Arquivo de Dezembro, 2013

Rainer Maria Rilke – dar vida à matéria

Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

Rainer Maria Rilke [4 Dez 1875 – 29 Dez 1926] – Tradução de Manuel Bandeira
Piero della Francesca - Resurrection, 1463Piero della Francesca [c.1415-1492] – Resurrection, 1463

 

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Quando os Yes reinaram sobre a Terra

Queriam inventar música nunca antes criada e tornaram-se incrivelmente populares nisso. Nos anos 1970, foram uma das bandas mais famosas do planeta mas hoje é difícil vê-los para além da caricatura. The Studio Albums 1969-1987 é o mote para o fazermos.
Mário Lopes, Ípsilon de 27 Dez 2013
E aquele momento em que percebemos como Starship trooper, com o som fluído como líquido da guitarra e o baixo a distorcer e a reverberar, poderia ter inspirado muita da moderna chillwave, o género de reciclagem de memórias sonoras que ouvimos nos Washed Out? E essa canção de Fragile, We have heaven, que, com as suas harmonias vocais incessantes e ritmo seco, quase juramos ser a origem perdida dos Animal Collective? E todas essas secções no interior de longas canções que nos surpreendem: não são os Flaming Lips que surgem reflectidos algures em You and I, de Close to the Edge?, este festim percutivo psicadélico que irrompe quase no final de Ritual (Nous sommes du soleil) não faria as delícias da banda xamã que são os Gala Drop?
Não deveria fazer sentido. Não deveria porque estes momentos pertencem aos Yes, banda-ícone do rock progressivo britânico ao lado de King Crimson, Genesis e Emerson, Lake & Palmer — e provavelmente a mais popular na sua época, logo atrás dos Pink Floyd (que não eram vistos exactamente como rock progressivo, antes como entidade sem filiação).
Como sabemos, o rock progressivo é o saco de pancada predilecto de 95% dos fãs de música. É a música que perdeu porque tinha de perder, soçobrando sob o peso da sua ambição desmedida, do aborrecimento atroz que causava e dos seus insuportáveis ares de superioridade. Isto é onde estamos hoje. O recente lançamento de The Studio Albums 1969-1987, que reúne os 13 álbuns de estúdio lançados pela banda no período (edição simples: CD em caixas de cartão reproduzindo as reedições de 2003 e uma pequena nova ilustração de Roger Dean), é oportunidade para contar o outro lado da história. A que reuniu Chris Squire, baixista extraordinário, ao vocalista Jon Anderson para criar música que reunisse harmonias vocais perfeitas ao perfeito domínio instrumental. Juntaram-se-lhes o impressionante baterista Bill Brufford, o guitarrista Peter Banks e o teclista Tony Kaye e o início da banda sinalizou o nascimento de uma nova era: em 1968, no Royal Albert Hall, foram a banda suporte do concerto de despedida dos Cream, culminar do blues rock psicadélico do final de década de 1960.
Quatro anos depois, já com o guitarrista Steve Howe e o teclista Rick Wakeman a completar a formação clássica da banda, tudo tinha mudado. Tal como muitos dos seus contemporâneos, procuravam chegar onde ninguém chegara antes: uma linguagem nova, em que o virtuosismo instrumental serviria para mostrar o rock como arte maior, como possível ponto de confluência de fôlego narrativo com as aprendizagens do jazz e da clássica. Mas os Yes não se ficaram por aí. Até tão longe quanto meados dos anos 1980, atravessaram quase incólumes a passagem do tempo.
Sobreviveram à saída (e à reentrada) de membros emblemáticos como Steve Howe, Jon Anderson e Rick Wakeman, tiveram na sua formação os Buggles Trevor Horn e Geoff Downes, fãs de longa data, mas aparentemente nos antípodas dos Yes (não é Video killed the radio star um hino à concisão pop da new wave?) e entraram pelos anos 1980 com pompa e circunstância, reinventados sob a forma do monstrengo de rock FM que legou ao mundo Owner of a lonely heart (90125, o álbum correspondente, editado em 1983 e hoje datadíssimo, tornou-se ironicamente o álbum mais vendido na história da banda).
Pouco na sua discografia é consistente do princípio ao fim (The Yes Album, Close To The Edge e Fragile são os que mais se aproximam e as experiências orquestrais no segundo, Time And a Word, merecem destaque), mas o seu período clássico da década de 1970 está repleto de preciosidades. Não por acaso, é na apropriação de excertos seleccionados que a banda melhor tem sobrevivido na cultura popular. Ouvimos o motivo que atravessa Siberian Khatru, tão funk quanto funk eram os Funkadelic, e não nos espantamos por, ao longo dos anos, a música dos Yes ser mina a que o hip-hop recorre regularmente (De La Soul, J Dilla, Nas, LL Cool J, Lil Wayne, Salt-N-Pepa). E, no entanto, é como se os Yes não existissem além da caricatura — nem a presença na banda-sonora de Buffalo 66, filme de culto de Vincent Gallo, os tornou vagamente cool.

Ambição

Estamos em 1973. O jornalista destacado para cobrir um concerto da digressão de uns Emerson, Lake & Palmer no auge da sua popularidade concentrou-se naquilo que mais interessava. O material. Discriminou então o número de teclados (às dezenas) de Keith Emerson, as peças que compunham a bateria que haveria de quase esconder do público Carl Palmer e o preço de milhares de libras que custara o tapete persa pisado pelo guitarrista Greg Lake. Um concerto dos Emerson, Lake & Palmer não era simplesmente um concerto. Era uma extravagância, uma experiência wagneriana. Era arte total, diriam as centenas de milhares que enchiam estádios para os ver. Nem todos classificavam a experiência da mesma forma.
Rick Wakeman, teclista de um período em que os teclistas foram elevados ao estatuto de superestrela, não ficava atrás dos Emerson, Lake & Palmer. Famoso pelas extravagância e pelas capas douradas brilhando entre os mil teclados, Wakeman contabilizou vendas de dezenas de milhões dos seus álbuns a solo e apresentou-os em produções que incluíam bailarinos representando no gelo a história do Rei Artur.
Os Yes também não ficavam atrás dos Emerson, Lake & Palmer. Na sua autobiografia, Grumpy Old Rock Star, Wakeman fala da digressão de Tales Of Topographic Oceans (1973), o pináculo de ambição dos Yes, álbum duplo com quatro canções apenas, uma para cada um dos lados dos dois vinis. Conta, caricaturizando, que precisava de indicações sempre que subia a palco, de forma a conseguir ultrapassar os adereços idealizados por Roger Dean, autor das mais icónicas capas da banda: “Vira aqui à esquerda, Rick, trepa aquele cogumelo gigante, ultrapassa a nave e lá atrás, atrás daquela nuvem, estão os teus teclados”.
Wakeman escreve também que Spinal Tap, o mais famoso falso documentário sobre o circo rock, lhe parece quase realista: “Com os Yes nós vivemo-lo.” Seguem-se episódios que parecem realmente saídos do filme, envolvendo um baterista (Alan White) preso no interior de conchas gigantes ou túneis perigosamente frágeis que a banda atravessava para chegar ao centro da acção. Foi por coisas como estas que se chamou à década de 1970 “a década que o bom gosto esqueceu” — por isso e pelos álbuns conceptuais de guião simplório ou simplesmente pateta, pelo disco-sound ou pela imagem de Elton John enfiado num fato do Pato Donald.
Acontece que o disco-sound foi entretanto justamente reabilitado, reenquadrado e reciclado e que os álbuns clássicos de Elton John (pelo menos esses) ganharam o seu lugar respeitável na história da música popular. Os Yes? Os Yes sofreram o mesmo que a maioria dos seus contemporâneos britânicos do progressivo. Ou seja, tal como os Emerson, Lake & Palmer ou os Gentle Giant, são como que uma não-existência na historiografia pop (a excepção são os King Crimson, hoje referência a citar devido à alta cotação do magnífico primeiro álbum, In the Court of the Crimson King, samplado em Power, de Kanye West, e os inclassificáveis Van der Graaf Generator, que atravessaram os tempos incólumes enquanto banda de culto).
A queda
A narrativa oficial diz-nos que o punk chegou para acabar com aqueles dinossauros do rock e para regenerar um cenário habitado por estrelas num pedestal, a partir do qual mostravam o seu carácter divino à populaça através de um virtuosismo inalcançável e ambições teatrais que minavam a ideia do rock como rebelião sincera e autenticidade. Com o punk, diz a narrativa, acabou num ápice, e para não mais voltar, a era de terror do rock progressivo. Mas então…
Em 1977, o ano de explosão mundial do punk, quem podíamos encontrar no topo das tabelas de vendas inglesas? Os Yes, com Going For The One, o álbum em que começaram a descer dos céus das canções de 20 minutos — nos Estados Unidos, chegaram a oitavo lugar. Anos antes, enquanto os Led Zeppelin passeavam pelo mundo como representação máxima do rock’n’roll enquanto bomba sexual, a crítica desdenhava-os. Preferia os Emerson, Lake & Palmer. E Lester Bangs, o mítico crítico americano com altar erguido aos Velvet Underground e a Lou Reed, ele que escreveria sobre o rock progressivo “se não consegues ter verdadeira qualidade, porque não escolher quantidade a uma escala bizantina, porque não ser pomposo se és bem-sucedido a sê-lo?”, elogiava com convicção The Yes Album (1971), o terceiro da banda, aquele em que ficou perfeitamente definido o seu imaginário musical, a sua procura de futuro nos circuitos eléctricos de um sintetizador Moog.
Era música difícil, aquela. Música de alguém que pretendia dar o passo seguinte na história da música popular urbana e escapar à alegada prisão das canções pop de três minutos. Segundo Jon Anderson, tudo começou, curiosamente, quando a sua geração viu os Beatles e os Rolling Stones na televisão e, citamo-lo de cabeça, percebeu que eram pessoas comuns e que, portanto, as pessoas comuns podiam ser estrelas de música — exactamente o mesmo que diriam retrospectivamente aqueles que pegaram em guitarras depois de ver os Ramones ou os Sex Pistols.
Mas esta música complexa e nada imediata reinou durante quase toda uma década. Era incrivelmente popular, vendida aos milhões atraindo milhões às salas de concertos. Atraindo quem? “Hippies. Adolescentes. Fãs que estavam certos de haver algo mais aí fora. Pessoas que queriam tomar ácido e ter as suas pupilas bombardeadas com lasers. Tipos arty que queriam encontrar na música um sentido”, escrevia David Weigel, jornalista de política da Slate, conservador libertário, “maluquinho do prog”, numa série de artigos dedicados ao género publicados em 2012 no Salon.

Yes-Relayer

Eles experimentaram e procuraram de forma febril, delirante e, a partir de determinado momento, tremendamente onanista, música que nunca antes havia sido feita. Chegaram tão alto e a caíram lá tão de cima que, quando finalmente se estilhaçaram no chão da memória, só os indefectíveis tinham esperado para ver e só os indefectíveis prosseguiram com eles (fervorosamente, como atesta qualquer navegação pelos milhares de sites dedicados ao prog por essa Internet fora).
Tão cedo quanto 1973, Chris Welch, veterano jornalista musical britânico, escrevia acerca de A Passion Play, álbum conceptual dos Jethro Tull, que “se é a isto que nos trouxeram de anos de ‘progressão’, então será tempo de voltar atrás”. Os heróis do prog, embriagados pelo dinheiro correndo abundante que lhes alimentava a ambição mas lhes diminuía o critério, nem chegaram a travar. Fizeram como sempre. Aceleraram.
Sim, tiveram a sua quota-parte de culpa. Mas não o suficiente para serem transformados em fantasmas da história. “É estranho, sabe? Uma canção como Siberian Khatru [de Close to the Edge, 1972] soa mesmo hip hoje em dia”, dizia no ano passado o baterista Bill Brufford à Rolling Stone. É realmente estranho. É estranho que seja verdade.

Natal

Um anjo imaginado, 
Um anjo diabético, atual, 
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, 
Paz à imaginação! 
E todo o ritual 
Que antecede o milagre habitual 
Perdeu a exaltação. 

Em vez de excelsos hinos de confiança 
No mistério divino, 
E de mirra, e de incenso e ouro 
Derramados 
No presépio vazio, 
Duas perguntas brancas, regeladas 
Como a neve que cai, 
E breve como o vento 
Que entra por uma fresta, quizilento, 
Redemoinha e sai: 

A volta da lareira 
Quantas almas se aquecem 
Fraternalmente? 
Quantas desejam que o Menino venha 
Ouvir humanamente 
O lancinante crepitar da lenha? 

“Natal”, de Miguel Torga
“Adoração dos magos” (painel da esquerda – detalhe), de Hieronymus Bosch

O dia não me promete mais que o dia…

Por entre a casaria, em intercalações de luz e sombra – ou, antes, de luz e de menos luz – a manhã desata-se sobre a cidade. Parece que não vem do sol mas da cidade, e que é dos muros e dos telhados que a luz do alto se desprende – não deles fisicamente, mas deles por estarem ali.
Sinto, ao senti-la, uma grande esperança; mas reconheço que a esperança é literária. Manhã, primavera, esperança – estão ligados em música pela mesma intenção melódica; estão ligados na lama pela mesma memória de uma igual intenção. Não: se a mim mesmo observo, como observo a cidade, reconheço que o que tenho que esperar é que este dia acabe, como todos os dias. A razão também vê a aurora. A esperança que pus nela, se a houve não foi minha: foi a dos homens que vivem a hora que passa, e a quem incarnei sem querer, o entendimento exterior neste momento.
Amanhecer em Lisboa – 18 Dez 2013
Esperar? Que tenho eu que espere? O dia não me promete mais que o dia, e eu sei que ele tem decurso e fim. A luz anima-me mas não me melhora, pois sairei daqui como para aqui vim – mais velho em horas, mais alegre uma sensação, mais triste um pensamento. No que nasce tanto podemos sentir o que nasce como pensar o que há-de morrer. Agora, à luz ampla e alta, a paisagem da cidade é como de um campo de casas – é natural, é extensa, é combinada. Mas ainda no ver disto tudo poderei eu esquecer que existo? A minha consciência da cidade é, por dentro, a minha consciência de mim.
Lembro-me de repente de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã, e tinha alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas. Sim, outrora eu era de aqui; hoje, a cada paisagem, nova para mim que seja, regresso estrangeiro, hóspede e peregrino da sua presentação, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. No meu sangue corre até a menor das paisagens futuras, e a angústia do que terei que ver de novo é uma monotonia antecipada para mim.
E debruçado ao parapeito, gozando do dia, sobre o volume vário da cidade inteira, só um pensamento me enche a alma – a vontade íntima de morrer, de acabar, de não ver mais luz sobre cidade alguma, de não pensar, de não sentir, de deixar atrás, como um papel de embrulho, o curso do sol e dos dias, de despir, como um traje pesado, à beira do grande leito, o esforço involuntário de ser.
Bernardo Soares – 119

A embriaguês na poesia de Omar Khayyam

Alireza Ghorbani e Dorsaf Hamdani estiveram em 2012 na Gulbenkian para um encontro entre os cantos persa e árabe, centrado na obra poética de Omar Khayyam, astrónomo, filósofo e matemático iraniano do século XI.
Da edição 2014 de Músicas do Mundo, destaque óbvio para Christina Pluhar – L’Arpeggiata, com a presença especial de Mísia.

Jim Hall [1930-2013]

Partiu um dos mais importantes guitarristas da cena jazz, cujo estilo influenciou músicos como  Bill Frisell e Pat Metheny, com quem gravou um álbum de originais em 1999, pleno de tons suaves.
Durante a sua longa e aclamada carreira, Jim Hall colaborou com alguns dos monstros do jazz como Sonny Rollins, Ornette Coleman, Paul Desmond, Bill Evans, Jimmy Giuffre ou Ron Carter. Acompanhou ainda Ella Fitzgerald no início da década de sessenta.

Concerto de Órgão

No próximo dia 14 de Dezembro pelas 17h00 tem lugar o último concerto de mais um ciclo de órgão na  Igreja de São Vicente de Fora.
orgao-joao-fontanes
João Vaz, órgão João Fontanes de Maqueira (1765)
LOUIS-NICOLAS CLÉRAMBAULT (França, 1676-1749)
Suite du deuxième ton | – Plein jeu – Duo – Trio – Flûtes – Récit de nazard – Caprice sur les grands jeux
JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750) – Fughetta sopra Nun komm, der Heiden Heiland, BWV 699
DOMINGOS DE SÃO JOSÉ (séc. XVII) – Obra de 5º tom
FRANCISCO CORREA DE ARAUXO (1584-1654) – Tiento de medio registro de tiple de 4º tono
ANÓNIMO (Itália, séc. XVII) – Aria con variationi
CLAUDE BALBASTRE (1727-1799) – Variações sobre a canção de Natal Joseph est bien marié
DIOGO DA CONCEIÇÃO (séc. XVII) – Batalha de 5º tom
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