Arquivo de Setembro, 2026

A volta ao mundo de John Coltrane em seis discos

As emissões de 14 e 21 deste mês de Setembro do programa de rádio Notas Azuis são integralmente dedicadas a assinalar o centenário do nascimento do genial saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane, que nasceu em 23 de Setembro de 1926 e que morreu demasiado cedo, em 17 de Julho de 1967.



A primeira emissão destaca três álbuns fundamentais da sua discografia: O histórico Blue Train foi o único trabalho que Coltrane gravou como bandleader para a Blue Note. A gravação das cinco composições, a caminho da espiritualidade que alcançaria A Love Supreme, mas já em busca da transcendência, teve lugar a 15 de Setembro de 1957 nos estúdios Van Gelder em Nova Jérsia e o lançamento em Janeiro de 1958. Ao saxofone tenor, John Coltrane juntou numa única sessão um sexteto que incluía Lee Morgan no trompete, Curtis Fuller no trombone, Kenny Drew ao piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria.

Segue-se o culminar do hard bop na música de Coltrane com Giant Steps, álbum de estreia na Atlantic Records, gravado em 1959 e lançado no início de 1960. A faixa-título introduziu o conceito de “Coltrane changes”, que significa progressões harmónicas extremamente complexas e rápidas que mudam de tom constantemente. Composições como Naima, uma balada dedicada à sua mulher e Cousin Mary tornaram-se standards instantâneos. O processo de gravação ocorreu em três datas, com um quarteto que incluía Tommy Flanagan e Art Taylor nas sessões de 4 e 5 de Maio, substituídos por Wynton Kelly e Jimmy Cobb na sessão de 2 de Dezembro.

A concluir, podemos escutar Olé, a faixa-título que ocupa a totalidade do lado A do álbum Olé Coltrane, lançado em Novembro de 1961, o último que Coltrane gravou para a Atlantic Records antes de se mudar, em definitivo, para a Impulse!.
Gravado numa única sessão a 25 de Maio nos estúdios A&R em Nova Iorque, poucos dias antes das sessões de Africa/Brass (que abre a segunda emissão), este disco representa uma mudança de paradigma na música de Coltrane, ao afastar-se da “saturação” do hard bop em Giant Steps para abraçar o jazz modal, onde prevalecem a harmonia e melodias mais longas.
John Coltrane (sax tenor e sax soprano) expandiu o seu quarteto com convidados de peso para criar uma sonoridade mais densa: Eric Dolphy no saxofone alto e flauta, Freddie Hubbard no trompete, McCoy Tyner ao Piano, Reggie Workman no contrabaixo e Elvin Jones na bateria.



A abrir a segunda de duas emissões dedicadas à efeméride, escutamos Africa/Brass (Impulse! Records, 1961).
Gravado em duas sessões, a 23 de Maio e 7 de Junho nos estúdios Van Gelder, o álbum teve o seu lançamento em Setembro.
Este trabalho apresenta nova evolução na liberdade criativa de Coltrane, ao expandir o seu quarteto composto por McCoy Tyner, Reggie Workman e Elvin Jones com uma orquestra de sopros, num total de 21 músicos dirigidos por Eric Dolphy, tendo como resultado composições de grande fôlego como Africa ou ainda o modo como o seu saxofone redefiniu a canção tradicional inglesa Greensleeves.

Segue-se o celebrado A Love Supreme (Impulse! Records, 1965), gravado numa única sessão nocturna nos estúdios Van Gelder a 9 de Dezembro de 1964 e lançado  em Janeiro seguinte. Concebido como uma suíte espiritual e um testemunho de gratidão, dividida em quatro partes (Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm), contou com o “Quarteto Clássico” formado por Coltrane, McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones.

Até final da emissão, escutamos A Love Supreme – Live in Seattle (Gravado em 1965, lançado em 2021), uma histórica gravação ao vivo registada em 2 de Outubro de 1965 que pertenceu à colecção privada do músico Joe Brazil durante décadas e foi lançada oficialmente apenas em 2021.
Esta versão em Seattle, com o dobro da duração da gravação de estúdio, contou com mais três saxofonistas, com destaque para Pharoah Sanders.

35 anos da morte de Miles Davis

A música é a moldura do silêncio – Miles Davis

O centenário de nascimento de Miles Davis [26 Maio 1926 – 28 Setembro 1991] tem sido pretexto para inúmeras referências à vida e obra de um dos músicos mais influentes, inovadores e revolucionários da história da música ocidental.

A 14 de Maio, no Expresso, João Moreira dos Santos assina o artigo 100 anos de Miles Davis: os quatro concertos para dois regimes do génio do jazz, onde recupera o histórico das visitas e concertos de Miles em Portugal.

Em 22 de Maio, o artigo de Jorge Mourinha no Público,  O ensaio cultural Miles Davis e John Coltrane: 100 anos a iluminar o jazz cruza o legado de Davis com o de Coltrane, [23 Setembro 1926 – 17 Julho 1967], cujo centenário do nascimento foi celebrado no passado dia 23 do corrente mês de Setembro,

No dia do centenário, a 26 de Maio, a RTP2 apresentou o documentário de Patrick Savey “Reinventando o som e o silêncio. Um retrato fascinante de Miles Davis, uma das figuras mais influentes da história do jazz e da música do século XX.”

Ao final desse dia, a Antena 2 emitiu um Especial Miles Davis, moderado por João Almeida, com destaque para um concerto histórico gravado em Helsínquia em 1967 com o seu quinteto.

Ainda na Antena 2, Rui Miguel Abreu apresentou a série documental Miles Davis: 100 anos, dividida em 5 episódios que cobrem detalhadamente a vida e obra do músico norte-americano.



Finalmente, também na Antena 2, a emissão de 1 de Junho do Notas Azuis assinala o aniversário com o título Miles x 100. Nele, podemos escutar os álbuns In a Silent Way, Bitches Brew,  Live:Evil de Miles Davis e ainda musica de Gregory Hutchinson e Jason Miles, que se apresenta em Lisboa a 12 de Novembro no ciclo que o CCB dedica a Miles e Coltrane, com o concerto 100 Miles – Centennial Celebration of Miles Davis.

380 anos da morte de Duarte Lobo

Nos 380 anos da morte de Duarte Lobo [1565-1646], expoente máximo da ‘época dourada’ da polifonia portuguesa, que exerceu cargos como mestre de capela na Sé de Évora e na Sé de Lisboa, o motete fúnebre “Audivi vocem de caelo” para 6 vozes, baseado no texto bíblico do Apocalipse (14:13), tradicionalmente integrado na liturgia do Officium Defunctorum (Ofício dos Mortos)


🎧 Album “Duarte Lobo: Masses, Responsories & Motets · Cupertinos · Luís Toscano ·
2020 Hyperion Records


Publicado originalmente em Antuérpia (1621), destaca-se pela sua abertura sóbria em estilo imitativo. A música evoca uma atmosfera solene e de profunda quietude espiritual, perfeitamente adequada ao contexto fúnebre.

 “Audivi vocem de caelo, dicentem mihi: Beati mortui, qui in Domino moriuntur.”

“Ouvi uma voz do Céu que me dizia: Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor.

70 anos de ‘Round Midnight’

‘Round About Midnight’, o primeiro álbum de estúdio de Miles Davis editado pela Columbia Records em Março de 1957, consolidou a formação do seu primeiro grande quinteto e constituiu um marco do hard bop.

A gravação realizou-se em três sessões distintas nos estúdios da Columbia em Nova Iorque: a primeira teve lugar no estúdio D em 26 de Outubro de 1955 e as seguintes em 30th Street Studio, conhecido como “The Church”, em 5 de Junho e 10 de Setembro de 1956, precisamente há 70 anos.


Elementos do Quinteto: Miles Davis, trompete – John Coltrane, saxofone tenor – Red Garland, piano – Paul Chambers, contrabaixo – Philly Joe Jones, bateria

‘Quatro Figuras e Um Cubo’, de Oskar Schlemmer

 

Dia de aniversário do multifacetado artista alemão Oskar Schlemmer [1888 – 1943], natural de Estugarda, onde foi aluno de Adolf Hölzel [1853 – 1934] na Academia de Belas Artes até se alistar como voluntário durante a Grande Guerra.
Entre 1920 e 1929 foi mestre na Escola Bauhaus em Weimar, por nomeação de Walter Gropius [1883 – 1969], o seu fundador.

Do período mais criativo de Schlemmer, a obra Vier Figuren und Kubus / Quatro Figuras e Um Cubo (1928) é uma reprodução simbólica do seu estilo de representação do novo ser humano geometrizado, uma reflexão sobre a interseção entre a biologia, a tecnologia, a arte e a filosofia, em busca da harmonia universal.