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O demoníaco, na arte de Bosch

Enquanto se inicia a Reforma protestante, morre Hieronymus Bosch. Os seus seres infernais são híbridos que fazem pensar nas colagens diabólicas do Baldus, mas estão longe da iconografia anterior. Não nascem da mistura de pedaços de animais conhecidos, mas têm uma autonomia incubática própria e não se sabe se vêm do abismo ou habitam , indetectados, no nosso mundo. As criaturas que, no Tríptico das tentações de Santo Antão, assediam o eremita não são os demónios da tentação, demasiado maus para serem levados a sério. Quase divertidos, como personagens carnavalescas, são muito mais insinuantes. Em Bosch, disse-se que realizara «o demoníaco na arte», identificaram-se fermentos heréticos, referências ao mundo do inconsciente, alusões alquímicas e antecipações do surrealismo. Antonin Artaud fala dele pelo seu «teatro da crueldade» como um dos artistas que soube revelar-nos o lado obscuro da nossa psique.
Bosch era membro da Confraria de Nossa Senhora e de espírito conservador, mas, ao mesmo tempo, tão voltado para uma reforma dos costumes que as suas representações mais fazem pensar numa série de alegoria moralizantes sobre a decadência no seu tempo. No Jardim das Delícias ou no Carro de feno, não temos unicamente visões sulfúreas do além, mas igualmente cenas aparentemente delicadas, sensuais e idílicas, porém, terrivelmente inquietantes, do mundo dos prazeres terrenos que conduzirão ao inferno. Bosch quase parece antecipar o espírito do Theatrum diabolorum: fornece-nos não só visões de diabos existentes nos abismos da terra, como imagens dos vícios das sociedades em que vivia.
in História do Feio, de Umberto Eco

Hieronymus Bosch – Tríptico das tentações de Santo Antão, 1505-1506 – pormenor do painel central
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

É melhor reinar no inferno que servir nos céus

O peito do Imperador do doloroso reino saía, a meio, para fora do casaco;
e mais com um gigante eu me convenho,
que os gigantes não fazem com os seus braços (…);
Oh, quanto me pareceu grã maravilha
quando vi três faces com sua cabeça!
Uma por diante e era escarlate;
a outra eram duas que a esta se juntavam
sobre o meio de cada ombro (…)
e a direita parecia entre branca e amarela,
a esquerda tal se mostrava, quais
vêm lá de onde o Nilo se aparta.
Sob cada qual saíam duas grandes asas,
o que convinha a tamanha ave;
nunca eu vira no mar umas velas tais.
Não tinham penas, mas de morcego
era o seu modo; e agitava-as,
como se três ventos dele se movessem:
depois, Cocito todo se enregelava.
Com seis olhos plangia e por três queixos
gotejava o pranto e sanguinolenta baba.
Com cada boca rasgava com os dentes
um pecador, à guisa de ripanço, e tanto
que a três fazia mui dolentes.

Lúcifer em Dante – Inferno, XXXIV, 22-57 (século XIV)
William Blake – Satanás enche Job de chagas, Livro de Job – 1826

Uma bela representação do feio

Uma beleza natural é uma coisa bela: a beleza artística é uma bela representação de uma coisa. Para avaliar uma beleza natural, enquanto tal, não preciso ter primeiro um conceito do que deve ser o objecto; isto é, não me é necessário conhecer a finalidade material (o fim), mas é a mera forma, sem conhecimento do fim, que agrada por si na mesma avaliação.
Mas, se o objecto é apresentado como um produto da arte e enquanto tal, então deve ser definido belo, assim como a arte pressupõe sempre um fim na causa (e na causalidade dela), em primeiro lugar deve ser posto como fundamento um conceito daquilo que a coisa deve ser; e assim como a concordância do múltiplo numa coisa por uma sua determinação interna como fim é a perfeição da coisa, na avaliação da beleza da arte deverá ter-se em conta ao mesmo tempo a perfeição da coisa, sobre a qual, pelo contrário, de modo nenhum se questiona na avaliação de uma beleza natural (enquanto tal).
– É verdade que na avaliação dos objectos vivos da natureza, por exemplo do homem ou de um cavalo, se torna ordinariamente em consideração a finalidade objectiva, para julgar da sua beleza; mas, então, o juízo já não é estético puro, isto é, mero juízo de gosto.

Fresco do Inferno - Giovanni da Modena, c.1410

A natureza nunca é avaliada pelo facto de parecer arte, mas enquanto é efectivamente arte (embora sobre-humana); e o juízo teleológico serve ao esteta de fundamento e condição de que ele deve ter em conta. Com efeito, nesse caso, não se pensa, de facto, por exemplo, ao dizer: «Eis uma bela mulher», a não ser nisto: a natureza representa de modo belo, na sua figura, os fins da compleição feminina; na verdade, é preciso que se veja para além da mera forma, se vise um conceito, para assim se poder pensar o objecto mediante um juízo estético logicamente condicionado.
A arte bela mostra a sua excelência precisamente no facto de ela descrever de modo belo coisas que na natureza seriam feias ou desagradáveis.
As fúrias, as doenças, as devastações das guerras, etc., podem, enquanto coisas prejudiciais, ser descritas e até representadas pintando-as de maneira muito bela; mas uma espécie de fealdade não pode ser representada de modo conforme com a natureza sem destruir todo o comprazimento estético e, portanto, a Beleza artística, isto é, a que provoca desgosto.
De facto, nesta sensação singular que se fundamenta só na imaginação, o objecto é representado como se se impusesse à fruição, enquanto, pelo contrário, o repelimos violentamente; assim, a representação artística do objecto já não é distinta, na nossa sensação, da natureza do próprio objecto e, por isso, é impossível que seja considerada bela.
Immanuel KantCrítica da capacidade de juízo
in História da Beleza, de Umberto Eco
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