Archive for the ‘ Pintura ’ Category

Bestiário

pormenor do Tríptico das tentações de Santo Antão, 1505-1506 – Hieronymus Bosch
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Leviatã – Job, 41.1-27
Esperar vencer o crocodilo é um en­gano;
mal ele aparece, cai-se por terra.
Ninguém se atreve a provocá-lo;
quem lhe resistirá de frente?
Quem o pode acometer e sair com vida?
Ninguém, debaixo do céu!
Não deixarei de falar da forma dos seus
membros;
direi que o seu vigor é incom­pa­rável.
Quem jamais o despojou da sua couraça?
Quem penetrou na dupla fila dos seus
dentes?
Quem abriu as portas da sua boca?
Os seus dentes infundem terror!
O seu dorso está revestido de es­cudos,
cujas juntas estão estreitamente ligadas;
uma encaixa na outra; nem o ar passa
entre elas;
estão tão unidas entre si e tão bem
travejadas,
que não podem separar-se.
Os seus espirros relampejam fogo,
os seus olhos são como clarões
da aurora.
Da boca saem-lhe chamas como archotes
ardentes.
As narinas deitam fumo,
como uma panela que ferve ao fogo.
O seu hálito queima como brasa
e a sua boca lança chamas.
No seu pescoço reside a força
e, diante dele, tremem de espanto!
Os seus músculos estão bem li­ga­dos
e bem constituídos; nada os de­move.
O seu coração é duro como pedra,
e sólido como a mó fixa dum moi­nho.
Quando se levanta, tremem os heróis,
e cheios de medo, afastam-se.
A espada que investe contra ele
não resiste,
nem a lança, nem os dardos, nem as flechas.
O ferro para ele é como palha,
o bronze, como madeira carco­mida.
A flecha não o obriga a fugir,
as pedras da funda são como
pa­lhinhas para ele.
O martelo, para ele, é como pa­lha;
ri-se do sibilar dos dardos.
O seu ventre é coberto de escamas
pontiagudas
que deixam um rasto marcado so­bre a lama.
Faz ferver o abismo como uma marmita
e transforma o mar num caldei­rão.
Deixa atrás de si um caminho
lu­minoso,
como se o abismo tivesse uma ca­beleira branca.
Não há na terra quem lhe seja
semelhante,
pois foi feito para não ter medo.
Olha de frente tudo o que é grande,
é o rei de todos os animais fero­zes.

Bento de Espinosa, O Príncipe dos Filósofos

Bento de Espinosa, grande teórico do Racionalismo no século XVII, nasceu a 24 de Novembro de 1632 em Amesterdão e morreu neste dia 21 de Fevereiro, no ano de 1677, em A Haia. *

À Procura de Espinosa
Espinosa é pertinente para a neurobiologia apesar das suas reflexões sobre a mente humana não terem origem numa prática científica, mas sim numa preocupação geral com a condição humana. A preocupação suprema de Espinosa era a relação entre os seres humanos e a natureza. Espinosa tentou clarificar essa relação de forma a propor métodos eficazes para a salvação humana. Alguns desses métodos eram pessoais, sob o controlo do indivíduo, mas outros dependiam da ajuda que certas formas de organização social e política davam ao indivíduo. O pensamento de Espinosa descende do de Aristóteles, mas os alicerces biológicos são mais firmes, como seria de esperar. Espinosa parece ter entrevisto uma relação entre a felicidade pessoal e colectiva, por um lado, e a salvação humana e a estrutura do estado, por outro, muito antes de John Stuart Mill. Pelo menos no que diz respeito às consequências sociais do seu pensamento, Espinosa é hoje regularmente reconhecido.
Espinosa prescreveu o estado democrático ideal, marcado pela liberdade da palavra, «cada um pense o que quiser e diga o que pensa», pela separação prática do estado e da religião, e por um contrato social generoso que promovesse o bem estar dos cidadãos e a harmonia do governo. Espinosa prescreveu tudo isto mais de um século antes da Declaração da Independência Americana e da primeira emenda da Constituição Americana.
Quem é, então, este homem que pensava sobre a mente e corpo de um modo não só profundamente diferente da maior parte dos seus contemporâneos mas também notavelmente moderno? Quais as circunstâncias que produziram um espírito tão rebelde? Para tentar responder a estas perguntas precisamos de reflectir sobre ainda mais um Espinosa, o homem por detrás de três nomes próprios, Bento, Baruch, Benedictus, uma pessoa ao mesmo tempo corajosa e cautelosa, inflexível e acomodatícia, arrogante e modesta, admirável e irritante, próxima da matéria concreta e observável e, ao mesmo tempo, abertamente espiritual. Os sentimentos pessoais de Espinosa nunca são revelados directamente no estilo da sua prosa e apenas podem ser adivinhados, aqui e além, a partir de indícios esparsos.
Quase sem me dar conta, comecei à procura da pessoa por detrás da estranheza do trabalho. Queria apenas encontrar-me comEspinosa na minha imaginação, conversar um pouco, pedir-lhe para autografar a Ética. Escrever sobre a minha procura de Espinosa e sobre a história da sua vida passou a ser a terceira finalidade deste livro.
Espinosa nasceu na próspera cidade de Amesterdão em 1632, no meio da Idade de Ouro da Holanda. Nesse mesmo ano, perto da casa da família Espinosa, um jovem Rembrandt de 23 anos estava a pintar «A Lição de Anatomia do Doutor Tulp», o quadro que iniciou a sua fama.
O mecenas de Rembrandt, Constantijn Huygens, estadista e poeta, secretário do príncipe de Orange e amigo de John Done, acabava de ser pai de Christiaan Huygens, que viria a ser um dos mais celebrados astrónomos e físicos da história.
Descartes, o mais famoso filósofo desta era, tinha então 32 anos e vivia também em Amsterdão, no Prinsengraacht, e ao tempo preocupava-se com a forma como as suas ideias sobre a natureza humana seriam recebidas na Holanda  e no resto da Europa. Poucos anos mais tarde, Descartes viria a ensinar álgebra ao jovem Christiaan Huygens. Sem qualquer dúvida, Espinosa veio ao mundo rodeado por uma pletora de riquezas, intelectuais e financeiras, um verdadeiro embaraço de riquezas, no dizer de Simon Schama.

Bento foi o nome que lhe foi dado quando nasceu pelos seus pais Miguel e Hana Debora, judeus sefarditas portugueses que se tinham instalado em Amesterdão. Na sinagoga e entre os amigos, Espinosa era conhecido por Baruch, o nome que sempre o acompanhou na meninice e na adolescência passadas nesta comunidade afluente de mercadores e estudiosos judeus. Mas aos 24 anos, depois de ter sido expulso da sua própria sinagoga, Espinosa adoptou o nome de Benedictus, abandonou o conforto da casa de família e começou a calma e deliberada jornada cuja última paragem foi aqui no Paviljoensgracht. O nome português é Bento, o nome hebreu Baruch e o nome Benedictus em latim têm precisamente o mesmo significado: bendito. Que diferença fazia, um nome ou outro? Uma imensa diferença, diria eu; as palavras podiam ser superficialmente equivalentes, mas o conceito por detrás de cada uma delas era radicalmente diferente.[…]
In  Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio

As Idades do Mundo #4

quarto programa da série As Idades do Mundo, de  Ana Mântua e João Chambers, é dedicado aos “movimentos pós-impressionistas e o caminho da modernidade: o simbolismo, uma nova apreensão da realidade visível e a música de Maurice Ravel, Claude Debussy, Gabriel Fauré, Camille Saint-Saëns, Hector Berlioz, Gustav Mahler e Jean Delibes.”

Paul Gauguin – Be Mysterious, 1890

O existencialismo em Calderón de la Barca

A gravura de Nicolas Poussin – O Triunfo de Pã – 1636, ilustra o texto do poeta e dramaturgo  do século de ouro espanhol, Pedro Calderón de la Barca, que nasceu neste dia 17 de Janeiro em 1600 e viveu até 1681.

La vida es sueño - Jornada III - Escena XIX 

SEGISMUNDO

Es verdad, pues: reprimamos
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición,
por si alguna vez soñamos.
Y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña,
que el hombre que vive, sueña
lo que es, hasta despertar. 

Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!):
¡que hay quien intente reinar
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte! 

Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende. 

Yo sueño que estoy aquí,
destas prisiones cargado;
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

Pedro Calderón de la Barca

As Idades do Mundo #2

O segundo programa da série As Idades do Mundo, de  Ana Mântua e João Chambers, é dedicado a Jheronimus Bosch. Quem não puder ouvir a emissão de domingo às 10h00 na Antena 2, tem a possibilidade de aceder ao  Arquivo a partir de segunda-feira.

As “Imagens do Mundo” e da Humanidade através das visões de Jheronimus Bosch (?-1516) e da música de Joachimus de Monte, Cristianus Hollander, Jean Richafort, Nicolas Gombert e de autores anónimos, extraída dos “Livros de Coro do Colégio das Sete Horas Litúrgicas” da Igreja de São Pedro, na cidade de Leiden, nos Países Baixos, sobrevivente da fúria iconoclasta e destruidora, dos dias 25 e 26 de agosto de 1566, que discordava da existência, não particularmente devota, de alguns membros da ordem religiosa local.

As Idades do Mundo

A rubrica Caleidoscópio da Antena 2 difunde desde ontem uma série de 12 programas de audição obrigatória. Domingo às 10h00 | Ana Mântua/João Chambers

“Tomando como ponto de partida a obra-prima do pintor português Francisco de Holanda De Aetatibus Mundi Imagines, ou Imagens das Idades do Mundo, realizada no triénio 1545-1547, onde, numa linguagem totalmente inovadora e através de mais de centena e meia de ilustrações, se narra a história do mundo a partir do primeiro dia da Criação, concebemos uma série de doze programas que toma como denominação parte daquele título.
As características cíclicas da história da Humanidade, aliadas à permanente influência e contaminação de vários tipos de linguagens e de imagéticas, proporcionaram o eterno retorno às concepções do passado, nem que fosse apenas para as renegar, sendo os mesmos temas, por diversas vezes e ao longo dos tempos, retomados e apreendidos de diferentes formas pelos seus autores.
Tal como afirma o filósofo francês Gilles Deleuze ao caracterizar a cultura universal como “a civilização da imagem”, o tema principal destas emissões será o da sua força e a poderosa capacidade de arrebatamento, deleite ou, simplesmente, horror.
Privilegiando a música e a palavra que lhe está associada, abordaremos, ao longo dos próximos domingos, personalidades ímpares do génio artístico universal, as quais contribuíram, de forma indelével, para a renovação da imagem do mundo em diferentes momentos da História.”
Por Luís Ramos.

Reflexos do Desassossego

Criar dentro de mim um estado com uma política, com partidos e revoluções, e ser eu isso tudo, ser eu Deus no panteísmo real desse povo-eu, essência e acção dos seus corpos, das suas almas, da terra que pisam e dos actos que fazem. Ser tudo, ser eles e não eles. Ai de mim! este ainda é um dos sonhos que não logro realizar. Se o realizasse morreria talvez, não sei porquê, mas não se deve poder viver depois disso, tamanho o sacrilégio cometido contra Deus, tamanha usurpação do poder divino de ser tudo.
O prazer que me daria criar um jesuitismo das sensações!
Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que me arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto, tão recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra, (…). Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo – é impossível ocultar-lhes o som – é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.
Porque exponho eu de vez em quando processos contraditórios e inconciliáveis de sonhar e de aprender a sonhar? Porque, provavelmente, tanto me habituei a sentir o falso como o verdadeiro, o sonhado tão nitidamente como o visto, que perdi a distinção humana, falsa, creio, entre a verdade e a mentira.
Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Pode ser mesmo que eu sinta duas coisas inconjugáveis ao mesmo tempo. Não importa.
Há criaturas que são capazes de sofrer longas horas por não lhes ser possível ser uma figura dum quadro ou dum naipe de baralho de cartas. Há almas sobre quem pesa como uma maldição o não lhes ser possível ser hoje gente da idade média. Aconteceu[-me] deste sofrimento em tempo. Hoje já me não acontece. Requintei para além disso. Mas dói-me, por exemplo, não me poder sonhar dois reis em reinos diversos, pertencentes, por exemplo, a universos com diversas espécies de espaços e de tempos. Não conseguir isso magoa-me verdadeiramente. Sabe-me a passar fome.
Poder sonhar o inconcebível visibilizando-o é um dos grandes triunfos que não eu, que sou tão grande, senão raras vezes atinjo. Sim, sonhar que sou por exemplo, simultaneamente, separadamente, inconfusamente, o homem e a mulher dum passeio que um homem e uma mulher dão à beira-rio. Ver-me, ao mesmo tempo, com igual nitidez, do mesmo modo, sem mistura, sendo as duas coisas com igual integração nelas, um navio consciente num mar do sul e uma página impressa dum livro antigo. Que absurdo que isto parece! Mas tudo é absurdo, e o sonho ainda é o que o é menos.
Bernardo Soares, Ajudante de Guarda Livros na Cidade de Liboa
in Livro do Desassossego, trecho 157.

Gustav Klimt (1862-1918) – Tragedy, 1897

Claude Monet (1840-1926) “Ramo de Girassóis”, 1881

Óleo sobre tela, 101 x 81,3 cm | Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Doação de Mrs. H.O. Havemeyer, 1929
Esta tela foi apresentada na sétima exposição ” impressionista “1882, obtendo uma excelente recepção dada a sua natureza enérgica e ousada. Neste momento da sua carreira, Monet começava a distanciar-se da sua anterior identidade enquanto uma das principais figuras do que então era o “movimento impressionista ” firmemente estabelecido, desenvolvendo uma técnica e explorando fromas de projecto artístico – em particular, variações seriais – de carácter marcadamente diferente.
Monet escolhia estes girassóis no seu próprio jardim em Vétheuil, representado aqui o aspecto fresco das flores, mas também o rápido definhar da folhagem. As flores encontram-se no que aparenta ser uma jarra chinesa ou japonesa de loiça azul e branca, que por sua vez assenta numa toalha ou num tapete de vibrante padrão vermelho. Os girassóis projectam-se em sentido ascendente, contorcendo-se e ultrapassando o limite da tela à direita e quase tocando à esquerda. Duas flores no alto e uma outra, em representação frontal, ao centro, formam um triângulo de três espécimes magníficos.
Após uma observação atenta, a sua vibração cromática deve-se a uma interacção de amarelos e vermelhos cuidadosamente construída , evidenciando-se graças ao opulento fundo de azuis e rosas difusos e aos intensos vermelhos, azuis e verdes da toalha. O recurso a contrastes de cores complementares aplicadas em pinceladas e retocadas diversas vezes é característico da alteração registada na técnica de Monet nesta fase. O que torna esta obra tão irresistível é o contraste estabelecido entre o notável efeito visual deste ramo selvagem e o fervilhar quase incoerente da superfície pintada da toalha ou da folhagem quando observada de perto.
Neil Cox, comissário da exposição A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa (1840-1955)
por: Teresa Pizarro, in
 Molduras – Antena 2

Camille Pissarro

Filho de um criptojudeu português, Camille Pissarro  nasceu a 10 de Julho de 1830, no seio de uma família abastada.
Em 1855 instalou-se em Paris para se dedicar à pintura na Académie Suisse. Visitou a Exposição Universal, onde teve contacto com as obras de Camille Corot e Eugène Delacroix. Em 1859 participou pela primeira vez no Salon, onde conheceu Claude MonetAuguste Renoir e Alfred Sisley. Durante a década de 1860 continuou a apresentar os seus trabalhos em Salons sucessivos, cessando a sua participação em 1870. Sob influência de Georges Seurat, foi co-fundador do Impressionismo e o único do grupo – que integrava artistas como Paul Cézanne e Paul Gauguin – a ter as suas obras presentes nas oito exposições impressionistas, realizadas entre 1874 e 1886. Morreu em Paris, neste dia 13 de Novembro, no ano de 1903.

Camille Pissarro – O bosque de Marly, 1871 | Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid

«Le Carnet de La Califonie» – Picasso em Cascais

Exposição: Picasso – «Le Carnet de La Califonie»
Centro Cultural de Cascais | 29 de Outubro a 8 de Janeiro de 2012
Uma vez mais ao abrigo do protocolo de colaboração celebrado em 1997 com a Fundação Bancaja, a Fundação D. Luís I apresenta até 8 de janeiro, no Centro Cultural de Cascais, uma importante coleção de 39 trabalhos da obra gráfica de Pablo Picasso. Trata-se da produção realizada pelo artista espanhol durante o período em que viveu com a sua mulher Jacqueline Roque, na vila La Californie, em Cannes, entre 1955 e 1960. A exposição tem como ponto de partida os esboços realizados pelo pintor, posteriormente reproduzidos na suite Le Carnet de La Californie, que foi adquirida pela Fundação Bancaja em 2007, e será complementada com gravuras, livros ilustrados e escritos da autoria do pintor, também pertencentes à colecção. As obras produzidas por Picasso nesta fase refletem a inspiração na atmosfera luminosa da casa e nos objectos que o rodeava, transmitindo a felicidade do pintor durante este período.

Em La Californie, Picasso transformou uma sala grande em ateliê, espaço que se tornou ele próprio protagonista de muitas das suas obras. O “regresso” ao tema do ateliê como inspiração foi igualmente interpretado como uma homenagem póstuma a Henri Matisse, que havia falecido em 1954. Esta ligação a Matisse foi também transposta para o uso das cores e para o caráter ornamental que caracteriza uma parte dos trabalhos da série.
A exposição apresenta obras em que Picasso utiliza várias técnicas gráficas (gravura calcográfica, água-tinta, linóleo e litografia), bem como alguns dos livros ilustrados pelo artista no seu atelier de La Californie, como os delicados e inovadores livros realizados com Pierre André Benoît, que contêm poemas de Reve Crevel, Jean Cocteau, ou o poema-objeto de Tristan Tzara. Destaque ainda para o livro La tauromaquia que fez para o editor catalão Gustavo Gili; o livro que contém os retratos do seu amigo Max Jacob ou os que ilustram poemas de Paul Éluard e do poeta local Henri-Dante Alberti. Via.