Archive for the ‘ Breve Biografia ’ Category

80 anos de Dave Holland, lenda viva do jazz

No jazz, o contrabaixo é talvez o meu instrumento preferido, pelo papel de equilíbrio, chamemos-lhe assim, entre ritmo e harmonia. No universo de grandes contrabaixistas como Charles Mingus, Ron Carter, Scott LaFaro, Paul Chambers ou Charlie Hadden, sem esquecer os portugueses Carlos Bica e Carlos Barreto, o destaque de hoje vai para Dave Holland, que celebra o octogésimo aniversário.

Após o ter visto actuar no Ronnie Scott’s Jazz Club em Londres (onde há uns anos tive o grato prazer de assisir à actuação da banda “Buddy Rich 100” e dois bateristas de excepção, Dave Weckl e Gregg Potter), Miles Davis convidou Holland a integrar o seu Quinteto. Segundo a página oficial de Miles Davis, Dave Holland entrou para substituir Ron Carter, vindo a desempenhar um papel relevante na transição para o período eléctrico da música de Miles Davis, com a participação nas gravações de álbuns revolucionários como In a Silent Way (1969) e Bitches Brew (1970).

Da quinzena de títulos que gravou para a ECM ao longo das três décadas que se seguiram, tenho apenas o cd Points of View (1998), com o seu quinteto acústico reformulado, mantendo o vibrafonista Steve Nelson e incorporando o trombonista Robin Eubanks, o saxofonista Steve Wilson e o baterista Billy Kilson. 

Do álbum Question and Answer (1990) do guitarrista Pat Metheny, com Dave Holland no contrabaixo e o lendário Roy Haynes [1925 – 2024] na bateria, fica uma das minhas composições favoritas deste trabalho, H&H.


A volta ao mundo de John Coltrane em seis discos

As emissões de 14 e 21 deste mês de Setembro do programa de rádio Notas Azuis são integralmente dedicadas a assinalar o centenário do nascimento do genial saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane, que nasceu em 23 de Setembro de 1926 e que morreu demasiado cedo, em 17 de Julho de 1967.



A primeira emissão destaca três álbuns fundamentais da sua discografia: O histórico Blue Train foi o único trabalho que Coltrane gravou como bandleader para a Blue Note. A gravação das cinco composições, a caminho da espiritualidade que alcançaria A Love Supreme, mas já em busca da transcendência, teve lugar a 15 de Setembro de 1957 nos estúdios Van Gelder em Nova Jérsia e o lançamento em Janeiro de 1958. Ao saxofone tenor, John Coltrane juntou numa única sessão um sexteto que incluía Lee Morgan no trompete, Curtis Fuller no trombone, Kenny Drew ao piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria.

Segue-se o culminar do hard bop na música de Coltrane com Giant Steps, álbum de estreia na Atlantic Records, gravado em 1959 e lançado no início de 1960. A faixa-título introduziu o conceito de “Coltrane changes”, que significa progressões harmónicas extremamente complexas e rápidas que mudam de tom constantemente. Composições como Naima, uma balada dedicada à sua mulher e Cousin Mary tornaram-se standards instantâneos. O processo de gravação ocorreu em três datas, com um quarteto que incluía Tommy Flanagan e Art Taylor nas sessões de 4 e 5 de Maio, substituídos por Wynton Kelly e Jimmy Cobb na sessão de 2 de Dezembro.

A concluir, podemos escutar Olé, a faixa-título que ocupa a totalidade do lado A do álbum Olé Coltrane, lançado em Novembro de 1961, o último que Coltrane gravou para a Atlantic Records antes de se mudar, em definitivo, para a Impulse!.
Gravado numa única sessão a 25 de Maio nos estúdios A&R em Nova Iorque, poucos dias antes das sessões de Africa/Brass (que abre a segunda emissão), este disco representa uma mudança de paradigma na música de Coltrane, ao afastar-se da “saturação” do hard bop em Giant Steps para abraçar o jazz modal, onde prevalecem a harmonia e melodias mais longas.
John Coltrane (sax tenor e sax soprano) expandiu o seu quarteto com convidados de peso para criar uma sonoridade mais densa: Eric Dolphy no saxofone alto e flauta, Freddie Hubbard no trompete, McCoy Tyner ao Piano, Reggie Workman no contrabaixo e Elvin Jones na bateria.



A abrir a segunda de duas emissões dedicadas à efeméride, escutamos Africa/Brass (Impulse! Records, 1961).
Gravado em duas sessões, a 23 de Maio e 7 de Junho nos estúdios Van Gelder, o álbum teve o seu lançamento em Setembro.
Este trabalho apresenta nova evolução na liberdade criativa de Coltrane, ao expandir o seu quarteto composto por McCoy Tyner, Reggie Workman e Elvin Jones com uma orquestra de sopros, num total de 21 músicos dirigidos por Eric Dolphy, tendo como resultado composições de grande fôlego como Africa ou ainda o modo como o seu saxofone redefiniu a canção tradicional inglesa Greensleeves.

Segue-se o celebrado A Love Supreme (Impulse! Records, 1965), gravado numa única sessão nocturna nos estúdios Van Gelder a 9 de Dezembro de 1964 e lançado  em Janeiro seguinte. Concebido como uma suíte espiritual e um testemunho de gratidão, dividida em quatro partes (Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm), contou com o “Quarteto Clássico” formado por Coltrane, McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones.

Até final da emissão, escutamos A Love Supreme – Live in Seattle (Gravado em 1965, lançado em 2021), uma histórica gravação ao vivo registada em 2 de Outubro de 1965 que pertenceu à colecção privada do músico Joe Brazil durante décadas e foi lançada oficialmente apenas em 2021.
Esta versão em Seattle, com o dobro da duração da gravação de estúdio, contou com mais três saxofonistas, com destaque para Pharoah Sanders.

O cometa Booker Little

É difícil conceber que um músico tenha partilhado o estúdio e o palco com os saxofonistas John Coltrane e Eric Dolphy, com o trompetista Freddie Hubbard, com os pianistas McCoy Tyner, Tommy Flanagan e Mal Waldron, com os bateristas Max Roach, Elvin Jones e Roy Haynes, apenas durante os últimos três anos da sua vida breve…
Foi este o percurso do trompetista Booker Little [2 Abril 1938 – 5 Outubro 1961], que, não tendo adquirido notoriedade e aclamação em vida, deixou no entanto a sua marca para a eternidade por ter brilhado tão fugazmente no centro desta constelação de estrelas.


Do seu álbum Booker Little 4 and Max Roach, de 1958, fica a última faixa do Lado B, Moonlight Becomes You.

“Fearless Movement”, de Kamasi Washington

O saxofonista de jazz Kamasi Washington, nascido em Los Angeles em 1981, foi discípulo de Reginald Andrews [1948-2022] na The Multi School Jazz Band (MSJB), onde conheceu o multi-instrumentista Terrace Martin e o baixista Stephen “Thundercat” Bruner,  quando ainda eram adolescentes. Em 2006 fundaram o colectivo de jazz West Coast Get Down, a quem se juntaram o baixista Miles Mosley, os bateristas Ronald Bruner Jr. e Tony Austin, os pianistas Cameron Graves e Brandon Coleman, e o trombonista Ryan Porter.

Com sete álbuns editados, o já muito respeitado Washington regressa a Portugal nos próximos dias 25 (Porto) e 26 (Lisboa) para apresentar o seu último trabalho Fearless Movement (Young, 2024)


‘The Sky Will Still Be There Tomorrow’, de Charles Lloyd

Completa hoje 87 anos e com as faculdades intactas Charles Lloyd, o lendário saxofonista oriundo de Memphis que na segunda metade da década de 50 se mudou para Los Angeles e se juntou a Ornette Coleman, Billy Higgins, Eric Dolphy e Bobby Hutcherson para actuar em clubes de jazz; Ou que na segunda metade da década de 60 liderou um quarteto que incluía Keith Jarrett e Jack DeJohnette e, no mesmo período, colaborou com Cannonball Adderley. 

Entre 1989 e 2012, Manfred Eicher produziu praticamente duas dezenas de álbuns de Lloyd para a ECM. Desde então, juntou-se à Blue Note, onde gavou uma dezena de trabalhos, o mais recente duplo LP ‘The Sky Will Still Be There Tomorrow’ de 2023 e lançado em 2024, para o que reuniu um quarteto onde teve a companhia do pianista Jason Moran, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade. Fica a faixa homónima que dá o título ao álbum.


‘Epitaphium Carpentarii’, de Charpentier

Marc-Antoine Charpentier [1643-1704], que morreu neste dia 24 de Fevereiro em Paris, está entre os compositores mais importantes do período barroco francês, tal como os contemporâneos Jean-Baptiste de Lully [1632-1687], François Couperin [1668-1733] ou Jean-Philippe Rameau [1683-1764].
A música de Charpentier mistura os estilos francês e italiano; este último sob influência, entre outros compositores, de Giacomo Carissimi. Em França, trabalhou para o rei Luís XIV e para os jesuítas em Paris, notabilizando-se pelas composições de música sacra, que rivalizavam com as de Lully.


«J’étais musicien, considéré comme bon parmi les bons, ignare parmi les ignares. Et comme le nombre de ceux qui me méprisaient était beaucoup plus grand que le nombre de ceux qui me louaient, la musique me fut de peu d’honneur mais de grande charge… […] guéris, purifie, sanctifie les oreilles de ces hommes pour qu’ils puissent entendre le concert sacré des anges ! »

Texto de Charpentier, extraído do seu Epitaphium Carpentarij H.474  – cantata escrita em 1687 para 6 vozes e baixo contínuo.


O título desta obra, em forma de tombeau, sugere uma homenagem sentida a um colega compositor, mas o texto em latim identifica na composição dois amigos, três anjos e o fantasma do próprio Charpentier, tornando-a no seu próprio epitáfio.
Gravada em 2006 pelo conjunto  Il Seminario Musicale, dirigido pelo contratenor Gérard Lesne, conta com os seguintes solistas:

Umbra: Gérard Lesne, contratenor | Ignatius: Cyril Auvity, tenor | Marcellus: Edwin Crossley-Mercer, barítono
Primeiro Anjo: Kaoli Isshiki, soprano | Segundo Anjo: Chantal Santon, soprano | Terceiro Anjo: Magid El-Bushra, contratenor

 

Quid audio, quid murmur / Amici viatores nolite timere / O aeternitas quam longa, o vita quam brevis / Musicus eram inter bonos / Dic nobis, umbra chara / Ah, socii! qui carissimi nomen habebat / Cantique des anges: Profitentes unitatem, veneremur trinitatem / O suave melos!

‘Requiem’, de Johann Joseph Fux

Na passagem do ducentésimo octogésimo quarto aniversário sobre a morte de Johann Joseph Fux [ca. 1660 – 1741], compositor e teórico musical austríaco do barroco tardio que exerceu o cargo de Kapellmeister na Catedral de Santo Estêvão em Viena, o solene Kaiserrequiem K 51–53 em Dó menor para cinco vozes, originalmente escrito em 1720 para o funeral de Eleonora Magdalena, viúva do Sacro Imperador Romano-Germânico Leopoldo II, foi posteriormente executado em outras cerimónias fúnebres da Côrte.
Composto pelo Introitus, Kyrie, a sequência Dies irae, o ofertório Domine Jesu Christe, Sanctus, Benedictus, Agnus Dei e a comunhão Lux aeterna, integra o álbum Johann Joseph Fux, Johann Caspar Kerll: Requiems | ℗ Outhere, 2016. Tem como intérpretes os Ensembles L’Achéron e Vox Luminis, com direcção de Lionel Meunier.


Juan Crisóstomo Arriaga, o Mozart espanhol

O dia 27 de Janeiro possui uma curiosa coincidência na histórica da música: a de Juan Crisóstomo Arriaga [1806-1826], compositor  apelidado de Mozart espanhol por, tal como W.A.Mozart [1756-1791], ambos serem jovens prodígios e terem morrido precocemente. Acresce o facto de ambos terem nascido neste dia, com um intervalo de 50 anos.
Enviado pelo pai para Paris com apenas 15 anos de idade, o jovem Juan Crisóstomo foi discípulo de Luigi Cherubini [1760-1842] e, possivelmente em 1824, compôs os Três Quartetos de Cordas que dedicou ao progenitor.
No Verão de 2013, em Madrid, o Ensemble La Ritirata, com Josetxu Obregón no violoncelo e direcção musical, gravou para a Glossa o disco De Arriaga: The Complete String Quartets on Period Instruments, do qual fica o primeiro andamento do Quarteto de Cordas nº 2 em lá maior: Allegro con brio.


‘Gemmulae Evangeliorum’, de Melchior Franck (II)

Na passagem do trecentésimo octogésimo quinto aniversário sobre a morte de  Melchior Franck [Zittau, ca. 1579 – Coburg, 1 Junho 1639], compositor protestante alemão activo durante a transição do Renascimento para o Barroco, que exerceu desde 1603 até ao fim da vida o cargo de Kapellmeister da corte de Coburg. No início da sua formação foi aluno de Hans Leo Hassler.

O trabalho de Franck inclui música sacra em alemão e latim, motetos, salmos e música sacra, como os conhecidos Gemmulae Evangeliorum em quatro partes (também publicados como Provérbios do Evangelho em 1623).

Em 2020, o Ensemble Vocal  Cantus Thuringia, dirigido pelo contratenor Christoph Dittmar reuniu em disco perto de duas dezenas de canções sagradas e motetos no álbum Melchior Franck: Geistliche Gesäng und Melodeyen.


Geistliche Gesäng und Melodeyen: No. 1, Steh auf, meine Freundin
Cantus Thuringia · Capella Thuringia · Lachrimae Consort Weimar

Concerto para Flauta, de Johann Melchior Molter

Na passagem do trecentésimo vigésimo oitavo  aniversário sobre o nascimento do compositor do barroco alemão  Johann Melchior Molter [1696-1765], o primeiro andamento do Concerto para flauta em Ré maior, MWV 6.17 – Allegro.


Álbum: Forgotten Treasures, Vol. 12 ℗ 2021 Ars Production
Orquestra Die Kölner Akademie · Direcção de Michael Alexander Willens · Anna Besson, flauta