Archive for the ‘ Efeméride ’ Category

Rómulo de Carvalho / António Gedeão

Na passagem do décimo quinto aniversário da morte do homem de ciência e poeta, destaco a homenagem que a Casa das Letras, dos ilustres Pedro Foyos e Maria Augusta Silva, presta à pessoa partida ao meio.

Outras ligações úteis:
Entrevista de Maria Augusta Silva em 1995
Páginas da Biblioteca Nacional  e do Instituto Camões.

«A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer
sempre preferi o morrer.
Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta.
Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles
que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.» (…)
«O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta
permanente e feroz em que cada um busca a
satisfação dos seus interesses exactamente como outros
seres vivos, animais ou plantas, que se atacam.»

Os Dias da Rádio

Uma das mais gratas recordações da primeira infância no Príncipe Real foi o dia em que, com o meu pai, fomos comprar uma telefonia a uma loja na Rua D. Pedro V, próxima da Igreja S. Pedro de Alcântara. Uma enorme quantidade de botões para carregar são o fascínio de qualquer criança, e cada um deles produzir um som diferente, então…!
Era a magia do éter a entranhar-se! Até hoje, Dia Mundial da Rádio, sendo que a única mudança na telefonia foi o desaparecimento dos botões! 🙂

“In a world changing quickly, we must make the most of radio’s ability to connect people and societies, to share knowledge and information and to strengthen understanding. This World Radio Day is a moment to recognize the marvel of radio and to harness its power for the benefit of all,” said UNESCO Director General, Irina Bokova in her message on the occasion of the first World Radio Day.

Musica Aeterna – Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786)

Comemorada no passado dia 24, a efeméride dos três séculos da nascença de Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786), o qual, na política interna, personificou a imagem do “despotismo iluminado”, realçada, para além de obras do próprio, através de repertório dos contemporâneos Franz Benda, Ludwig Christian Hesse, Johann Gottfried Müthel, Carl Heinrich Graun, Carl Philipp Emanuel Bach, Christoph Schaffrath, Georg Anton Benda e Johann Philipp Kirnberger. Por João Chambers.
Parte IParte II

Adolph von Menzel - A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

Adolph von Menzel (1815-1905) – A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

Musica Aeterna – seis séculos do nascimento de Joana d’Arc

Dias 07 e 14 de Janeiro, na Antena 2.

Considerando a documentação, toda de uma excepcional riqueza histórica, a sobreviver até aos nossos dias, constituída pelos vários volumes dos dois processos que lhe instauraram – o de condenação em 1431 e o de reabilitação em 1456 –, Joana d’Arc mantém-se como uma das personagens mais conhecidas e enigmáticas do século XV. Na verdade, esta circunstância refere-se, em primeiro lugar, ao contraste que tornou a sua acção, a par das fontes históricas que a documentam, profundamente desconcertante. Desde camponesa iletrada, ou seja, a parca instrução limitava-se a pouco mais do que saber recitar de cor várias orações, aos ecos de sermões escutados ou até às conversas com personalidades influentes, foi guindada a uma posição de grande destaque na História de França.
João Chambers

“A persistência da imagem na retina”

O princípio, atribuído a Joseph-Antoine Plateau (1801-1883), traduz-se no fenómeno da velocidade de transmissão das imagens ao cérebro, que as interpreta como movimento se a sua sequência for animada. Foi essa ilusão que os Irmãos Lumière criaram através do seu Cinematógrafo com a projecção, em 28 de Dezembro de 1895, da Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière. Nascia assim o cinema!

Concerto – 300 anos da Igreja do Menino Deus

A Música Sacra no tempo de D. João V (Compositores de 1711 a 1750)
Igreja do Menino Deus | 4 de Novembro de 2011, 21:00h | Entrada livre
Programa:
João Rodrigues Esteves: “Pinguis est Panis”
Johann Sebastian Bach: Ária “Schlummert ein, ihr matten Augen”
G.Ph.Telemann: Cantata “Ihr Völker hört” (Am Feste der heiligen drei Könige)
Johann Sebastian Bach: Sonata em Si bemol Maior, BWV 1021 Adagio/Vivace/Largo/Presto
João Rodrigues Esteves: “Regina Caeli Laetare”
La Nave Va – Ensemble Barroco
Maria Luísa Tavares, Mezzo-Soprano | Armando Possante, Barítono | António Carrilho, Flauta de Bisel | Edoardo Sbaffi, Violoncelo | Jenny Silvestre, Cravo

300 ANOS da IGREJA DO MENINO DEUS: 1711-2011
A Igreja do Menino Deus é uma obra de grande importância histórica e patrimonial. Localizada no Largo do Menino Deus, meio escondida na encosta nascente da Colina do Castelo, este templo é praticamente desconhecido da maior parte dos lisboetas. Mas a sua notável qualidade e originalidade arquitectónica, aliada ao facto de ser uma das raras igrejas que escapou intacta ao grande terramoto de 1755, fazem dela um verdadeiro marco da Arquitectura Barroca nacional. A concepção da obra está atribuída ao Arquitecto Real João Antunes (1642-1712), autor de obras de referência como a Igreja de Santa Engrácia em Lisboa.
Foi no dia 4 de Julho de 1711, que o Rei D. João V, acompanhado dos Infantes, seus irmãos, D. António e D. Manuel, conjuntamente com vários membros da Casa Real, lançou a primeira pedra da igreja. A construção prolongou-se durante 26 anos tendo ficado concluída em 1737, data em que foi sagrada. No dia 25 de Março, o mesmo Rei D. João V, transferiu a imagem “milagrosa” do Menino Deus da Igreja da Ordem Terceira de S.Francisco de Xabregas. Na cerimónia da inauguração, o Rei foi acompanhado em procissão nocturna, com tochas acesas, pela população da capital e pelo jovem Príncipe D. José, seu filho, e os irmãos Infantes D. António e D. Manuel. Depois de colocada a imagem na capela-mor, se cantou o Te Deum “com excelente música de instrumentos e vozes” como nos descreve a Gazeta de Lisboa.

Nave e Capela-mor com embutidos de pedraria (embrechados) | Foto: Fernando Jorge, 2011
Ao observarmos a frontaria da igreja vemos que não está concluída, faltando-lhe o remate de frontão e as torres campanário. Mas o interior é um perfeito e completíssimo exemplo da Arquitectura portuguesa do início do séc. XVIII. Espera-nos um verdadeiro espectáculo da obra total do Barroco. O espaço é amplo, à maneira de grande salão, com cantos cortados o que confere à igreja uma peculiar forma oitavada. As paredes são integralmente revestidas de pedra e com magníficos embutidos de pedraria de várias cores.
Nesta igreja a talha dourada está limitada aos retábulos dos oito altares laterais onde se integra um conjunto de boas pinturas de André Gonçalves (1685-1762) e do pintor espanhol André Ruvira executadas por volta de 1730. O retábulo da capela-mor, em mármore, é do italiano João António Bellini, de Pádua; ao centro, em pequeno nicho, vemos a imagem do Menino Jesus, devota dos populares e que, segundo a tradição, já existia no local sendo conhecida por Menino Deus. A Capela-mor é ainda adornada com duas belas telas trilobadas: um “São Francisco Despojado dos Hábitos Seculares” de Vieira Lusitano (1699-1783) da década de 1730, e um “Trânsito de São Francisco” atribuído ao italiano Francesco Pavona. A arte da pintura do Menino Deus fica completa com o esplêndido tecto pintado, obra de parceria entre Vitorino Manuel Serra, João Nunes Abreu, Jerónimo da Silva e André Gonçalves, representando arquitecturas em tromp-l’oeil e, ao centro, painel com a “Ascensão de São Francisco com as Virtudes”.
As obras foram erguidas com esmolas públicas e ajuda do Rei. O edifício conventual ficou destinado a recolhimento das Franciscanas Mantelatas da Ordem Terceira de S. Francisco de Xabregas.
Actualmente na parte conventual funciona o Centro Social do Menino Deus, gerido por uma Congregação de São José de Cluny, frequentado diariamente por cerca de 170 crianças. A igreja já foi alvo de restauro.
Para quem ainda não conhece este deslumbrante e raro monumento de Lisboa, aconselhamos que o venha descobrir no ano em que celebra 300 anos. Via.

 Tecto da nave com pintura ilusionista em tromp-l’oeil | Foto: Fernando Jorge, 2011

As “95 teses contra as indulgências” de Martinho Lutero

O gesto faz parte da lenda e, dizem os historiadores, provavelmente nem sequer terá assim acontecido. Mas ficou o símbolo: a 31 de Outubro de 1517, em pleno debate com o delegado do Papa Leão X sobre as indulgências, Martinho Lutero, até então um monge agostinho quase desconhecido, afixa as “95 teses contra as indulgências” à porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Provavelmente, o ex-monge, que estava a iniciar, sem o saber, a Reforma Protestante, ter-se-á limitado a redigir as teses nas quais contestava a compra (literal) do perdão dos pecados: os fiéis pagavam uma soma, com ela obtendo o perdão eterno.
O dinheiro recolhido permitia financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma: o Papa era um Médicis, filho de Lourenço, o Magnífico, que nem sequer era padre quando foi eleito, em 1513. Leão X nomeava cardeais o primo e o sobrinho e estava mais interessado em encarregar Rafael da decoração das Lógicas e da construção da Basílica e em entregar a Miguel Ângelo a construção do túmulo da família do que em preocupar-se com a revolta de um monge alemão.
Para Lutero, só Deus podia perdoar as pessoas e as ‘obras’ que cada um fizesse – leia-se: o que cada um pagasse – não asseguravam a salvação eterna. Com as 95 teses, rapidamente distribuídas por toda a Alemanha, nascia o escândalo. Lutero iniciava a Reforma.
António Marujo, Caderno P2 do Público de 31-10-2011

Lucas Cranach the Elder – Martin Luther as an Augustinian Monk, 1520

Domenico Scarlatti

Giuseppe Domenico Scarlatti, virtuoso compositor do barroco tardio, nasceu em Nápoles neste dia 26 de Outubro, no ano de 1685, vindo e morrer em Madrid em 1757.

Johann Sebastian Bach [1685-1750], George Frideric Handel [1685-1759] e Domenico Scarlatti [1685-1757] foram três personalidades fundamentais do Barroco Tardio que, por coincidência, nasceram no mesmo ano. Em comum, possuem também o facto de terem sido exímios intérpretes e improvisadores, e compositores de génio no domínio da música de tecla, ainda que a produção que destinaram a instrumentos como o órgão, o cravo ou o clavicórdio ocupe lugares bem diversos no seu percurso individual. Se hoje recordamos Scarlatti como um compositor indissociável do repertório para cravo (posteriormente adoptado pelos pianistas), a música de tecla ocupa um lugar relativamente circunscrito na produção de Handel e assume-se como um dos pilares centrais no desenvolvimento de Bach enquanto compositor. […]
[…]Scarlatti, na sua passagem pelo nosso país após ter sido contratado para o cargo de compositor da corte por D. João V em 1719, foi professor de cravo da infanta D. Maria Bárbara, que acompanharia após o casamento desta com o futuro rei espanhol, Fernando VI. Intérprete de grandes recursos, a princesa marcaria profundamente a evolução artística do compositor. A simbiose professor-aluna foi tão estreita que Scarlatti passou o resto da vida ao seu serviço, mantendo igualmente laços com Portugal – a primeira colecção de peças que publicou, os “Essercizi per Gravicembalo”, foi dedicada a D. João V em agradecimento pelo título de cavaleiro da Ordem de Santiago. Esta colecção, editada em Londres em 1739, deu-lhe fama internacional.[…]
Excerto de Bach, Handel e Scarlatti:Três Mestres da Música de Tecla do Barroco,
Cristina Fernandes, em catálogo da 7.ª edição do Festival Terras sem Sombra.

Georg Friedrich Händel – 270 anos de ‘Messias’

Para assinalar os 270 anos da conclusão do Oratorio “Messiah”, escolhi parte do texto que João Chambers utilizou no Musica Aeterna de Abril de 2009, destinado a assinalar a passagem dos 250 anos da morte de Handel; A escolha musical, desta vez, recai sobre o agrupamento vocal e instrumental Les Arts Florissants, dirigido por William Christie.
Espero que gostem. 🙂

A concepção da oratória “O Messias”, que passaria à posteridade como um dos apogeus da História da Música Ocidental e ocupa um lugar de destaque em todo o seu espólio, constitui um dos muitos paradoxos em que o mundo da arte é fértil. Composta em apenas três semanas, mais concretamente, entre 22 de Agosto e 14 de Setembro de 1741, seria apenas estreada no ano seguinte, no Music Hall em Fishamble Street, durante uma viagem efectuada a Dublin talvez já na expectativa de um convite por parte das autoridades irlandesas. Numa récita de beneficência em favor de presos e doentes internados em várias instituições locais iria então surgir, de novo, a estranha relação entre harmonia, asilos e hospícios sempre tão fecunda ao longo dos tempos.
Após o seu regresso a Londres, Handel foi obrigado a alterar o título daquela sua genial criação, de modo a poder calar as críticas que o acusavam não só de profanar um tema sacro e interpretá-lo num lugar tão pouco idóneo como, também, pelo facto de se ter servido de intérpretes que nada tinham a ver com o culto da liturgia. Todas estas vicissitudes viriam a contribuir para que, de início, não tivesse despertado o fervor popular que, anos mais tarde, acabaria por vir a provocar. Com efeito, seria apenas a partir de 1750, ano da morte de Johann Sebastian Bach, durante a temporada da Quaresma do Teatro do Covent Garden, em Londres, que começou a ter apresentações regulares, tendo acabado por se tornar numa verdadeira “instituição” da arte dos sons inglesa. Foi, ainda, durante esse mesmo ano que renovou habilmente a ligação entre a obra e diversos locais de caridade, tendo iniciado a tradição de a fazer executar em benefício do Hospício dos Expostos, do qual era provedor, começando, então, a manifestar-se uma alteração de sentimentos por parte do público que o passou a receber com entusiásticas ovações.
Baseado num texto homogéneo e equilibrado da autoria de Charles Jennens, o libreto não aborda qualquer tema sacro mas tão-somente o da reflexão sobre o mistério da redenção e da relação entre Deus e o Homem. Demonstrando grande preocupação com a profecia e a meditação, o respectivo teor foi inteiramente retirado da versão autorizada da Bíblia e do Book of Common Prayer, cuja utilização num contexto profano, muito ofendeu “pessoas escrupulosas” tal como Jennens rotulava esses puritanos. A alternância quase simétrica de recitativos, árias e coros não enfraquece a linha dramática, a qual foi conseguida com recurso a uma grande economia de meios harmónicos e graças a uma orquestração que, não servindo de apoio ao texto, ajuda, no entanto, a elevar o espírito dos ouvintes. A criteriosa compilação bíblica revestiu-se de uma forte concepção de conjunto e, através da combinação hábil de textos extraídos do Antigo e do Novo Testamento, procurou ilustrar o cumprimento das profecias messiânicas do primeiro nos acontecimentos constantes dos Evangelhos. Dividida em três partes, as suas passagens referem-se às profecias da vida de Cristo, à Sua redenção e, em epílogo, à imortalidade da alma cristã.
Faltando um fio dramático e unificador de forma a impor um sentido forte de estrutura, a primeira função de Handel, ao adaptar o texto de Jennens, foi criar um enquadramento musical capaz de tratar passagens potencialmente desconexas enquanto procurava manter a continuidade do pensamento subjacente. Tal objectivo foi conseguido através de um esquema global de tonalidades e harmonias em que a obra se estrutura e na qual vai, pouco a pouco, gerindo a construção e a resolução da tensão. Tudo isto foi complementado com uma distribuição ponderada dos vários ingredientes formais, ou seja, recitativos, árias e coros, pelas secções de texto mais apropriadas, dando a devida atenção ao peso relativo de cada uma na sua concepção global. Deste modo, possibilitou a percepção de um sentido quase dramático da progressão da música que, simultaneamente, ilustra e reforça a respectiva narrativa à medida que se vai desenrolando.
Apesar do pouco tempo que a composição terá demorado esta absolutamente notável oratória não é, de forma alguma, uma obra precipitada. Embora Handel tenha reutilizado como secções corais dois duetos amorosos que tinha anteriormente composto, contém, na realidade, poucas citações de peças preexistentes. Tal circunstância leva a crer que terá despendido tempo e paciência consideráveis no Amen final, do qual subsistem, nada menos, do que sete esboços, embora o manuscrito autógrafo original contenha também diversas emendas transcritas pelo seu próprio punho.
Durante a sua existência, o “Messias” jamais iria conhecer uma forma definitiva, uma vez que ele próprio ia frequentemente inovando de modo a adaptá-lo não só aos cantores disponíveis mas também às circunstâncias especiais de cada representação. Este hábito de “alteração” regular prolongar-se-ia muito para além da morte, tendo a célebre readaptação de Mozart aberto possibilidades a outras tentativas, bem intencionadas mas desastrosamente mal orientadas, em reforçar a propositadamente sóbria orquestração. Porém, nas últimas décadas do século XX e fruto de intensas e sérias investigações musicológicas tem, felizmente, vindo a ser adoptada uma abordagem diferente na interpretação do repertório anterior ao Romantismo, tendo este verdadeiro monumento, que sempre ocupou um lugar de destaque na História da Música Ocidental, servido de perfeito exemplo ao admirável e sempre em constante evolução movimento de renovação interpretativa.

“Le voyage dans la lune”, de Méliès – 1902

Considerado o primeiro filme de ficção científica, “Le voyage dans la lune” foi inspirado na obra de Júlio Verne. O prolífico Georges Méliès (1861-1938) oferece-nos uma excitante aventura futurista, plena de animação e efeitos especiais, um regalo para a vista! – que o diga o homem da lua, que levou com a nave no olho. 🙂
A rodagem em 14 frames por minuto, em lugar das actuais 24, faz desta obra prima um filme muito à frente! 🙂