Amigos do Príncipe Real

Por razões que não importa agora dissecar, os Amigos do Príncipe Real não tornaram ainda pública a resposta ao artigo Príncipe Real: “Restauro é a palavra correcta” de Ana Vaz Milheiro, produzido para o Público de domingo passado, que o Paulo Ferrero oportunamente comentou no Cidadania LX.
Com a devida autorização, deixo aqui a resposta e o artigo que lhe deu origem.
Se Ana Vaz Milheiro entende que a “polémica” acabou, então não percebeu que o que está em causa é o direito à indignação, pelo modo pouco transparente como o processo do abate de árvores foi conduzido desde o início. Se tivesse tido a cortesia de ouvir os “críticos” antes de escrever o artigo, talvez tivesse sido poupada ao ridículo e ao descrédito. Assim, corre o risco de fazer “novos amigos”.

Senhora Directora,

Saiu no “Público” de Domingo 17 de Janeiro, no novo suplemento “Cidades”, um texto de opinião de Ana Vaz Milheiro, apresentada como crítica de arquitectura, sobre o caso do Jardim do Príncipe Real.
Esse texto, que é de mera opinião, mas que se apresenta como um artigo jornalístico merece-nos as mais severas reservas e, dado que nele são feitas referências directas ao texto da petição online da minha autoria creio que me assiste a prerrogativa de, ao abrigo do nº 1 do art.º 24 da Lei nº 2/99 de 13 de Janeiro (lei de Imprensa), invocar o «direito de resposta», tanto mais que a autora apenas ouviu uma das partes em confronto.
Assim:
A autora começa por destacar logo abaixo do sub-título que “Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania”, quando o caso do “Príncipe Real” está longe de ser um “não caso” como a autora, caso se informasse, como era seu dever, poderia constatar.
O grupo “Amigos do Príncipe Real”, constituído essencialmente por moradores e frequentadores na área do Príncipe Real, tem efectuado inúmeras démarches no sentido de informar e alertar a opinião púbica sobre esta situação, nomeadamente:
1. – um debate público levado a cabo no passado dia 18 de Dezembro nas instalações da ex-Faculdade de Ciências, à Rua da Escola Politécnica, para o qual foram convidadas as entidades oficiais com jurisdição sobre o jardim e diversos órgãos de informação, entre os quais o “Público”;
2. – o requerimento e consequente consulta do processo 14/CP/DEPSON/ND/2009 referente ao Jardim, nas instalações da Divisão de Fiscalização e Controlo do Espaço Público da CML, na Av. 24 de Julho, 171 C;
3. – elaboração e envio de um conjunto de recomendações, por parte de inúmeros subscritores da petição, às referidas instituições oficiais.

Deste modo, daqui reafirmamos à autora do artigo de opinião, o nosso comprovado empenho na defesa do Jardim do Príncipe Real enquanto património desta cidade e dos lisboetas, que não terminará enquanto não obtivermos da parte da CML, do IGESPAR e da AFN a satisfação plena do mais elementar direito dos cidadãos, o de serem informados e ouvidos nas decisões que os afectam.
Aguardamos, por isso, ver publicados no sítio da CML -conforme Recomendação aprovada por maioria pela Assembleia Municipal de Lisboa no passado dia 10 de Dezembro- as peças do processo e as respectivas análises fitossanitárias, que supostamente comprovam a doença das, até agora, 49 árvores abatidas.
Igualmente sintomático da falta de transparência e do menosprezo pelos cidadãos foi, aquando da consulta ao processo a 28 de Dezembro, ter-se constatado a falta das folhas 114 e 115, folhas essas onde deveria constar a listagem das árvores a abater. Chamando-se de imediato a atenção a quem de direito para essa falha grave, e requerendo-se o envio das mesmas, até hoje nenhuma justificação nos foi dada para essa omissão nem recebidas cópias dessas folhas em falta no processo.
Pelo exposto se pode avaliar que quem falhou a “oportunidade para elevar o sentido da cidadania” não foi este grupo de cidadãos mas antes quem, no comando das instituições, se furtou aos seus mais elementares deveres de informação e colaboração, legalmente consagrados no Código do Procedimento Administrativo.

Passando agora ao corpo do texto, a autora, que, implicitamente, se refere como colaboradora do suplemento “Cidades”, começa por ouvir a opinião de dois técnicos que qualifica de principais responsáveis pelo projecto. A autora esquece que a responsabilidade do projecto se coloca muito acima dos técnicos que o elaboraram. A responsabilidade do projecto é antes de mais política e administrativa. É a esse nível que as verdadeiras questões se colocam, e que devem ser respondidas e não o estão a ser.
A autora coloca, pertinentemente, a questão sobre “o que vai afinal acontecer àquele espaço histórico de Lisboa?” questão que “deveria ter sido respondida antes de se terem iniciado as obras de requalificação neste lugar emblemático”. Diz bem a autora, deveria ter sido respondida antes, mas por quem? Naturalmente que pelos promotores da “requalificação”, agora rebaptizada de restauro.
A autora alonga-se em seguida acerca da escolha dos Lódãos como árvores de alinhamento, citando o parecer que Aurora Carapinha, da Universidade de Évora, terá emitido sobre a escolha dessas árvores como espécie mais apropriada para o efeito. Há aqui um enorme equívoco por parte da autora. Desconhecemos o parecer de Aurora Carapinha mas não é isso que está em causa. Nunca questionámos a escolha dos Lódãos como substitutos das árvores de alinhamento abatidas, mas sim o abate indiscriminado das árvores existentes, quer as de alinhamento quer as 9 no interior do jardim, seis das quais em torno do lago central.
A maior parte das árvores de alinhamento abatidas, da espécie “Populus nigra”, gozava de boa saúde, muitas delas com menos de 20 anos de idade. Como seria legítimo esperar de pessoas idóneas e competentes, essas árvores só deveriam ser substituídas au fur et à mesure que se mostrassem inviáveis e/ou apresentassem fundamentado risco de quebra e queda.
Este abate das árvores de alinhamento, bem como das 9 no interior do Jardim é, por mais que não o queiram admitir, uma flagrante descaracterização do jardim.
Admitem os dois citados responsáveis que o jardim ficará “talvez um pouco menos “ensombrado””. Claro que sim, ficará quase transparente. Mas saberão esses responsáveis onde de facto o jardim era, e é, mais sombrio? É precisamente no canto NW onde se situam as três monumentais figueiras, as três Ficus macrophylla, protegidas por lei. Se querem tornar o jardim ainda menos “ensombrado” é aí que devem actuar.
O documento “Memória Descritiva”, dos próprios serviços da CML, de Janeiro de 2009, é a respeito da suposta doença das árvores muito elucidativo ao afirmar “Após uma análise visual concluiu-se que a generalidade do arvoredo existente apresenta necessidades de podas, sejam elas de formação ou de manutenção, mantendo um estado sanitário razoável na generalidade” (sublinhado nosso).
A afirmação de que esses esclarecimentos -quais, perguntamos nós?- não pacificaram as críticas não tem qualquer fundamento, pois a autora baralha a cronologia dos factos.
Não houve, como os arquivos do “Público” o comprovam, qualquer esclarecimento aos cidadãos, antes uma descarada e deliberada manipulação da opinião pública. O famoso folheto distribuído a uma pequena parte dos residentes falava em substituição de algumas árvores doentes. Ora, como se pode comprovar no caderno de encargos do projecto, apenso ao processo supra referido, desde o princípio que o objectivo consistia em abater todas as árvores de alinhamento e mais algumas no interior do jardim, num total de 62 árvores. É este o número de árvores a abater que consta do Caderno de Encargos, que, como é óbvio, é anterior à obra. Isto é um exemplo da deliberada manipulação da opinião pública que foi levada a cabo pela vereação da CML responsável pelos espaços verdes.
Confunde-se igualmente a autora quanto à data em que a petição online foi posta no ar. Foi a 24 de Novembro e não no início de Dezembro, como a autora que tanto cita o texto da petição poderá verificar se o voltar a ler com a devida atenção.
A autora continua nos parágrafos seguintes a dar voz aos que apelida como principais responsáveis pelo projecto que, como Aurora Carapinha, o consideram “minimalista”, falando agora em reabilitação e restauro em vez de requalificação.
se um mero restauro ou uma intervenção minimalista significa abater todas as árvores de alinhamento, como estava previsto, e parte considerável das do interior; destruir, através do uso, sem quaisquer cuidados, de maquinaria pesada -qual elefante em loja de porcelana- todas as caleiras em calçada, tampas de sumidouros, os próprios sumidouros; retirar todos os gradeamentos de protecção dos canteiros; destroçar as relvas; ferir as raízes das Ficus macrophylla, que são árvores classificadas; rebentar tampas de saneamento, etc., então há que perguntar o que será uma intervenção “maximalista”.
O caso do calcetamento dos dois espaços verdes a poente do jardim, com o transplante de uma pequena palmeira que existia num desses canteiros, a consequente morte da mesma e o seu arranque posterior, arruinando o calcetamento acabado de fazer, é exemplar do modo como certos trabalhos “minimalistas” são feitos.
Também exemplar da leviandade com que se propõe certo tipo de soluções é o caso da substituição de Robínias pseudoacácias por árvores da mesma espécie, conforme se pode ler num dos cartazes colocados na vedação após o “levantamento” da opinião pública. Árvores da mesma espécie? Não saberão os ditos responsáveis que a Robinia pseudoacácia é uma espécie infestante cuja plantação está proibida por lei?
Menciona também a autora a questão do pavimento em saibro estabilizado que é apresentado como uma solução que reporia a verdade histórica do pavimento original. O pavimento original, estamos em crer, seria de terra batida e não saibro estabilizado.
O saibro estabilizado não é a melhor escolha para um jardim que além de ser um jardim de fruição é também um jardim de intensa passagem. Milhares de transeuntes percorrem todos os dias a orla Norte do Jardim, centenas o atravessam vindos do lado Sul para apanharem os transportes no lado Norte. É evidente que o saibro por mais estabilizado que seja não vai resistir a esse intenso tráfego pedonal.
Refere, em seguida, que, segundo os principais responsáveis, alguns aspectos não vão sequer ser intervencionados como o caso do pavilhão da cafetaria. Ora aí sim é que se imporia uma intervenção para reconstituir o ambiente original. A pequena casa abrigo do guarda do jardim, quando este tinha um guarda, serve hoje de casa de banho de apoio à cafetaria e está abafada, absorvida por essa cafetaria/restaurante.
Um último aspecto que importa referir é o de, de acordo com os objectivos propostos pelos citados responsáveis, esta intervenção “promover uma manutenção fácil”.
Ora essa “manutenção fácil” passa, como se pode ler na planta do chamado plano geral de plantação, por reduzir significativamente as áreas relvadas, substituindo-as por zonas de arbustos rasteiros. Ou seja, modifica-se o aspecto geral do jardim, degradando-se uma das suas características de lazer mais importantes, por falta de meios para a sua manutenção. Inadmissível.
Cabe aqui perguntar: quantos anos dariam os gastos feitos nesta “requalificação” para pagar essa manutenção, assegurando ao mesmo tempo alguns dos tão necessários postos de trabalho?

Com os melhores cumprimentos e em nome dos “Amigos do Príncipe Real”

Jorge Teixeira Pinto

Príncipe Real: “Restauro é a palavra correcta”

A operação de requalificação do Príncipe Real, em Lisboa, classificada pelos especialistas como “minimalista” e por parte dos críticos como “descaracterizadora”, levanta um problema hoje corrente nas sociedades urbanas: a participação. Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania. Por Ana Vaz Milheiro


Agora que a polémica em torno da intervenção na Praça do Príncipe Real parece ter sido ultrapassada, o que vai afinal acontecer àquele espaço histórico de Lisboa? Esta é a questão que deveria ter sido respondida antes de se terem iniciado as obras de requalificação neste lugar emblemático.

A opinião é partilhada pelos principais responsáveis pelo projecto, os arquitectos paisagistas Fátima Leitão e João Rocha e Castro. A primeira como autora e o último enquanto chefe de divisão de Estudos e Projectos da Direcção Municipal de Ambiente Urbano da Câmara Municipal de Lisboa. Os dois acederam em explicar ao Cidades a estratégia seguida pela proposta de requalificação, concluída em Abril de 2009 e actualmente em curso. A proposta é resultado do trabalho de uma equipa formada a partir de quatro divisões municipais, abrangeu diversas áreas disciplinares como a arquitectura paisagista, a agronomia ou a engenharia florestal. E a mobilização de importantes meios camarários decorreu do significado urbano desta praça, com vista privilegiada sobre a cidade, localizada numa das suas áreas mais qualificadas.

A Praça do Príncipe Real ou Jardim França Borges tem a sua forma actual desde 1869, devendo-se o seu traçado ao jardineiro João Francisco da Silva. O lugar é consequência de uma série de transformações. Durante o século XVIII, por exemplo, funcionou ali uma lixeira e, por altura do terramoto, serviu de acampamento para regimentos militares. Também ali se celebrou a primeira missa da Patriarcal de Lisboa, que viria a arder em 1769. Mais recentemente, depois da construção do reservatório de água, na década de 60 do século XIX, recebeu o nome que tem hoje e iniciou-se a construção do actual jardim, que respeitava os padrões daquele tipo de equipamento urbano, muito característico nas cidades oitocentistas europeias, e que ficou vulgarmente conhecido como “jardim romântico”: um tabuleiro central organizado em torno do lago do reservatório, com canteiros recortados segundo um esquema “orgânico” (mais livre), sobre um tapete pavimentado de asfalto (originalmente foi utilizado saibro).

Os lódãos

O jardim rapidamente se transformou num espaço privilegiado de “recreio” e “lazer” entre os habitantes da capital. Hoje, a Praça do Príncipe Real é ocupada por diversas actividades, desde a montagem semanal do mercado de produtos biológicos ao sábado de manhã, passando pelas sazonais feiras de artesanato e de alfarrabistas e velharias. Possui, portanto, um público bastante alargado, não apenas composto por residentes da área. Foi esse público que se manifestou contra os primeiros abates de árvores que se registaram no arranque das obras durante o final do mês de Novembro. No centro da discórdia estava a substituição dos choupos que ladeiam o tabuleiro central por outra espécie de árvores – lódãos -, mais adequadas, segundo os projectistas, à tipologia do jardim pré-existente. Esta opinião foi confirmada por diversos especialistas, caso de Gonçalo Ribeiro Teles.

Mas seria a arquitecta paisagista Aurora Carapinha, da Universidade de Évora, a defender as opções do projecto, em parecer de 26 de Novembro, procurando responder à polémica entretanto levantada: “Consideramos a espécie arbórea escolhida lódão (Celtis australis) acertada” à situação do jardim, “ao contrário dos choupos (Populus nigra) existentes, mais apropriados para zonas baixas, húmidas. Também a forma, cor, densidade da canópia do lódão são atributos que qualificam esta árvore como uma boa escolha para alinhamento e arruamento”. É ainda Fátima Leitão quem explica ao Cidades que os choupos, “ao fim de 30-40 anos, começam a apodrecer e a deixar cair pernadas”, situação que já se verificava no Príncipe Real. A arquitecta paisagista lembra igualmente que a configuração actual dada pela presença dos choupos é relativamente recente, não tendo ainda cumprido as três décadas.

Estes esclarecimentos, talvez pelo seu teor mais técnico, não pacificaram imediatamente as críticas. Na petição on-line lançada no início de Dezembro, depois de distribuído o folheto produzido pela câmara, colocado nas caixas de correio dos moradores da zona, que insistia no carácter qualificador de toda a operação, podia contudo ler-se: “Ora o que se está a verificar, duas semanas após o início da requalificação, é a descaracterização do antigo jardim romântico à inglesa (…), tendo sido (…) cortadas algumas das árvores centenárias em torno do lago. Temos sérias dúvidas se (…) mereciam tal sorte pois não apresentavam sinais de doença nem muito menos de estarem sem vida. “

É por isso que a parte mais importante do parecer de Aurora Carapinha seria precisamente a sua posição perante a concepção geral da intervenção, ao classificar a proposta como “minimalista”, por não anular “a historicidade do jardim nem o seu valor de património paisagístico”. Esta é também a convicção de João Castro: “Aqui reabilitação é a palavra correcta ou mesmo, até, restauro.”

A estratégia seguida pela projectista, e apoiada pelo chefe de divisão, parte de três acções muito objectivas: “Manter o testemunho do passado; evitar o desenho (que se sobreponha ao seu traçado histórico); e promover uma manutenção fácil.” Já Fátima Leitão especifica as decisões tomadas: “Manter a estrutura de canteiros e caminhos, substituir o pavimento por saibro estabilizado, substituir a iluminação e o mobiliário urbano danificado (bancos, mesas de jogo, etc.), reparar as valetas e tampas em pedra e recuperar a vegetação existente, eliminando alguns arbustos.”

Algumas destas soluções, como a reintrodução do saibro ou a opção por regrar a iluminação pública (ao invés de deixar os diferentes modelos de candeeiros que hoje coexistem), foram anteriormente testadas num jardim próximo: o miradouro de São Pedro de Alcântara. Este pode muito bem servir como exemplo a quem deseje antecipar como será o “novo” jardim do Príncipe Real. Genericamente, garante Fátima Leitão, não será muito diferente do que é actualmente. Talvez um pouco menos “ensombrado” depois de feitas as “correcções” no arvoredo. Seguiram-se aqui, segundo João Castro, as boas práticas de intervenção em lugares patrimoniais: “Tudo é reversível pela simplicidade da requalificação.”

Os projectos anteriores

De onde surgiu então toda a polémica? É provável que a memória de outras tentativas de intervenção tenha pesado. Esta é a terceira vez que o jardim é objecto de um projecto de requalificação.

A primeira passava por abolir o tabuleiro central, ligando-o ao edificado adjacente através de um pavimento uniforme. Esta opção foi na época considerada demasiado “intrusiva” por descaracterizar o sentido do desenho primitivo.

A segunda previa a construção de um parque de estacionamento subterrâneo sob a via, com entradas laterais à praça que isolavam o tabuleiro tornando-o uma “ilha” e causando um significativo impacto paisagístico e de enquadramento urbano. Este projecto, desencadeado há cerca de cinco anos, geraria grande contestação, motivando igualmente uma petição pública. Os próprios projectistas envolvidos tinham dúvidas quanto aos princípios adoptados e na época consideraram válidos os protestos por terem permitido rectificar um processo no qual não depositavam certezas absolutas.

O caso agora é diferente. Os seus autores insistem em qualificar a intervenção como “recuperação parcial”, uma vez que “não se altera a forma ou o conteúdo funcional do jardim”, como se pode ler no programa de requalificação. Alguns aspectos não serão sequer intervencionados, como o parque infantil ou o pavilhão da cafetaria. E a peça mais emblemática do conjunto – o caramanchão que suporta o cedro do Buçaco (Cupressus lusitanica) – só verá a sua estrutura de ferro recuperada de modo faseado de maneira a não prejudicar a sobrevivência da árvore.

Para lá dos aspectos mais demagógicos envolvidos em torno do abate de algumas árvores, cuja manutenção seria altamente improvável, como manifestaram vários especialistas, o exemplo da Praça do Príncipe Real coloca um tema caro às sociedades europeias contemporâneas: o problema da participação pública nas decisões de planeamento das cidades. Demonstra como as populações estão dispostas a accionar os meios de intervenção disponíveis com o objectivo de travarem operações sobre as quais recaem dúvidas. Conseguindo-se evitar o populismo de que estas acções também padecem, é possível garantir uma participação mais informada. Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania.

Ana Vaz Milheiro é crítica de arquitectura

Cabo da Roca e Praia da Ursa, mesmo ao lado

Aqui…

Onde a terra se acaba e o mar começa…

(Camões)

Cabo da Roca, Janeiro de 2010

Mensagem a Deus

Caro Deus,
escrevo-te estas breves linhas enquanto homem sem capacidade para te admirar, não por falta de doutrina ou por te negar, o que tornaria impossível esta carta, esperando ainda que não tomes estas palavras como um qualquer pedido de natureza pessoal.
Imagino que não tenhas qualquer intervenção sobre os recentes movimentos na crosta terrestre, dos quais certamente terás já tido notícia pela enorme falange de crentes, relatando milhares de mortos, muitos, teus fiéis.
Por todo o mundo se mobilizam meios, humanos e materiais, para acorrer aos sobreviventes e resgatar os corpos dos desaparecidos, pois o tempo urge. Estamos a fazer o que podemos.
Às muitas pessoas soterradas, a quem poucas forças restarão para pedir ajuda, bem como àquelas a quem vai faltando a esperança de encontrar familiares ou amigos ainda com vida, se lhes puderes aquecer um pouco a alma, estou certo que te ficarão reconhecidos.

Onde quer que estejas...

The Grand Turk Giving a Concert to his Mistress

Charles-André van Loo (1705–15 Julho 1765) foi o mais célebre de uma dinastia de pintores de sucesso. Originária de França e fixada na Holanda, a família incluía o avô Jacob van Loo (1614-1670), o irmão Jean-Baptiste (1684-1745) e o sobrinho Louis-Michel (1707-1771).
Estabeleceu-se em Turim em 1727, onde casou com a cantora de ópera Christina Antonia Somis, identificada nesta obra como a pianista que canta a famosa ária Admeto, de Handel.
Em 1734 voltou a Paris onde, no ano seguinte, se tornou membro da Real Academia de Pintura.
Esta obra, de 1737,  é um dos primeiros trabalhos do artista encomendados pelo Rei Louis XV, que o nomeou Primeiro Pintor da Corte em 1762 e, um ano mais tarde, Director da Academia.
A cena, supostamente oriental, é na realidade um concerto de câmara europeu num cenário turco imaginário, muito popular nos anos de 1730.

Charles André van Loo - The Grand Turk Giving a Concert to his Mistress, 1737 - Wallace Collection, Londres

Terminar em beleza

Os Amores de Astrée e Celadon (2007) encerraram o capítulo histórico, iniciado com A Inglesa e o Duque (2001) e Agente Triplo (2004) que, sinceramente, achei uma pessegada.
O venerável Eric Rohmer (1920-2010) foi respeitado como poucos cineastas, pela forma como nos dava a ver a narrativa, arte evidenciada nos Contos das Quatro Estações, a minha série preferida.

Herbie Hancock’s all-star set

Legendary jazz musician Herbie Hancock delivers a stunning performance alongside two old friends – past drummer for the Headhunters, Harvey Mason, and bassist Marcus Miller.
Listen to the end to hear them sweeten the classic “Watermelon Man.”

à grande vitesse pour la nouvelle année, s`il vous plaît!

Da magnífica Exposição «Art Déco, 1925» que hoje terminou na Gulbenkian, sendo impossível escolher a que melhor ilustra o Renascimento da Arte, as Portas de Brandt – autor do gradeamento que ligava o Grand ao Petit Palais -, simbolizam assim a entrada no Novo Ano. 🙂

Princípios que presidiram à organização da Exposição de 1925
Reunir numa exposição internacional, com a colaboração de artistas, industriais e artesãos, todas as artes decorativas: artes da madeira, da pedra, do metal, da cerâmica, do vidro, do papel, dos tecidos, etc., quer se aplicassem a objectos utilitários ou sumptuosos ou até mesmo à arquitectura.
– Não admitir nenhuma cópia ou pastiche, devendo os objectos expostos corresponder à modernidade. Contribuir assim para um verdadeiro renascimento da arte.
– Procurar definir a identidade e supremacia da produção francesa no âmbito do mercado internacional e assegurar a sua autoridade como árbitro do gosto e como produtor de artigos de luxo manifestamente produzidos num novo estilo moderno.
– Criar uma arte mais acessível, verdadeiramente democrática. Se até à data as obras modernas eram únicas, industrializadas e feitas em série, permitiriam servir um público economicamente alargado e mais modesto
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Edgar Brandt - Portas de Elevador, c.1925 - Ferro forjado, vidro, bronze dourado e patinado, 240 x 85 cm (cada) © Fundação Calouste Gulbenkian / Foto: Carlos Azevedo

ART DÉCO
Designação dada na década de 1960 à expressão artística que surge no primeiro quartel do século XX, e que obteria grande sucesso no período entre as duas guerras, tempo de grande controvérsia, transformações sociais, tecnológicas, económicas e políticas.
Para muitos visitantes da Exposição das Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925, a impressão mais surpreendente era a de um mundo material que, embora ainda mantendo resíduos da tradição, tinha sido transformado pela introdução de novos materiais e novas técnicas, mas sobretudo pela linguagem visual, pela cor e pela iconografia.
Nos anos de 1920, os modelos decorativos tendem a simplificar as formas, a abandonar a aplicação de ornamentos tridimensionais e deram lugar a motivos abstractos, geométricos e de formas aerodinâmicas, inspirados pelo cubismo, construtivismo, artes primitivas exóticas, essencialmente a africana, e outras fontes «avant-garde».
A Art Déco cria, assim, uma estética decorativa mais compatível com os novos materiais e as tecnologias da produção em série, em vez de uma linguagem figurativa dependente do trabalho manual dos objectos de luxo tradicionais.
O formulário Déco expande-se nos finais de 1920 e na década de 1930 em países europeus e também nos Estados Unidos da América, onde é muito apreciado, chegando mesmo ao Japão e à China.
No entanto, cerca de 1927-1928, a Art Déco em França entrava já em declínio. Assistiu-se ao seu descrédito e à sua marginalização, que persistem até à década de 1960, altura em que os pós-modernistas e os comerciantes de arte a redescobriram no contexto da reacção ao Modernismo.

Regresso à Escola de Atenas

A Sala da Assinatura contém os frescos mais famosos de Raffaelo Sanzio de Urbino (1483-1520), que assinalam de forma singular o início dos trabalhos do grande artista no Vaticano e o começo do Renascimento. O ambiente assume o nome do mais importante tribunal da Santa Sé, “Segnatura Gratiae et Iustitiae”, presidido pelo Pontífice, que utilizou esta sala até meados do século XVI. Originariamente, a Sala havia sido convertida por Júlio II (Pontífice entre 1503 e 1513) em biblioteca privada; o programa iconográfico dos frescos, executado entre 1508 e 1511, destinava-se assim a esta função, tendo sido certamente estabelecido por um teólogo, que propôs a Rafael representar as quatro faculdades clássicas do espírito humano, dando mostras de um elevado grau de liberdade intelectual: a Verdade, o Racional, o Bem e o Belo.
A Verdade sobrenatural está ilustrada na Disputá do SS. Sacramento (ou teologia); Na parede directamente oposta, o Racional está representado na Escola de Atenas (ou a filosofia); o Bem está expresso na das Virtudes Cardinais e Teológicas da Lei e finalmente O Belo na Poesia, representado no Parnaso, com Apolo e as Musas.

Esta vista parcial da Sala da Assinatura no Vaticano mostra Parnasus (Poesia) na meia-lua da esquerda e A Escola de Atenas (Filosofia) na meia-lua da direita

A Escola de Atenas, cujo nome original Causarum Cognitio se manteve até ao século XVII, foi inspirada no projecto do grande arquitecto renascentista Donato di Angelo del Pasciuccio (1444-1514), conhecido como Bramante, para a renovação da Basílica de S. Pedro.
Na obra, que representa a verdade adquirida através da razão, duas figuras centrais retratam a essência dos pensadores da Antiguidade Clássica e, simultaneamente, o tempo de Rafael: Platão aponta para o céu enquanto segura o seu livro Timeo, ladeado por Aristóteles com a Ética; Pitágoras é representado de lado, de modo a permitir observar a explicação do diatessaron; Reclinado nos degraus da escada, Diógenes sugere a leitura; À sua frente, Eráclito, o filósofo pessimista com traços de Miguel Ângelo; À direita, Euclides ensina geometria, Zaratustra segura o Globo Celestial e Ptolomeu o Globo Terrestre, tendo por companhia o próprio Rafael.

Em lugar de a ilustração recorrer às figuras alegóricas, como era hábito nos séculos XIV e XV, convocando o olhar para o infinito, Rafael submete o espaço pictórico às leis do plano, revelando conhecimento da arquitetura dos banhos romanos, fazendo a síntese entre o pagão e o profano. Perante esta composição expansiva, o espectador quase se alheia do facto de o espaço ser mal iluminado.

Escola de Atenas

Dispostas da esquerda para a direita, as solenes figuras de pensadores representam um verdadeiro debate filosófico: astronomia, geometria e aritmética são descritas de forma concreta, num imponente plano arquitectonicamente convergente para o eixo central do espaço abobadado.

Epicuro? afastado do centro da cena filosófica...

No primeiro plano à esquerda, um rapaz segura a tábua da harmonia musical diante de Pitágoras. Ao centro, Hypatia de Alexandria e Parmenides

Hypatia de Alexandria, a astrónoma e filósofa que os cristãos queimaram e arrastaram pela cidade, olha discretamente para o espectador; Uma hábil subversão de Rafael, tendo em conta que a obra está no Vaticano.

Platão e Aristóteles, considerados os principais representantes da filosofia grega durante toda a Idade Média, caminham em diálogo no topo das escadas

Em atitude filosófica, Diógenes de Sínope reclina-se nos degraus, numa expressão de despojamento em relação às necessidades materiais e a um estilo de vida

A figura de Heraclitus (Michelangelo?) - reclinado sobre o bloco de mármore - terá sido associada mais tarde

Euclides desenha uma figura geométrica perante um grupo de jovens.

A figura de costas com o Globo é provavelmente Ptolomeu, tendo à sua frente Zaratrusta com a esfera. À direita: Rafael de chapéu escuro e o seu amigo Sodoma

As figuras desta composição não se atropelam nem são sufocadas pelo aglomerado; sugerem movimento, numa celebração do pensamento clássico liberal, onde tudo é discutido e exercitado. A ironia reside na inserção de Sodoma e (da imitação) do próprio Rafael, numa apologética improvável à República de Platão e à própria filosofia.

Apolo e Minerva

O Cálice de Antióquia

Descoberto no início  do século XX, este cálice faz parte de um conjunto de objectos litúrgicos do século VI que foram encontrados em 1908 na cidade de Kaper Koraon, a sudoeste de Antióquia, uma cidade tão importante para os cristãos como Roma ou Alexandria. Sendo na altura identificado como o Santo Graal, o cálice usado por Cristo na Última Ceia, terá sido concebido como homenagem após a sua morte.

A rica ornamentação é constituida por arabescos de motivos vegetais, pássaros, um cordeiro, um coelho e doze figuras humanas sentadas segurando pergaminhos, sendo duas delas possivelmente imagens de Cristo e as restantes imagens de dez dos doze apóstolos, ou filósofos do período clássico, entre os quais o cronista Malalas de Antióquia, que tentou estabelecer a ligação entre o cristianismo e a filosofia clássica.

O Cálice de Antióquia - 1ª metade do século VI bizantino. Ouro e prata

A Natividade Mística, de Botticelli

Não existe nenhuma evidência documental que comprove se foi seguidor de Savonarola; No entanto, alguns dos trabalhos tardios de Botticelli, como A Natividade Mística, são inspirados nos seus sermões, podendo concluir-se que o artista foi atraído de forma decisiva pelo papel central que Savonarola teve nos meios político e cultural dos finais do século XV.

Tem sido sugerido que A Natividade Mística, o único trabalho existente assinado por Botticelli, foi concebida para as suas devoções privadas, ou para alguém próximo.
Não sendo uma obra convencional, pois os acontecimentos tradicionais do nascimento de Cristo, da adoração dos pastores e dos Reis Magos está ausente, esta obra inspira-se  nas Profecias da Revelação de São João e inclui, simbolicamente, textos em latim e em grego.

Em A Natividade Mística, Botticelli estabelece uma ruptura com o realismo pictórico da época, patente na desproporcionada figura do Menino, obrigando a Virgem Maria a estar inclinada dentro do estábulo.
Sob a inscrição “Glória a Deus nas Alturas e Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade” (Lucas 2:14), os anjos no céu dançam empunhando ramos de oliveira, com os quais coroam os pastores, simbolizando a paz.
Sobre o telhado do estábulo, o Céu, que se abre para revelar o Paraíso, deixa cair algumas coroas douradas.
Os anjos que apontam para o berço seguram a inscrição “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29).
Em baixo, os anjos abraçam os homens, enquanto pequenos demónios emergem das profundezas.

Sandro Botticelli – A Natividade Mística, cerca de 1500