Musica Aeterna – Guillaume Dufay

Esta página foi elaborada a partir do texto gentilmente cedido por João Chambers, que produziu o MUSICA AETERNA – Programa 410 – 10 de Outubro de 2009  (Episódio 040)

(CD GLOSSA GCD P 31902 – Faixa 7 – 5’45)


Como prelúdio do MUSICA AETERNA de hoje incluímos de Guillaume Dufay, compositor francês que viveu, talvez, de 1397 a 1474 e, exercendo a sua arte num período de relativa estabilidade harmónica, se destacou mais como um artista completo do que, propriamente, por ser um inovador ousado, o motete Anima mea liquefacta est. Elaborado para a liturgia católica sobre um cantus firmus gregoriano, ou seja, uma melodia sobre a qual se realizava o primitivo contraponto medieval, esta obra, concebida para três vozes e soando de um modo singularmente arcaico como se pretendesse evocar uma atmosfera gótica, teve como solistas os sopranos Alena Dantcheva e Laura Fabris e o tenor Giuseppe Maletto que dirigiu, também, o agrupamento Cantica Symphonia.

Nos dias de hoje julga-se que a obra de Dufay terá difundido uma forte influência em diversos países da Europa de então, sendo, no entanto, no poder de clarificação que, eventualmente, será necessário reconhecer o efeito mais notável de um imenso génio criador. Com efeito, a complexidade desconcertante caracterizadora do primeiro quartel do século XV foi sendo gradualmente definida e o estilo e a técnica que coexistiam, sem, contudo, manifestarem um rumo bem definido, deram início a uma influência dotada de uma muito maior clareza. Este novo elucidar determinaria, de forma inequívoca, o repertório profano, onde a afinidade entre os vários géneros e, bem assim, o estilo próprio de cada um deles surgiam bem definidos. Mas, no domínio das criações sacras, descobriu-se, igualmente, que o impulso por ele dado dissipou, de forma singular, todas as incertezas onde se haviam movimentado os seus antecessores.

(CD ALPHA 051 – Faixa 3 – 10’03)

Terá sido devido aos esforços desenvolvidos por Dufay que se concedeu um progresso essencial à música religiosa, particularmente no domínio do Ordinário da Missa. Deste modo, nos dias de hoje não subsistem quaisquer dúvidas de que, durante a sua geração, foi ele o principal mentor do desenvolvimento da forma, conteúdo e técnica de composição dos ofícios polifónicos e, em certa medida, nas dos sucessores. Mas, a importância crescente que se atribui ao respectivo ciclo coloca, ainda, alguns problemas. Na realidade, devido à circunstância de ter sido já no final da vida que a liturgia cíclica iria predominar, julga-se que a atitude por ele tomada relativamente àquela forma musical terá evoluído de forma considerável, facto originador de passar a ser considerado para a posteridade como o mais fecundo e elaborado dos autores da época. Se, no início da actividade criadora, concedeu uma muito maior ênfase ao género profano, tal significa claramente que os predecessores haviam proporcionado, já no século XIV, uma divulgação mais consistente deste repertório. Assim, tem-se conhecimento de que terá explorado e desenvolvido uma considerável herança harmónica, permitindo classificá-lo como um fiel prossecutor de estilo emergente estreitamente associado a um passado recente não apenas no seu todo mas, também, no que se refere a algumas concepções, bem definidas, formadas no domínio do género profano. Esta união jamais seria quebrada, inclusive quando passou a interessar-se, sobretudo, pela música sacra. No entanto, será um equívoco considerar o legado musical indiscutivelmente dividido em dois períodos, uma vez que, por um lado, jamais abandonaria, por completo, aquela forma musical e, por outro, diversas obras religiosas terão sido publicadas no início da carreira.

(CD ARCHIV 447773 – Faixa 1 – 6’23)

Devido ao facto da música sacra ter ocupado um lugar anteriormente pertencente à profana, durante o século XV a evolução das novas tendências e a profunda transformação ocorrida no repertório contemporâneo iriam conduzir a uma verdadeira revolução. Deste modo, e numa forma totalmente inovadora para a época, Dufay serviu-se dos ideais e formas de peças religiosas, enquanto, até então, os géneros profanos orientavam todo e qualquer pensamento artístico. Consequentemente, dar-se-ia uma viragem de importância fundamental que historiadores e musicólogos ainda hesitam em considerar unicamente sob o ponto de vista musical, julgando-se mais razoável ter sido uma renovação da intensidade do sentimento religioso a causa prima daquelas importantes transformações.

(RDP CD 11625 ARCHIV 447772-2 – Faixa 3 – 9’22)

Foi no século XV que se estabeleceu uma relação directa entre um movimento religioso ligado ao misticismo dos eclesiásticos flamengos Geert Groote e Jan van Ruisbroek e a nova música sacra, com a implementação de um movimento de renovação da vida espiritual originário dos Países Baixos – a Devotio moderna. Com efeito, se bem que uma tal aproximação proporcione sempre interessantes e variadas possibilidades, será sempre conveniente verificar a sua exactidão, visto o problema colocado ser de importância considerável. Na realidade, aquela acção espiritual surgiu quando Groote fundou e constituiu, cerca de 1380, na residência de um eclesiástico da diocese de Utrecht, a “Confraria da Vida Comum”. Porém, mais tarde, numerosas instituições análogas seriam, também, fundadas nas principais cidades holandesas e, quase em simultâneo, na Alemanha central e setentrional, tendo a intensificação dos actos devotos que difundiam o ideal sacro ter como consequência um interesse particular marcado pelo ensino e a educação.

(CD ALPHA 051 – Faixas 4 e 5 – 9’01)

Tal como era hábito durante o século XV, o que impelia os eclesiásticos a reunirem-se em comunidade era, antes de mais, o desejo de se afastarem da corrente, cada vez mais intensa, de cedência, frivolidade e indiferença religiosa aliciadoras de clero e laicos. Para levar uma vida piedosa em comunhão era, pois, imperioso suportar regras severas de humildade e pobreza sem que, todavia, fosse obrigatório pronunciar os votos. Por outro lado, não se afastando do “mundo” e das várias actividades que o regia, exerciam um rol imenso de profissões onde cada qual tinha por obrigação oferecer uma quotização para os fundos públicos.

Tal como tantos outros movimentos do género, a “Confraria da Vida Comum” estimulou a suspeição e a hostilidade da Igreja relativamente aos irmãos mendicantes, levando-os a  sentirem-se ameaçados apesar da degradação da sua conduta lhes ter, bastas vezes, atraído a censura dos mais eminentes eclesiásticos. No entanto, graças aos louvores entusiastas de diversas personalidades aristocráticas, aquela congregação seria aprovada, em 1415, durante o Concílio Ecuménico de Constança, o décimo sexto da Igreja Católica. Proposto por Segismundo do Luxemburgo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, e convocado pelo antipapa João XXIII teve como objectivo terminar com o Cisma do Ocidente, o que foi conseguido com a eleição de Martinho V para chefe da igreja católica, a condenação dos reformadores boémios João Huss e Jerónimo de Praga e a introdução de novas reformas em matéria de natureza tributária e administração fiscal.

(CD ARCHIV 447773-2 – Faixa 13 – 11’28)

Após a propagação da sua influência julga-se que a “Confraria da Vida Comum” tenha afectado, sobretudo, as numerosas comunidades existentes nos Países Baixos e na Alemanha setentrional estrategicamente estabelecidas ao longo do Reno. Respondendo a uma petição apresentada por aquela irmandade durante os primeiros anos do movimento e ignorando-se como terá conseguido implantar-se em França, a Universidade de Colónia redigiu um relatório oficial sobre a legalidade da Devotio moderna. Este movimento, considerado como sujeito a estritas e exigentes regras de actividade, apenas limitava a sua expansão aos mencionados países, se bem que os respectivos ideais fundamentadores pudessem apenas ser encontrados em terras gaulesas.

(RDP CD 11625 ARCHIV 447772-2 – Faixa 4 – 8’00)

Em relação à evolução musical quatrocentista e, em particular, ao desenvolvimento de repertório de cariz religioso, não subsistem dúvidas de que a essência do problema era a questão da influência da Devotio moderna em França, visto, por um lado, não se descortinar ali qualquer sinal da sua existência e, por outro, devido aos gauleses jamais terem fundado no próprio país uma instituição da confraria. No entanto, surpreendentemente, de todo o clero reunido no concílio de Constança terão sido dois teólogos franceses – Pierre d’Ailly e Jean Gerson – os encarregados de defender um movimento de que conheciam, desde há muito, a existência. Apesar de Geert Groote ter efectuado os seus estudos no Colégio de Navarra da Universidade de Paris e, nessa época, aqueles serem ainda demasiado jovens para o terem ali reencontrado, absolutamente nada indica que tenham adoptado a respectiva doutrina. Existia, no entanto, um campo de entendimento entre os três, isto é, os ideais de Groote relativamente à intensificação da religiosidade reencontraram inúmeras referências nos reformistas d’Ailly e Gerson, os quais meditavam, sobretudo, na repressão dos exageros enquanto aquele numa reforma interna.

(CD ALPHA 051 – Faixa 7 – 9’52)

São manifestamente insuficientes e incertos os elementos históricos actualmente conhecidos relativamente a França, sendo, no entanto, possível, que o clima religioso e o ambiente geral tenham tido referências comuns com as aspirações da Devotio moderna. Não obstante, nos dias de hoje desconhece-se ainda como terá Dufay reencontrado o rumo seguido pelo movimento religioso, sendo deveras improvável que, durante os anos de juventude passados em Cambrai, mesmo já existindo, tenha exercido alguma influência sobre ele. Durante a fase decisiva da sua formação artística na Península Itálica, onde a acção era totalmente desconhecida, e nas relações com a corte de Sabóia e Amadeu VIII, futuro papa sob o nome de Félix V, a partir do seu retiro, Dufay não podia sentir-se conduzido a uma “regeneração” religiosa. Se aquele representava uma forma obsoleta de piedade medieval a célula monacal onde se isolou denominava-se “Castelo de Ripaille, a qual, apesar dos relatos dos contemporâneos relativamente aos hábitos da fortaleza, que significa “fazer festança”, manter-se-ia para as gerações futuras como a expressão proverbial designativa de uma vida de luxos, prazeres e ociosidades.

(CD GLOSSA GCD P 31902 – Faixa 9 – 8’42)

A que causa se deverá atribuir a enorme preponderância da música sacra em meados do século XV? Se não se aceitar que a Devotio moderna desempenhou um papel deveras determinante motivado pelas contradições e imprecisões dos testemunhos da época, será impossível demonstrar uma outra acção ter estado na origem do desenvolvimento daquele género, restando, apenas, encontrar uma relação de causa e efeito. Grande parte da existência de Dufay terá, pois, sido marcada pela vida na corte e a proximidade com a nobreza e o prelado, encontrando-se a harmonia das vidas mundana e religiosa de então estabelecida conforme os princípios da Idade Média.

(CD ARCHIV 447773-2 – Faixas 3 e 4 – 12’33)

Dufay iniciou a sua educação e carreira musicais em Cambrai sob as ordens de Nicolas Malin e Richard de Loqueville, mestres do coro da respectiva catedral, supondo-se que terá ali permanecido até meados da segunda década do século XV. Porém, em relação a saber se se terá de início dirigido a Constança em 1417, para ali receber novos ensinamentos de Pierre d’Ailly, ou se seguiu directamente para a Península Itálica é assunto que ainda permanece desconhecido de historiadores e musicólogos. Três anos mais tarde partiu para Rimini, onde, durante quase uma década, colocou todo o seu saber artístico ao serviço da nobre família Malatesta, prosseguindo a profissão, em ambiente sumptuoso, nas cúrias pontificais de Ferrara, Borgonha e Sabóia. O relacionamento com as duas primeiras cortes episcopais estendeu-se por dois períodos, num total de sete anos, e com aquela última, segundo os próprios escritos, durante outros oito, com diversos intervalos impossíveis de determinar. Se bem que tenha sido nomeado capelão do duque de Borgonha e apesar de lhe ter especificamente dedicado algumas partituras, apenas iria ali desempenhar cargos honoríficos. Mais tarde, obteve, talvez em Bolonha, o diploma de bacharel em direito canónico e, na fase final da vida, renovou as ligações profissionais a Cambrai, onde iria permanecer, a partir de meados do século, no intervalo das diversas viagens efectuadas a vários países da Europa central. Prebendas valiosas, doações e honrarias concedidas referenciaram-no para a posteridade como uma personalidade de elevada consideração e estima e para os estudiosos actuais da arte dos sons como uma das mais eminentes figuras da História da Música Ocidental.

Guillaume Dufay morreu naquela cidade no dia 27 de Novembro de 1474. Tinha cerca de 77 anos de idade.

(CD ALPHA 051 – Faixa 9 – 8’00)

A finalizar o MUSICA AETERNA de hoje transmitimos de Guillaume Dufay, compositor francês que viveu, talvez, de 1397 a 1474 e, exercendo a sua arte num período de relativa estabilidade harmónica, se destacou mais como um artista completo do que, propriamente, por ser um inovador ousado, o Sanctus extraído da absolutamente notável Missa Se la face ay pale. Elaborado, em data desconhecida, durante a fase em que exerceu o cargo de mestre de capela da corte de Sabóia e constando de uma obra a dever o seu nome ao famoso cântico profano epónimo, este fragmento teve como intérprete o agrupamento Diabolus in Musica segundo os preceitos genéricos de reconstituição histórica. Dirigiu Antoine Guerber.

Refira-se, ainda, o facto de, para além de peças avulsas constantes da citada obra, terem sido escutados outras eduzidas da Missa de Santo António de Pádua e dois motetes com desempenho dos agrupamentos Pomerium de Alexander Blanchly e Cantica Symphonia de Giuseppe Maletto, respectivamente.

(CD ARCHIV 447773-2 – Faixa 14 – 1’30)

MUSICA AETERNA – assistência técnica de Ana Almeida e apresentação de João Pedro num programa concebido e realizado por João Chambers. Tempo total de música: 1h40’08.
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    • patricia
    • 11 de Outubro, 2009

    Extremo bom gosto

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