Posts Tagged ‘ Cristina Fernandes ’

“Do Tejo ao Tibre: músicos e artistas portugueses em Roma no século XVIII”

No âmbito das comemorações do Terceiro Centenário da chegada de Domenico Scarlatti a Lisboa (1719-2019), está patente até 31 Mai 2019 na Biblioteca Nacional de Portugal a Mostra “Do Tejo ao Tibre: músicos e artistas portugueses em Roma no século XVIII”, comissariada por Cristina Fernandes e Pilar Diez del Corral.

Hoje às 17:00 há Visita Guiada por Cristina Fernandes e às 17:30 um Ensaio aberto por Os Músicos do Tejo com Ana Quintans e Bruno Almeida, e a música de Francisco António de Almeida (1703-1754), Georg Friedrich Händel (1685-1759) e Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) – Entrada livre.

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Música no Tempo de Shakespeare

O impacto do legado de William Shakespeare (1564-1616) ao longo dos últimos quatro séculos extravasa largamente os domínios do teatro e da literatura para se estender a outras artes e domínios da cultura e do imaginário colectivo. Nesse universo, a música constitui um elemento fundamental não só pela importância que tinha nas práticas teatrais da Inglaterra isabelina e no próprio discurso poético e teatral de Shakespeare, como pela influência e fascínio que a obra do grande dramaturgo inglês exerceu sobre compositores de todas as épocas. Este potencial inesgotável serve de fio condutor à edição de 2019 dos Dias da Música […]
Excerto do artigo de Cristina Fernandes para o Público (paywall)

Na programação divulgada pela Antena 2, destaco os concertos:
C6 – Tempestade (Divino Sospiro) – Henry Purcell (1659-1695) e as Broadside Ballads de Matthew Locke (1622-1677)
C7 – Time Stands Still (Ensemble Darcos) – Lute Songs de John Dowland (1563-1626)
C8 – Música do Tempo de Shakespeare (The Tallis Scholars) – Thomas Tallis (c. 1505-1585) e William Byrd (1543-1623)
C9 – Itália, Um Cenário para Shakespeare (Marco Beasley) – Dowland em Itália
C10 – Faire is The Heaven (The Tallis Scholars) – William Byrd (1543-1623) e Orlando Gibbons (1583-1625)
D4 – To Play Or Not Play (Os Músicos do Tejo) – William Lawes, Dowland, Byrd e Purcell
D7 – Ars Melancholiae: Sir Henry Umpton his consort (Accademia Del Piacere) – John Dowland (1563-1626)

Frans Brüggen [1934-2014]: o maestro que ressuscitou a flauta de bisel

Depois de ter revelado ao mundo como a flauta de bisel podia ser um instrumento fascinante, Brüggen converteu-se num mestre que inspirou gerações de instrumentistas e num dos mais admirados maestros especializados na música do Barroco e do Classicismo.

Por Cristina Fernandes, Público de 15 Agosto 2014

Figura chave na redescoberta da flauta de bisel no século XX e brilhante maestro no âmbito do repertório barroco e clássico, o holandês Frans Brüggen (1934-2014) faz parte da geração de ouro que impôs definitivamente o movimento da música antiga interpretada em instrumentos de época de acordo com as práticas de execução históricas no panorama internacional. No próximo dia 30 de Outubro, Brüggen tencionava celebrar o seu 80.º aniversário com a Orquestra do Século XVIII, agrupamento que fundou em 1981 e que protagonizou muitas das suas inesquecíveis gravações dedicadas a compositores como Bach, Rameau, Haydn, Mozart e Beethoven, mas a morte acabaria por surpreendê-lo esta quarta-feira, em Amesterdão, a sua cidade natal.


Frans Brüggen plays J.S.Bach and G.F.Händel, works for Recorder and Traverso (Traversflöte – German flute). With Anner Bijlsma (Barockvioloncello), Gustav Leonhardt & Bob Van Asperen (Harpsichord/organ)

Pioneiros como Arnold Dolmetsch ou Wanda Landowska tinham aberto o caminho, mas foi com personalidades como Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken ou o próprio Frans Brüggen que a corrente que viria a ser designada como “interpretação historicamente informada” ganhou a partir da década de 1950 os alicerces que a fizeram explodir em múltiplas direcções. Para além dos princípios gerais que implicavam o estudo dos tratados antigos, estilos e práticas interpretativas, assim como dos contextos que deram origem às obras, vários destes músicos tiveram papéis fundamentais na reabilitação de instrumentos que tinham ficado no esquecimento ao longo de quase dois séculos ou que entretanto tinham sofrido modificações. É o caso de Leonhardt no caso do cravo ou de Bylsma no âmbito do violoncelo barroco, ambos amigos e parceiros de Brüggen em interpretações notáveis do repertório barroco. Frans Brüggen foi o primeiro músico a obter um diploma em flauta de bisel no Muzieklyceum de Amesterdão. Foi aluno de Kees Otten, que tinha sido discípulo de Karl Dolmetsch (pioneiro na redescoberta do instrumento no século XX) e especializou-se também nas versões históricas da flauta traversa, domínios que combinou com estudos no campo da musicologia na Universidade de Amesterdão.


Telemann Fantasie (Frans Brüggen on his famous Bressan Treble recorder (1967)

Durante as décadas de 1960  e 1970 acabaria por se converter na primeira estrela internacional da flauta de bisel, um instrumento que antes era visto como limitado e que ainda hoje é por vezes considerado apenas como uma ferramenta didáctica para crianças.

Brüggen não só devolveu a nobreza de estatuto à flauta de bisel como deu a conhecer ao mundo o seu fascinante repertório da Renascença e do Barroco em interpretações marcadas por uma impressionante agilidade e fluência técnica, meticulosas articulações e variedade de ataques e por uma infinidade de nuances expressivas. A preocupação pelo rigor histórico aliava-se ao seu talento artístico, bem como às capacidades pedagógicas e ao lendário entusiasmo que incutia aos seus alunos, com impacto em várias gerações de músicos. Brüggen foi professor no Real Conservatório de Haia, Erasmus Professor na Universidade de Harvard e Regents Professor na Universidade de Berkeley e interessou-se também pela música contemporânea. Chegou a fundar um grupo de vanguarda em 1972 (Sourcream) e encomendou várias obras para flauta, das quais a mais conhecida é Gesti (1966), de Luciano Berio.

A carreira de Brüggen como flautista solista começou a ficar em segundo plano à medida que crescia o seu interesse pela direcção de orquestra, domínio onde atingiu igualmente uma elevada estatura. Um passo decisivo foi a criação da Orquestra do Século XVIII em 1981, um projecto nascido em conjunto com o musicólogo Sieuwert Verster. Formada por membros de 22 países diferentes, rapidamente atingiu grande notoriedade intenacional graças às digressões anuais e ao contrato discográfico com a Philips. Inicialmente o repertório incidia principalmente no Barroco (Purcell, Bach, Rameau), mas rapidamente se estendeu ao Classicismo (Haydn, Mozart) e aos primórdios do Romantismo (Beethoven, Schubert e Mendelssohn). As suas excelentes gravações podem também encontrar-se em etiquetas como a Harmonia Mundi e a Glossa. Juntamente com os registos como solista e músico de câmara formam um legado imponente de mais de cem discos e revelam o característico gosto de Brüggen pelo detalhe e pela transparência, mas também o seu carisma, energia e inteligência musical.

Como maestro convidado, Frans Brüggen dirigiu diversas formações de primeiro nível como Orquestra do Real Concertgebouw, a Orquestra da Idade do Iluminismo (da qual foi maestro convidado principal), a Orquestra de Câmara da Europa, Sinfónica de Birmingham, a Orquestra do Tonhalle de Zurique, e as Filarmónicas de Roterdão, Israel, Oslo, Hamburgo, Viena e Estocolmo, entre outras. Deixou também a sua marca no Coro Gulbenkian, que estabeleceu uma frutuosa colaboração com a Orquestra do Século XVIII na década de 1990, da qual resultaram diversas digressões conjuntas (com actuações na Holanda, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Holanda, Japão e China) e gravações como a Nona Sinfonia, de Beethoven, e A Criação, de Haydn.

 

Viagens e mestiçagens em torno da viola da gamba

A Accademia del Piacere, criada em 2002 em Sevilha pelos irmãos Fahmi Alqhai e Rami Alqhai, tem vindo a marcar pontos no panorama internacional da música barroca, com destaque para os repertórios italiano, francês e espanhol. O grupo distingue-se também pelas suas incursões noutros campos como é o caso do projecto Las idas y las vueltas, em colaboração com o cantor de flamenco Arcángel, apresentado a 12 Maio 2013 na Gulbenkian no ciclo Músicas do Mundo. Procurando raízes comuns, mas também a liberdade da experimentação, este diálogo entre o flamenco e a música do barroco ibero-americano levou o público do Grande Auditório ao rubro.
Por Cristina Fernandes, Público de 14 Maio 2013.

António Pinho Vargas – Memórias perenes da improvisação

O seu percurso artístico tem dois caminhos paralelos (ou talvez mais sucessivos do que paralelos) que passam pelo jazz e pela música contemporânea. Faz questão de não os cruzar, mas numa experiência como esta ambos estão presentes de forma subterrânea, mesmo que o resultado não seja uma coisa nem outra e deambule por outros universos. Alguns não são reconhecidos pelo próprio músico entre os seus “gestos instrumentais” habituais, mas fazem parte do seu imaginário.
Oscilando entre territórios familiares e aventuras por outras paragens, as criações cuja memória se perpetua neste cd resultam também de um acto de coragem. Um concerto a solo inteiramente improvisado é um exercício sem rede que tanto pode ser fatal como gerar boas surpresas. Felizmente, este é um exemplo do segundo caso.

Excerto do artigo de Cristina Fernandes para o ípsilon de 6 Julho 2012, sobre o lançamento do último trabalho de António Pinho VargasImprovisações” – Concerto no IST, 2011. Editora Althum.

Bach transcendente

Por Cristina Fernandes, in Ípsilon – 16-Novembro-2011

Uma superlativa interpretação de Philippe Herreweghe e do Collegium Vocale Gent

Nas duas últimas décadas Philippe Herreweghe tem sido responsável por algumas das mais belas gravações das Cantatas de Bach. Ao contrário de outros maestros que se lançaram na ambiciosa aventura da integral (como é o caso de Ton Koopman, John Eliot Gardiner ou Masaaki Suzuki), Herreweghe tem optado antes por uma selecção criteriosa de cantatas, unidas por vínculos temáticos diversos, sem a preocupação de ser exaustivo.
Este último volume, intitulado “Jesu, deine Passion“, constitui uma espécie de coroa de glória desse percurso, já que é excepcional a todos os níveis. Toda a música que Bach escreveu é de qualidade superior, mas as quatro Cantatas agora registadas (BWV 22, 23, 127 e 159) representam pontos culminantes do génio do compositor pela sua exaltante inspiração e pela densidade da própria construção musical.
As Cantatas BWV 22 e 23, destinadas ao primeiro domingo antes da Quaresma, funcionaram como “peças de concurso”, quando Bach se candidatou ao lugar de Kantor da Igreja de São Tomé em Leipzig, pelo que é natural que o compositor se tenha esmerado na sua concepção. As BWV 127 e 159 foram escritas para o mesmo serviço litúrgico nos anos seguintes.
A interpretação de Herreweghe e dos seus músicos é primorosa, tanto nos planos técnico e estilístico, como no modo em que combina emoção e espiritualidade. As intervenções do coro revelam uma luminosa transparência, os solistas – a soprano Dorothee Mields, o contralto Matthew White, o tenor Jan Kobow e o baixo Peter Kooy – cantam com enorme convição e um sentido retórico apurado da relação texto-música e os instrumentistas são exemplares, com destaque para os belíssimos solos de oboé (com o grande Marcel Ponseele), que dialogam com as vozes em múltiplas árias. Também as flautas de bisel têm intervenções eloquentes (por exemplo, na ária “Die Seele ruht”, cantada com delicada sensibilidade por Dorothee Mields) ou os trompetes no recitativo “Wenn einstens die Posaunen Schallen”, verdadeira cena dramática evocadora do Juízo Final. A Cantata BWV 159 recorda o universo da “Paixão segundo São Mateus”, destacando-se a poderosa ária de baixo “Es ist vollbracht” e a ária de contralto “Ich folge di nach”, que se desenrola em contraponto com o soprano que entoa a estrofe do conhecido coral “Ich will hier bei dir stehen”.

Domenico Scarlatti

Giuseppe Domenico Scarlatti, virtuoso compositor do barroco tardio, nasceu em Nápoles neste dia 26 de Outubro, no ano de 1685, vindo e morrer em Madrid em 1757.

Johann Sebastian Bach [1685-1750], George Frideric Handel [1685-1759] e Domenico Scarlatti [1685-1757] foram três personalidades fundamentais do Barroco Tardio que, por coincidência, nasceram no mesmo ano. Em comum, possuem também o facto de terem sido exímios intérpretes e improvisadores, e compositores de génio no domínio da música de tecla, ainda que a produção que destinaram a instrumentos como o órgão, o cravo ou o clavicórdio ocupe lugares bem diversos no seu percurso individual. Se hoje recordamos Scarlatti como um compositor indissociável do repertório para cravo (posteriormente adoptado pelos pianistas), a música de tecla ocupa um lugar relativamente circunscrito na produção de Handel e assume-se como um dos pilares centrais no desenvolvimento de Bach enquanto compositor. […]
[…]Scarlatti, na sua passagem pelo nosso país após ter sido contratado para o cargo de compositor da corte por D. João V em 1719, foi professor de cravo da infanta D. Maria Bárbara, que acompanharia após o casamento desta com o futuro rei espanhol, Fernando VI. Intérprete de grandes recursos, a princesa marcaria profundamente a evolução artística do compositor. A simbiose professor-aluna foi tão estreita que Scarlatti passou o resto da vida ao seu serviço, mantendo igualmente laços com Portugal – a primeira colecção de peças que publicou, os “Essercizi per Gravicembalo”, foi dedicada a D. João V em agradecimento pelo título de cavaleiro da Ordem de Santiago. Esta colecção, editada em Londres em 1739, deu-lhe fama internacional.[…]
Excerto de Bach, Handel e Scarlatti:Três Mestres da Música de Tecla do Barroco,
Cristina Fernandes, em catálogo da 7.ª edição do Festival Terras sem Sombra.
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