Archive for the ‘ Pintura ’ Category

A Aguadeira

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

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Poema Angela Adonica, de Pablo Neruda.
Composição A Aguadeira,de Miguel Ângelo Lupi, séc. XIX – CMAG

Celebração da vida


Soneto del vino

¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto

otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luis Borges (24 Agosto 1899 – 14 Junho 1986)

Paul Gauguin – Regresso à Rua de Ruán…

Um ano depois!

Esta calle tranquila y casi pueblerina representa la rue Jouvenet de Ruán, situada cerca del callejón de Malherne donde Gauguin vivió con su familia en 1884. Fueron varias las razones que animaron al artista, ya en 1883, a trasladarse a Ruán, donde vivía Pissarro, que lo había orientado por la vía del impresionismo. Acababa de quedarse sin trabajo y, a sus treinta y cinco años de edad y siendo padre de cinco hijos, había decidido dedicarse enteramente a la pintura. La vida en la capital era demasiado cara para mantener a su familia y, asentándose en Ruán, Gauguin también esperaba encontrar una nueva clientela para sus cuadros. «Mediante este aislamiento -le confiaba Pissarro al coleccionista Eugène Murer-, Gauguin pretende consolidar su camino y cuenta con sus amigos y conocidos para ayudarle a ganarse los favores de los aficionados.

La calle Jouvenet en Rouen, 1884 | Museo Thyssen, Madrid

Durante su estancia en Ruán, que duró diez meses, pintó unos cuarenta cuadros, fundamentalmente paisajes de la ciudad y sus alrededores. En esta vista urbana, ejecutada probablemente en la primavera de 1884, permanece topográficamente fiel al natural, como queda de manifiesto por el aspecto, hoy prácticamente inalterado, de la rue Jouvenet, con sus casitas alineadas a lo largo de la calzada. Para animar este decorado anodino, el artista juega con la sucesión de colores cálidos y apagados de los revoques de las fachadas y con la alternancia rítmica de zonas vivamente iluminadas y de otras que quedan en sombra. La composición se articula en torno a la pendiente de la calle que desciende y luego sube en cuesta hasta el horizonte. A lo largo de este eje, Gauguin coloca algunos personajes, entre ellos un militar con pantalón rojo vivo y hasta un perrito, que animan y puntúan la alargada perspectiva de la calle. Da la sensación de que el artista ha pintado del natural las siluetas del primer término, que se recortan de forma arbitraria, pero es más probable que las añadiera a la escena según la fórmula que solía utilizar.

En aquella época, Gauguin era consciente de que todavía no había alcanzado un dominio completo de su arte, pero se esforzaba por desarrollar sus experimentos directamente del natural, tratando de conseguir una síntesis entre el impresionismo de Pissarro y el arte más sintético de Cézanne. A mediados de mayo de 1884 escribiría a Pissarro: «Lo que tengo en casa en este momento está mejor en ese sentido y espero poder hacer cosas muy grandes y no monótonas, aunque creo que las cosas de la naturaleza son sencillas en conjunto. Para plasmar el pensamiento hay que estar seguro de la ejecución, y todavía no he encontrado en ésta lo que quiero hacer; aún tendré que padecer durante algún tiempo». Cubre el lienzo a base de pinceladas rápidas claramente visibles, sobre todo en el celaje, que se ordenan de forma más regular en las fachadas de las casas. Los contornos de los motivos están marcados con un trazo más oscuro que realza las formas. Tanto el dibujo como los colores estructuran la composición, que todavía está en deuda con la visión naturalista del espacio propia de los impresionistas.

Mette Gauguin se llevó la obra a Dinamarca cuando se separó de su marido. El cuadro perteneció durante muchos años a la Colección Rohde y luego se puso a la venta sucesivamente en Londres, París y Nueva York antes de que la adquiriera Carmen Thyssen-Bornemisza en 1998. Isabelle Cahn

Noli Me Tangere

GIOTTO di Bondone (b. 1267, Vespignano, d. 1337, Firenze)
Scenes from the Life of Mary Magdalene: Noli me tangere, 1320s
Fresco | Magdalene Chapel, Lower Church, San Francesco, Assisi

Museu Berardo no Google Art Project

O Museu Colecção Berardo é um dos 151 que passam a integrar o Google Art Project, que permite ver obras das instituições parceiras e ainda “passear” pelas galerias de algumas delas. Ver notícia no Público.

Uma das obras digitalizadas é esta  ‘Untitled (Ponte)’ – 1914, de Amadeo de Souza Cardoso, da qual reproduzo um fragmento.

O demoníaco, na arte de Bosch

Enquanto se inicia a Reforma protestante, morre Hieronymus Bosch. Os seus seres infernais são híbridos que fazem pensar nas colagens diabólicas do Baldus, mas estão longe da iconografia anterior. Não nascem da mistura de pedaços de animais conhecidos, mas têm uma autonomia incubática própria e não se sabe se vêm do abismo ou habitam , indetectados, no nosso mundo. As criaturas que, no Tríptico das tentações de Santo Antão, assediam o eremita não são os demónios da tentação, demasiado maus para serem levados a sério. Quase divertidos, como personagens carnavalescas, são muito mais insinuantes. Em Bosch, disse-se que realizara «o demoníaco na arte», identificaram-se fermentos heréticos, referências ao mundo do inconsciente, alusões alquímicas e antecipações do surrealismo. Antonin Artaud fala dele pelo seu «teatro da crueldade» como um dos artistas que soube revelar-nos o lado obscuro da nossa psique.
Bosch era membro da Confraria de Nossa Senhora e de espírito conservador, mas, ao mesmo tempo, tão voltado para uma reforma dos costumes que as suas representações mais fazem pensar numa série de alegoria moralizantes sobre a decadência no seu tempo. No Jardim das Delícias ou no Carro de feno, não temos unicamente visões sulfúreas do além, mas igualmente cenas aparentemente delicadas, sensuais e idílicas, porém, terrivelmente inquietantes, do mundo dos prazeres terrenos que conduzirão ao inferno. Bosch quase parece antecipar o espírito do Theatrum diabolorum: fornece-nos não só visões de diabos existentes nos abismos da terra, como imagens dos vícios das sociedades em que vivia.
in História do Feio, de Umberto Eco

Hieronymus Bosch – Tríptico das tentações de Santo Antão, 1505-1506 – pormenor do painel central
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Bestiário

pormenor do Tríptico das tentações de Santo Antão, 1505-1506 – Hieronymus Bosch
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Leviatã – Job, 41.1-27
Esperar vencer o crocodilo é um en­gano;
mal ele aparece, cai-se por terra.
Ninguém se atreve a provocá-lo;
quem lhe resistirá de frente?
Quem o pode acometer e sair com vida?
Ninguém, debaixo do céu!
Não deixarei de falar da forma dos seus
membros;
direi que o seu vigor é incom­pa­rável.
Quem jamais o despojou da sua couraça?
Quem penetrou na dupla fila dos seus
dentes?
Quem abriu as portas da sua boca?
Os seus dentes infundem terror!
O seu dorso está revestido de es­cudos,
cujas juntas estão estreitamente ligadas;
uma encaixa na outra; nem o ar passa
entre elas;
estão tão unidas entre si e tão bem
travejadas,
que não podem separar-se.
Os seus espirros relampejam fogo,
os seus olhos são como clarões
da aurora.
Da boca saem-lhe chamas como archotes
ardentes.
As narinas deitam fumo,
como uma panela que ferve ao fogo.
O seu hálito queima como brasa
e a sua boca lança chamas.
No seu pescoço reside a força
e, diante dele, tremem de espanto!
Os seus músculos estão bem li­ga­dos
e bem constituídos; nada os de­move.
O seu coração é duro como pedra,
e sólido como a mó fixa dum moi­nho.
Quando se levanta, tremem os heróis,
e cheios de medo, afastam-se.
A espada que investe contra ele
não resiste,
nem a lança, nem os dardos, nem as flechas.
O ferro para ele é como palha,
o bronze, como madeira carco­mida.
A flecha não o obriga a fugir,
as pedras da funda são como
pa­lhinhas para ele.
O martelo, para ele, é como pa­lha;
ri-se do sibilar dos dardos.
O seu ventre é coberto de escamas
pontiagudas
que deixam um rasto marcado so­bre a lama.
Faz ferver o abismo como uma marmita
e transforma o mar num caldei­rão.
Deixa atrás de si um caminho
lu­minoso,
como se o abismo tivesse uma ca­beleira branca.
Não há na terra quem lhe seja
semelhante,
pois foi feito para não ter medo.
Olha de frente tudo o que é grande,
é o rei de todos os animais fero­zes.

Bento de Espinosa, O Príncipe dos Filósofos

Bento de Espinosa, grande teórico do Racionalismo no século XVII, nasceu a 24 de Novembro de 1632 em Amesterdão e morreu neste dia 21 de Fevereiro, no ano de 1677, em A Haia. *

À Procura de Espinosa
Espinosa é pertinente para a neurobiologia apesar das suas reflexões sobre a mente humana não terem origem numa prática científica, mas sim numa preocupação geral com a condição humana. A preocupação suprema de Espinosa era a relação entre os seres humanos e a natureza. Espinosa tentou clarificar essa relação de forma a propor métodos eficazes para a salvação humana. Alguns desses métodos eram pessoais, sob o controlo do indivíduo, mas outros dependiam da ajuda que certas formas de organização social e política davam ao indivíduo. O pensamento de Espinosa descende do de Aristóteles, mas os alicerces biológicos são mais firmes, como seria de esperar. Espinosa parece ter entrevisto uma relação entre a felicidade pessoal e colectiva, por um lado, e a salvação humana e a estrutura do estado, por outro, muito antes de John Stuart Mill. Pelo menos no que diz respeito às consequências sociais do seu pensamento, Espinosa é hoje regularmente reconhecido.
Espinosa prescreveu o estado democrático ideal, marcado pela liberdade da palavra, «cada um pense o que quiser e diga o que pensa», pela separação prática do estado e da religião, e por um contrato social generoso que promovesse o bem estar dos cidadãos e a harmonia do governo. Espinosa prescreveu tudo isto mais de um século antes da Declaração da Independência Americana e da primeira emenda da Constituição Americana.
Quem é, então, este homem que pensava sobre a mente e corpo de um modo não só profundamente diferente da maior parte dos seus contemporâneos mas também notavelmente moderno? Quais as circunstâncias que produziram um espírito tão rebelde? Para tentar responder a estas perguntas precisamos de reflectir sobre ainda mais um Espinosa, o homem por detrás de três nomes próprios, Bento, Baruch, Benedictus, uma pessoa ao mesmo tempo corajosa e cautelosa, inflexível e acomodatícia, arrogante e modesta, admirável e irritante, próxima da matéria concreta e observável e, ao mesmo tempo, abertamente espiritual. Os sentimentos pessoais de Espinosa nunca são revelados directamente no estilo da sua prosa e apenas podem ser adivinhados, aqui e além, a partir de indícios esparsos.
Quase sem me dar conta, comecei à procura da pessoa por detrás da estranheza do trabalho. Queria apenas encontrar-me comEspinosa na minha imaginação, conversar um pouco, pedir-lhe para autografar a Ética. Escrever sobre a minha procura de Espinosa e sobre a história da sua vida passou a ser a terceira finalidade deste livro.
Espinosa nasceu na próspera cidade de Amesterdão em 1632, no meio da Idade de Ouro da Holanda. Nesse mesmo ano, perto da casa da família Espinosa, um jovem Rembrandt de 23 anos estava a pintar «A Lição de Anatomia do Doutor Tulp», o quadro que iniciou a sua fama.
O mecenas de Rembrandt, Constantijn Huygens, estadista e poeta, secretário do príncipe de Orange e amigo de John Done, acabava de ser pai de Christiaan Huygens, que viria a ser um dos mais celebrados astrónomos e físicos da história.
Descartes, o mais famoso filósofo desta era, tinha então 32 anos e vivia também em Amsterdão, no Prinsengraacht, e ao tempo preocupava-se com a forma como as suas ideias sobre a natureza humana seriam recebidas na Holanda  e no resto da Europa. Poucos anos mais tarde, Descartes viria a ensinar álgebra ao jovem Christiaan Huygens. Sem qualquer dúvida, Espinosa veio ao mundo rodeado por uma pletora de riquezas, intelectuais e financeiras, um verdadeiro embaraço de riquezas, no dizer de Simon Schama.

Bento foi o nome que lhe foi dado quando nasceu pelos seus pais Miguel e Hana Debora, judeus sefarditas portugueses que se tinham instalado em Amesterdão. Na sinagoga e entre os amigos, Espinosa era conhecido por Baruch, o nome que sempre o acompanhou na meninice e na adolescência passadas nesta comunidade afluente de mercadores e estudiosos judeus. Mas aos 24 anos, depois de ter sido expulso da sua própria sinagoga, Espinosa adoptou o nome de Benedictus, abandonou o conforto da casa de família e começou a calma e deliberada jornada cuja última paragem foi aqui no Paviljoensgracht. O nome português é Bento, o nome hebreu Baruch e o nome Benedictus em latim têm precisamente o mesmo significado: bendito. Que diferença fazia, um nome ou outro? Uma imensa diferença, diria eu; as palavras podiam ser superficialmente equivalentes, mas o conceito por detrás de cada uma delas era radicalmente diferente.[…]
In  Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio

As Idades do Mundo #4

quarto programa da série As Idades do Mundo, de  Ana Mântua e João Chambers, é dedicado aos “movimentos pós-impressionistas e o caminho da modernidade: o simbolismo, uma nova apreensão da realidade visível e a música de Maurice Ravel, Claude Debussy, Gabriel Fauré, Camille Saint-Saëns, Hector Berlioz, Gustav Mahler e Jean Delibes.”

Paul Gauguin – Be Mysterious, 1890

O existencialismo em Calderón de la Barca

A gravura de Nicolas Poussin – O Triunfo de Pã – 1636, ilustra o texto do poeta e dramaturgo  do século de ouro espanhol, Pedro Calderón de la Barca, que nasceu neste dia 17 de Janeiro em 1600 e viveu até 1681.

La vida es sueño - Jornada III - Escena XIX 

SEGISMUNDO

Es verdad, pues: reprimamos
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición,
por si alguna vez soñamos.
Y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña,
que el hombre que vive, sueña
lo que es, hasta despertar. 

Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!):
¡que hay quien intente reinar
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte! 

Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende. 

Yo sueño que estoy aquí,
destas prisiones cargado;
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

Pedro Calderón de la Barca