Archive for the ‘ Aniversário ’ Category

Aniversário de José Bento

No septuagésimo oitavo aniversário do meu roncinante amigo, fica a homenagem ao vulto da cultura portuguesa a quem, em 2006, foi atribuído o 1º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura. É de sua autoria a monumental tradução de Don Quixote de La Mancha de Cervantes, com ilustrações de Lima de Freitas e editada pela Relógio D’ Água.

Recomendo ainda a audição do  Musica Aeterna de Julho de 2009 que o amigo João Chambers dedicou ao Siglo de Oro, que inclui alguns trechos das traduções de José Bento, com quem tive o grato prazer de ouvir este extraordinário podcast.

Sandro Botticelli – Giovanna degli Albizzi Receiving a Gift of Flowers from Venus, 1486

Para Botticelli

Pressinto que o mundo cresce de teus dedos
quando num clarão mortal se rasgam asas
e faces lívidas de anjos
choram suas raízes arrancadas do chão.

Quando o vento grita em teus cabelos
que não é o mar a seara que se ondula.

Quando um perfil destrói em si a noite
e o teu peito,
onde límpida era a sua côr.

Quando uma árvore frutifica a sua solidão
e se ilumina
com um súbito canto
ou um vulto quase irreal de ser tão breve.

Quando, de olhos sangrentos,
sentes nitidamente o anoitecer
e exausto abandonas a cabeça a mãos ausentes:
náufrago de veias que prolongam a terra,
transfigurado no rosto
onde a manhã te anuncia o seu regresso.

in Silabário, de José Bento

O Beijo – Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena – 19/5/1971. In Antologia Poética, 1999. Porto: ASA.

Biografia (Via http://www.astormentas.com/)
Escritor português, natural de Lisboa e naturalizado brasileiro, em 1963. Estudou em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Luís de Camões, onde, segundo o próprio, «andava já fazendo versos». Em 1937, entrou para a Escola Naval. A 1 de Outubro do mesmo ano, partiu no navio-escola Sagres, em viagem de instrução, que decorreu até Fevereiro do ano seguinte, após o que foi demitido da Armada. Entrou então para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Num jornal da faculdade, Movimento, publicou o poema Nevoeiro. Estabeleceu contacto com a revista Presença, através de Adolfo Casais Monteiro, a propósito de um poema de Álvaro de Campos. Desse contacto veio a resultar a ligação aos Cadernos de Poesia, onde Sena publicou, em 1940, os sonetos Mastros e Ciclo, e cuja direcção integrou durante algum tempo com Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José Augusto França. Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil.
A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas. Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa. Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963. Em 1965 seguiu, também como professor, para a Universidade do Wisconsin (EUA) e, cinco anos mais tarde, para a Universidade da Califórnia, onde veio a chefiar os departamentos de Espanhol e Português e o de Literatura Comparada, cargos que manteve até 1978. Recebeu o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina pelo conjunto da sua obra poética e foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique por serviços prestados à comunidade portuguesa. Recebeu, postumamente, a Grã-Cruz da Ordem de Sant’iago. Em 1980, foi inaugurado o Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade de Santa Barbara.
Para além da sua actividade como escritor e professor, Jorge de Sena empenhou-se na divulgação de autores e correntes estrangeiras (sobretudo de origem anglo-saxónica) através de inúmeros estudos, conferências e traduções. Em 1941, fez uma conferência sobre Rimbaud intitulada «O Dogma da Trindade Poética» e, no ano seguinte, iniciou a sua actividade crítica com um artigo sobre o escritor cabo-verdiano Jorge Barbosa. Em 1944, publicou um texto de apresentação do surrealismo, «Poesia Sobrerrealista», primeira divulgação deste movimento em língua portuguesa, traduzindo ainda textos de André Breton, Paul Éluard, Benjamin Péret e Georges Hugnet. Outros autores que ajudou a divulgar foram T.S. Eliot, Cavafy, Auden, Hemingway, Bertold Brecht e William Faulkner. Colaborou regularmente, como crítico, no semanário Mundo-Literário (1946-48) e numa série de outras publicações ligadas à literatura, em Portugal e no estrangeiro.
Como ensaísta, são fulcrais os seus estudos da vida e obra de Camões e de Fernando Pessoa. Em 1948, proferiu a conferência «A Poesia de Camões, Ensaio da Revelação da Dialéctica Camoniana», no Clube Fenianos Portuenses, com que inaugurou a série de trabalhos que viria a realizar sobre o autor, procurando linhas de análise inovadoras em relação ao academismo dos estudos camonianos portugueses. Em Agosto de 1959, participou no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros na Universidade da Baía, com o estudo «O Poeta é um Fingidor»>. Defendeu, como tese de doutoramento em Letras e de livre-docência em Literatura Portuguesa, «Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular», em 1964. Em 1970 publicou A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI. Efectuou uma série de viagens pela Europa, América e África, relacionadas com as comemorações do 4º centenário de publicação de Os Lusíadas, e organizou as edições camonianas, promovidas pela Imprensa Nacional, das Rimas e de Os Lusíadas, comentados por Manuel de Faria e Sousa. Em 1973, publicou o poema «Camões dirige-se aos seus contemporâneos»>. A literatura portuguesa da época clássica, aliás, mereceu-lhe particular atenção, o que se reflecte na sua própria obra poética, nas suas múltiplas intertextualidades.
Jorge de Sena foi poeta, dramaturgo, ficcionista e historiador da cultura. Não se filiando em nenhuma escola literária, foi influenciado por várias correntes (nomeadamente pelo surrealismo, sobretudo em aspectos técnicos), numa tentativa de superar as tendências da época que passou por várias formas de experimentalismo. No entanto, a estes aspectos modernos da sua poesia aliou recursos da tradição medieval e renascentista, tornando a sua obra, simultaneamente, clássica e revolucionária. Disso é exemplo a utilização que, por vezes, fez do soneto: a par da forma clássica deste tipo de poema, surge um experimentalismo sintáctico e morfológico que subverte as fronteiras entre classicismo e modernidade, superando-as. Toda a sua obra, aliás, se orienta por esta tentativa de superação: superação dos antagonismos entre escolas literárias (realismo social, surrealismo, experimentalismo), de certas oposições humanas com raízes na cultura ocidental, como as de corpo/alma, ciência/poesia, bem/mal, Deus/homem. Esta superação tem raízes filosóficas na dialéctica hegeliana e no marxismo, reconhecidas pelo próprio escritor. Para Jorge de Sena, a poesia era, ela mesma, uma forma de testemunhar e transformar o mundo; da relação estabelecida entre o sujeito poético e o objecto que ele tomava como matéria da sua poesia resultava uma outra entidade — o próprio poema, objecto estético constituído por meio da linguagem. A poesia era, assim, uma forma de intervenção, embora entendida de forma diversa do neo-realismo. Mesmo em Coroa da Terra, que tem afinidades temáticas com este movimento, encontram-se técnicas surrealistas que dele se afastam.
Num lirismo depurado, Jorge de Sena levou muitas vezes a cabo uma crítica mordaz e irónica da realidade, aqui e ali de forma provocadora ou dolorosa. É de destacar a sua visão irónica de certos mitos da tradição cultural portuguesa, satirizando frequentemente aspectos provincianos ou saudosistas do entendimento do país e do seu povo no mundo (veja-se, por exemplo, a peça O Indesejado, sobre D. António, prior do Crato, na sua ligação com o sebastianismo nacional). O autor continua uma linha de lucidez satírica que se encontra já em escritores portugueses de épocas anteriores.
Na poesia, Jorge de Sena estreou-se com Perseguição (1941). Publicou ainda Coroa da Terra (1947), Pedra Filosofal (1950), As Evidências (1955), Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de Música (1968), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), Exorcismos (1972), Conheço o Sal e Outros Poemas (1974), Poesia I (1977), Poesia II (1978) e Poesia III (1978).
Como dramaturgo, publicou, em 1951, O Indesejado, e a peça em um acto Amparo de Mãe. Em 1952 saiu Ulisseia Adúltera, em 1969, O Banquete de Dionísos, e, em 1971, Epimeteu ou o Homem Que Pensava Depois.
A sua obra de ensaio, fundamental nos estudos literários do século XX português, inclui a recolha Da Poesia Portuguesa (1959), O Poeta é um Fingidor (1961), O Reino da Estupidez (1961), Uma Canção de Camões 81966), Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (1969), A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI (1970), Maquiavel e Outros Estudos (1973), Dialécticas Aplicadas da Literatura (1978) e Fernando Pessoa & Cia. Heterónima (1982), entre outros.
A obra ficcional de Jorge de Sena foi produzida sobretudo entre 1959 e 1965, embora a sua edição seja por vezes posterior. Escreveu Andanças do Demónio (1960, contos), Novas Andanças do Demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), Sinais de Fogo (romance publicado postumamente em 1979) e O Físico Prodigioso (1977).
Postumamente, foram publicadas várias antologias e ainda Visão Perpétua.

Bitches Brew – Legacy Edition

O duplo álbum “Bitches Brew” não é de fácil digestão. Acontece que esta semana é colocada à venda a especialíssima reedição dos 40 anos, o que faz com que, além de continuarmos a querer Miles, teremos os próximos 40 anos para o degustar. No final da vida vão ver que valeu a pena o investimento


We want Miles!

Por Rodrigo Amado – Ípsilon, 26-08-2010
40 anos depois, “Bitches Brew” regressa em reedição: um dos discos mais determinantes da história da música, cuja influência se estendeu muito para além do jazz, atingindo, em sucessivas ondas de choque, o rock, o funk ou o hip-hop. O tempo passou, mas continuamos a querer Miles
Em 1970, o Concorde realiza o primeiro voo supersónico, o Brasil vence a Itália no campeonato do mundo, e o universo da música está ao rubro. Os Beatles anunciam oficialmente a sua separação, morrem Jimi Hendrix e Janis Joplin, Iggy Pop e os Stooges gravam o genial “Fun House” e saem, pelos Black Sabbath, “Black Sabbath” e “Paranoid”, considerados os primeiros verdadeiros álbuns de heavy-metal.
Nesse mesmo ano, com os Beatles a desmoronarem-se e o heavy-metal a aparecer, Miles Davis (1926-1991), trompetista que viria a tornar-se um dos mais influentes músicos do século XX, também deu notícias. Eram notícias importantes: “Bitches Brew”, o álbum que lançou em 1970, foi um disco de culto antes de se transformar num clássico intemporal, um dos primeiros discos de jazz a estender a sua influência muito para além das fronteiras do género, atingindo, em sucessivas ondas de choque, todo o espectro musical, do rock à soul, do funk ao hip-hop. Agora que faz 40 anos, “Bitches Brew” reaparece, em reedição histórica, já na próxima terça-feira, dia 31. Reaparece é maneira de dizer: ao longo destas quatro últimas décadas, a música popular nunca deixou de estar sob influência, sob a sua influência.
Nesse ano em que editou “Bitches Brew”, Miles era já uma estrela. Levava um modo de vida aristocrático, dividido entre mulheres belíssimas (teve casos com Juliette Gréco e Jeanne Moreau), carros desportivos, uma mansão em Nova Iorque e uma “villa” de luxo em Malibu, na Califórnia. Muitos jovens, sobretudo negros, copiavam a sua forma de vestir e chegou mesmo a ser feito um anúncio para a gigante Bell Telephone em que um homem falava ao telefone com uma mulher: “Estava aqui sentado a ouvir o Miles Davis tocar ‘My funny valentine’, e lembrei-me de ligar…”.
Miles fazia-se pagar caro. Os seus concertos eram disputados a preço de ouro pelos promotores mais conceituados, para os quais à qualidade da música se somava o efeito curiosidade que a figura de Miles despertava. Uma curiosidade instigada pelos mitos que circulavam em seu redor, alimentados pelo feitio irascível do trompetista, mistura explosiva de uma desarmante sinceridade e de um ego do tamanho do mundo. Numa ocasião, perguntou ao saxofonista Bob Berg porque tinha feito um solo onde não era suposto. Berg respondeu: “Estava a soar tão bem que tive de entrar”. “Bob,” respondeu Miles, “a razão por que estava a soar bem era porque tu não estavas a tocar.”
Era implacável, Miles. Numa das raras entrevistas que deu em directo para a televisão, vemo-lo a entrar, carrancudo, e a deixar o entrevistador pendurado, de mão estendida para o cumprimentar. Senta-se sem dizer nada, e começamos a sentir os nervos do jornalista. Quando este finalmente lhe faz, com um sorriso amarelo, a primeira pergunta, “O que pensa dos Beach Boys?”, Miles atira-lhe, seco, “isso não tem piada!” e começa a falar daquilo que bem lhe apetece.
Mas havia outro Miles, aquele que um jornalista da “Playboy” confessou, ter encontrado, depois de com ele passar dois dias: este Miles exercita-se no ginásio de casa, cozinha costeletas de vitela para a família, recebe chamadas de amigos, vê televisão, dá aulas de boxe aos três filhos e, claro, pega num dos trompetes lá de casa para fazer algumas escalas a alta velocidade.
A maldição da mudança
Em Agosto de 69, Miles leva para o estúdio um grupo alargado de músicos: Wayne Shorter (saxofone), Bennie Maupin (clarinete baixo), Joe Zawinul (piano eléctrico), Chick Corea (piano eléctrico), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (contrabaixo), Harvey Brooks (baixo eléctrico), Lenny White (bateria), Jack DeJohnette (bateria), Don Alias (congas) e Jim Riley (shaker). Tendo como indicação pouco mais do que um ritmo, um “riff” ou alguns sinais, os músicos lançam-se em longas “jams” que são depois trabalhadas por Miles e Macero, utilizando técnicas de pós-produção consideradas altamente inovadoras na altura (tape loops, tape delays, reverb chambers ou echo effects). O disco, um LP duplo com uma brilhante ilustração de capa, surreal e psicadélica, composta por Abdul Mati Klarwein – tornar-se-ia um enorme sucesso comercial, com mais de meio milhão de cópias vendidas, algo totalmente impensável para um artista jazz. Apesar de considerado uma “traição” por muitos dos que veneravam o Miles dos anos 50 e 60, este novo som, espacial, pesado, escuro e intenso, coloca de novo Miles à frente das inovações musicais da década.
A liberdade dada aos músicos nas sessões de gravação tornou-se lendária, como Miles comentou em entrevista a Les Tomkins: “Quis que os músicos se mantivessem afastados do que é confortável. Há demasiada porcaria no mundo com a qual é suposto estarmos confortáveis. Temos de nos manter na ponta dos pés, a lutar.”
Foi o que ele fez, de resto. Depois de “Bitches Brew”, Miles não esperou muito tempo para mudar de novo, de forma radical, o seu som. Ele próprio dizia: “Tenho de mudar constantemente, é como uma maldição.”
Do jazz para a pop
Músico em permanente transformação, Miles tinha estado presente, sempre na linha da frente, nas grandes revoluções ocorridas no jazz durante as décadas de 40, 50 e 60, ao lado de Charlie Parker, John Coltrane, Gil Evans, Gerry Mulligan, Cannonball Adderley ou Herbie Hancock, entre muitos outros. Deste período, ficaram obras incontornáveis que marcam definitivamente a história do jazz como “Birth of the Cool”, “Miles Ahead” ou “Kind of Blue”. Mas Miles não se sentia satisfeito com o estatuto atingido, pelo contrário.
Cansado do meio hermético do jazz e fortemente influenciado pela sua companheira de então, Betty Mabry – que se tornaria conhecida como Betty Davis, assinando um par de álbuns históricos -, sentia necessidade de atingir um público mais alargado, ouvindo incessantemente Jimi Hendrix, Sly Stone, James Brown, Santana, Marvin Gaye, ou até mesmo os Beatles, dos quais louvava as técnicas avançadas de pós-produção de álbuns como “Sgt. Pepper’s” ou “White Album”. Por esta altura, aceitava reduções nos honorários, para tocar nas primeiras partes de grupos como a Steve Miller Band ou os Grateful Dead. Com impacto assegurado na história do jazz, o trompetista procurava agora deixar a sua marca na música popular. Para que esta transição acontecesse, necessitava de um som mais eléctrico, fortemente baseado no groove, e estava disposto a assumir a direcção de tudo o que acontecia, no palco ou no estúdio, inscrevendo agora nos seus discos (o primeiro foi “Filles de Kilimanjaro”) a frase “Directions in Music by Miles Davis”. Quando grava, em Fevereiro de 1969, “In a Silent Way”, colaborando de perto com o super-produtor Teo Macero, expande o seu quinteto com a entrada de Herbie Hancock, Joe Zawinul e John McLaughlin, dando início a um som que viria a desenvolver em “Bitches Brew”, um caleidoscópio de ambientes e texturas musicais, marcado por ritmos hipnóticos e improvisações incisivas e agrestes. Um som que pode agora ser visto como a perfeita banda sonora para o final de uma década tumultuosa, com o mundo a beira do colapso, refém das convulsões sociais de 69, da Guerra Fria e do pesadelo do Vietname.
Era evidente que ele vinha do jazz, mas não era evidente para onde ele ia. “Sou apenas um trompetista. Consigo fazer uma coisa apenas – tocar o meu trompete -, e é isso que causa toda esta confusão. Não sou um ‘entertainer’ nem procuro sê-lo. Sou apenas um músico. Quando não estou a tocar, estou a pensar em música. Penso nela todo o tempo, quando estou a comer, a nadar, a desenhar. Não gosto sequer da palavra jazz. E não toco rock também. Faço apenas a música que o dia recomenda.”
E os dias, em 1970, recomendavam “Bitches Brew”.
This super-deluxe edition celebrates one of the most remarkable albums in Miles Davis’s career and jazz history in general. Originally released in 1970, Bitches Brew became Davis’s first gold album. This anniversary 4-disc package offers the original album on CD plus an audiophile vinyl pressing on 2 LPs; previously unissued material including extensive live performances of much of the same music including a DVD of the entire Copenhagen performance from November 4, 1969. Also included is a 48-page 12×12 book, memorabilia envelope, and large fold out poster.

Um dos muitos colossos da discografia de Miles Davis, “Bitches Brew” assinala o sucesso das técnicas de pós-produção como parte integrante da música

Ao ouvir os seis temas originais que compõem o duplo LP de “Bitches Brew”, é difícil conceber que nem tudo é o que parece, de tal forma a música soa espontânea, instintiva e natural. Assinalando, em conjunto com “In a Silent Way”, o início da (agora) celebrada fase eléctrica de Miles Davis, “Bitches Brew” foi gravado com uma banda alargada de músicos – Wayne Shorter (saxofone), Bennie Maupin (clarinete baixo), Joe Zawinul (piano eléctrico), Chick Corea (piano eléctrico), John McLaughlin (guitarra), Dave Holland (contrabaixo), Harvey Brooks (baixo eléctrico), Lenny White (bateria), Jack DeJohnette (bateria), Don Alias (congas) e Jim Riley (shaker) -, aos quais se juntou um outro elemento, talvez o “músico” mais importante da banda: o produtor Teo Macero. Em conjunto com Miles, Macero escolheu excertos das longas “jams” que foram gravadas, editando-as em colagens que se tornam posteriormente imperceptíveis, e aplicando-lhes uma série de efeitos de estúdio – loops, delays, reverbs e echos – que fazem com que aquilo que é agora ouvido no disco esteja bastante distante do que foi na realidade gravado.
Em três dias de sessões onde nem tudo correu da melhor forma – em discussão com Macero, Miles chegou a aboandonar o estúdio dizendo aos músicos para fazerem o mesmo e regressando pouco depois, amuado, para continuar as gravações -, músicos e produtor construiram um admirável mundo novo. Aproximando-se dos universos de Sly Stone, James Brown, Jimi Hendrix ou Marvin Gaye, Miles e os seus músicos destilam um som poderoso onde se sobrepõem longos vamps, repetitivos e hipnóticos, e improvisações cruas e incisivas, em espiral, que fazem de “Bitches Brew” uma genial amálgama de rock distorcido, blues, voodoo-funk, jazz progressivo e riffs endiabrados.
Quando termina a sexta faixa extra desta “Legacy Edition”, que inclui ainda um DVD inédito gravado ao vivo na Dinamarca, somos impelidos a ouvir tudo de novo, procurando prolongar a sensação narcótica de abandono deixada pela música, bem espelhada nas imagens surreais e idílicas criadas para a capa por Mati Klarwein. Directo para o topo das reedições do ano!
Relacionado:
Live Jazz: Bitches Brew Remix at the Sunset Junction Festival, por Devon Wendell

Ravi Shankar – The Master

O nonagésimo aniversário do pai da world music, assinalado a 7 de Abril passado, mereceu por parte da Deutsche Grammophon uma edição especial, que reuniu em três discos as suas gravações na editora.

Nos 120 anos de Mário de Sá-Carneiro

O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso.
Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Ama de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ânsia – o papa- açorda,
(Seu coração talvez movido a corda…)
Apesar de seus berros ao Ideal

O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.

Poema Aqueloutro, de Mário de Sá Carneiro
Gravura de Nicolas Poussin – Rinaldo and Armida, 1629

Tribute to Sir John Eliot Gardiner

Sir John Eliot Gardiners Bach pilgrimage – A 60-minute film of Gardiners Millennium Bach pilgrimage tour with excerpts from many other Cantatas, recorded in Weimar, Leipzig, Hamburg, Eisenach, Arnstadt, Blythburgh, Kirkwall, Iona, St Davids, Cologne & New York completes an exceptional title and documents Gardiners remarkable dedication to the music of J. S. Bach.

The Monteverdi Choir was founded in 1964 by Sir John Eliot Gardiner for a performance of the Monteverdi Vespers (1610) in King’s College Chapel, Cambridge. A specialist Baroque ensemble, the Choir has become famous for its stylistic conviction and extensive repertoire, encompassing music from the early Baroque period to Classical music of the 20th century. They often appear with John Eliot Gardiner’s orchestras, the English Baroque Soloists and Orchestre Révolutionnaire et Romantique.

The English Baroque Soloists was formed in 1978 by Sir John Eliot Gardiner and has since established itself as one of the world’s great period-instrument chamber orchestras.

Bach Cantata Pilgramage – When we embarked on the Bach Cantata Pilgrimage in Weimar on Christmas Day 1999 we had no real sense of how the project would turn out. There were no precedents, no earlier attempts to perform all Bach’s surviving church cantatas on the appointed feast day and all within a single year, for us to draw on or to guide us. Just as in planning to scale a mountain or cross and ocean, you can make meticulous provision, calculate your route and get all the equipment in order, in the end you have to deal with whatever the elements – both human and physical – throw at you at any given moment.

“Bach is probably the only composer whose musical output is so rich,
so challenging to the performers and so spiritually uplifting
to both performer and listener alike, that one would
gladly spend a year in his exclusive company.”

“I believe that Bach’s music carries a universal message of
hope and faith which can touch anybody, irrespective of their
culture, religion or musical knowledge.”

“Taken together his cantatas comprise
some of the most consistently beautiful music ever to have
been composed, a corpus of work which counts as one of the
great glories of European music.”
Sir John Eliot Gardiner

Foto de Maciej Goździelewski

Francisco de Goya visionário

O gigante imóvel de punhos em riste e pronto para a batalha, sobre a multidão que foge desordenadamente com o gado, evidencia o domínio que o destino exerce sobre o homem, numa luta entre o céu e a terra.
Nesta obra onírica de Francisco de Goya (30 de Março de 1746 – 15 de Abril de 1828), estamos perante a ambiguidade de saber se o monstrengo personifica a revolução dos homens ou se representa o perigo em si mesmo.
Confesso a pouca sabedoria para compreender este quadro, pois para isso teria de entender a mentalidade humana, cujas crueldade e bondade se entrecruzam ao longo da nossa história. Vou reler Sun Tzu! 🙂

Francisco de Goya - El Coloso, 1808 - Museu do Prado, Madrid

500 Anos da Fundação do Mosteiro da Madre de Deus

Casa Perfeitíssima - 500 Anos da Fundação do Mosteiro da Madre de Deus

Fundado em 1509 pela rainha D. Leonor (1458-1525), mulher de D. João II e irmã de D. Manuel I, o Mosteiro da Madre de Deus cedo se afirmou como um espaço de excepção no contexto português. Por ocasião da comemoração do V Centenário da sua fundação, o Museu Nacional do Azulejo inaugura uma exposição (10 Dezembro 2009 – 11 Abril 2009) dedicada ao edifício, às suas obras de arte e à sua fundadora.
Imbuída do espírito da Devotio Moderna, ou da procura de uma relação mais directa com Deus, D. Leonor foi uma personagem ímpar do universo intelectual e mecenático da Europa do Renascimento. A sua actividade como mecenas, que permitiu tornar o Mosteiro da Madre Deus num dos mais ricos de Lisboa e do reino, é relembrada nesta exposição que junta peças oriundas de várias partes do continente europeu. São peças de pintura, iluminura, cerâmica, têxteis e escultura, que aliam à qualidade técnica uma riqueza iconográfica e de sentido que importa revelar e analisar no entendimento que se pretende desenvolver da figura da própria Rainha e do lugar a que ficou associada.

Ainda sobre os  quinhentos anos da Fundação do Mosteiro da Madre de Deus (1509 – 2009), recomendo a audição do programa produzido por Ana Mântua e João Chambers para a Antena 2, emitido no dia 23 de Junho deste ano, precisamente quinhentos anos depois de a Rainha D. Leonor ter fundado, no sítio de Xabregas, o Mosteiro da Madre de Deus, numas casas que ali adquirira e, nas quais deram entrada, no dia 9 de Junho, sete freiras provenientes do Convento de Jesus de Setúbal. A 23 do mesmo mês, o então Arcebispo de Lisboa, D. Martinho da Costa, sagrava o espaço, onde foi posteriormente construído o edifício. Link do ficheiro áudio em formato Windows Media Áudio

Nikolaus Harnoncourt – 80 anos

Tendo nascido a 6 de Dezembro de 1929 em Berlim, o maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt completa hoje 80 anos, com um percurso de praticamente seis décadas dedicadas à música. É obra!
Entre 1952 e 1969,  Harnoncourt foi violoncelista na Orquestra Sinfónica de Viena, dirigida por Herbert von Karajan. Em 1953 fundou o agrupamento Concentus Musicus de Viena, dedicado a interpretações com instrumentos de época do Barroco. Neste período, gravou a integral das Cantatas de Bach, durante a década de 70 atirou-se a Claudio Monteverdi e na década de 80 a Wolfgang Amadeus Mozart. Para se ter uma ideia da ampla discografia de Harnoncourt, recomenda-se uma visita a esta página.

Claudio Monteverdi | Vespro della beata Vergine | Nicolaus Harnoncourt

Opera “Armida”, de Joseph Haydn | Dueto: Cara, sarò fedele Armida: Cecilia Bartoli, Rinaldo: Christoph Prégardien
Orquestra: Concentus Musicus | Maestro: Nikolaus Harnoncourt

Andrea Palladio

Nesta data, em 2008, assinalaram-se os quinhentos anos do nascimento do genial arquitecto do Renascimento. Influenciado pela arquitectura clássica grega e romana, o estudioso Andrea Palladio, que viveu entre 1508 e 1580, obteve reconhecimento com o Tratado “Os Quatro Livros da Arquitectura”, publicado em 1570. Do seu legado de Villas, um destaque especial para a Villa Rotonda, arredores de Vicenza, na qual conjugou quatro templos numa só estrutura.

Villa Almerico Capra, conhecida como “La Rotonda”, de Andrea Palladio. Foi construída entre 1566 e 1580.