Archive for the ‘ Artes ’ Category

A Aguadeira

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

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Poema Angela Adonica, de Pablo Neruda.
Composição A Aguadeira,de Miguel Ângelo Lupi, séc. XIX – CMAG

Celebração da vida


Soneto del vino

¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto

otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luis Borges (24 Agosto 1899 – 14 Junho 1986)

Museu do Côa – “Nós na Arte”

A Exposição “Nós na Arte – Tapeçaria de Portalegre e Arte Contemporânea” resulta de uma parceria entre a Fundação Côa Parque e o Museu da Presidência da República. As obras expostas em tapeçaria reproduzem trabalhos de Almada Negreiros em painéis de 4mx2,5m, obras que já percorreram outros locais, dando agora uma oportunidade sublime aos naturais da região do Côa e não só!
De 18 de Maio a 30 de Setembro de 2012, no Museu do Côa. Via José Ribeiro.

Noli Me Tangere

GIOTTO di Bondone (b. 1267, Vespignano, d. 1337, Firenze)
Scenes from the Life of Mary Magdalene: Noli me tangere, 1320s
Fresco | Magdalene Chapel, Lower Church, San Francesco, Assisi

Lúmen

A força invisível da mão que segura o corpo contorcido de Cristo, descido da cruz.

Um corpo que se abandona, mas que nunca mais deixará de ser habitado, primeiro fóssil luminescente, em seguida luz pura.

Este corpo é já vestígio, memória. Mas é também recomeço. Indício.
Caminho para a luz. Para o que é ígneo.
A evocação do fogo que arde sem se ver, como uma paixão que se derrama numa intensidade luminosa.

Semelhante paixão (ou natureza) está contida na rocha, no sílex, que, raspado, produz faúlhas nos ramos retorcidos da árvore, combustível.
Será talvez uma oliveira, talvez não. Se for oliveira, então evoca a luz, a imortalidade, a relação cósmica, a morte e o monte famoso.

Imagens da Exposição de fotografias «Lúmen», de André Gomes.
Museu Nacional de Arte Antiga (Abril-Maio de 2006).

The Divine Comedy by Dante Alighieri

The masterpiece of the Florentine poet Dante Alighieri (1265-1321), The Divine Comedy was the most widely illuminated book of medieval literature, embraced as a subject for manuscript illumination within a decade of the author’s death. Conceived as an epic poem in three parts – Inferno (Hell), Purgatorio (Purgatory), and Paradiso (Paradise) – which are in turn subdivided into short sections called cantos, the Comedy is Dante’s personal account of a vision that he had during Holy Week in the year 1300.
The codex in New Haven is one of the finest examples of early Divine Comedy manuscripts to have survived, its remarkable state of preservation allowing full appreciation of the brilliant decoration and regular, harmonious writing. Conforming to an early type of Divine Comedy illustration, the illuminations are confined to the first page of each book, rather than to the whole text, as in later.
On folio 11, within an orange initial N (“Nel mezzo del cammin di nostra vita” [In the middle of the journey of our life]), marking the beginning of the first canto of the Inferno, appears an enthroned figure of Divine Justice. Winged, with a polygonal nimbus framing her head, and wearing a white and pink gown lined with green, she is seated on a lion, bearing a raised sword in her right hand and scales in her left. The brilliant palette, large, simplified forms and schematic rendering of the features are clear indicators of Don Simone’s authorship.

The second illuminated leaf is folio 27v, on which a large initial P in the middle left of the page, containing a second nimbed female figure with pink wings and an orange robe over a gilt tunic, illustrates the first canto of the Purgatorio (“Per correr migliore acqua alza le vele” [To course over better waters (now) lifts her sails]). Seated on a bank of clouds against a blue background, the figure cradles in her lap a nest in which perches a pelican feeding her young with blood from her own breast; an image known as the Pelican in Her Piety, it was a popular medieval symbol for the sacrifice of Christ and emblematic of Charity.

The last illuminated page is folio 54r, containing a large letter L to illustrate the beginning of the first canto of the Paradiso (“La gloria di colui che tutto muove” [The glory of him who moves all things]). Within the initial stands a third nimbed figure with green wings, wearing a white cape lined with green and orange and a blue dress, on which is emblazoned a head surrounded by golden rays. She is holding burning flames in both hands, while above her head floats a blue disk studded with stars, among which is visible a small crescent-shaped moon. The identity of this figure is less easily ascertained than in the previous two initials in the codex. It can be identified most probably as Divine Love.

Iluminator: Don Simone Camaldolese (active 1378-1405 in Florence)
Italian illuminator. He was a Camaldolese monk of Santa Maria degli Angeli, Florence, the scriptorium of which was an important centre of manuscript production. Documented there between 1378 and 1389, he was a slightly younger contemporary of Don Silvestro dei Gherarducci, and he was probably the teacher of Lorenzo Monaco. His signature Simon de Senis in an Antiphonary completed in 1381 (Florence, Biblioteca Medicea-Laurenziana) indicates that he was from Siena, although his work shows both Florentine and Sienese stylistic traits. His sweet, lyrical colour range of pale straw-yellows and lively turquoise shades shows knowledge of such Sienese artists as Lippo Vanni, while the ponderous forms are typical of the prevalent style practiced by such artists as Andrea and Jacopo di Cione Orcagna and Giovanni del Biondo in mid-14th-century Florence. Source.

Rómulo de Carvalho / António Gedeão

Na passagem do décimo quinto aniversário da morte do homem de ciência e poeta, destaco a homenagem que a Casa das Letras, dos ilustres Pedro Foyos e Maria Augusta Silva, presta à pessoa partida ao meio.

Outras ligações úteis:
Entrevista de Maria Augusta Silva em 1995
Páginas da Biblioteca Nacional  e do Instituto Camões.

«A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer
sempre preferi o morrer.
Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta.
Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles
que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.» (…)
«O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta
permanente e feroz em que cada um busca a
satisfação dos seus interesses exactamente como outros
seres vivos, animais ou plantas, que se atacam.»

Exposição – Fernando Pessoa, Plural como o Universo

Fundação Calouste Gulbenkian | De 10 Fev 2012 a 30 Abr 2012 |
Curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith | Imagens de Márcia Lessa
Exposição dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, que pretende mostrar toda a multiplicidade da obra do grande poeta de língua portuguesa, conduzindo o visitante numa viagem sensorial pelo universo de Pessoa, para que leia, veja, sinta e ouça a materialidade das suas palavras. Com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith, nesta exposição encontra-se um espaço repleto de poemas, textos, documentos, fotografias e pintura, onde se incluem raridades como a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
Nascida de uma colaboração entre a Fundação Roberto Marinho (Brasil) e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, com o apoio da Fundação Gulbenkian, esta exposição foi inaugurada em São Paulo, em 2010, e apresentada no Rio de Janeiro em 2011. Em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, a exposição assinala o Ano do Brasil em Portugal.

Fernando Pessoa, Plural como o Universo tem várias componentes. Um dos espaços é reservado à apresentação, em compartimentos delimitados, do ortónimo e dos quatro mais importantes heterónimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Noutra parte, encontra-se uma recolha de textos, cuja tónica é mostrar como puderam conviver, no espírito de Pessoa, os heterónimos, os escritos autointerpretativos e todos os outros projetos que o poeta ia desenvolvendo, num processo dinâmico e simultaneamente solitário. A exposição inclui ainda documentos inéditos, pinturas e alguns objetos nunca antes expostos em Portugal.
Os visitantes têm à sua disposição exemplares de toda a obra de Fernando Pessoa, em português e traduzidos para outras línguas, para que esta mostra possa também ser uma oportunidade para a leitura ou releitura, num espaço pouco usual, dos múltiplos e diferenciados escritos do poeta.
A componente multimédia da exposição é constituída por filmes, vozes e sons, poemas ditos e páginas de livros que, com um só toque do visitante se alternam e folheiam, fazendo uso das tecnologias atuais. O visitante pode escolher assim o seu próprio percurso perante a multiplicidade de escritos e registos existente.

Musica Aeterna – Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786)

Comemorada no passado dia 24, a efeméride dos três séculos da nascença de Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786), o qual, na política interna, personificou a imagem do “despotismo iluminado”, realçada, para além de obras do próprio, através de repertório dos contemporâneos Franz Benda, Ludwig Christian Hesse, Johann Gottfried Müthel, Carl Heinrich Graun, Carl Philipp Emanuel Bach, Christoph Schaffrath, Georg Anton Benda e Johann Philipp Kirnberger. Por João Chambers.
Parte IParte II

Adolph von Menzel - A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

Adolph von Menzel (1815-1905) – A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

Dante Alighieri condenado ao exílio

Quando Dante nasceu, por volta de 1265, persistia o conflito entre guelfos e gibelinos. Florença, a sua cidade natal, era guelfa, fiel ao Papa, e combatia uma liga de cidades toscanas partidárias dos gibelinos, apoiados pelo Sacro Império Romano.
O próprio poeta combateu na batalha de Campaldino (1289), na qual os guelfos florentinos bateram os gibelinos de Arezzo. Após a sua vitória, os guelfos florentinos dividiram-se em duas correntes: os negros, que apoiavam o Papa, e os brancos, que exigiam mais autonomia face a Roma. Dante apoiava os primeiros, e integrou uma embaixada que foi negociar com o Papa Bonifácio VIII. Estava ainda em Roma quando, no final de 1301, Charles de Valois, apoiado pelos guelfos negros, invadiu Florença.
A 27 de Janeiro de 1302, o novo governo condena-o a um exílio de dois anos e ao pagamento de uma avultada multa. Dante, cujos bens tinham já sido saqueados, não paga, e é então sentenciado a um exílio permanente, durante o qual escreve a célebre Divina Comédia, ficando sujeito a ser queimado vivo, se regressasse a Florença. Virá a morrer em 1321 sem voltar a ver a sua cidade.
O decreto que o exilou só veio a ser revogado mais de 700 anos depois, em 2008. A moção foi votada no Conselho Municipal de Florença e ganhou com 19 votos contra 5. Os que se opuseram apresentaram o curioso argumento de que a poesia de Dante nunca teria existido sem os sofrimentos que o seu autor padecera no exílio.

Texto de Luís Miguel Queirós para o P2 de 27-01-2012

BARTOLOMEO DI FRUOSINO – Inferno, from the Divine Comedy by Dante (Folio 3v), 1430-35
Tempera, gold, and silver on parchment, 365 x 265 mm | Bibliothèque Nationale, Paris