Lucian Freud

Uma das principais vozes da reinvenção da arte figurativa
Morreu Lucian Freud, o pintor do corpo e da carne
Por Tiago Pereira Carvalho, Jornal Público

Este retrato a óleo do pintor Francis Bacon, pintado entre 1956 e 1957 pelo seu amigo Lucian Freud, foi vendido em leilão, salvo erro em 2009, por cerca de 7 milhões de euros. A obra mostra Francis Bacon com o olhar fixo em direcção ao chão. Freud pintou o quadro quase encostado a Bacon e, segundo os críticos, é um trabalho que revela a grande amizade entre os dois pintores. O retrato é o último que Freud fez de Bacon, depois de outro pintado durante três meses em 1952 e que foi roubado em 1988 de uma exposição em Berlim.

Bosch e o seu Círculo

Bosch e o seu Círculo 
De 14 de Julho a 25 de Setembro de 2011 | Museu Nacional de Arte Antiga

Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final, executado por um colaborador próximo de Hieronymus Bosch e o Tríptico das Provações de Job, executado por alguém que imitou o estilo do Mestre. A exposição debruça-se sobre as variantes ou os traços comuns de processo criativo destes trípticos, análise também apoiada em exames laboratoriais. Será a primeira vez que se juntam, em Portugal, três grandes pinturas de Bosch e do seu círculo.

A SALA mais procurada pelos visitantes do Museu do Prado, sobretudo por um público jovem, curioso e fascinado, é decerto aquela em que se expõem os três célebres trípticos de Jheronimus Bosch (Hertogenbosch, 1453?-1516). A razão é basicamente idêntica à que Filipe II, coleccionador devotado e compulsivo do pintor, sugeria numa carta aos filhos quando da sua visita a Lisboa em 1581: «Lamento que vós e vosso irmão não tivésseis tido a oportunidade de assistir à procissão [do Corpo de Deus] da maneira como aqui se faz, visto que nela se incorporam alguns diabos semelhantes aos dos quadros de Bosch que, julgo, vos causariam admiração». Neste Verão de 2011, o MNAA tem o privilégio de também reunir na galeria de pintura europeia, numa única sala, três trípticos do universo figurativo de Bosch, graças não já à fortuna de um antigo coleccionismo régio, mas a uma excelente parceria de empréstimos realizada com o Museu Groninge de Bruges (Bélgica), de onde provêm as duas obras confrontadas com o tríptico residente, o das Tentações de Santo AntãoOs três trípticos compõem, na sala 61, um interessante dispositivo de descoberta e comparação visuais, ensaiando uma proposta rara de contacto com a experiência visionária de Bosch, das categorias com que esta se impregnou e consolidou – o monstruoso, o grotesco, o demoníaco, o escatológico –, através de um reportório iconográfico dominante na sua pintura, profundamente religiosa e moralizante (não «herética», nem «surrealista»), dedicada à exploração dos exemplos morais da vida penitencial dos eremitas ou aos fins últimos da humanidade, como o de uma ideia, doutrinal, para o fim dos tempos.

TRÍPTICO DO JUÍZO FINAL | Oficina de Jheronimus Bosch | Século XVI, 1ª metade
Óleo sobre madeira de carvalho | 99,2 x 60,5 cm (painel central) | 99,5 x 28,7 cm (volantes)
Bruges, Museu Groninge
Proveniência: colecção E. Cavet, vendido no Hôtel Drouot, Paris, em 1906. Entra em 1907 na colecção Seligman , Paris. Comprado por Auguste Beernaert que o doa à cidade de Bruges, passando ao Museu Comunal.
Essa ideia encontra-se magnificamente encenada no Tríptico do Juízo Final, em cuja pintura central preside, na parte superior, o Cristo Pantocrator, inscrito num círculo de luz e ladeado por uma corte de Apóstolos e pelos anjos das trombetas apocalípticas. A linha de horizonte é comum aos três painéis, pretendendo unificá-los como referentes a um só lugar, espelho de toda a Terra, desvendando-se no volante direito os inquietantes fogos, construções, seres demoníacos e suplícios que caracterizam o Inferno e as suas Portas e que já «invadem», amplamente, o espaço da representação central, onde se não conta a clássica ressurreição dos mortos mas uma alegórica loucura humana e as desgraças que ela arrasta consigo. Pelo contrário, no volante esquerdo, a paisagem e os seres que a habitam configuram as delícias de um lugar paradisíaco, ameno e musical, onde se ergue a Fonte da Vida e de onde se evolam, como diminutas figurinhas aladas, na parte superior, os que alcançam o Paraíso Celeste. No tríptico da Academia de Belas-Artes de Viena, que é compositiva e estilisticamente o mais próximo deste, é o episódio dos Anjos Caídos que se representa no volante equivalente, associado à visão do Pecado Original e da Expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrenal. Por outro lado, no Juízo Final de Bruges, há vários pormenores figurativos que parecem ser retomados a partir do Tríptico das Tentações de Santo Antão.

TRÍPTICO DAS TRIBULAÇÕES DE JOB – Continuador de Jheronimus Bosch | Século XVI, 2ª metade
Óleo sobre madeira de carvalho | 98,3 x 72,1 cm (painel central) | 98 x 30,3 cm (volantes)
Bruges, Museu Groninge
Proveniência: Conhecida desde 1890, a obra foi depositada pela Igreja de Hoecke (arredores de Bruges) no Museu Comunal de Bruges em 1931.
A relação com a obra do MNAA é bem evidente, do ponto de vista temático e iconográfico, no que se refere ao Tríptico das Tribulações de Job. O painel central trata o protagonista defrontando-o com as tentações de múltiplas figuras aduladoras e maléficas, como sucede ao príncipe dos eremitas na pintura de Lisboa. Ele resistirá, pela vocação do despojamento e a inquebrantável razão da fé, num exemplo multiplicado pela atitude dos eremitas inscritos nos volantes: Santo Antão, à esquerda, mais uma vez assolado por demónios e pela tentação da Carne; S. Jerónimo, à direita, nas suas práticas penitenciais diante do crucifixo. Ambas as representações, nos volantes, são largamente devedoras do chamado Tríptico dos Eremitas, obra considerada autógrafa de Bosch que pertence ao Palácio Ducal de Veneza.

PAINEL CENTRAL
Se o Tríptico do Juízo Final é considerado, pela sua apreciável qualidade de execução pictural, uma peça ainda cronologicamente próxima de Bosch e atribuível a um seu discípulo competente e com acesso a modelos de oficina, já o Tríptico das Tribulações de Job não poderá deixar de considerar-se trabalho de um continuador ou imitador da segunda metade do século XVI (como aliás indicam os brasões inscritos nos reversos dos volantes ou as características da moldura do tríptico). Numa obra com tão ampla fortuna e posteridade, como a de Bosch, são especialmente importantes os problemas técnicos e de distinção autoral. A reunião destes três trípticos em Lisboa será assim ocasião para uma série de exames científicos, à estrutura material e ao processo criativo destas pinturas, conduzidos por uma equipa do projecto internacional «Bosch Research & Conservation Project», cujos resultados, obtidos a partir da análise de todas as pinturas atribuídas a Bosch, serão divulgados em 2016, ano do 5º centenário da morte do pintor.

SANTO ANTÃO (VOLANTE ESQUERDO)

S. JERÓNIMO (VOLANTE DIREITO)

Pour toi seule, aimable Inès

Foi um privilégio ter assistido a este Concerto para Inês, brilhantemente idealizado por Miguel Jalôto, que dirigiu o mui competente Ludovice Ensemble, no âmbito do Festival Cistermúsica, Alcobaça.
Este pequeno excerto do texto do monge cisterciense Louis-Adrien du Perron de Castera (1705-1752) pertence à tradução para francês de “Os Lusíadas”, de 1735. A declamação da actriz Louise Moaty foi pungente e o espectáculo muito comovente.

“Belle Ynès tu étoîs dans une solitude agréable
sur la rive du Mondego;
ta bouche ensengnoit aux échos des forêts & des montagnes
le nom chéri que tu portois gravé dans ton cœur,
le nom de ton Prince, dont la présence
faisoit tes délices , & dont le moindre éloignement
te coutoit tant de larmes!”
La Lusiade […] – 1735 | Louis-Adrien du Perron de Castera (1705-1752)

Que têm em comum a Coca-Cola e o Barca Velha?

A Marca Amarela!
Nas últimas 24 horas, tive de ir duas vezes ao Porto-Alto, onde almocei no Restaurante-Marisqueira A Torre. Hoje comi sentado ao balcão um prego da vazia, muito digno! Reparei então na vitrine e, em tom de brincadeira, perguntei ao empregado que fazia ali o cartaz da Coca-Cola ao lado do Barca Velha, do Quinta Vale de Meão, do Mouchão e do Pêra Manca; Aproximou-se e, discretamente, explicou-me que aquela zona tem inúmeros armazéns de chineses, gente que chega ao restaurante em carros potentes, são bons clientes e gostam de misturar Barca Velha com Coca-Cola…

Llibre Vermell de Montserrat

El Llibre Vermell (Libro Rojo), es un manuscrito medieval conservado en el Monasterio de Montserrat (Barcelona), que constituye uno de los pilares de la música medieval española. Fue copiado en los últimos años del siglo XIV, y debe su nombre a su encuadernación en terciopelo rojo, hecha a finales del siglo XIX. Contiene una colección de cantos medievales, y otro contenido de tipo litúrgico, que data de finales de la Edad Media.
El propósito con que fue redactado el Llibre Vermell, lo explica con detalle una nota redactada en latín (fol. 22r), en la que se advierte a los peregrinos que debían evitar “las canciones vanas y los bailes poco honestos durante su viaje y estancia en Montserrat”. Cantar y bailar en la iglesia, era una costumbre medieval bien arraigada, frente a cuyos abusos reaccionaron múltiples sínodos y concilios.
Los cantos son en catalán, occitano y latín y son todos de autor desconocido. A pesar de que la colección fue copiada a finales del siglo XIV, la mayor parte de la música se cree que es anterior. Por ejemplo, el motete “Inperayritz de la ciutat joyosa”, posee un texto distinto para cada una de las dos voces, estilo que ya no se utilizaba cuando el manuscrito fue copiado. Via.

O vídeo completo, aqui.

Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960) – Modernidade e vanguarda

Exposição no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960) – Modernidade e vanguarda | 30.06.2011 – 05.10.2011

Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960) é a segunda de três grandes exposições que, sucessivamente, assinalam as comemorações dos 100 Anos do MNAC – Museu do Chiado, proporcionando uma visão global do seu acervo. Este período que, corresponde aos primeiros 50 anos de existência do museu, constituiu um momento determinante na história da arte portuguesa.
Nas primeiras décadas, os ventos de liberdade da revolução republicana abrem caminho para a afirmação de frentes de vanguarda e para o dealbar da modernidade. A partir dos anos 30, o desenvolvimento dos modernismos por diferentes gerações de artistas opera-se no contexto adverso de um regime ditatorial que, ao longo de mais de 40 anos, se estabelece num crescendo de censuras, gerando por parte dos artistas diversas reacções e movimentos face às limitações sociais e culturais e à parca informação que penetrava do exterior.
O conjunto de obras que aqui se apresenta resultou das aquisições realizadas pelos dois directores do MNAC neste período, Adriano de Sousa Lopes (1929-44) e Diogo de Macedo (1944-59), bem como de posteriores aquisições, doações e depósitos que foram consolidando núcleos autorais e actualizando a colecção com trabalhos de artistas emergentes, dando corpo à designação de Museu Nacional de Arte Contemporânea. Ainda que, por diversas vicissitudes históricas, alguns artistas e movimentos estejam insuficientemente representados neste acervo, sendo o caso mais evidente Maria Helena Vieira da Silva, a exposição traça um panorama da época, dos seus criadores e das respectivas dinâmicas da arte portuguesa ao longo destas primeiras cinco décadas do século XX.
Adelaide Ginga, Curadora da Exposição.

Fundo do mar

Praia das Conchas

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Obra Poética I

Praia do Valmitão

Praia do Valmitão

Corpus Christi

Após completar a Sala da Assinatura, Rafael começou a decoração da contígua Sala de Heliodoro, o que decorreu entre 1511 e 1514. Originalmente concebida como sala de audiências privadas com o Papa Júlio II, que morreu entretanto, foi o seu sucessor, Leão X (Giovanni de Medici, filho de Lorenzo, o Magnífico) a concluir a escolha dos quatro temas que visavam documentar em diferentes momentos históricos, desde o Antigo Testamento até à Idade Média, a protecção milagrosa concedida por Deus à Igreja, ameaçada na sua fé: Missa de Bolsena,  Libertação de São Pedro,  Encontro de Leão O Grande com Átila e a Expulsão de Heliodoro do Templo.

A Missa de Bolsena, representada a seguir à Expulsão de Heliodoro do Templo, teve lugar em Bolsena, perto de Orvieto.
Em 1263, um sacerdote da Boémia, perturbado pela dúvidas sobre a doutrina da transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no sangue e no corpo de Cristo, iniciou uma peregrinação a Roma. De caminho, celebrou missa em Bolsena, onde, durante a consagração da Eucaristia começou, milagrosamente, a sangrar. De cada vez que limpava o sangue, aparecia uma cruz ensanguentada no pano utilizado, um milagre que dissipou as dúvidas do atormentado padre. O pano tornou-se uma relíquia venerada, tendo permanecido na Catedral de Orvieto para homenagear a ocasião.

Em Missa de Bolsena, tal como na representação anterior, Rafael fez do Papa Júlio II testemunha do milagre que teve lugar quase três séculos antes; Em Setembro de 1506, Júlio II havia parado na Catedral de Orvieto para ver o pano manchado de sangue ali depositado e assim demonstrar a sua ligação ao milagre pelo qual a Festa de Corpus Christi havia sido instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264.
Para ser celebrada na Quinta-Feira a seguir à Festa da Santíssima Trindade, que acontece no Domingo depois de Pentecostes, a Festa de Corpus Christi acontece 60 dias após a Páscoa, podendo ocorrer entre os dias 21 de Maio e 24 de Junho.

A Memória

A memória foi um género literário
quando ainda não tinha nascido a escrita.
Veio a ser depois crónica e tradição
mas já fedia como um cadáver.
A memória vivente é imemorial,
não surge da mente, não se enraiza nela.
Junta-se ao existente como uma auréola
de névoa na cabeça. Está já esfumada, é duvidoso
que regresse. Nem sempre tem memória
de si.
Poema de Eugenio Montale, extraído de «Caderno de Quatro Anos» (1960 e 1973-1977)
Gravura de William Blake, extraída do poema ilustrado “Jerusalém”