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‘O Canal da Giudecca e a Igreja de Santa Marta’, de Francesco Guardi

Adquirida por Calouste Gulbenkian em 1920, esta obra do pintor veneziano Francesco Guardi [5 Out 1712 – 1 Jan 1793] pertence à colecção permanente do Museu.

O Canal da Giudecca e a Igreja de Santa Marta
Francesco Guardi [1712-1793]
Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

Francesco Guardi representa nesta composição, na qual se avista a ponta de Santa Marta e o canal da Giudecca, uma Veneza periférica povoada de pormenores que narram a vida quotidiana da população local, motivo através do qual o pintor exprimiu de forma particularmente conseguida a sua imensa sensibilidade artística. Este distanciamento relativamente ao lado faustoso de outras pinturas da sua autoria, das quais o Museu Calouste Gulbenkian possui excelentes exemplos (as Feste, sobretudo), proporcionou a Guardi, pela óbvia informalidade do tema, concentrar-se na representação de um amanhecer enevoado, onde a atmosfera feérica do canal toma posse de toda a superfície pictórica.

Na cena prevalecem tonalidades prateadas e azuladas, surgindo as formas mais distantes, embarcações e silhuetas de edifícios, diluídas em leves pinceladas monocromáticas. A humidade da lagoa e o céu acinzentado fazem lembrar a arte do holandês Jan van Goyen. Francesco Guardi faz ainda uso do sfumato, uma concepção de luz com interferência directa na intensidade do contraste existente entre os objectos representados e o espaço envolvente, produzindo-se a partir desse artifício técnico um fenómeno óptico através do qual cor e contornos se atenuam e se dissolvem.
Via Museu Calouste Gulbenkian.

Homenagem de Thomas de Pourquery a Sun Ra

Supersonic é o nome do Sexteto que o saxofonista Thomas de Pourquery montou em 2012 para homenagear a música do cósmico e visionário Sun Ra [22 Maio 1914 – 30 Maio 1993]. O mote é dado pelas várias facetas estilísticas de Sun Ra, sublinhadas pelos arranjos escritos por Pourquery para uma banda fluente em jazz, electro-rock ou drum’n’bass, possuidora de uma versatilidade sem fim. Com o objectivo de instalar o transe em cada um dos temas interpretados, Supersonic [2014] recupera a urgência da música de Ra, nessa sua sobreposição particular de passado e futuro.
Via Gulbenkian Música

‘A Evasão de Rochefort’, de Édouard Manet

A obra A Evasão de Rochefort – 1881, de Édouard Manet [23 Jan 1832 – 30 Abr 1883] integrou a exposição “As Idades do Mar”,  entre Outubro de 2013 e Janeiro de 2013, na Gulbenkian.

Por ocasião da monumental exposição  «Manet, inventeur du Moderne», que o Museu d’Orsay lhe dedicou em 2011, Le Figaro Hors-Série publicou uma edição especial intitulada «Manet, un certain regard», numa profunda abordagem à diversidade da paleta e da inspiração do genial pintor impressionista.

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‘Blue Maqams’, de Anouar Brahem

Depois do projecto Souvenance [ECM, 2014] apresentado pelo Quarteto do músico tunisino em concerto com a Orquestra Gulbenkian a 28 de Abril de 2015,  Anouar Brahem regressa a Lisboa para a apresentação ao vivo do álbum Blue Maqams [ECM, 2017] a 16 de Abril no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian,
Vem isto a propósito, claro está, do artigo de Gonçalo Frota publicado no Ípsilon:

No ano em que celebra o 60.º aniversário, o tunisino reuniu à sua volta uma formação de luxo — Dave Holland, Jack DeJohnette e Django Bates — para a gravação de Blue Maqams, lugar de encontro entre as liberdades da música árabe e do jazz.

O álbum pode ser escutado no Spotify

 

From Baroque to Fado – A Journey Through Portuguese Music

“From Baroque to Fado – A Journey Through Portuguese Music”, é uma jornada através do tempo e do lugar, com elementos de música árabe e galega que vão da música medieval até ao fado tradicional, numa viagem musical desde o século XIII até aos nossos dias.
Este disco é o produto do concerto gravado ao vivo em 2016 no Grande Auditório da Gulbenkian.


Artigos no Público e no Diário de Notícias.

Jordi Savall – um Homem do Mundo

Jordi Savall e o agrupamento Hespèrion XXI encerram com um concerto no próximo domingo  às 19h00 o ciclo da Gulbenkian dedicado à Semana da Cultura Arménia, precedido de uma conferência com a presença do músico catalão, que terá lugar às 17h30, de entrada livre.
Assim, considero oportuno reproduzir o artigo que João Chambers escreveu para a separata do Público, dedicada à Programação de Música Antiga para a Temporada 2014/2015 da Gulbenkian.

jordi savall

Presença habitual no nosso país, em particular nos festivais de Alcobaça (“Cistermúsica”), do Baixo Alentejo (“Terras sem Sombra”), de Leiria, de Loulé, da Madeira, de Castelo Branco, da Póvoa de Varzim, do Porto (Casa da Música) e de Lisboa (Jornadas Gulbenkian de Música Antiga de gratíssimas memórias), o investigador, docente, musicólogo, gambista e director de orquestra Jordi Savall i Bernadet nasceu em Igualada, na província de Barcelona, a 1 de Agosto de 1941. Iniciou a sua carreira profissional em meados da década de 60 do século passado através da criação, a par da mulher – a saudosa Montserrat Figueras –, dos colectivos Hespèrion XX (1974, XXI com o advento do novo milénio), La Capella Reial de Catalunya (1987) e Le Concert des Nations (1989), à frente de quem se tem apresentado em frequente actividade concertística por todo o mundo, além da etiqueta discográfica Alia Vox (1998). Transcorrida mais de década e meia, com cerca de uma centena de CD editados e o impressionante número de três milhões vendidos no horizonte, é já possível avaliar essa mais do que notável trajectória. Concluiu os estudos superiores de música e de violoncelo no Conservatório de Barcelona, rumando, em seguida, a Basileia com o fito de os aprofundar na Schola Cantorum Basiliensis, em particular o de um instrumento – a viola da gamba – caído em quase absoluto e injusto olvido, ao mesmo tempo que pugnava por fazer renascer o prestígio do património antigo oriundo da Península Ibérica. Discípulo do conceituado August Wenzinger, um dos pioneiros do movimento historicamente informado a quem sucedeu em 1973, foi, a datar de então, que se começou a interessar pela recuperação de repertório pré-romântico não como uma pesquisa marcada por qualquer interesse arqueológico, mas numa nova atitude face a um legado cultural do passado que Oitocentos deturpou ou, simplesmente, negligenciou. É essa herança que, teimosamente, persiste como a referência estética no gosto de muitos e que em nada partilha os genuínos ideais dos períodos medieval, renascentista, barroco e clássico. Num percurso de mais de quarenta anos recebeu numerosas distinções de diversas nações europeias como a França, a Áustria, a Bélgica, a Alemanha, a Dinamarca, Portugal e, naturalmente, Espanha, além de nomeações honoríficas concedidas pela União Europeia e pela UNESCO.

Sobre o diálogo intercultural que mobiliza, desde sempre, o seu particular interesse, Savall entende que os intérpretes têm a responsabilidade de recordar, e não só aos melómanos mais atentos a esse fenómeno, que os laços sempre existiram e, em consequência, perduram ao longo dos tempos. A primeira gravação, ainda em vinil, de meados da década de 1970, para uma multinacional e consagrada ao Século de Ouro do país vizinho, contém já várias árias da diáspora sefardita. Ali pretendeu (e conseguiu) mostrar que a música sacra e de corte dos Reis Católicos – Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão – e a tradição oral partilham raízes comuns e que esta aparentemente artificial aproximação acaba por não o ser. No decorrer das primeiras abordagens de manuscritos da Idade Média com instrumentistas do Médio Oriente, o grande mestre catalão ficou deveras admirado com a celeridade com que estes se adaptavam e encontravam os próprios sinais de referência. Era, pois, natural dar a conhecer esse acervo com tangedores de oud marroquino ou turco, modelo que deu origem ao alaúde e caracterizado, sobretudo, pela ausência de trastes, visto se terem preservado, quase intactas, as práticas ancestrais. Aproximar-se delas converteu-se num exemplo diário, já que era usual improvisarem de modo mais espontâneo do que nas nações ocidentais e realizarem, naturalmente, o que no Velho Continente se tenta obter através de trabalho árduo, atenuando-lhes o peso da harmonia e da polifonia. Paradoxalmente, a cultura ocidental desconcerta-nos em casos semelhantes, verificando-se tal circunstância ao comparar os desempenhos dos anos de 1970 aos actuais. Antes, tudo era preparado, notado e escrito, proporcionando que o Hespèrion XX fosse um dos primeiros grupos a utilizar partituras antigas nunca estudadas ou ensaiadas, mas susceptíveis de promover um trabalho de pura improvisação. Exemplo de tal perspectiva foi a ainda hoje versão de referência do Llibre Vermell de Montserrat, realizada segundo essa filosofia e que permanece bastante actual, em virtude de a opção ocupar ali um lugar de destaque, conquanto tivesse necessitado, como é óbvio, de um vasto e detalhado trabalho de pesquisa e resultante decisão.

Sobre as graves ameaças que, na actualidade, pairam em grande parte das vastas regiões compreendidas entre o Oriente e o Ocidente, Savall salienta o choque de civilizações, a incompreensão e o enclausuramento nas próprias culturas. Para manter viva essa relação, diz ser necessário ambos entregarem-se e, sobretudo, aceitarem-se mutuamente. Estabelecer um vínculo com o desconhecido implica deixar-se interpelar pelo outro, condescender numa determinada fragilidade e abandonar posições privilegiadas, já que, durante séculos, se convencionou que o mundo ocidental possuía o dom da verdade e evoluía no sentido de uma humanização iluminada. A tolerância, com o que permite entrever de condescendência, é o sinal mais forte de virtude e de altruísmo. Todavia, os contrastes subsistem e foram sentidos por ocasião dos projectos que reuniram membros provenientes de longínquas paragens, onde as políticas vigentes semeiam amiúde a discórdia. A tensão foi, desde logo, sentida no decurso dos primeiros ensaios, o que não impediu a inesperada e agradabilíssima surpresa de ver, por exemplo, israelitas e palestinianos a confraternizarem, em conjunto e com as mesmas obras, nas pausas das múltiplas sessões de trabalho. Nada nem ninguém a tal os obrigava! Era, apenas, a espontaneidade e a força da arte dos sons que contribuía para a fraternidade, incitando ao diálogo e ao respeito mútuos e tornando consciente que a reconciliação será sempre possível se se aceitarem as diferentes formas de pensar. Este tipo de desígnios transversais corresponde, manifestamente, a temáticas e a chamadas de atenção de enorme actualidade, permitindo que edições consagradas a Istambul, a Jerusalém ou ao “Espírito da Arménia”, o qual, antecedido por uma conferência sobre o tema, irá ser apresentado, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian (dali natural embora naturalizado cidadão britânico), no próximo dia 19 de Outubro, figurem entre as maiores vendas do catálogo Alia Vox.

Por vezes acontece os melhores exercícios de fusão serem os que, em absoluto, o não parecem, o que define o “Espírito da Arménia” como um perfeito paradigma. As peças que Savall recolheu para esta antologia em disco – uma selecção de um género meditativo e transcendental originário daquele território montanhoso do Cáucaso do Sul, de história conturbada e trágica, atingido por incessantes conflitos, morticínios e deportações – evidenciam origens antigas, cujas sonoridades são, por certo, familiares aos amantes do repertório da época. Os timbres do Hespèrion XXI, todos em perfeita consonância, integram-se, com naturalidade, entre as composições de Sayat Nova (c.1712-1795), as transcrições de Komitas Vardapet (1869-1935), a madeira do duduk, instrumento tradicional de sopro que parece deter o passar dos tempos, e os arcos da kamancha, também de proveniência local, de cordas friccionadas e semelhante à viola da gamba. O espírito, de nobre lamento, estende-se, por outro lado, à memória das vítimas do até agora assaz desconhecido genocídio arménio (1915-1917) quase um século após esta calamitosa ocorrência nunca ter sido reconhecida inclusive por diversos Estados europeus ditos civilizados.

Afirmando que a beleza é unicamente para os sentidos, enquanto a graça é uma conjunção de encanto e espiritualidade que nos toca a alma, Jordi Savall sempre acreditou numa fascinante frase, extraída da fábula “A raposa e o bode” do setecentista Jean de La Fontaine, que reza assim:

“A graça é ainda mais bela do que a beleza!”.

 

A embriaguês na poesia de Omar Khayyam

Alireza Ghorbani e Dorsaf Hamdani estiveram em 2012 na Gulbenkian para um encontro entre os cantos persa e árabe, centrado na obra poética de Omar Khayyam, astrónomo, filósofo e matemático iraniano do século XI.
Da edição 2014 de Músicas do Mundo, destaque óbvio para Christina Pluhar – L’Arpeggiata, com a presença especial de Mísia.
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