Arquivo de Junho, 2012

André Campra

Em 2010 assinalaram-se os 350 anos do nascimento deste compositor francês contemporâneo de Jean-Baptiste Lully (1632-1687) e  Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Entre 1694 e 1700 ocupou o cargo de maître de musique na Catedral de Notre-Dame, construiu uma respeitável obra musical, desde óperas, cantatas e música sacra, onde se insere o Requiem, de 1723.
Morreu neste dia 29 de Junho, no ano de 1744.


A Aguadeira

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

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Poema Angela Adonica, de Pablo Neruda.
Composição A Aguadeira,de Miguel Ângelo Lupi, séc. XIX – CMAG

300 anos do nascimento de Jean-Jacques Rousseau

MUSICA AETERNA | Dias 23 e 30, na Antena 2.
Foi em pleno século das Luzes que Rousseau, nascido, em Genebra, a 28 de junho do mencionado ano de 1712, contestatário como sempre foi, iniciou um veemente protesto contra o progresso das ciências, a acumulação de riquezas, as instituições arbitrárias e uma sociedade opressiva. Estigmatizando a crescente desnaturação do Homem, advertiu os contemporâneos de que, em vez de regressarem à simplicidade natural, rumavam inevitavelmente em direção à própria ruína. Propôs, então, reformar a educação, os costumes, as instituições políticas e sociais, o Direito e, inclusive, a religião. Na verdade, se o ser humano ocupa hoje um lugar central na nossa conceção do mundo é, em grande parte, a ele que tal se ficou a dever, como, aliás, a esse propósito, afirmou o próprio Kant: “Rousseau é o Newton do universo moral!”
João Chambers

Tangerine Dream – Hyperborea

Tangerine Dream set the stage for the style of “artsy” soundtrack music that dominated the ’80s. Although Hyperborea is not a soundtrack, it was clearly influential on some of the work the group was hired to do for Risky Business, Flashpoint, Dreamscape, Firestarter, Legend, and close to 20 others. There have been at least a dozen members in this trio over the years, but the assembly of Chris Franke, Edgar Froese, and Johannes Schmoelling proved to be one of the most prolific and influential. Hyperborea was a turning point for the band — a distinctive departure from the free-form psychedelica-and-moog prog rock improvisations, it was an album of crispness, structure, and a little bravery too – a showcase for artists with enough chops to adjust to the new technology without getting lost in it. Getting its hands on the popular new keyboards of the mid-’80s, the band found wonderful textures, richly overlapping sequences, and on some level a chance to reinvent themselves, and with great results. Recorded in Berlin in 1983, it was the shape of things to come for the remainder of the decade. Via Shazam.

A meridiana de St. Sulpice

Nos séculos XVII e XVIII, era comum as igrejas terem meridianas solares para acertarem os seus relógios mecânicos e fornecerem a hora solar local às populações. Esses gnómones atingiram uma grande sofisticação, e passaram a ter usos vários. Além de marcarem o meio-dia solar verdadeiro, marcavam também a altura do Sol por ocasião da sua passagem meridiana, o que permitia detectar os solstícios e equinócios e assim conhecer o dia do ano, o que era essencial para as datas litúrgicas.

Projecção dos raios solares, na igreja parisiense de St. Sulpice, nos solstícios de Inverno (linha à esquerda), de Verão (linha à direita) e nos equinócios da Primavera e do Outono (linha central). Gravura da obra Saint-Sulpice, de Lemesle (1931).
Durante a Idade Média, as populações estavam afastadas e as comunicações eram muito difíceis. Um objectivo central da Igreja, que por isso estava muito preocupada com o calendário, era fazer com que os fiéis em todo o mundo pudessem celebrar a Páscoa no mesmo dia. Para isso, todos teriam de ter meios de cálculo dessa data, ou seja, todos teriam de saber calcular esse dia do ano. Os relógios de sol mais sofisticados eram essenciais para o efeito, pois medindo a altura meridiana do astro-rei permitiam o reconhecimento das datas dos solstícios e dos equinócios. Pouco a pouco, esses relógios solares meridianos foram ganhando em precisão e sofisticação. No século XVII, começaram a aproveitar-se alguns grandes edifícios para construir meridianas solares de grandes dimensões. A meridiana de St. Sulpice é um belo exemplo de um desses instrumentos.
Via Portal do Astrónomo.

Gnomon of Saint-Sulpice, Paris This 18th-century sundial was designed to calculate the date of Easter each year.

Celebração da vida


Soneto del vino

¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto

otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luis Borges (24 Agosto 1899 – 14 Junho 1986)

400 anos da morte de Hans Leo Hassler

Compositor e organista alemão da alta Renascença e início do Barroco, Hassler era sobretudo conhecido como organista, e foi um dos primeiros a trazer as inovações do estilo veneziano através dos Alpes.
Em 1584, Hassler tornou-se o primeiro de muitos compositores alemães a viajar para a Itália para continuar os seus estudos. Devido às exigências dos patrocinadores católicos, e as suas próprias crenças protestantes, as composições de Hassler representaram uma habilidosa combinação de ambos os estilos musicais religiosos, que permitiram que as suas composições funcionassem em ambos os contextos.
Hassler não era apenas um compositor, mas também um organista activo e consultor de fabricantes de órgãos. Era continuamente reconhecido e era requisitado para experimentar novos instrumentos. Usando o seu vasto conhecimento em órgão, Hassler entrou no mundo da construção mecânica de instrumentos e desenvolveu um órgão de corda (como num relógio de cordas) que foi depois vendido ao imperador Rodolfo II.
Texto de Luis Ramos, Antena Dois.

Paul Gauguin – Regresso à Rua de Ruán…

Um ano depois!

Esta calle tranquila y casi pueblerina representa la rue Jouvenet de Ruán, situada cerca del callejón de Malherne donde Gauguin vivió con su familia en 1884. Fueron varias las razones que animaron al artista, ya en 1883, a trasladarse a Ruán, donde vivía Pissarro, que lo había orientado por la vía del impresionismo. Acababa de quedarse sin trabajo y, a sus treinta y cinco años de edad y siendo padre de cinco hijos, había decidido dedicarse enteramente a la pintura. La vida en la capital era demasiado cara para mantener a su familia y, asentándose en Ruán, Gauguin también esperaba encontrar una nueva clientela para sus cuadros. «Mediante este aislamiento -le confiaba Pissarro al coleccionista Eugène Murer-, Gauguin pretende consolidar su camino y cuenta con sus amigos y conocidos para ayudarle a ganarse los favores de los aficionados.

La calle Jouvenet en Rouen, 1884 | Museo Thyssen, Madrid

Durante su estancia en Ruán, que duró diez meses, pintó unos cuarenta cuadros, fundamentalmente paisajes de la ciudad y sus alrededores. En esta vista urbana, ejecutada probablemente en la primavera de 1884, permanece topográficamente fiel al natural, como queda de manifiesto por el aspecto, hoy prácticamente inalterado, de la rue Jouvenet, con sus casitas alineadas a lo largo de la calzada. Para animar este decorado anodino, el artista juega con la sucesión de colores cálidos y apagados de los revoques de las fachadas y con la alternancia rítmica de zonas vivamente iluminadas y de otras que quedan en sombra. La composición se articula en torno a la pendiente de la calle que desciende y luego sube en cuesta hasta el horizonte. A lo largo de este eje, Gauguin coloca algunos personajes, entre ellos un militar con pantalón rojo vivo y hasta un perrito, que animan y puntúan la alargada perspectiva de la calle. Da la sensación de que el artista ha pintado del natural las siluetas del primer término, que se recortan de forma arbitraria, pero es más probable que las añadiera a la escena según la fórmula que solía utilizar.

En aquella época, Gauguin era consciente de que todavía no había alcanzado un dominio completo de su arte, pero se esforzaba por desarrollar sus experimentos directamente del natural, tratando de conseguir una síntesis entre el impresionismo de Pissarro y el arte más sintético de Cézanne. A mediados de mayo de 1884 escribiría a Pissarro: «Lo que tengo en casa en este momento está mejor en ese sentido y espero poder hacer cosas muy grandes y no monótonas, aunque creo que las cosas de la naturaleza son sencillas en conjunto. Para plasmar el pensamiento hay que estar seguro de la ejecución, y todavía no he encontrado en ésta lo que quiero hacer; aún tendré que padecer durante algún tiempo». Cubre el lienzo a base de pinceladas rápidas claramente visibles, sobre todo en el celaje, que se ordenan de forma más regular en las fachadas de las casas. Los contornos de los motivos están marcados con un trazo más oscuro que realza las formas. Tanto el dibujo como los colores estructuran la composición, que todavía está en deuda con la visión naturalista del espacio propia de los impresionistas.

Mette Gauguin se llevó la obra a Dinamarca cuando se separó de su marido. El cuadro perteneció durante muchos años a la Colección Rohde y luego se puso a la venta sucesivamente en Londres, París y Nueva York antes de que la adquiriera Carmen Thyssen-Bornemisza en 1998. Isabelle Cahn

Blade Runner – artwork by Syd Me

Blade Runner, baseado na obra de Philip K. Dick –  Do Androids Dream of Electric Sheep, é um dos filmes de ficção científica visualmente mais impressionantes alguma vez concebidos. Em 1982, a direcção de arte utilizou, para criar o visual do filme-negro do futuro, o Sketchbook Blade Runner , editado pelo criativo David Scroggy. Esgotado há muito, o livro está disponível online para deleite visual dos fãs, no Issuu. Inclui alguns dos melhores esboços de Syd Mead e do realizador Ridley Scott. Ainda hoje, passados 30 anos, Los Angeles 2019 nos parece futurista! 🙂

Para o vídeo, utilizei as imagens dos postais que integram a edição especial dos 25 anos e música da banda sonora.

Graindelavoix & Rosas – Concerto Cesena

CCB, 8 de Junho | Teatro Camões, 9 de Junho | Mosteiro dos Jerónimos, 10 de Junho
O alkantara festival 2012 encerra com um evento excepcional num cenário extraordinário. Björn Schmelzer e o ensemble graindelavoix, em conjunto com Anne Teresa De Keersmaeker e Rosas, apresentam uma versão concertante exclusiva de Cesena. As linhas complexas da música polifónica quatrocentista da Ars Subtilior irão ressonar sob as góticas abóbadas Manuelinas do Mosteiro dos Jerónimos.
Ambas as formas de arte, apesar de distantes no tempo e no espaço, formulam uma resposta refinada e sofisticada ao contexto da peste e do desespero que envolveu a sua criação.
Em “Cesena”, Anne Teresa De Keersmaeker e a Companhia Rosas partilham o palco com Björn Schmelzer e o ensemble Graindelavoix. São 19 bailarinos e cantores em palco, que exploram os limites das suas capacidades artísticas, num diálogo com o repertório da Ars Subtilior, estilo musical francês do século XIV, e cenografia de Ann Veronica Janssens.
Apoiando-se no uso da luz e da cor, esculpe-se a passagem do tempo, procurando materializar a transformação incessante daquilo que nos rodeia. Criada em 2011, “Cesena” pode ser interpretada como uma continuação da sua obra coreográfica anterior, “En Atendant”. Enquanto nesta há uma transformação do crepúsculo para a noite, em “Cesena”, o espectáculo saúda o nascimento do dia.
Sem luz artificial, no fôlego do pôr e do nascer do sol, respectivamente. Ambas tomam como ponto de partida musical a Ars Subtilior, uma forma altamente refinada e complexa de polifonia, originária do Sul de França e do Norte de Espanha no final do século XIV.
Considerada uma das mais originais e influentes coreógrafas no activo, Anne Teresa De Keersmaeker é em 2012 a artista da cidade de Lisboa; neste contexto, apresentará no Alkantara Festival as suas mais recentes criações, (“En Atendant”, de 2010, e “Cesena”, de 2011), ambas elaboradas para o Festival Avignon e apresentadas ao ar livre.
Fontes: http://lazer.publico.pt | http://www.alkantarafestival.pt/ | http://www.glossamusic.com | http://pt.wikipedia.org |
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