos para Herculano. Numa nota enviada à imprensa, os promotores da homenagem citam, com indiscutível pertinência, o padre António Vieira: “Se servistes a pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

O Grémio Literário, de que Herculano foi sócio fundador, promove também, amanhã, uma pequena homenagem ao escritor, depondo uma coroa de flores junto ao seu túmulo, na Sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos. A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, aceitou o convite da associação para estar presente na cerimónia. Acrescente-se ainda uma visita ao retiro de Herculano em Vale de Lobos, no concelho de Santarém, promovida pela Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH) e o grupo Mais Saramago, e ainda uma exposição evocativa na Biblioteca Municipal de Ourém, e estão inventariadas as modestas celebrações previstas até ao momento.

Mas o “ano Herculano” só agora começa e ainda se vai a tempo de contrariar esse mau costume que Vieira denunciava. O ensaísta Eduardo Lourenço propõe que se organize um grande colóquio sobre o Herculano historiador, que, acrescenta, “devia ser promovido pelas duas grandes referências vivas da historiografia portuguesa: Vitorino Magalhães Godinho e José Mattoso”.

A sugestão de Lourenço confirma o juízo hoje quase consensual de que o Herculano mais decisivo para a cultura portuguesa foi mesmo o historiador, não obstante a relevância que se possa conceder à sua obra de poeta, romancista e dramaturgo, que ajudou a introduzir na nossa literatura os ideais do Romantismo.

Num folheto comemorativo do primeiro centenário do escritor, publicado no Porto em 1910, Guerra Junqueiro usa o seu proverbial talento retórico para descrever, num texto hoje esquecido, o que a historiografia nacional devia a Herculano: “A História de Portugal era um enorme palácio desmantelado, com as janelas trancadas, as paredes fendidas pelos raios (…), e onde ninguém ousara penetrar com medo que desabassem aquelas podres escadarias monumentais, que contavam já setecentos anos de existência. Inspirava terror. Andavam lá dentro lobisomens, aparições lúgubres, fantasmas com sudários (…).” E o autor de A Velhice do Padre Eterno prossegue. “Foi então que apareceu um homem extraordinário – Alexandre Herculano -, que abriu a porta desse pardieiro monumental, que andou lá dentro durante vinte anos consecutivos a levantar as escadas, a limpar os móveis, a abrir as gavetas, a consultar os livros, a erguer as paredes, os tectos, as colunas, e que, depois de um trabalho incalculável, sobre-humano (…), veio à rua dizer com simplicidade aos transeuntes estupefactos: “Podem entrar.””

No Pátio do Gil

A metáfora da construção de um edifício adequa-se particularmente bem a Herculano, nascido numa família de reputados pedreiros e carpinteiros. O seu bisavô materno colaborou na construção do Convento de Mafra, e o filho deste, Jorge Rodrigues de Carvalho, foi mestre-de-obras do Paço Real e deve-se-lhe, entre outras obras, a escadaria da Igreja de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Foi numa casa construída por este avô, perto do Palácio da Ajuda, que Herculano viveu a partir de 1839, quando o rei D. Fernando, marido de D. Maria II, o nomeou bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda, cargo que se revelará decisivo para o seu trabalho como historiador, quer pelo acesso a fontes documentais, quer pelo tempo que a função lhe dava para se entregar às suas pesquisas.

De seu nome completo Alexandre Herculano Carvalho de Araújo, o futuro autor de Eurico, o Presbítero nasceu em Lisboa no dia 28 de Março de 1810 (a poucos meses do início da terceira invasão francesa), no Pátio do Gil, propriedade, entretanto desaparecida, que fora construída junto à Rua de S. Bento por um seu tio-avô, António Rodrigues Gil.

Filho de um funcionário público de inclinações liberais, Teodoro Cândido de Araújo, recebedor da Junta dos Juros (antepassada da Junta do Crédito Público), Herculano viria a relembrar, quando gozava já de ampla reputação como escritor e historiador, que nascera numa “classe obscura e modesta” e que nela queria morrer. No entanto, ele e a sua irmã Maria da Assunção, dois anos mais velha, viveram uma infância e primeira adolescência sem dificuldades económicas, numa casa com uma pequena capela privada, jardim, árvores de fruto e horta. A ensaísta Maria Ema Tarracha Ferreira, na introdução a uma edição das Lendas e Narrativas, encontra diversas alusões saudosas a este Pátio do Gil na futura obra de Herculano, tanto na poesia como em excertos do romance O Monge de Cister, onde o autor evoca os domingos dos 12 anos, quando o “espírito infante se harmonizava como o hino eterno da natureza”.

Este gosto pela vida campestre nunca o abandonará e, no final da vida, irá encontrar o seu pequeno paraíso rural na quinta de Vale de Lobos, onde produzirá o famoso azeite Herculano, que chegou a ser premiado numa feira internacional, em 1876. Os amigos que o visitavam em Santarém regressavam espantados com a vastidão e precisão profissional dos seus conhecimentos agrícolas.

Os anos de formação

Aos 11 anos, Herculano foi estudar com os padres da Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri, que lhe ensinaram latim, grego, francês e filosofia, mas que também o tornaram um cristão convicto e um profundo conhecedor da Bíblia. Tendo sido sempre um espírito religioso, não deixa de ser irónico que muitos dos mais violentos detractores da sua obra historiográfica fossem homens da Igreja, que não lhe perdoaram a audácia de secularizar as origens da nacionalidade, dispensando a alegada intervenção divina na batalha de Ourique.

Os seus estudos de Humanidades, que visavam a frequência posterior da Universidade de Coimbra, foram abruptamente interrompidos em 1826. O pai cegara, deixando de poder trabalhar, e a família enfrentava agora graves dificuldades económicas. Herculano decide então frequentar a Aula de Comércio – uma espécie de ensino profissional criado pelo Marquês de Pombal -, pensando conseguir o mais brevemente possível um lugar no funcionalismo público. O homem que iria revolucionar a historiografia portuguesa nunca chegou, portanto, a frequentar a universidade.

Mas o Portugal da primeira metade do século XIX tinha noções um pouco peculiares do que convinha ensinar a um futuro negociante ou escrivão. Uma das disciplinas da Aula do Comércio, ministrada no próprio Arquivo Real da Torre do Tombo, era a Diplomática, na qual Herculano aprendeu a valorizar papéis antigos e se familiarizou com várias ciências auxiliares da história, da paleografia e da epigrafia à numismática ou ao estudo dos selos utilizados para autenticar documentos. É neste período que conhece João Pedro Ribeiro, professor da Universidade de Coimbra e um dos seus raros precursores na pesquisa, e na abordagem científica, das fontes documentais espalhadas pelos arquivos portugueses.

Estes anos servem-lhe também para adquirir um conhecimento sólido de várias línguas estrangeiras – espanhol, italiano, inglês e alemão, além do francês – e para alargar a sua formação literária, que ficou muito a dever ao convívio com a poetisa pré-romântica Leonor de Almeida, marquesa de Alorna, casada com um aristocrata alemão e tradutora de Goethe e de poetas ingleses.

Um liberal moderado

A vida pacata que até aí levara, alternando o estudo com a composição dos seus primeiros poemas, leva uma reviravolta com a instauração do absolutismo por D. Miguel, em 1828. Sabe-se pouco do que levou Herculano a envolver-se activamente na resistência liberal, mas o certo é que participou na fracassada revolta de 21 de Agosto de 1831, empreendida pelo regimento de Infantaria 4 de Lisboa. Obrigado a fugir, consegue embarcar num navio francês fundeado no Tejo e acaba por chegar a Inglaterra, onde permanece cerca de dois meses, seguindo depois para Rennes, na Bretanha francesa. Esta experiência de exílio, descreve-a nos pungentes versos do poema Tristezas do Desterro, que não parecem escritos por um jovem letrado que acabava de chegar ao centro cultural da Europa do tempo. E o facto é que Herculano não passou o seu meio ano de desterro a carpir saudades. Aproveitou para consolidar os seus conhecimentos, frequentando assiduamente as bibliotecas de Rennes e Paris.

No dia 29 de Fevereiro de 1832, parte para a Ilha Terceira, a juntar-se ao último bastião liberal, e alista-se no Regimento dos Voluntários da Rainha, onde terá como camarada de armas Almeida Garrett, que já então publicara os longos poemas Camões e D. Branca (e ainda a colectânea Lírica de João Mínimo), tidos como os primeiros exemplos do Romantismo na literatura portuguesa.

Ambos farão parte dos “bravos do Mindelo”, como ficaram conhecidos os membros da expedição, liderada por D. Pedro IV, que desembarcou na praia de Arnosa de Pampelido, alguns quilómetros a norte do Porto, no dia 8 de Julho de 1832. Herculano tem 22 anos. Durante oito meses vai ser soldado, e, ao que parece, deu provas de valentia nas duras batalhas que marcaram o cerco do Porto. Mas ainda antes da libertação da cidade, D. Pedro IV libertou-o do serviço militar e ordenou-lhe que ajudasse o bibliotecário do Paço Episcopal a criar a futura biblioteca pública do Porto, que viria a ser formalmente instituída em Julho de 1833. Herculano foi nomeado segundo bibliotecário e, ao assumir a função, prestou juramento à Carta Constitucional, um voto que nunca trairá e que lhe irá trazer problemas a partir de 1836, com a ascensão da ala esquerda do movimento liberal e o triunfo do chamado Setembrismo. Os funcionários públicos são então obrigados a jurar a Constituição de 1822. Herculano, um liberal moderado, que encarava com suspeição a democracia e os sonhos de soberania popular, recusa, demite-se do cargo e regressa a Lisboa, fazendo publicar anonimamente um violento ataque ao Setembrismo, escrito em prosa poética: A Voz do Profeta.

Um trabalho gigantesco

Assume, em 1837, a direcção da revista Panorama, propriedade da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, patrocinada por D. Maria II. A publicação foi um êxito e terá chegado a atingir tiragens de quase cinco mil exemplares, num país cuja taxa de analfabetismo rondaria então os 90 por cento. É aqui que Herculano publica originalmente boa parte das suas obras de ficção histórica depois reunidas no volume Lendas e Narrativas, como O Bispo Negro ou A Dama do Pé de Cabra, e ainda parte de O Monge de Cister, que, com O Bobo e Eurico, o Presbítero, introduzem em Portugal o romance histórico.

Se Herculano não foi um poeta do calibre de Garrett, e é mesmo contestável que a sua poesia tenha integrado eficazmente as lições do Romantismo, já no romance histórico – subgénero ainda hoje manifestamente viçoso -, a sua contribuição ultrapassa claramente a do autor de O Arco de Sant”Anna. Também publicou duas peças de teatro – O Fronteiro de África e OsInfantes em Ceuta -, nenhuma delas comparável a essa obra-prima de Garrett que é Frei Luís de Sousa. Fora da obra estritamente historiográfica, talvez o seu grande livro seja mesmo Eurico, o Presbítero, cuja dimensão dramática e lírica – que o próprio autor, aliás, sublinhou, chamando-lhe “crónica-poema” – o transforma num objecto menos facilmente classificável do que os seus romances mais fiéis ao modelo de Walter Scott.

Com a Constituição de 1838, uma solução de compromisso entre o democratismo da de 1822 e o texto da Carta Constitucional de 1826, Herculano, que nesse mesmo ano publica a primeira edição reunida das suas poesias, sob o título A Harpa do Crente, reconcilia-se com o país e chega a ser eleito deputado cartista pelo Porto. Mas rapidamente se desilude com a política e abandona as Cortes para se dedicar às Bibliotecas Reais, cuja direcção lhe é confiada por D. Fernando.

A dimensão do trabalho que vai desenvolver ao longo da década de 40, vivendo na sua casa da Ajuda, é assustadora. Ao mesmo tempo que corre o país a coligir documentação, escreve os seus principais romances e trabalha na monumental História de Portugal, cujo primeiro volume sairá em 1846. Mas já em 1843, publicara na revista Universal Lisbonense as suas Cartas sobre a História de Portugal.

Para o historiador Rui Ramos, não há fronteiras claras entre a historiografia de Herculano e a sua obra de ficção histórica. Ramos recorda, por exemplo, que as páginas relativas ao cerco de Lisboa se “lêem como um romance”, mas também sugere que Herculano usou a sua ficção quer para tratar períodos que a sua História de Portugal (que se encerra em meados do século XIII) já não abarca, quer para se aventurar precocemente no domínio da história das mentalidades.

Azeite e polémicas

Especialmente interessado nas origens da nacionalidade – um desiderato muito tipicamente romântico -, Herculano, nota Ramos, teve de fazer um duplo trabalho: reunir e organizar os documentos e, depois, interpretá-los e construir, a partir deles, uma nova narrativa da História de Portugal. Editada em quatro volumes, entre 1846 e 1853, a sua História de Portugal foi um sucesso público, mas que lhe valeu duras polémicas, sobretudo com o clero, que não gostou de ver desmontado o suposto milagre de Ourique, símbolo de uma deliberada intervenção da providência divina nas origens da nacionalidade.

Muitas das suas teses são hoje questionadas, como a da alegada não-existência de feudalismo em Portugal, ou a mitificação do poder dos municípios no Portugal medieval. Mas Rui Ramos sublinha que foi preciso esperar pela obra de José Mattoso para a historiografia respeitante ao período de formação da nacionalidade dar um salto decisivo em relação ao legado de Herculano. E ainda hoje, diz, “quem ler a História de Herculano fica bem servido”.

É talvez o diferendo com o clero – alguns padres chegaram a usar o púlpito para atacar o cristianíssimo Herculano – que o estimula a escrever, nos anos 50, a História das Origens e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, ao mesmo tempo que corria o país, compilando os documentos que editará nos Portugaliae Monumenta Historica, projecto no qual trabalhará até ao final da vida.

Os anos 50 marcam também uma última fase de intervenção mais directa na vida política. Envolvido na revolta militar de 1851, liderada pelo marechal Saldanha, que encerrou o ciclo do cabralismo e deu início à Regeneração, Herculano rapidamente se desiludiu com a política regeneradora e, em diversos jornais, atacou o novo governo. Em 1852, ainda foi eleito presidente da câmara do entretanto extinto concelho de Belém, mas a partir de meados da década deixou definitivamente a política activa. Nos anos seguintes, vai tornar-se célebre pelas sucessivas recusas de lugares políticos, cargos públicos e honrarias. Não aceita ser deputado por Sintra, rejeita a nomeação para a Câmara dos Pares e a imposição da Grã-Cruz de S. Tiago, diz que não ao próprio D. Pedro V, que sempre admirou e que o tratava como a um mestre, quando o monarca procura persuadi-lo a aceitar a regência de uma cadeira no Curso Superior de Letras.

Em 1866 casa-se com Mariana Hermínia Meira, que esperara pacientemente durante décadas que o noivo tivesse tempo para as obrigações de uma vida partilhada, e retira-se para a quinta de Vale de Lobos, que adquirira em Azóia de Baixo, Santarém. Mas, enquanto vai aprimorando a sua produção de azeite, continua a exercer, nesses seus últimos anos, um contínuo magistério moral sobre o país. Em 1871, por exemplo, toma posição pública contra a supressão das Conferências do Casino, pesem embora as muitas divergências que tinha com Antero de Quental. A sua proibição, escreve, “é pior do que uma ilegalidade, porque é um despropósito”.

Em 1877, querendo agradecer a visita que o imperador do Brasil, D. Pedro II, lhe fizera em Vale de Lobos, desloca-se a Lisboa, de onde regressa doente, vindo a morrer com uma pneumonia no dia 13 de Setembro. Ficou sepultado no adro da igreja de Azóia de Baixo até à sua trasladação para os Jerónimos, em 1988.

De então para cá, tem sido progressiva e injustamente esquecido, a ponto de o bicentenário do seu nascimento não ser assinalado por quaisquer iniciativas institucionais. “Uma vergonha”, diz Rui Ramos, “que mostra bem o estado a que o país chegou.”

Depoimento de José Mattoso, historiador

A História de Portugal de A. Herculano é um dos casos mais significativos de longevidade científica no panorama cultural português. Tendo o primeiro volume sido publicado em 1846, permaneceu como obra de referência obrigatória até à década de 1980. Até as contestações de Luís Gonzaga de Azevedo nos anos 40 serviram para consolidar o seu valor historiográfico. Até aos anos 80, a investigação especializada atingiu apenas questões de pormenor. A História de Portugal de Damião Peres, que pontificou como a narrativa canónica entre 1928 e 1980, foi apenas, para o período anterior ao fim do reinado de Afonso III, uma versão revista do texto de Herculano.
Com efeito, Herculano tem inegáveis qualidades como historiador: possui uma invulgar noção da prova documental e uma notável capacidade de construção da narrativa política. Em sentido inverso, ignora quase por completo o enquadramento espacial dos factos e a interpretação social dos dados institucionais; além disso, deixa-se dominar pelas suas opções anticlericais. O espírito romântico que revelou nas Lendas e Narrativas e nos romances históricos pouco afectou a objectividade da História de Portugal, mas levou-o a idealizar a organização municipal, atribuindo-lhe um imaginário igualitarismo, e inspirou a sua concepção da autonomia municipal como forma política ideal para o seu tempo, tornando-o, assim, o ideólogo tanto de monárquicos integralistas como de republicanos conservadores, com as suas manifestações até aos dias de hoje.

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“Se fosse apresentador de TV Herculano seria muito lido”

por João Céu Silva – Diário de Notícias, 28-03-2010

Para Rui Ramos, o esquecimento do historiador mostra o fracasso do sistema educativo.

Há 200 anos, Alexandre Herculano nascia em Lisboa no Pátio do Gil. 133 anos após a sua morte, não há memória dessa particularidade da sua biografia no referido pátio e o que se encontra ao visitar-se o local é um tapume que cobre a visão de destruição dessa Lisboa antiga.

A poucos metros do taipal amarelado fica a casa onde vivia a fadista Amália, mas, apesar da proximidade, ninguém ali sabe onde é o tal Pátio do Gil. Na taberna ao lado do pátio desaparecido a resposta revela o mesmo desconhecimento do ex-vizinho ali nascido. Alexandre Herculano já não mora ali, nem “existiu” naquele sítio para esta geração de lisboetas que dele conhecem melhor as avenidas com o seu nome e, talvez, o facto de ter morrido distante, só e longe do poder que o venerava, na ribatejana Quinta de Vale de Lobo. Esse ignorar da dimensão nacional da personalidade do historiador também se verifica com as autoridades da cultura oficial, situação remediada à última hora com o anúncio da realização avulsa de cerimónias para assinalar a data do bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano.

Mas nem sempre foi assim, e à data do 1.º centenário as comemorações foram grandes e faustosas. À medida daquele português, que, segundo o historiador Rui Ramos, teve a data do seu nascimento assinalada como “um dos grandes acontecimentos do ano de 1910” (ver página ao lado). Nada que Alexandre Herculano estranhasse, pois, como escreve numa das suas Lendas e Narrativas, a memória é bastante dolorosa: “Boa cousa é a história quando nos recordamos do nosso passado, e não achamos lá para colher um único espinho.”

Para Rui Ramos, existem várias questões a colocar perante o apagamento de Alexandre Herculano. Considera que não é só ele que está esquecido, mas toda a sua obra publicada, que tem a maioria dos títulos praticamente esgotados e não se prevêem reimpressões. Excepção é a recente reedição, sob o formato de bolso, dos volumes I e II das Lendas e Narrativas pela LeYa esta semana.

O historiador considera que o modo como Portugal está a tratar Herculano difere do que aconteceria “num país civilizado, onde seria lembrado”. Quanto mais não seja porque “a nossa incultura e pobreza cultural exige que se aproveite o que de melhor temos”. Como exemplo deste esbanjar, Rui Ramos dá o exemplo de nunca se ter feito uma edição completa dos Opúsculos de Alexandre Herculano. E, num alerta, assume que esta situação decorre do “fracasso do nosso sistema de ensino”, que “não prepara as pessoas para determinado tipo de leituras. Se fosse um apresentador de televisão, Alexandre Herculano seria muito lido”.

Na data em que se comemoram os 200 anos do nascimento de Herculano, o autor e coordenador da mais recente História de Portugal faz questão de apontar três factores sobre aquele que considera ser o “pai da História em Portugal”. O primeiro é que é com Herculano que “começa a História moderna no nosso país e que o conhecimento do passado é realizado sob um ângulo científico”. Realça o facto de ser pioneiro neste âmbito e de a sua obra “ter tido uma vida muito longa e ter causado uma boa impressão na Europa de então pelo valor científico”.

Em seguida, Rui Ramos realça Herculano como um “grande construtor de cultura pública” por ter sido mais que um escritor e uma personalidade com grande intervenção no espaço público “com o objectivo de construir uma nova cultura para o país”. Por essa razão, acrescenta, Herculano trabalhou várias áreas – romance, poesia, história -, dirige a revista Panorama e torna-se directamente “responsável pela nossa cultura actual”.

Por último, Rui Ramos refere a dimensão de Herculano enquanto ainda vivo: “Teve uma influência sem paralelo em Portugal devido à sua autoridade moral e intelectual. Ninguém teve poder público como ele, nem uma glorificação em vida como lhe sucedeu.” Para o historiador, Alexandre Herculano “recebeu em vida a glória que Camões e Fernando Pessoa só tiveram após a morte”.

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Como foram as celebrações do primeiro centenário

A respeitabilidade do historiador após a sua morte fez que a comemoração dos cem anos do nascimento fosse digna.

A comemoração do centenário do nascimento de Alexandre Herculano foi impressionante. No Diário de Notícias, tomou toda a primeira página desse dia [num formato que é o dobro do actual] e a terceira. Na página interior, estavam impressos poemas de louvor a Herculano, fotografias de descendentes e da residência onde se exilara em Vale de Lobo. Até a espingarda de caça (na foto) teve direito a figurar na reportagem. No dia 29, as comemorações ocuparam ainda metade da primeira página do jornal e a editora que publicava os livros e estudos de Herculano anunciava numa coluna de alto a baixo todos os títulos à disposição (à esquerda). Nos dias seguintes, manteve- -se um noticiário constante.

Vinte e três anos após a morte do historiador, a sua presença ainda era muito marcante e a comissão executiva responsável pelo programa das comemorações fez realizar uma série de eventos a nível nacional. No dia do centenário, os membros dessa comissão (na foto) visitaram o túmulo de Herculano nos Jerónimos e fizeram-se fotografar para a posteridade. O rei presidiu e o príncipe D. Afonso assistiu à grandiosa homenagem na Academia Real das Ciências, festejou-se na Câmara de Lisboa e foi inaugurada uma exposição bibliográfica, para além de muitas outras inicia-tivas.

Sete anos antes de morrer, Alexandre Herculano escrevera ao historiador Oliveira Martins (imagem em baixo) e fez uma análise dos tempos: “V. S.ª reconhece que este país encerra um povo exhausto de seiva moral. Não perdeu a liberdade: vinha perdido do papado, e acabam de o perder certas influencias francescas de diversas especies, que não sei se são democraticas […] Houve tempos em que eu pensava nestas coisas: hoje só penso e devo pensar em questões de trigo vinho e azeite. Os rapazes que cuidem da patria. O melhor serviço que nós os velhos liberaes podemos prestar a esta é sumirmo-nos por esses cantos para morrer. Se fizemos, pouco e mal, as gerações novas que façam mais e melhor.”

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Um domínio historiográfico de 130 anos

por José Mattoso, Historiador

É impressionante o facto de a História de Portugal de Herculano ter permanecido como uma obra que dominou o medievalismo português durante cerca de 130 anos. Este facto representa talvez mais o nosso atraso historiográfico do que o valor (inegável) da obra. É uma das manifestações mais claras da dificuldade com que se impôs entre nós a historiografia científica.

Com efeito, sem negar o talento de Herculano na reconstrução dos factos a partir dos indícios documentais devidamente seleccionados e criticados, tem de se reconhecer que muitas das suas concepções de base são contestáveis. Por exemplo, o igualitarismo social dos concelhos. De resto, confundindo a história social com a história institucional e ignorando o sentido feudal do exercício do poder, propõe interpretações inaceitáveis de alguns factos, das cartas de foral e de outros textos jurídicos. As suas ideias municipalistas, no entanto, permaneceram até perto da nossa época como justificação de concepções políticas em termos de descentralização do poder estatal. Na História da Inquisição dá largas a um anticlericalismo faccioso.

Não se pode negar, no entanto, o valor literário da obra de Herculano, nomeadamente dos seus romances e narrativas históricas. É preciso também recordar a importância dos Portugaliae Monumenta Historica, que permanece o mais importante conjunto de fontes medievais portugueses até hoje publicado. Iniciado em 1856 (o mesmo ano em que saiu o último volume da História de Portugal) foi por ele dirigido até 1873, e, depois disso, continuado sob a responsabilidade da Academia das Ciências, mas de forma muito irregular, tanto do ponto de vista crítico como do ponto de vista da selecção das fontes.

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“Portugal não mudou assim tanto”

Vasco Graça Moura afirma que problemas políticos do país são similares aos do século XIX
Por Sérgio Almeida – Jornal de Notícias, 28-03-2010


Há 32 anos, poucos meses após o centenário do falecimento de Alexandre Herculano – efeméride que, ao contrário da actual, mereceu um amplo apoio das entidades oficiais -, Vasco Graça Moura publicou um ensaio sobre a poesia do autor de A voz do profeta.

Vasco Graça Moura
Apesar desse estudo (e de ser leitor assíduo dos seus livros desde tenra idade), recusa o epíteto de “especialista” na obra de Herculano, que considera, a par de Garrett, das mais importantes de todo o século XIX português.
Crítico severo da forma como este período histórico é abordado no ensino, Graça Moura lança duras acusações aos autores das sucessivas reformas escolares, apelidando-os de “irresponsáveis” ao terem transformado esta área numa “caricatura obscena”.
– Ainda se recorda das impressões causadas pelo primeiro contacto que teve com a obra do Alexandre Herculano?
– Em casa dos meus pais havia O Bobo, o Eurico, o Presbítero, O Monge de Cister e as Lendas e Narrativas. Recordo-me de os meus pais citarem o final do Eurico (qualquer coisa como “Possa o sangue do mártir remir o crime do presbítero”) e de a minha mãe achar que Hermengarda era um nome horrendo. Eu devia ter uns oito anos. Pouco depois, atirei-me a ler O Bobo e o Eurico, o Presbítero. Na altura, achei o Eurico uma maçada…
– O bicentenário do nascimento poderia ser uma oportunidade para uma descoberta da obra de Herculano junto das gerações mais novas?
– O problema é que os centenários servem para evocar intervaladamente uma figura ou uma obra, quando o importante seria que os programas escolares obrigassem a um contacto constante com as obras fundamentais. Sobretudo numa altura em que as famílias deixaram de se preocupar com essas coisas.
– Concorda que tanto o romance histórico como a poesia de Alexandre Herculano estão longe de ser fundamentais?
– No plano do interesse que possam apresentar para uma leitura “leve” e rápida, não serão fundamentais. Mas são-no, sobretudo o romance, para compreendermos o romance histórico português e, em parte, a própria evolução do nosso Romantismo. E, n’ O Bobo e n’ O Monge de Cister há excelentes evocações do Portugal medieval.
– Apesar de tudo, que livros pertencentes a estes géneros considera mais relevantes?
– Os referidos, mais as Lendas e Narrativas. Hoje tendo a considerar mais pesado um livro de poesia como A Harpa do Crente.
– O contributo de Herculano para conferir à investigação histórica características de rigor científico tem sido devidamente louvado?
– Entre os historiadores, com certeza. O trabalho de Herculano sobre as fontes documentais é notabilíssimo. Os exemplos de critério e rigor ficaram com certeza. Basta pensar nos Portugaliae Monumenta Historica… E não se pode esquecer nem a História de Portugal, nem os Opúsculos.
– Como avalia a importância de Herculano, comparando com outros ‘gigantes’ da literatura portuguesa da época?
– Louvo-me em Jorge de Sena, que considerava Herculano e Garrett duas vastas sequóias num jardim de pilriteiros.
– Não foi só na literatura que ele se distinguiu. Podemos dizer que Herculano era um virtuoso tal que seria bem sucedido em tudo o que fizesse?
– Penso que ele tinha uma perspectiva ética da política. Por isso mesmo, nunca podia ser bem sucedido no Portugal do seu tempo. Disse até, salvo erro durante a agonia, “isto dá vontade de morrer”…
– Como se explica que Alexandre Herculano, embora bibliotecário-mor, nunca tenha ascendido ao cargo de director da Biblioteca Nacional?
– Não faço a mínima ideia. E não tenho tempo para procurar nos estudos biográficos que lhe são dedicados.
– Já nessa altura o país não recompensava os melhores?
– Essa parece ser uma situação crónica na vida portuguesa e desde muito antes do tempo de Alexandre Herculano.
– O ensino português desconsidera os autores do século XIX?
– O ensino português é uma caricatura obscena, pelo menos no plano da língua e da cultura. Os principais autores do século XIX, bem como os dos séculos anteriores, foram postos de lado por meia dúzia de irresponsáveis que tiveram alçada sobre os programas escolares durante muito tempo. Preferiram pôr os meninos a lerem bulas de medicamentos, relatórios técnicos, ou coisas desse género.
– Em 1834, Herculano publicou um ensaio intitulado Qual é o estado da nossa literatura?; o que responderia o Vasco Graça Moura se confrontado com essa questão?
– Daria uma resposta de boletim meteorológico: variável, com algumas abertas.
– Apesar dos quase dois séculos decorridos, a situação política em Portugal não mudou assim tanto?
– Se lermos as obras do Eça e do Ramalho, as investigações de historiadores como Fátima Bonifácio, Filomena Mónica ou Vasco Pulido Valente, e, quanto ao período que vai dos anos 30 aos anos 50 do séc. XX, os seis romances do ciclo Crónica da vida lisboeta, de Joaquim Paço d’Arcos, veremos que, entre o tempo de Alexandre Herculano e o nosso, houve várias mudanças políticas de relevo, mas não são assim tão significativas as mudanças de mentalidade, de linguagem e de comportamentos da classe política.
– Em tempos conturbados como estes que o País atravessa, de que forma a atitude ética que sempre caracterizou Alexandre Herculano poderia servir de exemplo?
– Isso é tão evidente que dispensa desenvolvimentos.
– Que obra recomenda como introdução à obra deste autor?
– Uma obra grandiosamente panfletária: História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal.

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Bicentenário de Herculano ignorado

Ministério da Cultura não assinala efeméride. Iniciativas previstas organizadas por privados

A ausência de quaisquer iniciativas foi confirmada pelo próprio gabinete ministerial, que preferiu não avançar com justificações para esse lapso.

A única associação à efeméride será a presença simbólica da ministra da Cultura e do respectivo secretário de Estado na cerimónia de homenagem organizada pelo Grémio Literário de Lisboa, de que Herculano foi sócio- -fundador, em 1846, juntamente com Almeida Garrett e Rodrigo da Fonseca.

Marcada para a Sala dos Capítulos do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, no domingo, às 16 horas, a sessão consiste “numa simples e sóbria homenagem” junto ao túmulo do escritor, historiador e político: além da deposição de uma coroa de flores, está prevista a actuação de um grupo de câmara da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

A data também vai ser assinalada no Porto, mais uma vez a cargo de instituições culturais de foro privado. Já amanhã, às 16 horas, a Cooperativa Árvore promove uma evocação de Alexandre Herculano, que tem como eixo central uma intervenção de Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, acerca da vida e obra do homenageado.

O actor António Durães vai ler alguns textos emblemáticos da bibliografia de um dos principais precursores do Romantismo em Portugal.

Na ocasião vai ser lançado ainda o álbum de arte “Cinco retratos para Herculano”, em que participam Acácio de Carvalho, Alberto Péssimo, Carlos dos Reis, José Emídio e o próprio Guilherme d’Oliveira Martins.

Edição exclusiva da Árvore realizada nas suas oficinas, o livro tem uma tiragem limitada de 35 exemplares, a que acresce o número de uma dezena de provas de autor reservadas aos participantes na homenagem.

No domingo, o “Jornal de Notícias” associa-se à efeméride, publicando um suplemento especial de oito páginas que inclui um roteiro sobre os locais que mais influenciaram a vida e obra de Alexandre Herculano, uma entrevista com Vasco Graça Moura (autor de uma tese sobre o autor de “Eurico, o presbítero”) e uma reportagem sobre o estudo das obras deste escritor na actualidade.

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Nem misturado com instruções da máquina de lavar roupa

Por Fernando Basto – Jornal de Notícias, 28-03-2010

Estudo da obra de Alexandre Herculanoestá ausente dos currículos de Português, quer no Ensino Básico, quer no Secundário. Defensores do estudo dos autores canónicos da nossa língua lamentam que o texto literário surja à mistura com cartas, relatórios, actas e instruções de electrodomésticos. E acreditam que o imaginário medieval da obra de Herculano conquistaria os adolescentes.

Contudo, 200 anos volvidos após o seu nascimento – que se comemora hoje -, Alexandre Herculano é um desconhecido para a grande maioria dos estudantes portugueses, inclusive, para os que concluem a área de Humanísticas no Ensino Secundário.

Vozes críticas dos currículos da disciplina de Português lamentam que o estudo da literatura tenha sucumbido à relevância dada à avalanche de textos informativos e pragmáticos e que o texto literário passasse a ser encarado como mero tipo de texto.

“É muito natural que, se perguntar a qualquer aluno quem é Alexandre Herculano, lhe responda que é uma escola do Porto”. Maria do Carmo Vieira, professora de Português na Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa, fala hoje com a mesma indignação com que, em 2004, elaborou a petição “Em Defesa do Ensino do Português contra os novos programas de Língua Portuguesa”.

Na ocasião, a professora julgava que a sua petição iria ter o mesmo êxito que obteve, anos antes, a criação, em conjunto com alunos seus, do movimento em defesa do Café Martinho da Arcada, que se encontrava à mercê da gula da banca. O resultado foi a classificação do “Martinho” como “imóvel de interesse público” pelo Instituto Português do Património Cultural. Contudo, além do burburinho causado então, inclusive, na Assembleia da República, a petição caiu na ignorância e esquecimento. Os argumentos usados por Maria do Carmo Vieira tinham peso e podem explicar, hoje, o esquecimento deste e de muitos outros vultos da literatura nacional. Lamentava a docente que o texto literário passasse a ser encarado como um “mero tipo de texto” a par com os textos informativo, argumentativo, publicitário e jornalístico, estes vistos como mais úteis aos alunos. E também facilitadores de um maior êxito escolar na disciplina.

Literatura proscrita

“A literatura é vista como uma espécie de maldição, ou seja, a causa de todos os males”, dizia a professora. E lamentava que, agora, os alunos sejam convidados a “transformar um soneto de Luís de Camões numa notícia de jornal, um texto de Fernando Pessoa num requerimento, um auto de Gil Vicente numa carta de reclamação, ou ainda a envolver a poesia de Cesário Verde com editoriais, textos publicitários e outros”.

Seis anos volvidos após a apresentação da petição, Maria do Carmo Vieira mantém a mesma revolta e desencanto. Referindo-se aos linguistas que reformularam os currículos de Português em vigor, lamenta que “estes inovadores” desconheçam “que a literatura é uma arte, ‘feita por se sentir e para se sentir’, nas palavras de Pessoa. E que, por isso, o tempo não a fere. Permanece, guardando sempre actualidade. O que é preciso é levar os alunos a descobrir esta realidade e a reflectir sobre ela”.

Quanto à abordagem da vida e obra de Alexandre Herculano no Ensino Secundário, Maria do Carmo Vieira explicou que, antes, ela podia acontecer em contextualização, quando se leccionava Almeida Garrett. “Contextualizando Almeida Garrett na sua época histórico-cultural, falar-se-ia obrigatoriamente de Alexandre Herculano, presença inquestionável do romantismo português, das lutas liberais e de uma postura plena de dignidade – o exemplo de homem que não se vende e que opta pelo isolamento e pelo silêncio face a abutres e boçais”, diz. Contudo, hoje, pede-se aos alunos que contextualizem um autor na Internet. Não é dessa forna “que um professor consegue atraí-los a descobrir e ler e a interessar-se por um autor”, realçou.

Maria do Carmo Vieira vai mais longe nas críticas. O porquê do pouco interesse pelos autores clássicos, antigos ou modernos, que “os mentores dos programas intuíram ser ‘chatos’ para os alunos ou ‘muito difíceis’, resulta, no seu entender, das pistas dadas aos estudantes para leituras fora da escola. Segundo a professora, os estudantes são dirigidos para “leituras inofensivas, de cujo convívio pouco retirarão, pelo uso de um vocabulário paupérrimo, pela ausência de elementos simbólicos e pela exploração de temas ao gosto de audiências televisivas”.

Papaguear menos, pensar melhor

Opinião diametralmente oposta tem Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP). “Os programas de Português não podem ser só literatura. O texto literário é fundamental, mas a língua não se esgota aí”, referiu. E dá o exemplo das suas aulas. “Tenho uma turma do 7.º ano e 99% dos textos que estão no manual são literários”. Feytor Pinto critica um ensino centrado na memorização de autores e obras. “Nos exames do 9.º ano de 2006, não apareceram ‘Os Lusíadas’ na prova, mas um poema do David Mourão Ferreira. E é isto: se pusermos um texto literário que o aluno nunca viu, isso vai obrigá-lo a pensar sobre o texto. Foi o único ano em que houve média negativa nos exames”.

Por isso, o presidente da APP quer, antes, que os seus alunos “saibam ler um autor que ainda não nasceu” e repele a ideia de dar continuidade às “gerações e gerações de papagaios”. E vai mais longe, apontando o dedo aos adultos de hoje, que estudaram numa escola que privilegiava o estudo dos autores canónicos: “Andaram gerações a papaguear o Alexandre Herculano e, hoje, não sabem redigir leis, nem sabem ler os jornais. O que teria sido melhor para eles?”.

Por outro lado, Feytor Pinto defende a liberdade do professor de Português em levar para as suas aulas os autores e as obras que bem entender. “Sou um professor pensador, não preciso do programa para me dizer o que devo fazer. Os colegas que querem que o programa seja prescritivo e autoritário são meros funcionários”.

Dália Dias, professora do Ensino Secundário, lamenta que Herculano – aliás, tal como Camilo Castelo Branco… – não seja de estudo obrigatório até ao 12.º ano. Critica o programa até ao 9.º ano, por ser “pobre, mas armado em novo-rico”, em que o texto literário surge ao lado das instruções da máquina de lavar a roupa. Já no que toca ao currículo do Secundário, aponta muitas falhas, “porque se perde a história literária, o aluno não percebe que existe um contínuo, que tudo se encaixa no tempo”. E – não fosse professora de Português – sai-se com uma imagem curiosa: “Damos os textos tipo ‘roupa na corda’, mas ninguém está vestido”.

Dália Costa tem a certeza de que os alunos iriam gostar de estudar Herculano. “Os jovens gostam de ver filmes com o imaginário medieval, onde haja mouros, cavaleiros, monges, castelos, guerras. Eles não aderiram em peso ao Harry Potter? Na leitura, quando eles conseguem imaginar, gostam. Não há idade mais ideal para ensinar literatura do que a adolescência”, realçou. A “desgraça” em que caiu o ensino do Português no Ensino Secundário tem como bom espelho os exames finais. “Onde já se viu um exame de Português com respostas de múltipla escolha, que valem seis valores em 20?”.

Carlos Ceia, professor universitário, mostra-se igualmente alarmado com o conteúdos das provas de exame de Português do 12.º ano. “Se se analisar o tipo de perguntas que são feitas, conclui-se que um aluno de hoje seria incapaz de responder a um exame de há dez anos”. Condena, também, o pragmatismo da língua que orienta os currículos de Português. “O resultado está à vista: os alunos desconhecem Alexandre Herculano, assim como muitos outros autores canónicos da nossa literatura. Perdeu-se a noção de património literário português, o importante é a competência linguística”.

Isabel Alçada, ministra da Educação, também ela professora de Português, rejeita as críticas e aponta Alexandre Herculano como um dos autores incluídos nas listas das obras recomendadas para leitura no 3.º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário. Sobre o estudo dos textos literários nos programas, Isabel Alçada refere que eles surgem à medida que as competências de leitura dos alunos vai evoluindo. E os programas são, no seu dizer, referenciais que os professores interpretam e adequam de acordo com a sua forma de trabalhar.

“Em Inglaterra, por exemplo, apenas Shakespeare é de leitura obrigatória. E, mesmo assim, cabe aos professores escolherem as peças que considerem mais adequadas aos seus alunos”, concluiu.

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Alexandre Herculano: Homem sem fronteiras

Por Cláudia Luis – Jornal de Notícias, 28-03-2010

Alexandre Herculano era progressista e conservador, um católico contra o clero, político jornalista. No bicentenário do seu nascimento, redescobre-se um inovador, um revolucionário

Foi revolucionário e conservador, um católico contra o Clero, político e jornalista, historiador e ficcionista. Contraditório? Não exactamente. Na perspectiva do historiador Luís Amaral, “um dos aspectos mais fascinantes em Herculano é que, sem ser contraditório, ele tomou uma série de posições que, hoje, nos parecem contraditórias”. Já Cândido Beirante, autor de Alexandre Herculano: As faces do poliedro, sublinhou as múltiplas direcções da sua personalidade, ligadas por uma “unidade surpreendente”, frisa a investigadora Isabel Mateus. Em Herculano não há fronteiras: todas as aparentes incompatibilidades complementavam-se. O jornalismo era um meio para divulgar ideais políticos, sociais e peças literárias. A investigação histórica garantia-lhe ferramentas para actuar melhor no mundo político e religioso do seu tempo.

Numa outra aparente contradição, Herculano, que exerceu um magistério moral sobre o país, foi um intelectual sem nunca ter frequentado a Universidade. Contingências da vida. O seu pai, funcionário público, cegou; e a sua mãe, filha e neta de pedreiros da Casa Real, não poderia sustentar-lhe os estudos. Isso não o impediu de estudar e de apaixonar-se até tornar-se uma referência da História de Portugal, que, afinal, ele próprio ajudou a escrever. E a revolucionar.

Como conseguiu escrever tanto,sendo tão novo e em tão pouco tempo?

Era um homem franzino, de saúde frágil, mas gozava de uma energia incrível. Todos falavam do seu impressionante vigor moral, o que, em parte, explica a entrega a tantas causas e paixões. Mas há um mistério que permanece em Alexandro Herculano: “Como conseguiu escrever tanto, tão novo, em tão pouco tempo? E, ainda para mais, sendo político, jornalista e polemista? Como conseguiu fazer tudo?”. O rol de questões lançadas pelo investigador medievista Luís Amaral continua, até hoje, sem resposta.

Mas há pistas que tentam explicar como pôde Herculano escrever, entre tantas temáticas e estilos, os quatro volumes de História de Portugal em cerca de cinco anos. De facto, “ele tinha acesso privilegiado à informação”, continua o docente da Universidade do Porto, lembrando que o autor “foi retirado das trincheiras para organizar a Biblioteca Municipal do Porto”.

Mais tarde, como responsável pelas Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda, desenvolveu uma intensa pesquisa histórica. “Tinha milhares de documentos, mesmo ao lado!” Herculano abraçou um projecto de recolha de documentação valiosa para a história portuguesa que a Academia das Ciências de Lisboa lhe lançou. Todo este “processo de organização de arquivos em Portugal foi – frisa Luís Amaral – pioneiro”.

Contudo, mesmo acedendo à informação de forma especial, exigia-se tempo, muito tempo, para organizá-la e analisá-la. E a dúvida persiste: Como pôde criar uma obra “genial” em tão pouco tempo e repartindo-se por tantas actividades? Talvez o facto de ser “profundamente inteligente, lúcido e muito rigoroso consigo próprio” lhe garantisse uma disciplina invulgar para dedicar-se tanto a uma paixão, que fosse capaz de a revolucionar.

Objectivo: achar as raízes de Portugal

Herculano era apaixonado pela História, isso é certo. Mas não de um ponto de vista académico. Ele via na História uma “forma de intervenção: um meio para conhecer o passado para agir melhor no presente. Foi profundamente inovador, porque esta era uma ideia muito moderna da História”, esclarece o medievista.

Em pleno século XIX, era rica em nacionalismos, escolheu investigar a Idade Média. Não foi um acaso. Objectivo: descobrir as raízes de Portugal. “Ele encarava a História como uma missão”. E encontrar as raízes do seu país era a sua. Precisava de ter resposta à questão: “Portugal é um país viável ou não?”

O objectivo seguinte passava por “dotar a Historiografia de uma aplicação cívica. Teve resultados geniais”, comenta Luís Amaral. Herculano não procurava soluções antigas para problemas do seu tempo, antes conhecimento para fundamentar a sua intervenção social e política.

Acabaria por fundar a história científica em Portugal e por ser o primeiro a pensá-la para além da política. Mantendo-se actualizado em relação à realidade europeia e inspirado pelos mestres que conheceu no exílio em Inglaterra e França (também eles medievistas e políticos), Herculano inovou também na própria metodologia histórica. Mais ainda: inovou nos conteúdos, olhando, pela primeira vez, o passado português do ponto de vista das pessoas, da psicologia, da cultura.

Um trabalho “impressionante” em quatro volumes. Mas “uma ínfima parte de um projecto muito maior, que não conseguiu terminar”, refere o investigador. Ainda assim, criou uma obra que se manteve referencial até meados dos século passado. “Durante cem anos, ninguém o superou. Foi pouco, mas foi revolucionário”.

A obra (mais) desconhecida

Sempre inovador, mais parecia que Herculano não conseguia evitar revolucionar tudo em que tocava. Também assim foi na sua paixão pela literatura. A ele se deve a introdução do Romantismo em Portugal, “um movimento artístico e literário que viria a provocar uma mudança radical – diria mesmo uma revolução – nas concepções estéticas europeias”, explica Isabel Mateus, investigadora da Universidade do Minho.

Além do romance histórico, escreveu ficção, poesia, ensaios, memórias e narrativas de viagens. Mas é o seu trabalho como tradutor e dramaturgo que, para a docente, é mais desconhecido. Herculano fez traduções parciais e integrais de autores como Lamartine, Delavigne e Schiller. E é também autor de dois dramas históricos.

Na perspectiva de Isabel Mateus, “há motivos de interesse actual para revisitar o universo literário herculaniano”. Por exemplo, obras como Lendas e Narrativas enquadram-se no culto actual do fantástico, mas, também, as narrativas de viagens e as memórias são motivos para hoje ler ou reler a obra.

Entretanto, Helena Buescu, professora de Literatura Comparada da Universidade de Lisboa, sublinha que ler Herculano nos nossos dias não pode fazer-se numa só perspectiva, mas sim olhando a sua obra como um todo multifacetado, e, no entanto, coerente.

De resto, coerência e integridade eram pontos fortes da personalidade do autor, que bom uso fez deles na defesa das suas posições socio-políticas, éticas e morais. Era “um homem de acção que luta toda a vida, sem transigências, por convicções e princípios”, descreve Isabel Mateus. Não actuava “ao sabor das conveniências e interesses dominantes nos meios ligados ao poder”. Só assim, e com uma “notável frontalidade e coragem”, poderia ter criado tantas polémicas e defendido tantos projectos.

Defensor do casamento civil

Numa das mais agitadas polémicas, Herculano conseguiu colocar todo o Clero português contra ele. O autor de Eu e o Clero era católico, mas isso não o impediu que atacar a classe religiosa. “Ele era católico, sim, mas não católico romano”, esclarece o historiador Luís Amaral. A defesa da introdução do casamento civil, a par do religioso, tendo participado na elaboração do primeiro Código Civil Português, foi uma das muitas “provocações” iniciadas com a corajosa negação do Milagre de Ourique em História de Portugal.

Mas Herculano acreditava apaixonadamente na liberdade de expressão, melhor, “no respeito pela dignidade do ser humano, nas liberdades individuais”. Tinha um “profundo humanitarismo”, refere Isabel Mateus. Esta convicção guiou a sua acção política.

No ano em que também se comemora o centenário da República, evocar Herculano é particularmente importante, pois ele foi um dos seus acérrimos defensores. Da República e da democracia, combatendo “todas as formas de absolutismo e obscurantismo”, afirma a docente da Universidade do Minho.

Consciente do potencial do indivíduo enquanto cidadão, acreditava que Portugal seria um país progressista se apostasse nos seus valores humanos e “não tanto em termos materiais”, continua a investigadora. Aliás, é enquanto deputado pelo Porto que defende, por exemplo, a aplicação de um plano de ensino popular.

No seu percurso político assume também ser contra a centralização do poder, em prol do “poder municipal, o mais vivaz, o mais activo, o mais popular de todos os poderes”, dizia, segundo, Carlos Novais, autor de Alexandre Herculano – Opúsculos Tomo I. Nesta composição de textos, e à semelhança do que ainda hoje muitos defendem, Herculano afirma que “todos os interesses que deviam ser zelados por municípios estão à mercê de um ministro que reside em Lisboa, e que nem os conhece, nem devidamente os aprecia”.

Refúgio final

A vida política e parlamentar não perdurou. Herculano ter-se-á desencantado com o rumo do país. “Era um homem profundamente sensível aos assuntos do país”, comenta Luís Amaral. Mas era também “um homem de difícil sociabilidade, violento na palavra”. Rumou a uma vida bucólica, em Vale de Lobos, Santarém. Foi neste refúgio que viveu o resto dos seus dias com a sua mulher, Mariana Hermínia Meira. Trocou cartas com políticos e escritores e dedicou-se à agricultura. Até morrer, de pneumonia, em 1877.

“Que é o Céu a pátria nossa; / Que é o mundo exílio breve; / Que o morrer é cousa leve; / Que é princípio, não é fim: / Que duas almas que se amaram / Vão lá ter nova existência, / Confundidas numa essência, / A de um novo querubim.”

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ALEXANDRE HERCULANO NASCEU HÁ 200 ANOS

Livros e Leituras, 28-03-2010

Alexandre Herculano nasceu há 200 anos. Foi poeta, historiador, político, jornalista, agricultor, romancista e tradutor. Herculano foi inovador para a sua época e muito revolucionário. No sítio do Instituto Camões, Ana Maria dos Santos Marques deixa-nos um interessante texto sobre a vida e obra deste grande homem das letras:

Nascido em 28 de Março de 1810, Alexandre Herculano estuda Humanidades no colégio dos Oratorianos com vista à matrícula na Universidade, mas a cegueira do pai força-o a abdicar desse projecto e a limitar-se a um curso prático de Comércio, estudos de Diplomática (Paleografia) e de Línguas. Desde muito jovem que a sua vocação para as letras se manifesta: lê e traduz escritores românticos estrangeiros, como Schiller, Klopstock, ou Chateaubriand, escreve poesia, conhece Castilho e frequenta os salões da Marquesa de Alorna.

Em 1831, depois do envolvimento na conspiração de 21 de Agosto contra o regime absolutista de D. Miguel, exila-se primeiro em Inglaterra e depois em França. Aqui, e mais concretamente na biblioteca de Rennes, Herculano dedica-se ao estudo e inicia-se em Thierry, Guizot, Victor Hugo e Lamennais, autores que influenciarão profundamente a sua obra.

Em 1832, chega à ilha Terceira, nos Açores, integrado na expedição liberal liderada por D. Pedro e responsável pelo cerco do Porto. Nesta cidade, e depois da vitória liberal, é nomeado, em 1833, segundo bibliotecário da Biblioteca Pública e procede à sua organização.

Colabora no Repositório Literário (1834-1835) com vários artigos, dos quais se destacam dois que podem ser vistos como uma primeira teorização portuguesa do Romantismo. O primeiro, “Qual é o estado da nossa literatura? Qual o trilho que ela hoje deve seguir?”, apresenta um diagnóstico da literatura portuguesa e avança uma solução para o seu estado de decadência: o conhecimento das literaturas estrangeiras, principalmente da alemã, uma das primeiras em que o Romantismo se implantou. No outro texto, “Poesia – Imitação – Belo – Unidade”, Herculano sublinha a necessidade de a literatura portuguesa se voltar para as suas origens e traduz uma consciência nacional e moral que limita a visão da estética romântica europeia, condenando a “imoralidade” e a “irreligião” que, em sua opinião, Byron representava. Esta consciência nacional e moral está presente desde o início da sua poesia, através de um paralelismo estabelecido entre religião e pátria, espécie de profissão de fé do poeta romântico, que Herculano integrou numa visão liberal da sociedade, visível, por exemplo, em “A Semana Santa” (1829).

Em 1836, vem a público a primeira série de A Voz do Profeta (2ª série, 1837), folheto de carácter panfletário contra a Revolução de Setembro, escrito no estilo grandiloquente de Paroles d’un Croyant de Lamennais. No ano seguinte, funda e dirige O Panorama, revista literária responsável pela divulgação da estética romântica, na qual Herculano publica estudos eruditos e as suas primeiras narrativas históricas.

Em 1838, publica A Harpa do Crente, colecção das poesias mais importantes, reeditada em 1850 com traduções/versões de Béranger (“O Canto do Cossaco”), Bürger (“O Caçador Feroz”, “Leonor”), Delavigne (“O Cão do Louvre”), Lamartine (“A Costureira e o Pintassilgo Morto”) e uma balada fantasmagórica ao gosto inglês (“A Noiva do Sepulcro”). As poesias desta colectânea apresentam reflexões sobre a morte, Deus, a liberdade, o contraste entre o inexorável fluir da vida humana e a permanência do infinito. Normalmente, estas meditações têm por testemunha uma paisagem, que impõe o sentimento da solidão e da infinitude, e traduz uma marcada oposição entre a cidade e o campo (por exemplo, “A Arrábida”). Está também presente um conjunto de poemas que se referem à guerra civil e ao exílio, testemunhos poéticos da instauração do liberalismo e da saudade do desterrado. Herculano tenta também dar voz à contemporaneidade através da poesia, à semelhança de Victor Hugo, atribuindo-lhe uma função pública, doutrinária e intervencionista e tratando temas de interesse político, social e religioso (“A Semana Santa”, “A Cruz Mutilada”; “O Mosteiro Deserto”; “A Vitória e a Piedade”, por exemplo). A nível formal, a poesia de Herculano apresenta uma retórica solene, com insistência num vocabulário evocativo do “belo horrível”, apocalíptico e sepulcral, longos eufemismos e alguns recursos clássicos como o hipérbato. A sua imaginação manifesta-se em paisagens marcadas por tempestades ou ruínas e na sugestão dos mistérios da religião e da morte. Estes traços predominantes, com especial relevo para as imagens funéreas de efeito fácil e sem grande conteúdo conceptual, estarão na base do Ultra-Romantismo, e serão também postos em prática nas narrativas históricas, especialmente em Eurico, o Presbítero.

Em 1839, é nomeado por D. Fernando bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda. Nesta altura, entrega-se a um sistemático trabalho de pesquisa, influenciado pelos historiadores franceses Thierry e Guizot, de que resulta a publicação, em 1842, na Revista Universal Lisbonense, das “Cartas sobre a História de Portugal”. Estas constituem o ponto de partida para a História de Portugal, cujo primeiro volume sai em 1846 (os três seguintes em 1847, 1849 e 1853) e origina uma acesa polémica com o clero porque nele é posto em causa o “milagre de Ourique”; os textos desta polémica estão reunidos nos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba, publicados em 1850. É encarregado pela Academia Real das Ciências de recolher documentos antigos para a colectânea Portugaliae Monumenta Historica e, por isso, percorre várias regiões do país. Dessas viagens nasce Cenas de um Ano da Minha Vida e Apontamentos de Viagem (1853-1854). O contacto directo com a realidade nacional reforça a sua convicção de que o país necessitava de reformas a vários níveis: educativo, administrativo e económico.

Em termos políticos, Herculano identifica-se com a ala esquerda do Partido Cartista. É eleito deputado pelo Porto em 1840, mas, após ter apresentado um plano de ensino popular que não chega a ser posto em prática, desilude-se com a actividade parlamentar e abandona o cargo em 1841. Adere, então, à moderada Constituição de 1838, desaprova a restauração da Carta por Costa Cabral e dedica-se à literatura e à pesquisa. Mais tarde, depois do golpe da Regeneração, o escritor abandona a neutralidade política e colabora na formação do novo governo. No entanto, acaba por se opor ao ministério de Rodrigo da Fonseca Magalhães e Fontes Pereira de Melo. Funda os jornais O País (1851) e O Português (1853), onde põe em prática uma intensa actividade polémica contra o progresso meramente material preconizado pelo referido ministério. Entre 1854 e 1859, publica os três volumes de História da Origem e do Estabelecimento da Inquisição em Portugal. É um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. No ano seguinte, ataca vigorosamente a Concordata com a Santa Sé. Participa na redacção do primeiro Código Civil Português (1860-1865), tendo proposto a introdução do casamento civil a par do religioso, o que originou uma nova polémica com o clero, que se pode ler no volume Estudos sobre o Casamento Civil (1866), logo colocado no Index romano. Desiludido com a vida política, retira-se para uma quinta em Vale de Lobos, arredores de Santarém, em 1867, comprada com o dinheiro ganho com a publicação dos seus livros. Aí dedica-se à vida agrícola e à produção de azeite, juntamente com D. Mariana Hermínia Meira, namorada da juventude, com quem casara em 1866, e que esperara pela realização da sua carreira literária. Neste seu exílio voluntário, Herculano continua a trabalhar nos Portugaliae Monumenta Historica, publica o primeiro volume dos Opúsculos (1872), intervém em polémicas, como a nascida da proibição das Conferências do Casino (1871) e a respeitante à emigração (1874), reúne os materiais para o quinto volume da História de Portugal e mantém uma abundante correspondência com personalidades literárias e políticas. Morre de pneumonia, depois de uma viagem a Lisboa, em 13 de Setembro de 1877.

Poeta, jornalista, político, polemista e historiador, é todavia como romancista que Herculano será mais lembrado pelas gerações vindouras. As suas narrativas históricas assinalam o nascimento de um novo género na literatura portuguesa – o romance histórico -, no qual o autor pode pôr em prática as qualidades de investigador do passado, principalmente da Idade Média, e os seus propósitos pedagógicos.

Em 24 de Março de 1838, publica n’ O Panorama a primeira narrativa histórica, O Castelo de Faria, e em Novembro Mestre Gil. Estas e outras composições, publicadas também n’ A Ilustração, foram reunidas em dois volumes em 1851, sob o título de Lendas e Narrativas. Os romances O Bobo (vindo a público n’ O Panorama em 1843 e editado em volume em 1878), Eurico, o Presbítero (1844) e O Monge de Cister (1848), escritos à semelhança das obras do escocês Walter Scott, considerado por Herculano como “modelo e desesperação de todos os romancistas”, alcançaram um sucesso imediato e desencadearam uma onda de imitações que transformou o romance histórico em moda literária nacional em meados de oitocentos.

Nestas obras, o romancista cria cenários lúgubres e de dimensões trágicas, nos quais se movimentam românticos heróis atormentados por paixões e mulheres-anjo predestinadas para o sofrimento, sobrepostos a um pano de fundo histórico minuciosamente reconstituído. Eurico, forçado a abdicar de um amor impossível por Hermengarda, professa e transforma-se num sacerdote solitário, num poeta inspirado pelo amor e pela religião, e num “cavaleiro negro” misterioso e heróico, tingido por certas cores terríveis do romance negro. Dá voz à dor em cenários de imensidão e à luz da lua, recitando longos poemas marcados por uma grandiloquência solene, compondo hinos religiosos que ecoam nos templos da Espanha visigótica, desafiando a superioridade dos adversários para salvar a donzela amada, e, finalmente, entregando-se à morte num combate desigual, única solução para o dilema que lhe dilacera a alma: ama Hermengarda, mas não pode trair os votos que o prendem a Deus. Já Vasco, frade maldito de O Monge de Cister, cujo sacerdócio não abranda o ódio que o consome, leva o seu desejo de vingança ao extremo de negar a confissão ao homem que seduzira a irmã inocente. N’ O Bobo, o protagonista, Egas, vê a amada sacrificar-se para o libertar, mas perde-a para sempre quando assassina o rival com quem ela deveria casar.

Estes amores desesperados e estas personagens vítimas de uma fatalidade que as ultrapassa, são colocados em épocas remotas que o autor empreende retratar. Assim, ganha especial relevo a reconstituição do ambiente, através da acumulação de descrições de edifícios, monumentos, ou indumentárias, referências a costumes e práticas, a formas de convivência social, e até à linguagem, numa tentativa de criar a ilusão de total fidelidade a uma realidade pretérita. No entanto, e apesar desta rigorosa encenação, nem sempre Herculano consegue esconder as suas convicções. Por exemplo, a defesa do município, apresentada em O Monge de Cister, tem por finalidade convencer os leitores do século XIX das virtudes desse sistema administrativo, e não pode ser vista apenas como uma referência ao sistema em uso no fim do século XIV. Neste, como noutros pontos da sua obra, os caminhos do historiador e do romancista cruzam-se…

Com O Pároco de Aldeia, publicado n’ O Panorama em 1844 e em volume em 1851, Herculano cria o romance campesino, que servirá de modelo a Júlio Dinis, e apresenta como protagonista a figura do padre bondoso, protector dos fracos e amado pelas crianças. Nesta obra, apresenta-se um retrato da vida rural marcado pela serenidade, e cujo ritmo é estabelecido pelo toque do sino e pelos rituais da igreja. Faz-se, assim, a apologia da superioridade do Catolicismo face ao Protestantismo, graças aos rituais e símbolos visíveis que guiam a crença popular e contribuem para a manutenção da moralidade pública.

Herculano herói do Liberalismo, guardião da moral e promotor da ideologia romântica nacional, é indubitavelmente, ao lado de Almeida Garrett, a figura fundadora do Romantismo português e a personalidade que de forma mais completa o representa.

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Nascimento de Alexandre Herculano

Rádio Renascença, 28-03-2010

Historiador, romancista, poeta e político, Alexandre Herculano, nascido há exactamente 200 anos (28 de Março de 1810), é consensualmente apontado como o grande renovador da historiografia portuguesa.

Nascido em Lisboa, frequentou o Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Néry, então instalados no Convento das Necessidades, onde recebeu uma formação clássica, mas aberta às novas ideias científicas. Dificuldades familiares impediram-no de entrar na Universidade, mas adquirir formação literária que passou pelo estudo de inglês, francês, italiano e alemã.

Opôs-se ao “miguelismo”, participando na revolta de 21 de Agosto de 1831, o que o obrigou a fudir para Inglaterra e França. Juntou-se, depois, ao exército de D. Pedro IV, na Ilha Terceira, nos Açores, alistando-se como soldado no Regimento dos Voluntários da Rainha, como Garrett. Foi um dos 7500 “Bravos do Mindelo”, integrando a expedição militar comandada por D. Pedro IV que desembarcou, em 8 de Julho de 1832, na praia de Arnosa de Pampelido, a Norte do Porto, a fim de cercar e tomar a cidade do Porto.

D. Pedro IV nomeou-o segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto. Aí permaneceu até ter sido convidado a dirigir a Revista Panorama, de Lisboa, revista de caráter artístico e científico de que era proprietária a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, patrocinada pela própria rainha D. Maria II, de que foi redactor principal de 1837 a 1839.

A obra mias marcante de Herculano é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume foi publicado em 1846. A obra introduz a historiografia científica em Portugal e levantou enorme polémica, sobretudo, junto dos sectores mais conservadores. Foi atacado pelo clero por não ter admitido como verdade histórica o célebre Milagre de Ourique.

No fim da vida, retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos, em Azóia de Baixo, Santarém, onde morreu a 13 de Setembro de 1877.

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Em ano de bicentenário, recordemos as palavras de Herculano

Centenário da República, 28-03-2010
«Olhamos impassivelmente para as doutrinas republicanas, como olhamos para as monárquicas. Não elevamos nenhuma a altura de dogma. Não nos cega o fanatismo, nem perguntamos qual delas tem mais popularidade. É já tempo de examinar friamente, e de discutir com placidez, qual dos dois princípios pode ser mais fecundo para assegurar a liberdade e, depois da liberdade, a ordem e a civilização material destas sociedades da Europa, moralmente velhas e gastas. Persuadidos de que a monarquia, convenientemente modificada na sua acção, resolverá melhor o problema, preferimo-la sem nos irritarmos contra os seus adversários; sem os injuriarmos, sem acusar as suas intenções, recurso covarde de quem desconfia da solidez das próprias doutrinas. A nossos olhos a monarquia existe pelo povo, e para o povo, e não por Deus e para Deus. A existência de um poder público, de um nexo social, é o que se estriba no céu, porque a sociabilidade é uma lei humanitária. A revelação divina confirmou este facto achado também no mundo pela filosofia política. “Por mim”, disse a voz do Senhor, “reinam os reis, e os legisladores promulgam o que é justo”. A sabedoria suprema supôs a autoridade na terra: não curou de que fosse só um que a exercesse, ou que fossem muitos. Aprendamos a tolerância política nas divinas páginas da Bíblia.»

HERCULANO, Alexandre – Opúsculos. Tomo I. Questões públicas: política. Lisboa: Livraria Bertrand, 1983, pp. 267-268

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SOBRE AS RUÍNAS DO TEMPLO ABATIDO

Portugal dos Pequeninos, 28-03-2010
Rui Ramos recordava ontem, no Expresso, Alexandre Herculano. Nasceu há duzentos anos. Agora que não há ninguém que não seja “liberal”, Herculano – que o foi literal e visceralmente -, fosse ele vivo, ia fartar-se rir com os seus “descendentes”, esta pobre elite caseira e videirinha que vagueia pelos partidos, pelos jornais, pelos blogues e pelas corporações do regime, sempre a cascar no Estado, mas sempre dele mamadora enquanto falsa e tosca “sociedade civil”. Provavelmente esta “elite” não verá nele mais do que um pacóvio, um escritor “datado” e ilegível, um chato. E Herculano porventura olharia para ela, com desprezo e ironia, recomendando que «os pontapés ou arrochadas são sempre eficazes e salutares.» O alegado “poder espiritual” que exerceria sobre a nação, como sugeria Teófilo Braga, não serviu de nada nem a um nem à outra. Não se pode exercer poderes dessa natureza sobre broncos crónicos. Oliveira Martins percebeu-o perfeitamente. «E quando, ele que observara impenitente o velho Portugal, abandonado ao lodo utilitário os seus coevos, via também a mocidade mediocremente respeitosa por essa religião do Indivíduo que era a sua; quando via as tendências centralistas e socialistas – confessas ou inconscientes – dominarem nos governos e oposições, nos partidos conservadores e nos revolucionários, ele chorava, outro Isaías, sobre as ruínas do templo abatido, sem reconhecer que as pedras desse edifício derrubado já começavam a formar um novo monumento.» O “monumento” é esta miséria instintual e material e esta pequena burguesia de espírito a que chegámos por via de duas ditaduras e de um regime pseudo-democrático fundado há trinta e seis anos.«Isto dá vontade de morrer», murmurou Herculano, em Vale de Lobos, antes do fim. Nunca teve tanta razão.

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Alexandre Herculano (1810-1877)

Por Gabriel Silva, n`O Insurgente, 28-03-2010

Com o azar de lhe ter saído na rifa os 100 anos da coisa republicana, o segundo centenário daquele que foi provavelmente um dos maiores intelectuais da história portuguesa, que hoje se assinala, passa praticamente em claro. Sem comissões  de festas ou pagens da corte verde-rubra, apenas  2 ou 3 conferências, sucintas referências em alguns jornais e nada mais. O que até não ficará mal a um liberal empedernido de tão velhos costados. Do que fui encontrando hoje por aí, gostei deste trecho de Oliveira Martins (via):

«E quando, ele que observara impenitente o velho Portugal, abandonado ao lodo utilitário os seus coevos, via também a mocidade mediocremente respeitosa por essa religião do Indivíduo que era a sua; quando via as tendências centralistas e socialistas – confessas ou inconscientes – dominarem nos governos e oposições, nos partidos conservadores e nos revolucionários, ele chorava, outro Isaías, sobre as ruínas do templo abatido, sem reconhecer que as pedras desse edifício derrubado já começavam a formar um novo monumento.»

Leituras recomendadas:

Alexandre Herculano contra o Absolutismo da CentralizaçãoAlexandre Herculano, o axioma da aquisição original e como a desigualdade social emana da igualdade civil. Por Carlos Novais.

Herculano, a “propriedade literária” e a doutrina do Código Civil de Seabra: reflexões sobre a questão da “propriedade intelectual”Elites culturais e políticas em Portugal no contexto da secularização da sociedade (séculos XVIII, XIX e XX). Por Luís Aguiar Santos.

Bicentenário do nascimento de quem originou o nome de minha mulher, por Jorge Sousa Brito

  1. 28 de Março, 2010

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