Archive for the ‘ Artes ’ Category

Camille Pissarro

Filho de um criptojudeu português, Camille Pissarro  nasceu a 10 de Julho de 1830, no seio de uma família abastada.
Em 1855 instalou-se em Paris para se dedicar à pintura na Académie Suisse. Visitou a Exposição Universal, onde teve contacto com as obras de Camille Corot e Eugène Delacroix. Em 1859 participou pela primeira vez no Salon, onde conheceu Claude MonetAuguste Renoir e Alfred Sisley. Durante a década de 1860 continuou a apresentar os seus trabalhos em Salons sucessivos, cessando a sua participação em 1870. Sob influência de Georges Seurat, foi co-fundador do Impressionismo e o único do grupo – que integrava artistas como Paul Cézanne e Paul Gauguin – a ter as suas obras presentes nas oito exposições impressionistas, realizadas entre 1874 e 1886. Morreu em Paris, neste dia 13 de Novembro, no ano de 1903.

Camille Pissarro – O bosque de Marly, 1871 | Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid

V Ciclo de Concertos “Som das Musas” em Vila Flor

No ano em que se comemoram os 750 anos do nascimento do Rei Trovador, realiza-se a 5ª edição do “Festival Som das Musas”, entre 11 e 13 de Novembro, oom direcção artística e musical de Pedro Caldeira Cabral.
D. Dinis, Rei Poeta, aquando da sua passagem por este burgo até então denominado por “Póvoa d´Álem Sabor”, ficara encantado e rendido à beleza da paisagem e, em 1286, carinhosamente a re-baptizou de “Vila Flor”. Cerca de 1295, D. Dinis manda erguer, em seu redor, em jeito de protecção, uma cinta de muralhas com 5 portas ou arcos. Resta o Arco de D. Dinis, monumento de interesse público.

Foto retirada de http://descobrir-vilaflor.blogspot.com/

Programa

Música em São Roque – Ensemble Vocal Introitus

Época de Ouro da Polifonia Ibérica
Tomas Luis de Vitoria nos 400 anos da sua morte
Igreja do Instituto de São Pedro de Alcântara | 6 de Novembro de 2011 | Ensemble Vocal Introitus
in Notas ao Programa:
Escreve o cronista D.Nicolau de Santa Maria que, depois de Filipe II ter assistido às cerimónias da Semana Santa no Escorial, perguntou ao Capelão-mor da sua corte: “Que vos parece? Hauerá por ventura em toda a Christandade Igreja ou Mosteiro, em que se fação os officios diuinos com a perfeição com que se fazem neste meu Escorial? Respondeo o Bispo: Se Vossa Magestade me der licença direi aonde os vi, & ouui fazer tão bem, & melhor. El Rey admirado da resposta perguntou: E aonde? Disse o Bispo: Com licença de Vossa Magestade, em o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em Portugal, que he de conegos Regrantes de S.Agostinho”
Este é um dos episódios que mostra o alto nível de qualidade da música que se compunha e interpretava em Portugal durante o século XVII.

Concerto – 300 anos da Igreja do Menino Deus

A Música Sacra no tempo de D. João V (Compositores de 1711 a 1750)
Igreja do Menino Deus | 4 de Novembro de 2011, 21:00h | Entrada livre
Programa:
João Rodrigues Esteves: “Pinguis est Panis”
Johann Sebastian Bach: Ária “Schlummert ein, ihr matten Augen”
G.Ph.Telemann: Cantata “Ihr Völker hört” (Am Feste der heiligen drei Könige)
Johann Sebastian Bach: Sonata em Si bemol Maior, BWV 1021 Adagio/Vivace/Largo/Presto
João Rodrigues Esteves: “Regina Caeli Laetare”
La Nave Va – Ensemble Barroco
Maria Luísa Tavares, Mezzo-Soprano | Armando Possante, Barítono | António Carrilho, Flauta de Bisel | Edoardo Sbaffi, Violoncelo | Jenny Silvestre, Cravo

300 ANOS da IGREJA DO MENINO DEUS: 1711-2011
A Igreja do Menino Deus é uma obra de grande importância histórica e patrimonial. Localizada no Largo do Menino Deus, meio escondida na encosta nascente da Colina do Castelo, este templo é praticamente desconhecido da maior parte dos lisboetas. Mas a sua notável qualidade e originalidade arquitectónica, aliada ao facto de ser uma das raras igrejas que escapou intacta ao grande terramoto de 1755, fazem dela um verdadeiro marco da Arquitectura Barroca nacional. A concepção da obra está atribuída ao Arquitecto Real João Antunes (1642-1712), autor de obras de referência como a Igreja de Santa Engrácia em Lisboa.
Foi no dia 4 de Julho de 1711, que o Rei D. João V, acompanhado dos Infantes, seus irmãos, D. António e D. Manuel, conjuntamente com vários membros da Casa Real, lançou a primeira pedra da igreja. A construção prolongou-se durante 26 anos tendo ficado concluída em 1737, data em que foi sagrada. No dia 25 de Março, o mesmo Rei D. João V, transferiu a imagem “milagrosa” do Menino Deus da Igreja da Ordem Terceira de S.Francisco de Xabregas. Na cerimónia da inauguração, o Rei foi acompanhado em procissão nocturna, com tochas acesas, pela população da capital e pelo jovem Príncipe D. José, seu filho, e os irmãos Infantes D. António e D. Manuel. Depois de colocada a imagem na capela-mor, se cantou o Te Deum “com excelente música de instrumentos e vozes” como nos descreve a Gazeta de Lisboa.

Nave e Capela-mor com embutidos de pedraria (embrechados) | Foto: Fernando Jorge, 2011
Ao observarmos a frontaria da igreja vemos que não está concluída, faltando-lhe o remate de frontão e as torres campanário. Mas o interior é um perfeito e completíssimo exemplo da Arquitectura portuguesa do início do séc. XVIII. Espera-nos um verdadeiro espectáculo da obra total do Barroco. O espaço é amplo, à maneira de grande salão, com cantos cortados o que confere à igreja uma peculiar forma oitavada. As paredes são integralmente revestidas de pedra e com magníficos embutidos de pedraria de várias cores.
Nesta igreja a talha dourada está limitada aos retábulos dos oito altares laterais onde se integra um conjunto de boas pinturas de André Gonçalves (1685-1762) e do pintor espanhol André Ruvira executadas por volta de 1730. O retábulo da capela-mor, em mármore, é do italiano João António Bellini, de Pádua; ao centro, em pequeno nicho, vemos a imagem do Menino Jesus, devota dos populares e que, segundo a tradição, já existia no local sendo conhecida por Menino Deus. A Capela-mor é ainda adornada com duas belas telas trilobadas: um “São Francisco Despojado dos Hábitos Seculares” de Vieira Lusitano (1699-1783) da década de 1730, e um “Trânsito de São Francisco” atribuído ao italiano Francesco Pavona. A arte da pintura do Menino Deus fica completa com o esplêndido tecto pintado, obra de parceria entre Vitorino Manuel Serra, João Nunes Abreu, Jerónimo da Silva e André Gonçalves, representando arquitecturas em tromp-l’oeil e, ao centro, painel com a “Ascensão de São Francisco com as Virtudes”.
As obras foram erguidas com esmolas públicas e ajuda do Rei. O edifício conventual ficou destinado a recolhimento das Franciscanas Mantelatas da Ordem Terceira de S. Francisco de Xabregas.
Actualmente na parte conventual funciona o Centro Social do Menino Deus, gerido por uma Congregação de São José de Cluny, frequentado diariamente por cerca de 170 crianças. A igreja já foi alvo de restauro.
Para quem ainda não conhece este deslumbrante e raro monumento de Lisboa, aconselhamos que o venha descobrir no ano em que celebra 300 anos. Via.

 Tecto da nave com pintura ilusionista em tromp-l’oeil | Foto: Fernando Jorge, 2011

As “95 teses contra as indulgências” de Martinho Lutero

O gesto faz parte da lenda e, dizem os historiadores, provavelmente nem sequer terá assim acontecido. Mas ficou o símbolo: a 31 de Outubro de 1517, em pleno debate com o delegado do Papa Leão X sobre as indulgências, Martinho Lutero, até então um monge agostinho quase desconhecido, afixa as “95 teses contra as indulgências” à porta da igreja do castelo de Wittenberg.
Provavelmente, o ex-monge, que estava a iniciar, sem o saber, a Reforma Protestante, ter-se-á limitado a redigir as teses nas quais contestava a compra (literal) do perdão dos pecados: os fiéis pagavam uma soma, com ela obtendo o perdão eterno.
O dinheiro recolhido permitia financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma: o Papa era um Médicis, filho de Lourenço, o Magnífico, que nem sequer era padre quando foi eleito, em 1513. Leão X nomeava cardeais o primo e o sobrinho e estava mais interessado em encarregar Rafael da decoração das Lógicas e da construção da Basílica e em entregar a Miguel Ângelo a construção do túmulo da família do que em preocupar-se com a revolta de um monge alemão.
Para Lutero, só Deus podia perdoar as pessoas e as ‘obras’ que cada um fizesse – leia-se: o que cada um pagasse – não asseguravam a salvação eterna. Com as 95 teses, rapidamente distribuídas por toda a Alemanha, nascia o escândalo. Lutero iniciava a Reforma.
António Marujo, Caderno P2 do Público de 31-10-2011

Lucas Cranach the Elder – Martin Luther as an Augustinian Monk, 1520

Porque me beijou Perico, porque me beijou o traidor.

Este Vilancico pertence ao delicado livrinho ‘Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro’, com selecção, tradução, introdução e notas de José Bento, numa edição da Assírio e Alvim.
Quem tiver curiosidade de comparar com a tradução que aqui encontrei, facilmente constata a subjectividade que cada autor empresta à obra traduzida. Não será o caso, mas há textos que nem se deviam traduzir!

Porque me beijou Perico, 
porque me beijou o traidor. 

    Que estando, mãe, a dormir,
do que estou arrependida,
senti-o estar a subir
minha camisa florida;
mesmo de riso esvaída,
pensá-lo dá-me temor,
porque me beijou Perico, 
porque me beijou o traidor.

   E estando eu, como vos digo,
a dormir me surpreendeu;
tocou-me sob o umbigo,
tudo quanto Deus me deu.
Assim, como quereis que eu
possa por ele ter amor?
Porque me beijou Perico, 
porque me beijou o traidor. 

   Porque, com artes mesquinhas,
remexeu pouco a pouquito
suas pernas entre as minhas
até que me deu no fito:
é meu sofrer infinito,
já não pode ser maior,
porque me beijou Perico, 
porque me beijou o traidor. 

   Que, como se meneava,
mais se mostravam gostosos,
dois mil gozos que me dava
como açúcares saborosos.
Deu-me uns beijos tão sumosos
que jamais perco o sabor.
Porque me beijou Perico, 
porque me beijou o traidor.

“Susana y los viejos”, de José de Ribera

Para Ana Margarida 🙂

Paul Verlaine par Patricia Barber

Dansons la gigue!

 J'aimais surtout ses jolis yeux
 Plus clairs que l'étoile des cieux,
 J'aimais ses yeux malicieux.

   Dansons la gigue!

 Elle avait des façons vraiment
 De désoler un pauvre amant,
 Que c'en était vraiment charmant!

   Dansons la gigue!

 Mais je trouve encore meilleur
 Le baiser de sa bouche en fleur
 Depuis qu'elle est morte à mon coeur.

   Dansons la gigue!

 Je me souviens, je me souviens
 Des heures et des entretiens,
 Et c'est le meilleur de mes biens.

   Dansons la gigue!

Última Sessão

El artista mallorquín Miquel Barceló ha diseñado el cartel taurino del que posiblemente será el último festejo taurino que se celebre en Catalunya, la corrida prevista para el domingo 25 de septiembre en La Monumental de Barcelona. Via.

Georg Friedrich Händel – 270 anos de ‘Messias’

Para assinalar os 270 anos da conclusão do Oratorio “Messiah”, escolhi parte do texto que João Chambers utilizou no Musica Aeterna de Abril de 2009, destinado a assinalar a passagem dos 250 anos da morte de Handel; A escolha musical, desta vez, recai sobre o agrupamento vocal e instrumental Les Arts Florissants, dirigido por William Christie.
Espero que gostem. 🙂

A concepção da oratória “O Messias”, que passaria à posteridade como um dos apogeus da História da Música Ocidental e ocupa um lugar de destaque em todo o seu espólio, constitui um dos muitos paradoxos em que o mundo da arte é fértil. Composta em apenas três semanas, mais concretamente, entre 22 de Agosto e 14 de Setembro de 1741, seria apenas estreada no ano seguinte, no Music Hall em Fishamble Street, durante uma viagem efectuada a Dublin talvez já na expectativa de um convite por parte das autoridades irlandesas. Numa récita de beneficência em favor de presos e doentes internados em várias instituições locais iria então surgir, de novo, a estranha relação entre harmonia, asilos e hospícios sempre tão fecunda ao longo dos tempos.
Após o seu regresso a Londres, Handel foi obrigado a alterar o título daquela sua genial criação, de modo a poder calar as críticas que o acusavam não só de profanar um tema sacro e interpretá-lo num lugar tão pouco idóneo como, também, pelo facto de se ter servido de intérpretes que nada tinham a ver com o culto da liturgia. Todas estas vicissitudes viriam a contribuir para que, de início, não tivesse despertado o fervor popular que, anos mais tarde, acabaria por vir a provocar. Com efeito, seria apenas a partir de 1750, ano da morte de Johann Sebastian Bach, durante a temporada da Quaresma do Teatro do Covent Garden, em Londres, que começou a ter apresentações regulares, tendo acabado por se tornar numa verdadeira “instituição” da arte dos sons inglesa. Foi, ainda, durante esse mesmo ano que renovou habilmente a ligação entre a obra e diversos locais de caridade, tendo iniciado a tradição de a fazer executar em benefício do Hospício dos Expostos, do qual era provedor, começando, então, a manifestar-se uma alteração de sentimentos por parte do público que o passou a receber com entusiásticas ovações.
Baseado num texto homogéneo e equilibrado da autoria de Charles Jennens, o libreto não aborda qualquer tema sacro mas tão-somente o da reflexão sobre o mistério da redenção e da relação entre Deus e o Homem. Demonstrando grande preocupação com a profecia e a meditação, o respectivo teor foi inteiramente retirado da versão autorizada da Bíblia e do Book of Common Prayer, cuja utilização num contexto profano, muito ofendeu “pessoas escrupulosas” tal como Jennens rotulava esses puritanos. A alternância quase simétrica de recitativos, árias e coros não enfraquece a linha dramática, a qual foi conseguida com recurso a uma grande economia de meios harmónicos e graças a uma orquestração que, não servindo de apoio ao texto, ajuda, no entanto, a elevar o espírito dos ouvintes. A criteriosa compilação bíblica revestiu-se de uma forte concepção de conjunto e, através da combinação hábil de textos extraídos do Antigo e do Novo Testamento, procurou ilustrar o cumprimento das profecias messiânicas do primeiro nos acontecimentos constantes dos Evangelhos. Dividida em três partes, as suas passagens referem-se às profecias da vida de Cristo, à Sua redenção e, em epílogo, à imortalidade da alma cristã.
Faltando um fio dramático e unificador de forma a impor um sentido forte de estrutura, a primeira função de Handel, ao adaptar o texto de Jennens, foi criar um enquadramento musical capaz de tratar passagens potencialmente desconexas enquanto procurava manter a continuidade do pensamento subjacente. Tal objectivo foi conseguido através de um esquema global de tonalidades e harmonias em que a obra se estrutura e na qual vai, pouco a pouco, gerindo a construção e a resolução da tensão. Tudo isto foi complementado com uma distribuição ponderada dos vários ingredientes formais, ou seja, recitativos, árias e coros, pelas secções de texto mais apropriadas, dando a devida atenção ao peso relativo de cada uma na sua concepção global. Deste modo, possibilitou a percepção de um sentido quase dramático da progressão da música que, simultaneamente, ilustra e reforça a respectiva narrativa à medida que se vai desenrolando.
Apesar do pouco tempo que a composição terá demorado esta absolutamente notável oratória não é, de forma alguma, uma obra precipitada. Embora Handel tenha reutilizado como secções corais dois duetos amorosos que tinha anteriormente composto, contém, na realidade, poucas citações de peças preexistentes. Tal circunstância leva a crer que terá despendido tempo e paciência consideráveis no Amen final, do qual subsistem, nada menos, do que sete esboços, embora o manuscrito autógrafo original contenha também diversas emendas transcritas pelo seu próprio punho.
Durante a sua existência, o “Messias” jamais iria conhecer uma forma definitiva, uma vez que ele próprio ia frequentemente inovando de modo a adaptá-lo não só aos cantores disponíveis mas também às circunstâncias especiais de cada representação. Este hábito de “alteração” regular prolongar-se-ia muito para além da morte, tendo a célebre readaptação de Mozart aberto possibilidades a outras tentativas, bem intencionadas mas desastrosamente mal orientadas, em reforçar a propositadamente sóbria orquestração. Porém, nas últimas décadas do século XX e fruto de intensas e sérias investigações musicológicas tem, felizmente, vindo a ser adoptada uma abordagem diferente na interpretação do repertório anterior ao Romantismo, tendo este verdadeiro monumento, que sempre ocupou um lugar de destaque na História da Música Ocidental, servido de perfeito exemplo ao admirável e sempre em constante evolução movimento de renovação interpretativa.

Formosura Que Excedeis

Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.
in Rosa do Mundo, de Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Assírio & Alvim, 2001 – tradução de José Bento
Jacques Blanchard – Venus and the Three Graces Surprised by a Mortal, c. 1631 – 1633
Musée du Louvre