Arquivo de Dezembro, 2010

Femme nue dans l’atelier

Picasso tinha-se visto privado da musa e mãe dos seus filhos, Françoise Gilot, em Setembro. Quem terá sido a substituta?

Pablo Picasso – Femme nue dans l’atelier | Vallauris | 30 de Dezembro de 1953

Entre velhos amigos

Outono Inglês

Não para ver a luz que dos céus desce,
incerta nestes campos,
mas por ver a luz que, do escuro centro da terra,
às folhas sobe e abrasa.
Não saí para ver a luz do céu
mas a luz que das árvores nasce.
Hoje o que meus olhos vêem
não é uma cor que a cada instante sua beleza muda
e agora é tocha de ouro,
voraz incêndio, fumarada de cobre,
onda mansa de cinza.
Hoje o que os meus olhos vêem
é a profunda mudança da vida na morte.
Este esplendor tranquilo
é o acabamento digno de uma perfeita criação,
ainda mais se se descobre
a consumpção dolorosa dos homens,
apenas semelhantes em sua funda solidão,
mas com sofrimento e sem beleza.

O homem bem queria que sua morte
não carecesse de certeza alguma
e assim reflectiria em seu sorriso,
como o campo esta tarde,
uma tranquila espera.

(Beleza do dorminte
que imperceptível o mundo peito agita
para se erguer depois com maior vida;
como na primavera as águas do campo.)

Como na primavera…?
Não é o que vejo, então, perturbação da morte,
mas o sonhar da árvore, que despe
sua fronte de folhagem,
e assim cristalina penetra a funda noite
que lhe dará mais vida.

É lei fatal do mundo
que toda a vida acabe em podridão,
e a árvore morrerá, sem nenhum esplendor,
pois o raio, o machado ou a velhice
hão-de abatê-la para sempre.
Na simulada morte que contemplo
tudo é beleza:
o estertor fatigado das aves,
a gritaria de uns cães velhos, a água
deste rio que não corre,
meu coração, mais pobre agora do que nunca,
porque mais ama a vida.

As asas gastas da noite vão caindo
sobre este vasto campo de cinza:
cheira a carniça humana.
A luz tornou-se negra, a terra é pó somente, chega um vento
muito frio.
Se fosse morte verdadeira a deste bosque de ouro
só haveria dor
se um homem contemplasse a queda.
E chorei a perda do mundo
ao sentir em meus ombros e nos ramos
do bosque duradouro
o peso de uma mesma escuridão.

Francisco Brines | Palabras a la Oscuridad (1966), in Ensayo de una despedida – Antologia (1960-1986)
Jardim das Delícias Terrestres“, de Hieronymus Bosch

Antífona para o Natal

Existem três iniciais identificadas neste manuscrito de data indeterminada e que foi executado por um miniaturista italiano, referido como Maestro Daddesco. No folio 32R, a Natividade com H inicial alude a uma antífona para o Natal.

Iluminuras do Advento


Jeremiah – “Ecce dies veniunt”


“Temporal, First Saturday of Advent, Vespers, Capitulum”


“Maria Lactans – Mary suckles the Christ-child”

Requiem de Michael Haydn

| Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5 | Parte 6 | Parte 7 | Parte 8 | Parte 9 |

Carolyn Sampson, soprano | Hilary Summers, contralto | James Gilchrist ,tenor | Peter Harvey ,baixo |
Choir of the King’s Consort | The King’s Consort | Robert King

Robert King suggests that Michael Haydn‘s Requiem of 1771 for the Archbishop-Prince of Salzburg (28-02-1698 / 16-12-1771) reflects a personal outpouring of grief for the loss of Haydn’s beloved patron and the recent death of his infant daughter. The fervent expressions of grief, consolation and hope must have made some impression on the 15-year-old Mozart. A comparison with Mozart’s Requiem setting of 20 years later is inevitable: Haydn didn’t give his solo quartet anything that compares with the immediacy of Mozart’s ‘Tuba mirum‘, but the older man’s masterful choral writing, brilliant orchestral scoring and sensitive use of solo voices created plenty of musical riches and dramatic moods, such as the brooding Kyrie and the bursting energy of the ‘Dies irae’.
The quartet of soloists is impeccable; the choir and orchestra of The King’s Consort prove to be increasingly assured and dynamic with each recording released. Robert King’s measured and emphatic direction makes it easy to appreciate why the Requiem was performed at his brother Joseph’s funeral in 1809.
His interpretation of the sunnier, extrovert Missa in honorem Sanctae Ursulae (1793) helps the music to sound natural and spontaneous. In some respects the Mass is an even finer composition, full of charismatic and inventive musical charms (it’s worth buying for Carolyn Sampson’s ravishing ‘Benedictus’ alone).
Anybody who enjoys the choral works of Mozart and Joseph Haydn will be delighted by this double-disc set, and will probably concur that Michael Haydn’s neglect in the shadow of his younger friend and older brother is substantially corrected by these exquisite performances.”
Gramophone Classical Music Guide, 2010. Via.

In Memoriam – Enrique Morente

A 12 dias de completar 68 anos, Enrique Morente, considerado  o grande inovador do Flamenco, não resistiu ao maldito. O El País e a sua jornalista Amelia Castilla honram a memória de mais um Grande de Espanha que deixa saudades.

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido…
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave…
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

Poema de DAVID MOURÃO-FERREIRA
Gravura de ALBRECHT DÜRER – NATIVITY, 1504

Julian Assange: O mundo precisa da WikiLeaks – porquê?

O Hacker mais famoso do momento, na primeira pessoa. O justiceiro do século XXI que deixa os media muito mal na fotografia e que simultaneamente se serve dos jornalistas para fazerem (por ele) o trabalho sujo.
Não me convences, rapaz.

Divino Sospiro – Telemann, O Paradigma do Barroco

DIVINO SOSPIROTelemann, Paradigma do Barroco Europeu | CCB, 11 Dez 2010 – 19:00

DIVINO SOSPIROViolino principal e direcção musical ENRICO ONOFRI

Primeiros Violinos ENRICO ONOFRI, Iskrena Yordanova, Elisa Bestetti, Reyes Gallardo, Josef Hohn | Segundos Violinos Alfia Bakieva, PAOLO PERRONE, LEONOR DE LERA, MIRIAM MACAIA | Violas Massimo Mazzeo, NUNO MENDES | Violoncelos DIANA VINAGRE, ANA RAQUEL PINHEIRO | Contrabaixo Marta Vicente | Oboés PEDRO CASTRO, ANDREIA CRAVALHO | Alaude PIETRO PROSSER | Fagotes JOSÉ GOMES | Cravo Miguel Jalôto
Programa – Georg Philipp Telemann
Ouverture Volker Ouverture TWV 55: B5 | Concerto para 3 violinos e cordas | Sinfonia Spirituosa TWV 44:1 | Concerto para oboé | Ouverture Les Nations ancienne et moderne TWV 55: G4
Biografia de DIVINO SOSPIRO (Via)
Divino Sospiro, orquesta barroca portuguesa fundada por el músico italiano Massimo Mazzeo, nació de la colaboración de músicos que compartían principios estéticos y su residencia en Portugal. Desde su creación Divino Sospiro se ha ganado un reconocido lugar entre las formaciones especializadas en música antigua de mayor rigor y calidad.
Con un repertorio que representa la esencia de su tiempo, Divino Sospiro interpreta sus conciertos siguiendo rigurosamente las directrices estéticas y estilistas de los periodos clásicos y barrocos. Entre sus conciertos podemos destacar diferentes colaboraciones en Folles Journée 2003, 2005, y 2006, seguido de una gira por Italia con un gran recibimiento tanto por el público como por la crítica. Ha sido también invitado por prestigiosos festivales e instituciones tales como: “Los Encuentros de Música Antigua de Loulé”, el Festival de Leiria, el Festival de “Ille de France” en Paris (concierto que fue grabado por Radio France, La Folle Journée Nantes, Lisboa, Tokio (con un éxito que superó cualquier expectativa), el Teatro Nacional de Sao Carlos en Lisboa, el Festival “Varna Summer” (Bulgaria), Febrero Lírico en San Lorenzo de El Escorial así como la clausura del Festival de Ambronay.
En mayo de 2006 Divino Sospiro realizó una gira en Japón. Debido al gran éxito obtenido recibió el encargo por parte de NICHION de grabar un CD con repertorio de Mozart; dicha grabación tuvo lugar en Portugal en el Centro Belém el 11 de noviembre de 2006 y desde su aparición en el mercado japonés han sido numerosos los galardones cosechados, incluso el sello de “Bestseller” así como la permanencia durante varias semanas en los primeros puestos de ventas en tiendas especializadas como “Tower Records”. Por otro lado existe el inminente proyecto de crear el sello “Sospiro” que se especializará en la grabación del espléndido repertorio portugués de los siglos XVII y XVIII.
A lo largo de su trayectoria has sido muchas y notables las colaboraciones de Divino Sospiro tanto de solistas como de directores: Christophe Coin, Katia y Marielle Labeque, Rinaldo Alessandrini, Chiara Banchini, Alfredo Bernardini, Enrico Onofri, Alexandrina Pendatchanska, Gemma Bertagnolli, Maria Cristina Kiehr, Vittorio Ghielmi entre otros.
Divino Sospiro está activamente involucrado en la docencia musical barroca proporcionando clases magistrales dadas por los violinistas barrocos Chiara Banchini y Enrico Onofri en colaboración con la Escuela de Música del
Conservatorio Nacional en el Centro Cultural de Belém en Lisboa. En dichas actividades han participado también Rinaldo Alessandrini, Alfredo Bernardini, Alberto Grazzi, Vittorio Ghielmi, Maria Cristina Kiehr, Gustav Leonhardt. Es digna de mención la inauguración del curso magistral de música antigua de la Universidad de Evora. Divino Sospiro ocupa en estos momentos el puesto de orquesta residente del Centro Cultural de Belén en Lisboa y su director habitual es Enrico Onofri con quien la agrupación mantiene una continua y preciada relación artística.

Um luminoso Monteverdi

As ligações referem-se à série de vídeos dedicados aos Concertos Promenade da BBC, Setembro de 2010.
Claudio Giovanni Antonio Monteverdi,1567 – 1643 – Vespro della Beata Vergine, 1610 / SV 206 | Monteverdi Choir | London Oratory Junior Choir | Schola Cantorum of The Cardinal Vaughan Memorial School | English Baroque Soloists | His Majestys Sagbutts and Cornetts | Conducted by John Eliot Gardiner

Com a devida vénia a Cristina Fernandes, que escreveu a crítica para o Público de 02-12-2010.
Em 2010, comemoram-se quatro séculos da publicação das Vésperas da Beata Virgem, de Monteverdi, em Veneza, pelo que esta obra paradigmática dos inícios do Barroco tem um lugar de destaque nas programações de várias instituições. Em Portugal, contamos com duas interpretações por músicos de alto nível num curto espaço de tempo. A primeira teve lugar na segunda-feira, na Gulbenkian, com o coro La Capella Ducale e o ensemble Musica Fiata, sob a direcção de Roland Wilson, e no dia 8 será possível ouvir a versão do agrupamento La Venexiana, dirigido por Claudio Cavina, no Centro Cultural de Belém.

As Vésperas de Monteverdi são uma obra de transição entre o antigo e o novo, que leva ao ponto mais alto, quer a herança da polifonia renascentista, quer as experiências florentinas e venezianas dos inícios do século XVII (como a monodia acompanhada e a policoralidade). À estrutura litúrgica tradicional do Ofício de Vésperas (com os seus Salmos, Antífonas, Hino e Magnificat), Monteverdi acrescentou quatro “concertos” para vozes solistas e baixo contínuo (por vezes também designados por motetes), onde explora características do novo estilo barroco, e a belíssima Sonata sopra Sancta Maria, onde a melodia de cantochão emerge sobre uma luxuriante textura instrumental.

Cada trecho tem uma constituição vocal e instrumental diversa, mas de uma maneira geral Robert Wilson dividiu os seus 10 cantores em dois coros, de modo a potenciar o jogo da policoralidade. O efeito a esse nível foi discreto e o resultado ganharia com uma acústica com mais ressonância, mas tal só seria possível num espaço mais adequado à música desta época do que o Grande Auditório Gulbenkian. Embora menos exuberante do que as interpretações por agrupamentos italianos, La Capella Ducale e o grupo Musica Fiata ofereceram uma versão luminosa das Vésperas que se foi tornando mais envolvente à medida que a obra avançava. O início tímido, com um Dixit Dominus algo linear e pouco pujante, contrastou com a transparência dos planos sonoros, a energia rítmica e as sedutoras nuances de colorido que caracterizaram o Magnificat no final.

Jan van Bijlert – The Concert, 1635-40

Entre outros belos momentos, destaca-se o Nisi Dominus ou o concerto Audi Coelum, com a solução bem conseguida de colocar o cantor responsável pelo eco fora do palco. Tal como sucedia na época de Monteverdi, os cantores responsáveis pelos solos são os mesmos que fazem as partes corais, demonstrando em geral uma sólida qualidade nas duas vertentes. No entanto, deveriam ter ido mais longe no plano da retórica musical e da relação texto-música. Por exemplo, o dueto de sopranos Pulchra es foi algo superficial e houve passagens (como na Sonata sopra Sancta Maria) com algumas imprecisões ou pequenas dessincronizações rítmicas.

Em compensação, o ensemble Musica Fiata demonstrou virtudes como o brilho da sonoridade dos sopros (trombones e cornetos) e um óptimo trabalho ao nível do baixo contínuo (órgão, chitarroni, harpa dupla, violone e lirone), que não se limitou a uma realização básica de preenchimento da harmonia, mas operou um verdadeiro diálogo com o conjunto e deu destaque à identidade de cada instrumento. Quer pela prestação dos músicos de Robert Wilson, quer pelo poder avassalador da extraordinária música de Monteverdi, a assistência foi tomada pelo entusiasmo no final, aplaudindo longamente em pé.

Cristina Fernandes

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