Archive for the ‘ Artes ’ Category

Para quê tanta pressa?

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo…

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

Poema de Jorge de Sena | Gravura de François-Edouard Picot – Cupid and Psyche, c.1817

A Cristo Crucificado

Não se sabe quem escreveu este soneto A Cristo Crucificado, impresso pela primeira vez no Libro intitulado vida del espíritu, de Antonio Rojas, editado em Madrid em 1628. As atribuições da sua autoria que têm sido feitas (a Santa Teresa de Ávila, S. Francisco Xavier, Pedro de los Reyes, Santo Inácio de Loiola, Lope de Vega, etc.) não são credíveis.

in Antologia da Poesia Espanhola do Siglo de Oro, segundo volume – Barroco
selecção e tradução de José Bento
    Não me move, meu Deus, para querer-te

o céu que tu me tens já prometido;
nem me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-te.

    Moves-me tu, Senhor; move-me o ver-te

cravado numa cruz e escarnecido;
move-me ver teu corpo tão ferido,
tua morte e insultos a erguer-te.

    Move-me o teu amor, de tal maneira

que, mesmo sem o céu, inda te amara
e, mesmo sem o inferno, te temera.

    Nada tens que me dar pra que te queira;

pois embora o que espero não esperara,
o mesmo que te quero te quisera.

Cristobal de Morales “Missa Pro Defunctis”, a 5 – Introitus
La Capella Reial De Catalunya | Hesperion XX | Direction: Jordi Savall (1992) Astree

Juan Gris

Jose Victoriano Gonzalez-Perez better known as Juan Gris (March 23, 1887 – May 11, 1927) was a Spanish painter and sculptor who lived and worked in France most of his life. His works are closely connected to the emergence of an innovative artistic genre-Cubism.
Born in Madrid, Gris studied mechanical drawing at the Escuela de Artes y Manufacturas in Madrid from 1902 to 1904, during which time he contributed drawings to local periodicals. From 1904 to 1905 he studied painting with the academic artist José Maria Carbonero. Via


Juan Gris – The Violin, 1916

Muros, de Ana Vieira

Muros de Abrigo | Ana Vieira | 14 de Janeiro a 27 de Março 2011, CAM | Curadoria: Paulo Pires do Vale
Leituras relacionadas: Muros de Abrigo e Contra a retórica da certeza

Muro-Arte

Em toda a obra de Ana Vieira persistente e original, na sua radicalidade e distinção, é o próprio muro de abrigo da arte no seu pedestal que é posto em causa. No Ambiente de 1971, apresenta-nos o ritual fúnebre da arte “plintável”: a Vénus colocada num plinto no centro de uma sala, rodeada de cadeiras vazias afastadas da escultura e afastadas de nós por uma rede (muro?) que não permite aproximação, mas ainda deixa ver. Transparência ou opacidade: o que é a obra de arte e o que pode ela? A sacralização da obra, a sua separação da vida e do quotidiano, é aqui interrogada. Tal como na utilização da arte greco-romana, dos seus corpos perfeitos e memória de um tempo da religião da arte, que deixam agora, com o seu exílio, um lugar vazio, permanecem enquanto ausência – uma ausência saturada -, retiram-se ou parecem perder a solidez. Um esvaziamento. Problemas que encontramos, de outro modo, no tratamento que faz da obra seminal da arte moderna, o Dejeuner sur L´herbe de Manet, que a artista coloca, em 1977, a nossos pés, retirada da parede e projectada no espaço sobre uma encenação de um outro piquenique, dessacralizada, esvaziada da condição de intocável. Des-aurada. Mas, apesar disso, nela também não participamos. Ficamos de fora. A artista constrói, pacientemente, uma frágil moldura para o vazio. Via.


Manet, inventeur du Moderne

Por ocasião da monumental exposição que o Museu d’Orsay dedica a «Manet, inventeur du Moderne», de 5 de Abril a 2 de Julho de 2011, Le Figaro Hors-Série publica uma edição especial intitulada «Manet, un certain regard»,  numa profunda abordagem à diversidade da paleta e da inspiração do genial pintor impressionista.

Édouard Manet – Horsewoman, Fullface – ca.1882

Música, levai-me!

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

‎[Eugénio de Andrade]

Poesia e Morte

Que me perdoe quem não é apreciador da Festa Brava, Arte que tantos poetas inspirou, de Lorca a Celaya, mas há poesia bastante neste artigo de Andrés Amorós para o ABC sobre a Corrida deste fim de semana em Valência, onde o madrileno Alberto Aguilar foi colhido.

La emoción del toro serio

Alberto Aguilar sufrió una cornada y cortó una oreja como Tomás Sánchez a la corrida de Adolfo Martín

Como San José ha caído en sábado, se alarga un día más la Feria taurina, cuando ya se han quemado las Fallas. La seria corrida deAdolfo Martín trae la emoción que otras tardes hemos echado de menos: cortan oreja Tomás Sánchez y Alberto Aguilar, herido por el último.

Anoche, en la “cremá”, hablaban de toros Rita Barberá, con Vicente Barrera, y Francisco Camps, con Enrique Ponce. La falla iba cayendo, poco a poco, en el fuego: tanto trabajo, tanto arte, tanto esfuerzo… El fuego se lo ha llevado: queda sólo un montón de cenizas. Consumiéndolo, lo ha purificado; y también, esperemos, a nosotros. Y a la Tauromaquia… La corrida de Adolfo Martín está muy bien presentada, con pocos kilos pero cabezas aparatosas. Varios son aplaudidos de salida. El comportamiento es otra cosa: blandean, salta uno la barrera y lo intentan dos más, no dan mucho juego. Los han picado mal, eso sí: mucho y trasero. Rafaelillo, prácticamente, no tiene opciones. A su primero le pegan mucho, tapándole la salida. Recuerdo la frase de don Antonio Chacón: “Yo soy como los toros de Saltillo, que embisten mejor cuando les llega la sangre hasta la pezuña”. No es éste el caso, por desgracia: flojea, se queda muy corto. Sólo puede darle una lidia correcta, sin lucimiento.

El cuarto, serio, con poca codicia, se derrumba: ¿flojo o lesionado? Le piden que lo mate : lo hace con una buena estocada. El valiente murciano prácticamente ha quedado inédito.

Especial emoción se vive con el segundo toro, escurrido pero con muchos pitones. (Recuerdo a Góngora: “Media luna las armas de su frente…”). Salta la barrera y sale distraído, con la cara alta. Tomás Sánchez lo somete, consigue series cortas pero intensas, tragando mucho. Entrando rápido, logra la estocada y la merecida oreja.

Recibe al quinto con buenas verónicas. Es un toro incierto, que humilla pero queda corto. Uno a uno, va sacando naturales de mérito. En uno, es trompicado y queda un rato a merced del toro . El trasteo también ha tenido emoción pero pincha en hueso antes de lograr la estocada. Para lo poco que torea, ha estado muy digno.

Alberto Aguilar sale a demostrar que se merece estar en las Ferias. Su primero intenta saltar, está justo de fuerzas pero mete la cabeza. Lo llama de lejos, adelantando la muleta y tirando bien de él; consigue derechazos templados pero el toro se queda a medias y él diestro pincha.

El sexto, muy veleto, alirado, con casi seis años, transmite mucho. Lo lidia bien, le planta cara, conduce las embestidas. En un derrote, es herido en la pierna izquierda; sangrando y cojo, consigue, a la segunda, la estocada y la oreja: un gesto de hombre.

Se acaban de cumplir los cien años del nacimiento de Gabriel Celaya. He recordado sus versos: “Soy un ibero / y, si embiste la muerte, / yo la toreo”. Ésa sigue siendo la grandeza de nuestra Fiesta.

Ha concluIdo la Feria de Fallas. De todo lo que anoche se quemó, esta mañana ya no quedaba nada. Los bomberos y el servicio de limpiezas de la ciudad funcionan de maravilla. Al salir a la calle, notamos con extrañeza la ausencia de la Falla: como ese vacío que deja una muela, cuando nos la extrae el dentista, y, al día siguiente, seguimos pasando la lengua por el hueco… Una vez más, era necesario que muriera todo lo viejo para que naciera, como pide San Pablo, el hombre nuevo. ¿Llegará también esa regeneración que tanto necesita la Fiesta? Soñemos: un año más, llega la primavera.

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se num dia escuro de Fevereiro um viajante…

O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.

É um som abstracto e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.

Fernando Pessoa

Caspar David Friedrich – Monk by the sea, c. 1809

Gérard Castello-Lopes (1925-2011)

A fotografia, para mim, é uma forma de bloquear o mundo. Nada mais.

«metamorfoses para 23 versos»
há grandes folhas verde escuras na penumbra variável
de uma estufa de plantas. há o cheiro a terra húmida
contido entre os vidros brancos de cal, há
fetos, avencas, orquídeas, ciclamens banhados
pela luz uniforme, a intensas horas do dia. Noutras
a penumbra organiza-se em vãos e tufos como os das plantas,
onde goteja a água, cria o seu musgo, as suas
manchas claras e porosas no reflexo
de algum vidro partido. Não há sons, apenas sombras
do mundo, nem o olhar de ninguém; apenas
se pode conjecturar, para as zonas mais escuras, degradadas sob
os tabuleiros de vasos, que o vagaroso capricho das plantas,
mesmo a cor do ciclamen, se alimenta
da sombra natural quando o seu arco sobe, entre o chão e a parede,
[até alguns fortuitos
brilhos silentes nos suportes da terra. e há outras conjecturas, porque
esta é uma economia das formas do destino e perdidamente
as pessoas também, quando procuram o limite das coisas,
para viver ou para morrer, se interrogam
sobre um vidro embaciado que lhes devolveu as perguntas
e a água inacessível que as separa
da sua própria imagem, na penumbra virtual.
a escrita é uma orla inquieta das coisas,
uma sombra das figuras.
Vasco Graça Moura