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O dia não me promete mais que o dia…

Por entre a casaria, em intercalações de luz e sombra – ou, antes, de luz e de menos luz – a manhã desata-se sobre a cidade. Parece que não vem do sol mas da cidade, e que é dos muros e dos telhados que a luz do alto se desprende – não deles fisicamente, mas deles por estarem ali.
Sinto, ao senti-la, uma grande esperança; mas reconheço que a esperança é literária. Manhã, primavera, esperança – estão ligados em música pela mesma intenção melódica; estão ligados na lama pela mesma memória de uma igual intenção. Não: se a mim mesmo observo, como observo a cidade, reconheço que o que tenho que esperar é que este dia acabe, como todos os dias. A razão também vê a aurora. A esperança que pus nela, se a houve não foi minha: foi a dos homens que vivem a hora que passa, e a quem incarnei sem querer, o entendimento exterior neste momento.
Amanhecer em Lisboa – 18 Dez 2013
Esperar? Que tenho eu que espere? O dia não me promete mais que o dia, e eu sei que ele tem decurso e fim. A luz anima-me mas não me melhora, pois sairei daqui como para aqui vim – mais velho em horas, mais alegre uma sensação, mais triste um pensamento. No que nasce tanto podemos sentir o que nasce como pensar o que há-de morrer. Agora, à luz ampla e alta, a paisagem da cidade é como de um campo de casas – é natural, é extensa, é combinada. Mas ainda no ver disto tudo poderei eu esquecer que existo? A minha consciência da cidade é, por dentro, a minha consciência de mim.
Lembro-me de repente de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã, e tinha alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas. Sim, outrora eu era de aqui; hoje, a cada paisagem, nova para mim que seja, regresso estrangeiro, hóspede e peregrino da sua presentação, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. No meu sangue corre até a menor das paisagens futuras, e a angústia do que terei que ver de novo é uma monotonia antecipada para mim.
E debruçado ao parapeito, gozando do dia, sobre o volume vário da cidade inteira, só um pensamento me enche a alma – a vontade íntima de morrer, de acabar, de não ver mais luz sobre cidade alguma, de não pensar, de não sentir, de deixar atrás, como um papel de embrulho, o curso do sol e dos dias, de despir, como um traje pesado, à beira do grande leito, o esforço involuntário de ser.
Bernardo Soares – 119

São Jorge

Pensa-se que os Cruzados ingleses que ajudaram o Rei Dom Afonso Henriques a conquistar Lisboa, em 1147 terão sido os primeiros a trazer a devoção a São Jorge para Portugal. No entanto, só no reinado de Dom Afonso IV de Portugal que o uso de “São Jorge!” como grito de batalha se tornou regra, substituindo o anterior “Sant’Iago!”.
O Santo Dom Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino, considerava São Jorge o responsável pela vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota e aí está a Ermida de São Jorge a testemunhar esse facto. O Rei Dom João I de Portugal era também um devoto do Santo, e foi no seu reinado que São Jorge substituiu Santiago maior como padroeiro de Portugal. Em 1387, ordenou que a sua imagem a cavalo fosse transportada na procissão do Corpus Christi.
Entre as diversas lendas sobre São Jorge, como a “do dragão e da princesa”, a data de 23 de Abril do ano de 303 é tida como o dia da sua morte. Via.
Michiel van Coxcie [1499-1592] – A Tortura de São Jorge, 1580s

Michiel van Coxcie - The Torture of St George, 1580s

Quando os cidadãos “postam” a cidade

Por Rui Pedro Antunes, no Diário de Notícias.

Grande Panorama de Lisboa

Da Cruz-Quebrada ao Beato são cerca de 14 quilómetros de frente ribeirinha. O Grande Panorama da Lisboa anterior ao Terramoto de 1755, reproduzido num monumental painel de azulejo com 23 metros de comprimento, está no Museu Nacional do Azulejo.  Tem também destaque aqui.

grande-panorama-de-lisboa_sec-xviii_mna

CouchSurfing 4 Homeless

A memória não ajuda a reter
aquele vulto, a luz que desespera
além no escuro.
Já tudo se apagou
e nada importaria se salvasse
a emoção do viver,
pois sei que existi
naquele território donde fui retirado
porque chegou aquele tempo
que era já somente, em sucessão de mármore,
o espaço defunto de um presente.

E o que se apagou não existe já nos olhos
do que na esquina está
à espera que volte o transeunte
que antes passou ali, e ali ficara.
Buscai no prato as moedas,
eu não as posso ver.
Estou aqui por elas, e não interessam.

poema “O Mendigo do Extinto”, de Francisco Brines

Bairro Alto… The Day After..

Dediquei a tarde de sábado a percorrer as ruas do bairro que conheço de cor, no intuito de identificar património degradado e/ou ao abandono. A tarefa revelou-se de uma completa inutilidade, tamanha foi a imundície que encontrei. Cheira mal, as ruas estão um nojo, tudo aquilo me incomodou muito.
Sobre o assunto património, estes amigos de Lisboa estão a tentar ajudar…

Vou ao BA de vez em quando para um copo e penso sempre que será impossível para aquelas pessoas habituarem-se ao barulho, ao cheiro a urina quando saem de casa na manhã seguinte.
Em abono da verdade, nunca conheci o bairro limpo. Mas as ruas lá iam sendo lavadas e os prédios já velhos eram habitados por gente que gostava do seu bairro.

Hoje ninguém gosta, por mais que encolham os ombros, conformados. Basta levantar os olhos e olhar para as varandas e ver as poucas pessoas que estão às janelas, que já foram cuidadas, para ver que olham desconfiadas quem passa.

Quem gosta do bairro hoje são os proprietários dos bares e restaurantes (não há ninguém que os impeça de deitar lixo na rua, já que eles não têm essa decência?) e lojas da moda que viram bar no mês seguinte, se a coisa correr mal. Ah, e os dealers.
Os novos habitantes, gente que pode fazer alguma coisa se quiser, estão-se nas tintas, as Juntas de Freguesia perderam por completo o controle da situação e os políticos levam lá os media para serem vistos a dar umas mangueiradas nas paredes e aliviar as consciências.
Não é falta de empenhamento, não sabem mais.

Obviamente, só a limpeza não resolve os muitos e graves problemas do Bairro Alto, mas não me lixem! Se ao Presidente lhe desse um vipe igual ao do Terreiro do Paço e se empenhasse – só um bocadinho -, a praga das tags resolvia-se em três tempos.
Por este andar, três mandatos são suficientes para matar o bairro.

Le Roi Est Mort. Vive Le Roi!

 

 

 

 

 

 

Jardins Românticos de Lisboa – PGR

O edifício que hoje é conhecido pela designação de Palácio Palmela fica situado numa propriedade, fronteira à antiga Fábrica das Sedas, que foi termo dos terrenos outrora pertencentes ao Noviciado da Cotovia.

Com a forma de um triângulo, definido a partir do chafariz do Rato, pela Rua do Salitre e pela antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas, hoje Rua da Escola Politécnica, a propriedade é cercada por uma muralha, de altura considerável, que tem por função suster os terrenos, dada a diferença de cotas entre o jardim e aquelas duas artérias.
Esta muralha, que é inteiramente revestida de pedra lioz e coroada por uma balaustrada interrompida a espaços por plintos, que sustentam urnas em cerâmica, integra-se harmoniosamente com o chafariz, construído dois séculos antes na mesma pedra.
Um simples muro separa o jardim, a nascente, dos quintais que lhe são contíguos contrastando, em simplicidade, com o resto da cerca.
Neste perímetro, além do Palácio, existem várias construções. Acima da barreira, no ângulo poente, em frente à Fábrica das Sedas, eleva-se um pequeno pavilhão, de gosto inglês na concepção, mas que, segundo a tradição portuguesa, serve de mirante.

fonte: PGR


Localizado a norte do jardim, o atelier da duquesa D. Maria Luísa, de aspecto rústico de sabor nórdico, devido ao seu revestimento exterior, simulando vigamentos de madeira. Hoje alberga o departamento de informática.
A seguir às casas de arrumos, existe uma estufa centenária cujos vidros são praticamente todos originais.

Pelo jardim estão espalhados alguns canteiros em pedra, como este, revestidos com azulejos originais.


Um dos dois candeeiros de pé alto, originais; Este tem ainda marcas de balas aquando a revolução de 1910. Existem mais vestígios de balas mas estes são os mais visíveis.


No jardim passeiam-se melros, entre outras aves, de que se salientam alguns patos que frequentam o lago durante a madrugada (?) até às 8h da manhã (?). Ninguém sabe de onde vêm.


Durante a Lisboa 94, o jardim tinha iluminação nocturna. Depois disso, deixou de haver verba!


Nesta zona do jardim existem duas castanheiras da Índia que dão ao mesmo tempo castanhas maduras e verdes, devido à exposição solar. Estas castanhas não são boas para comer, apenas para afastar a bicharada nas gavetas e armários da roupa.
Existe também ao pé da estufa uma árvore de incenso. Por baixo do jardim existem galerias que se estendem até ao Príncipe Real, mas que não estão acessíveis. Gostava de saber quem tem a chave!


Na relva, assimétrica, existem falhas devido em parte à fraca exposição solar; Estão plantadas duas varideades, uma das quais é a chamada relva chinesa, por ser de tufos….


Um estagiário da Faculdade de Agronomia apresentou um projecto que consistia na colocação dum chip nas árvores, a fim de medir o seu estado de saúde.
A PGR não aderiu por falta de verbas, apenas tendo convidado o jovem para falar sobre os jardins, nas comemorações agendadas para o próximo ano.

Publicado aqui em 2006

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