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“Natal”, de Miguel Torga

“Natal”, de Miguel Torga
“Adoração dos magos” (painel da esquerda – detalhe), de Hieronymus Bosch

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

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Natal

Um anjo imaginado, 
Um anjo diabético, atual, 
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, 
Paz à imaginação! 
E todo o ritual 
Que antecede o milagre habitual 
Perdeu a exaltação. 

Em vez de excelsos hinos de confiança 
No mistério divino, 
E de mirra, e de incenso e ouro 
Derramados 
No presépio vazio, 
Duas perguntas brancas, regeladas 
Como a neve que cai, 
E breve como o vento 
Que entra por uma fresta, quizilento, 
Redemoinha e sai: 

A volta da lareira 
Quantas almas se aquecem 
Fraternalmente? 
Quantas desejam que o Menino venha 
Ouvir humanamente 
O lancinante crepitar da lenha? 

“Natal”, de Miguel Torga
“Adoração dos magos” (painel da esquerda – detalhe), de Hieronymus Bosch

North Sea evening sketches

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida

Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

vidas interrompidas

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

O Reino que será dos que queiram merecê-lo…

No centenário do seu nascimento (no próximo dia 12), impõe-se uma visita ao Reino que Torga testemunhou, embora muitas pessoas digam que não.
Para percorrer as terras por si enaltecidas, tentei que os meus olhos não perdessem a virgindade original diante desta realidade. Foi sem hesitação que lá deixei o coração, o que quase me ia sendo fatal. A 27, dia do nascimento de meu pai, espero voltar ao Vale Encantado.
Os textos em itálico pertencem a Um Reino Maravilhoso, os restantes textos foram retirados daqui. As imagens são minhas.

Os sabores da terra

A oferta gastronómica não se assume como simples curiosidade regional, mas como verdadeira expressão dos hábitos e costumes transmontanos, que brota da força fertilizante da terra e do viço das árvores.

Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia; cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençóis, faz o bragal das noivas.
De figos, nozes, amêndoas, maçãs, pêras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos.

O pão é o alimento apreciado na mesa transmontana, mas que, desde o lançamento da semente à terra, da sua colheita, da malhada até ao ritual da cozedura, revela o trabalho árduo do homem feito camponês:

Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão…

Festas/S. Martinho

Algumas festividades implicam manjares próprios das comemorações dos respectivos oragos ou patronos. É o caso do dia de S. Martinho, cujas celebrações são festejadas com “magustos” de castanhas e vinho.

Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. […] a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença…

O Vinho e a Vinha

O vinho de moscatel, de alvarelhão, de penaguiota, de malvasia fina, o “vinho do Porto”, que seguia, em tempos idos, em barcos rabelos até à zona ribeirinha do Porto e de Gaia, tem a sua expressão máxima nas encostas xistosas do Douro.

Nas margens de um rio de oiro , crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos , varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.


Matança do porco

A matança do porco e o fumeiro, como uma festividade doméstica, encontram-se entre os costumes que Miguel Torga mais vezes relata. Não apenas como espectador, mas como participante activo dessa tradição secular da sua aldeia.

É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bisarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.
Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove… E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma daqueles que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou à Índia.

A Paisagem Humana

A realidade transmontana está associada a factores que exercem influência na singularidade das atitudes e da cultura do homem montanhês. Este, tal como Miguel Torga o canta, está habituado ao isolamento morfogeológico e crente só em si na luta pela sobrevivência, assume-se como entidade autóctone, dotada de notável robustez, de grande coragem, de sentimento granítico e de espírito aberto, franco e solidário com seus irmãos.

Homens de uma só peça , inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! […] Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
–Entre quem é!
Sem ninguém a perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.

Trás-os-Montes

O território torguiano, como o poeta tão bem trasladou em forma de letra para a sua obra, é todo o Portugal, e é ainda a Ibéria. Neste roteiro é, no entanto, obrigatório delimitar, nesta vastidão espacial, as principais fronteiras. Eis Trás-os-Montes.

A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz Côa, Meda, Moimenta e Lamego – toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.

Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias.

Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.
Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.

ressuscitar, nas ondas do mar

Ao Mar

Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência…

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa…
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés…
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece…

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga

Postais de Portugal – Douro


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

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