Archive for the ‘ Música ’ Category

Antífona para o Natal

Existem três iniciais identificadas neste manuscrito de data indeterminada e que foi executado por um miniaturista italiano, referido como Maestro Daddesco. No folio 32R, a Natividade com H inicial alude a uma antífona para o Natal.

Um luminoso Monteverdi

As ligações referem-se à série de vídeos dedicados aos Concertos Promenade da BBC, Setembro de 2010.
Claudio Giovanni Antonio Monteverdi,1567 – 1643 – Vespro della Beata Vergine, 1610 / SV 206 | Monteverdi Choir | London Oratory Junior Choir | Schola Cantorum of The Cardinal Vaughan Memorial School | English Baroque Soloists | His Majestys Sagbutts and Cornetts | Conducted by John Eliot Gardiner

Com a devida vénia a Cristina Fernandes, que escreveu a crítica para o Público de 02-12-2010.
Em 2010, comemoram-se quatro séculos da publicação das Vésperas da Beata Virgem, de Monteverdi, em Veneza, pelo que esta obra paradigmática dos inícios do Barroco tem um lugar de destaque nas programações de várias instituições. Em Portugal, contamos com duas interpretações por músicos de alto nível num curto espaço de tempo. A primeira teve lugar na segunda-feira, na Gulbenkian, com o coro La Capella Ducale e o ensemble Musica Fiata, sob a direcção de Roland Wilson, e no dia 8 será possível ouvir a versão do agrupamento La Venexiana, dirigido por Claudio Cavina, no Centro Cultural de Belém.

As Vésperas de Monteverdi são uma obra de transição entre o antigo e o novo, que leva ao ponto mais alto, quer a herança da polifonia renascentista, quer as experiências florentinas e venezianas dos inícios do século XVII (como a monodia acompanhada e a policoralidade). À estrutura litúrgica tradicional do Ofício de Vésperas (com os seus Salmos, Antífonas, Hino e Magnificat), Monteverdi acrescentou quatro “concertos” para vozes solistas e baixo contínuo (por vezes também designados por motetes), onde explora características do novo estilo barroco, e a belíssima Sonata sopra Sancta Maria, onde a melodia de cantochão emerge sobre uma luxuriante textura instrumental.

Cada trecho tem uma constituição vocal e instrumental diversa, mas de uma maneira geral Robert Wilson dividiu os seus 10 cantores em dois coros, de modo a potenciar o jogo da policoralidade. O efeito a esse nível foi discreto e o resultado ganharia com uma acústica com mais ressonância, mas tal só seria possível num espaço mais adequado à música desta época do que o Grande Auditório Gulbenkian. Embora menos exuberante do que as interpretações por agrupamentos italianos, La Capella Ducale e o grupo Musica Fiata ofereceram uma versão luminosa das Vésperas que se foi tornando mais envolvente à medida que a obra avançava. O início tímido, com um Dixit Dominus algo linear e pouco pujante, contrastou com a transparência dos planos sonoros, a energia rítmica e as sedutoras nuances de colorido que caracterizaram o Magnificat no final.

Jan van Bijlert – The Concert, 1635-40

Entre outros belos momentos, destaca-se o Nisi Dominus ou o concerto Audi Coelum, com a solução bem conseguida de colocar o cantor responsável pelo eco fora do palco. Tal como sucedia na época de Monteverdi, os cantores responsáveis pelos solos são os mesmos que fazem as partes corais, demonstrando em geral uma sólida qualidade nas duas vertentes. No entanto, deveriam ter ido mais longe no plano da retórica musical e da relação texto-música. Por exemplo, o dueto de sopranos Pulchra es foi algo superficial e houve passagens (como na Sonata sopra Sancta Maria) com algumas imprecisões ou pequenas dessincronizações rítmicas.

Em compensação, o ensemble Musica Fiata demonstrou virtudes como o brilho da sonoridade dos sopros (trombones e cornetos) e um óptimo trabalho ao nível do baixo contínuo (órgão, chitarroni, harpa dupla, violone e lirone), que não se limitou a uma realização básica de preenchimento da harmonia, mas operou um verdadeiro diálogo com o conjunto e deu destaque à identidade de cada instrumento. Quer pela prestação dos músicos de Robert Wilson, quer pelo poder avassalador da extraordinária música de Monteverdi, a assistência foi tomada pelo entusiasmo no final, aplaudindo longamente em pé.

Cristina Fernandes

Stile Antico – Puer Natus Est

Tudor Music For Advent and Christmas (Stile Antico) – Harmonia Mundi HMU807517
Thomas Tallis – Puer Natus Est, Videte Miraculum | Robert White: Magnificat | John Sheppard: Verbum Caro | John Taverner: Audivi vocem de caelo | William Byrd: Gradualia

Surely the pick of the new CDs for Christmas this year, this exquisitely performed and beautifully planned disc is another winner for Stile Antico, a young, versatile and conductor-less group. They bring together Tallis’s incomplete but richly resonant mass Puer natus est with Byrd’s much tighter, shorter Advent motets from The Gradualia, a satisfying contrast. Then they add Robert White’s expansive Magnificat and Sheppard’s glorious Verbum caro to finish. Sometimes there is an emphasis on sound at the expense of the words, but what a sound: perfectly blended, carefully balanced, its sonorities reaching back effortlessly to conjure up a vanished age of devotion. Via.

Manuscrito de Niccolò Jommelli

Obra de Jommelli descoberta na BNP

Por Cristina Fernandes, Público de 15-Outubro-2010

António Jorge Marques contará hoje, às 18h, numa conferência, o processo de identificação do Laudate pueri a quatro coros, obra inédita do grande compositor italiano identificada há um ano

Enquanto fazia as suas habituais pesquisas na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), o musicólogo António Jorge Marques deparou-se com uma partitura intrigante: um Laudate pueri Dominum a 16 vozes, que indiciava ser uma imponente peça policoral com quatro coros e prevendo o uso de três órgãos, mas que não apresentava indicação de autor. A obra tinha sido catalogada como anónima, uma vez que faltava o primeiro caderno.

Depois de algumas tentativas e hipóteses goradas, os estudos caligráficos comparativos que realizou confirmaram tratar-se de um manuscrito autógrafo do compositor italiano Niccolò Jommelli (1714-1774), uma das grandes figuras da música europeia no período que medeia entre o barroco e o classicismo. Foi também um dos compositores de referência na vida musical portuguesa do século XVIII, chegando a ter um contrato com a corte de D. José. O processo de identificação e a importância deste manuscrito descoberto há um ano serão abordados esta tarde, às 18h, por António Jorge Marques numa conferência na BNP.

“Como faltam as primeiras páginas, das quais costumam constar o autor, a data e o título, o manuscrito passou despercebido durante muito tempo”, disse o musicólogo ao P2. “A recuperação de uma nova obra de Jommelli, considerado na sua época um dos maiores compositores, seria sempre um facto importante, mas neste caso a descoberta torna-se valiosa pelo facto de ser uma peça completamente desconhecida e sem paralelo na produção do autor.” O investigador refere que o catálogo temático incluído por Wolfgang Hochstein em Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1984) não menciona qualquer obra para 16 vozes. Esta devia ter sido composta para uma grande ocasião, provavelmente para a Capela Giulia, na Basílica de S. Pedro de Roma, já que Jommelli foi mestre adjunto da instituição entre 1750 e 1753. O cerimonial e os repertórios das capelas pontifícias serviram de modelo à prática musical na Capela Real e Patriarcal de Lisboa, mas estão por esclarecer as condições concretas da chegada desta partitura a Portugal.

Em 1752, D. José I (1750-1777) tentou contratar Jommelli, mas o músico preferiu a proposta do duque de Württemberg, transferindo-se para a corte de Estugarda em 1754. O monarca português acabaria por contratar David Perez, outro expoente da ópera napolitana e da música sacra em meados de Setecentos, conseguindo mais tarde assegurar os serviços de Jommelli à distância. Um contrato assinado em 1769 determinava o envio para Lisboa de várias óperas por ano, incluindo duas novas (uma séria e outra cómica), e de uma série de partituras religiosas, em troca de uma avultada pensão anual. Até à morte de D. José, em 1777, os teatros reais portugueses chegaram a levar anualmente à cena quatro óperas de Jommelli.

Algumas das obras religiosas de Jommelli mantiveram-se no repertório das igrejas de Lisboa até finais do século XIX. No Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses, de 1900, Ernesto Vieira refere que ainda se interpretava frequentemente a Missa de Requiem e os viajantes estrangeiros setecentistas mencionam amiúde a audição desta e doutras peças de Jommelli na capital portuguesa.

Para uma possível interpretação do Laudate pueri da BNP seria necessário que um musicólogo ou compositor reconstruísse as primeiras páginas. Para já António Jorge Marques, que é também autor de um monumental catálogo da obra religiosa de Marcos Portugal, tem estado sobretudo absorvido com o estudo do manuscrito original, mas a viabilização da execução poderá ser um passo a dar no futuro.

Laudate pueri Dominum a 16 vozes:

autógrafo de uma obra desconhecida de Niccolò Jommelli (1714-1774) descoberto na BNP

CONFERÊNCIA | 15 Outubro | 18h00 | Auditório BNP | Entrada livre

À data da sua morte o compositor Niccolò Jommelli era considerado um dos maiores compositores vivos, vindo posteriormente a ser consistentemente incluído na plêiade dos mais memoráveis autores do século XVIII. Na ocasião Schubart escreveu: “O maior Pã está morto… Se a riqueza de pensamento, a fantasia cintilante, a melodia inesgotável, a harmonia celestial, o profundo domínio de todos os instrumentos e particularmente da poderosa mágica da voz humana […], se tudo isto combinado com a mais acutilante compreensão da poesia musical constitui o génio, então a Europa perdeu o seu maior compositor.”

Dois anos depois de ter subido ao trono, D. José tentou contratar Jommelli que, por esta altura, já era o mais afamado e o mais inovador compositor de ópera italiana em actividade. No entanto, a proposta do Duque de Württemberg, que incluía um novo teatro, acabou por aliciar o compositor, que se mudou para a Corte de Estugarda em 1754. Durante 15 anos produziu música religiosa econtribuiu para reescrever a história da ópera. Em 1769 e a troco de uma vantajosa reforma, D. José conseguiu finalmente obter os serviços de Jommelli, que entretanto passou a viver em Aversa, Itália. O contrato incluía o envio de obras religiosas, e sobretudo de óperas. Até à morte do Rei em 1777, e com adaptações de João Cordeiro da Silva, os teatros reais portugueses chegaram a levar anualmente à cena quatro óperas suas.

No género sacro, a influência de Jommelli em Portugal ainda está por avaliar, mas foi certamente duradoura. Algumas das suas obras religiosas mantiveram-se no repertório das igrejas até finais do século XIX. O Requiem (Hochstein, A.I.3), obra composta em 1756 para as exéquias da Duquesa de Württemberg, foi a mais importante e paradigmática. Ernesto Vieira, na entrada do seu Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes (1900), escreve: “Executa-se ainda muito frequentemente nas egrejas de Lisboa a missa de requiemlibera-me de Jommelli, composições primorosas no estylo sacro.”

O estatuto de Niccolò Jommelli e os laços históricos que o ligam a Portugal tornam a descoberta deste autógrafo (ainda que incompleto) um acontecimento relevante no contexto dos estudos de música sacra de estilo romano de meados do século XVIII. O caso em epígrafe é particularmente interessante porque se trata de uma obra policoral para 16 vozes e baixo contínuo (com utilização de 3 órgãos) completamente desconhecida e sem paralelo na produção do compositor. O trabalho seminal de Wolfgang Hochstein, Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1984), que inclui um catálogo temático, não menciona qualquer obra para 16 vozes.

A razão para a ausência de referências na bibliografia da especialidade prende-se com o facto de o primeiro caderno (4 fólios) se encontrar desaparecido. Em consequência, informações cruciais como o autor, a data e o título da obra, grafadas na página de rosto, perderam-se.

A identificação do autor foi realizada através de estudos caligráficos comparativos. Uma proposta para a génese da obra assim como a sua contextualização na vida e obra de Jommelli serão alguns dos temas abordados.

António Jorge Marques

Jos d`Almeida no Festival “Músicas pelo Espichel”

Por inúmeras razões, a actuação do mano foi o concerto do ano. Vá, do mês. Pronto, foi a meia-hora mais bem passada da noite. Os vídeos das actuações estão disponíveis no sítio da Sesimbra TV.

Por  Sandra Brasinha, Jornal de Noticias de 12-09-2010
Mais de três mil pessoas lançaram um apelo conjunto para que o Santuário do Cabo Espichel, em Sesimbra, seja requalificado. A chamada de atenção foi feita no dia 10 durante o festival “Músicas pelo Espichel”, que durou quase dez horas.
Quer o público, a organização, as 15 bandas que subiram ao palco e a Câmara de Sesimbra assumiram-se contra o abandono a que o santuário, que em Novembro comemora 600 anos, tem sido votado nos últimos anos.
Todos exigiram medidas urgentes para dignificar aquele património.
Há já 15 anos que o Estado detém a posse do monumento, mas apesar do compromisso assumido de reabilitar a ala Norte, que lhe foi cedida pela Confraria de Nossa Senhora do Cabo, nada foi feito até agora.
A Direcção-Geral do Tesouro e Finanças está actualmente a fazer a avaliação do imóvel para decidir se aceita a proposta apresentada em Julho pela autarquia, que necessita de ter a posse do santuário para poder negociar com possíveis investidores.
“Uma vez que há terrenos cedidos e que ainda não estão na posse do Estado propusemos uma permuta, porque o Estado não pode formalmente doar-nos o imóvel. Tem de haver uma contrapartida”, explicou ao JN o presidente da Câmara, Augusto Pólvora, criticando o facto de o Estado não poder pura e simplesmente devolver o bem à confraria. “Receberam de borla, não fizeram nada e agora querem receber. É uma situação completamente absurda”, considera o edil, pedindo celeridade na resolução do problema.
O impasse levou o cidadão sesimbrense Carlos Sargedas a criar um movimento de solidariedade pela requalificação do Cabo Espichel, cujo programa teve anteontem o seu ponto alto, com a realização de um festival a que mais de três mil pessoas não quiseram faltar, bem como as 15 bandas que actuaram gratuitamente.
“Quero acreditar que pelo menos dentro de dois anos a obra esteja começada e que façam do Cabo Espichel o uso que ele necessita”, salientou Carlos Sargedas, fazendo um balanço positivo do evento gratuito que custou à organização cerca de 250 mil euros.
“O que está aqui é completamente genuíno”, adverte, propondo que as obras de requalificação avancem gradualmente. “Há pessoas interessadas em investir e portanto não é por falta de dinheiro que não se faz”, acrescenta. “Este concerto é um acto de cidadania de todos nós. Estamos a avisar que queremos que este espaço seja recuperado”, alertou o vocalista dos UHF, a banda cabeça de cartaz do festival. “O Cabo Espichel é uma ordem de prioridades. Este espaço tem magia”, considerou António Manuel Ribeiro, desejando que o pó que se levantou na noite de anteontem “seja amanhã a argamassa usada para construir um novo edifício”.
O vocalista dos Alcoolémia, João Beato, desejou, por seu lado, que num “domingo destes” quando se deslocar ao Cabo Espichel em passeio “o monumento esteja recuperado totalmente”, sugerindo que sejam recriados os costumes de antigamente com a reconstrução de algumas salas com mobília da época “para que se possa conhecer o que foi o santuário”.
Um centro de interpretação do Cabo Espichel, um espaço museológico ligado à geologia e paleontologia, lojas de artesanato no local das casas de outrora, espaços de restauração e uma residencial são algumas das propostas idealizadas para o santuário.
Agora, há também o desejo de que o “Músicas pelo Espichel” se torne o último grande festival de Verão em Portugal.

Foto de José António Marques

A arte da harmonia

Musica Aeterna, por João Chambers – Sábado 18 às 14h00

Os primórdios da harmonia, dois dos seus princípios essenciais – o ritmo e o som – e as criações de Joseph Martin Kraus, Wolfgang Amadeus Mozart, Nicolas Champion, Philipp Heinrich Erlebach, Josquin Desprez, Johann Sebastian Bach, Guillaume de Machaut, Canto Gregoriano e de um autor anónimo.


Evaristo Baschenis – Still-Life with Instruments, 1667-1677
A arte da harmonia consiste em conciliar os sons de um modo horizontal – a melodia – ou vertical – os cordes, sendo a extrema simplicidade deste facto bastas vezes esquecida em polémicas tendentes a fornecerem doutrinas mais desenvolvidas. Na realidade, por vezes questiona-se, inclusive com exaltação, se aquela ciência não existirá, basicamente, para a “projecção da personalidade” do seu criador como um meio de comunicação com o ouvinte ou, em alternativa, para a sensibilização deste através da experiência emocional.
Seja qual for a perspectiva tomada a respeito da sua genuína finalidade, a verdade a persistir sempre será a de que, em música, a teoria consiste em dispor as notas de modo a que o resultado final possa ser basilar. Existe também quem assente no axioma das sonoridades deverem conter beleza sem, contudo, reparar que, nessa circunstância, estará a fazer uma exigência ilógica. Um som cadenciado não é forçosamente arte, tão pouco uma agradável sucessão deles constituirá uma simetria a não ser que haja algum raciocínio nessa sequência, ou seja, serem organizados. A questão é que a harmonia mantém-se em ambos os casos a mesma e, em consequência, não deve estar implicada no nosso juízo de valores. A respectiva narrativa não significa, pois, a história de formas consonantes, mas apenas a do esforço consciente do indivíduo para as manipular, conduzindo-nos inevitavelmente à seguinte dúvida:
“Como procedeu afinal o homem?”.
João Chambers

Os 260 anos da morte de Johann Sebastian Bach

Do Musica Aeterna de passado sábado, dedicado a assinalar a passagem do ducentésimo sexagésimo aniversário da morte do genial compositor seis e setecentista, está disponível o podcast

Coisas simples

A solidão da floresta e a vida sedutora do eremita, o silêncio das árvores e o recato de uma vida simples perto da natureza, enquanto expressão de uma nova atitude perante a vida.

O que o artista austríaco Moritz von Schwind (1804-1871) aqui reproduz é o distante período Biedermeier, da serena felicidade dos ambientes descontraídos, há muito desaparecidos da sociedade urbana pré-industrial. Na sua vida contemplativa e de comprometimento com Deus, o eremita piedoso parece manifestar uma espécie de sentimento religioso, perfeito porque íntimo. “Contagiado”, o músico manifesta uma atitude descontraída, antes de regressar ao alvoroço da cidade.

Ravi Shankar – The Master

O nonagésimo aniversário do pai da world music, assinalado a 7 de Abril passado, mereceu por parte da Deutsche Grammophon uma edição especial, que reuniu em três discos as suas gravações na editora.

Sétima Palavra – José Saramago

No dia da morte de José Saramago, parece-me apropriado transcrever o último capítulo de “As Sete Palavras do Homem”, reflexão pessoal que autor fez, a pedido de Jordi Savall, da obra Septem Verba Christi in Cruce – As Sete Últimas Palavras de Cristo, escrita por Joseph Haydn em 1786.
A sua leitura , a par da audição da Sonata VI ‘Consummatum est’ e da Sonata VII ‘In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum’, expressam a dimensão espiritual do homem e o seu destino.

Deus, Pai, Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito, que a carne que o continha, essa, ficará agarrada a este madeiro enquanto o que de mim resta não for levado ao túmulo, donde ao terceiro dia ressuscitarei, se forem certas as palavras que puseste na minha boca para que as ouvissem os que me seguiam. Censurou-mas Pedro, que me chamou de parte e disse: “Deus te livre de tal. Uma coisa assim nunca te há-de suceder.” E eu respondi-lhe: “Sai da minha frente, Satanás. Impedes-me o caminho, porque não entendes as coisas à maneira de Deus, mas à maneira dos homens.” Foi isto o que eu lhe disse, mas agora, Deus, Pai, Senhor, agora que o meu espírito já deve ter chegado às tuas mãos, permite-me que procure, também eu, entender as coisas à maneira dos homens. Poderá o meu corpo, sem um espírito que o anime, levantar-se e sair do sepulcro, arredando a pedra que lhe tapa a entrada? E outra pergunta mais. Que sucederá comigo durante esses três dias? Apodrecerei? Será já com os primeiros sinais de podridão na cara e nas mãos que me apresentarei diante de Maria Madalena? Vivi no mundo como homem durante trinta anos, primeiro criança, depois adolescente, depois adulto, até este dia. Se te digo coisas que estás farto de saber, é para que compreendas por que razão aparecerei a Maria Madalena antes que a qualquer outro.
Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu? – 
José Saramago, 2007