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Viagens e mestiçagens em torno da viola da gamba

A Accademia del Piacere, criada em 2002 em Sevilha pelos irmãos Fahmi Alqhai e Rami Alqhai, tem vindo a marcar pontos no panorama internacional da música barroca, com destaque para os repertórios italiano, francês e espanhol. O grupo distingue-se também pelas suas incursões noutros campos como é o caso do projecto Las idas y las vueltas, em colaboração com o cantor de flamenco Arcángel, apresentado a 12 Maio 2013 na Gulbenkian no ciclo Músicas do Mundo. Procurando raízes comuns, mas também a liberdade da experimentação, este diálogo entre o flamenco e a música do barroco ibero-americano levou o público do Grande Auditório ao rubro.
Por Cristina Fernandes, Público de 14 Maio 2013.
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Requiem de Mozart pelo Quarteto Arabesco

Integrado nos Concertos de Domingo da Fundação Calouste Gulbenkian, o Quarteto Arabesco apresenta a versão para quarteto de cordas de P. Lichtenthal (1780-1853) do Requiem de W.A. Mozart (1756-1791). Sem vozes nem palavras, só a música reduzida para apenas quatro instrumentos numa revelação intimista e depurada dos elementos musicais chave desta fantástica obra.

O concerto, de entrada livre, será no Átrio da Biblioteca de Arte do Museu Gulbenkian, Domingo dia 7 de Abril às 12h00.

Quarteto Arabesco (em instrumentos históricos)
Denys Stetsenko e Raquel Cravino, violinos
Lúcio Studer, violeta
Ana Raquel Pinheiro, violoncelo

As Idades do Mar

Exposição – “As Idades do Mar” | Gulbenkian | 26 de outubro 2012 – 27 de janeiro 2013

Migração de pássaros, 1924 – Johannes Larsen, Dinamarca | Crédito fotográfico: SMK Foto. Statens Museum for Kunst © Johannes Larsen, Copy-Dan, 2012 | Óleo sobre tela Folketinget, Copenhaga
O mar é o tema central da exposição que o Museu Calouste Gulbenkian vai apresentar a partir do dia 26 de Outubro, na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação. Em exposição vão estar mais de uma centena de obras, dos séculos XVI ao XX, provenientes de 46 instituições nacionais e estrangeiras, com o apoio excepcional do Museu d’Orsay.

Square Rock, Ogunquit, 1914 – Edward HOPPER (1882-1967) | Foto:Robert E. Mates © Heirs of Josephine N. Hopper, licensed by the Whitney Museum of American Art | Óleo sobre tela 61,6 x 74,3 cm Whitney Museum of American Art, New York Josephine N. Hopper Bequest Inv. 70.1203
Partindo de uma sondagem histórica da representação visual do mar, a mostra procura identificar os temas fundadores que levaram à sua extensa e recorrente representação na pintura ocidental. A exposição desenvolverá o conceito que dá título ao projecto em seis secções distintas: As Idades dos Mitos, As Idades do Poder, O Mar e o Trabalho, Tormentas e Naufrágios, Contemplação e Viagem e O Mar como Símbolo.

Figura de Branco, Biarritz, 1906 – Joaquín SOROLLA BASTIDA (1863-1923)
Óleo sobre tela 63 x 91,5 cm Museo Sorolla, Madrid
Van Goyen, Lorrain, Turner, Constable, Friedrich, Courbet, Boudin, Manet, Monet, Signac, Fattori, Sorolla, Klee, De Chirico, Hopper, são alguns dos 86 autores presentes na exposição com obras de superior qualidade. Também a pintura portuguesa, através de Henrique Pousão, Amadeo de Souza-Cardoso, João Vaz, Maria Helena Vieira da Silva, Menez, Sousa Lopes, Noronha da Costa, António Carneiro ou João Vaz, contribuirá para esta abordagem exaustiva e por vezes inesperada de um motivo tão fascinante – e simultaneamente com especial significado na história e cultura portuguesas.

A Evasão de Rochefort, 1881 – Édouard MANET (1832-1883) | Paris, musée d’Orsay © 2012. White Images/Scala, Florence | Óleo sobre tela 80 x 73 cm Paris, Musée d’Orsay Inv. RF 1984-158
Com curadoria de João Castel-Branco Pereira, diretor do Museu Gulbenkian, As Idades do Mar reúne 108 obras vindas de meia centena de instituições nacionais e estrangeiras e conta com mais de uma dezena de peças da coleção do Museu d’Orsay.

Hôtel des Roches noires. Trouville, 1870 – Claude MONET (1840-1926) | Paris, Musée d’Orsay. © 2012. Photo Scala, Florence | Óleo sobre tela 81 x 58 cm Paris, musée d’Orsay, doação de Jacques Laroche, 1947 Inv. RF 1947-30
A abrir a exposição estará A Largada do Bucentauro de Francesco Guardi, obra pertencente à colecção do Museu Gulbenkian e que sintetiza as linhas programáticas da mostra representando um ritual que se cumpria anualmente na cidade de Veneza que simbolizava o casamento entre a Terra e o Mar.

Natureza-Morta com Peixes, 1925 – Giorgio de CHIRICO (1888-1978) | © Giorgio de Chirico, SIAE, 2012
Óleo sobre tela 74 x 100 cm Galleria nazionale d’arte moderna e contemporanea, Roma Su concessione del Ministero per i Beni e le Attività Culturali Inv. 3178
A exposição desenvolve-se, a partir daí, em seis núcleos distintos: A Idade dos Mitos, A Idade do Poder, A Idade do Trabalho, A Idade das Tormentas, A Idade Efémera e a Idade Infinita.

Naufrágio Numa Costa Rochosa, 1757 – Carlo BONAVIA (activo em Nápoles, 1751-1788) | Colección Santander | Óleo sobre tela 125 x 205 cm Colección Santander
Em torno da exposição realizam-se quatro conferências sobre iconografia do mar na azulejaria, na tapeçaria e na pintura, nos dias 5, 12, 19 e 26 de novembro, no Auditório 3.

A Onda, 1889 – Gustave COURBET (1819-1877) | Musée d’Art moderne André Malraux, MuMa, Le Havre © Charles Maslard | Óleo sobre tela 71,5 x 116,8 cm Musée d’Art moderne André Malraux, Le Havre Inv. 2003.1.1

A Sereia, 1893 – Giulio Aristide SARTORIO (1860-1932) | Reprodução autorizada pela Fondazione Torino Musei | Óleo sobre tela montada sobre painel de madeira 58 x 129 cm GAM–Galleria Civica d’Arte Moderna e Contemporanea, Turim Inv. P/2492, GAM

Batalha de Lepanto, 7 de Outubro de 1571, c. 1573 | Anónimo (Monogramista «H») | Óleo sobre tela 127 x 232,4 cm National Maritime Museum, Greenwich, Londres/ Inv. BHC0261

Exposição – Fernando Pessoa, Plural como o Universo

Fundação Calouste Gulbenkian | De 10 Fev 2012 a 30 Abr 2012 |
Curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith | Imagens de Márcia Lessa
Exposição dedicada a Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, que pretende mostrar toda a multiplicidade da obra do grande poeta de língua portuguesa, conduzindo o visitante numa viagem sensorial pelo universo de Pessoa, para que leia, veja, sinta e ouça a materialidade das suas palavras. Com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith, nesta exposição encontra-se um espaço repleto de poemas, textos, documentos, fotografias e pintura, onde se incluem raridades como a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
Nascida de uma colaboração entre a Fundação Roberto Marinho (Brasil) e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, com o apoio da Fundação Gulbenkian, esta exposição foi inaugurada em São Paulo, em 2010, e apresentada no Rio de Janeiro em 2011. Em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, a exposição assinala o Ano do Brasil em Portugal.

Fernando Pessoa, Plural como o Universo tem várias componentes. Um dos espaços é reservado à apresentação, em compartimentos delimitados, do ortónimo e dos quatro mais importantes heterónimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Noutra parte, encontra-se uma recolha de textos, cuja tónica é mostrar como puderam conviver, no espírito de Pessoa, os heterónimos, os escritos autointerpretativos e todos os outros projetos que o poeta ia desenvolvendo, num processo dinâmico e simultaneamente solitário. A exposição inclui ainda documentos inéditos, pinturas e alguns objetos nunca antes expostos em Portugal.
Os visitantes têm à sua disposição exemplares de toda a obra de Fernando Pessoa, em português e traduzidos para outras línguas, para que esta mostra possa também ser uma oportunidade para a leitura ou releitura, num espaço pouco usual, dos múltiplos e diferenciados escritos do poeta.
A componente multimédia da exposição é constituída por filmes, vozes e sons, poemas ditos e páginas de livros que, com um só toque do visitante se alternam e folheiam, fazendo uso das tecnologias atuais. O visitante pode escolher assim o seu próprio percurso perante a multiplicidade de escritos e registos existente.

Um luminoso Monteverdi

As ligações referem-se à série de vídeos dedicados aos Concertos Promenade da BBC, Setembro de 2010.
Claudio Giovanni Antonio Monteverdi,1567 – 1643 – Vespro della Beata Vergine, 1610 / SV 206 | Monteverdi Choir | London Oratory Junior Choir | Schola Cantorum of The Cardinal Vaughan Memorial School | English Baroque Soloists | His Majestys Sagbutts and Cornetts | Conducted by John Eliot Gardiner

Com a devida vénia a Cristina Fernandes, que escreveu a crítica para o Público de 02-12-2010.
Em 2010, comemoram-se quatro séculos da publicação das Vésperas da Beata Virgem, de Monteverdi, em Veneza, pelo que esta obra paradigmática dos inícios do Barroco tem um lugar de destaque nas programações de várias instituições. Em Portugal, contamos com duas interpretações por músicos de alto nível num curto espaço de tempo. A primeira teve lugar na segunda-feira, na Gulbenkian, com o coro La Capella Ducale e o ensemble Musica Fiata, sob a direcção de Roland Wilson, e no dia 8 será possível ouvir a versão do agrupamento La Venexiana, dirigido por Claudio Cavina, no Centro Cultural de Belém.

As Vésperas de Monteverdi são uma obra de transição entre o antigo e o novo, que leva ao ponto mais alto, quer a herança da polifonia renascentista, quer as experiências florentinas e venezianas dos inícios do século XVII (como a monodia acompanhada e a policoralidade). À estrutura litúrgica tradicional do Ofício de Vésperas (com os seus Salmos, Antífonas, Hino e Magnificat), Monteverdi acrescentou quatro “concertos” para vozes solistas e baixo contínuo (por vezes também designados por motetes), onde explora características do novo estilo barroco, e a belíssima Sonata sopra Sancta Maria, onde a melodia de cantochão emerge sobre uma luxuriante textura instrumental.

Cada trecho tem uma constituição vocal e instrumental diversa, mas de uma maneira geral Robert Wilson dividiu os seus 10 cantores em dois coros, de modo a potenciar o jogo da policoralidade. O efeito a esse nível foi discreto e o resultado ganharia com uma acústica com mais ressonância, mas tal só seria possível num espaço mais adequado à música desta época do que o Grande Auditório Gulbenkian. Embora menos exuberante do que as interpretações por agrupamentos italianos, La Capella Ducale e o grupo Musica Fiata ofereceram uma versão luminosa das Vésperas que se foi tornando mais envolvente à medida que a obra avançava. O início tímido, com um Dixit Dominus algo linear e pouco pujante, contrastou com a transparência dos planos sonoros, a energia rítmica e as sedutoras nuances de colorido que caracterizaram o Magnificat no final.

Jan van Bijlert – The Concert, 1635-40

Entre outros belos momentos, destaca-se o Nisi Dominus ou o concerto Audi Coelum, com a solução bem conseguida de colocar o cantor responsável pelo eco fora do palco. Tal como sucedia na época de Monteverdi, os cantores responsáveis pelos solos são os mesmos que fazem as partes corais, demonstrando em geral uma sólida qualidade nas duas vertentes. No entanto, deveriam ter ido mais longe no plano da retórica musical e da relação texto-música. Por exemplo, o dueto de sopranos Pulchra es foi algo superficial e houve passagens (como na Sonata sopra Sancta Maria) com algumas imprecisões ou pequenas dessincronizações rítmicas.

Em compensação, o ensemble Musica Fiata demonstrou virtudes como o brilho da sonoridade dos sopros (trombones e cornetos) e um óptimo trabalho ao nível do baixo contínuo (órgão, chitarroni, harpa dupla, violone e lirone), que não se limitou a uma realização básica de preenchimento da harmonia, mas operou um verdadeiro diálogo com o conjunto e deu destaque à identidade de cada instrumento. Quer pela prestação dos músicos de Robert Wilson, quer pelo poder avassalador da extraordinária música de Monteverdi, a assistência foi tomada pelo entusiasmo no final, aplaudindo longamente em pé.

Cristina Fernandes

Musica Fiata + La Capella Ducale | Vésperas de Monteverdi

Vespro della Beata Vergine (1610), de Monteverdi, é uma genial combinação entre a tradição e a inovação. Ao mesmo tempo que herdeira da polifonia quinhentista, lança as bases do pleno estilo barroco. O coro La Capella Ducale e o ensemble Musica Fiata interpretam esta obra apaixonante quatro séculos depois da publicação da partitura em Veneza.

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Istambul, a ponte de Jordi Savall

Projectos musicais como Istambul valem bem os “pastiches” neo-arcaicos e neoreligiosos que agora florescem. Porque nos deleitam e enriquecem o conhecimento.
Augusto M. Seabra

Jordi Savall é uma presença assídua, mesmo promíscua, na Gulbenkian. Nenhum outro intérprete esteve tantas vezes presente nos ciclos de música antiga. Mas inclui-lo num Ciclo de Músicas do Mundo pode parecer insólito – só que é plenamente justificado.

Desde os primórdios do Hespèrion XX Savall deu grande importância à influência da música da tradição oral, mas nos últimos anos tem por assim dizer “cruzado” o Mediterrâneo em discos como Diáspora Sefardi e Orient-Occident.

Mais recentemente, dedicou-se a um personagem aventureiro e fascinante, Dimitrie Cantemir, príncipe moldavo, que chegou a Istambul como refém e seria depois representante diplomático do pai. Mas para além da sua vida aventurosa; Cantemir escreveu um tratado de música, nos princípios do século XVIII, o Livro da Ciência da Música. Trata-se de um documento excepcional como fonte da teoria, de estilo e de formas músicas otomanas na passagem do século XVII para o XVIII. Recolha de 335 composições, nove dos quais do próprio Cantemir, escritas num sistema de notação inventado pelo compilador O Livro da Ciência da Música é a mais importante colecção de música instrumental otomana dos séculos XVII e XVII.

Trata-se de música otomana, arménia (especialmente bela) e sefardita. Para a sua realização Savall reuniu músicos “ocidentais” e “orientais”. Indubitavelmente trata-se assim de “música do mundo” e fascinante. De resto o que se designa por músicas do mundo” (evitemos a espúria designação de “world music”) são músicas tradicionais, eruditas ou populares – também eruditas, sublinhe-se.

Como é próprio de Istambul, esta é uma colecção mais cosmopolita (e esperemos que no concerto haja mais canções sefarditas, algo escassos no disco). Mas, por fundamental que tenha sido no Ocidente, há outras formas de cosmopolitismo, musical também. Numa programação em que uma das grandes novidades é o Ciclo de Músicas do Mundo, Istambul, a música, é como a cidade: uma ponte. E precisamos em todos os sentidos de ter uma atitude cosmopolita. Projectos musicais destes valem bem os “pastiches” neo-arcaicos e neo-religiosos que agora florescem. Porque nos deleitam e enriquecem o conhecimento. E porque nos dão concretamente a ouvir outras músicas, que a hegemonia da música erudita ocidental desprezou. Via.

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