Archive for the ‘ Efeméride ’ Category

As “Tábuas Rodolfinas” de Kepler

As “Tábuas Rodolfinas” – 1627, do astrónomo alemão Johannes Kepler (27 Dezembro 1571 – 15 Novembro 1630).
O famoso frontispício está ilustrado com o templo de Urano, onde apresenta vários astrónomos importantes como Copérnico ou Ptolomeu. Por cima do templo está uma águia que lança pepitas de ouro e simboliza o imperador Rodolfo II. A imagem foi retirada daqui.

O exílio de Rimbaud

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de Outubro de 1854 – Marselha, 10 de Novembro de 1891)
Extracto da única obra por si publicada – Une Saison en Enfer, 1873: Délires II, Alchimie du verbe
Ilustração “Portrait d’Arthur Rimbaud” de Pablo Picasso, 1960
À moi. L’histoire d’une de mes folies.
Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les paysages possibles, et trouvais dérisoire les célébrités de la peinture et de la poésie moderne.
J’aimais les peintures idiotes, dessus de portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires ; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rythmes naïfs.
Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont on n’a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de religion étouffées, révolutions de mœurs, déplacements de races et de continents : je croyais à tous les enchantements.
J’inventai la couleur des voyelles ! — A noir, E blanc, I rouge, O bleu, U vert. — Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne, et, avec des rythmes instinctifs, je me flattai d’inventer un verbe poétique accessible, un jour ou l’autre, à tous les sens. Je réservais la traduction.
Ce fut d’abord une étude. J’écrivais des silences, des nuits, je notais l’inexprimable. Je fixais des vertiges.

Miguel Ângelo Buonarotti

Na entrada relativa a 2 de Dezembro de 1786 da sua Italienische Reise (Viagem a Itália), escrevia Johann Wolfgang von Goethe:

No dia 28 de Novembro voltámos à Capela Sistina. Aberta a galeria que permitia ver o tecto e após a passagem estreita e mal iluminada, somos compensados pela visão da grande obra-prima da arte. Neste momento, estou de tal modo fascinado por Miguel Ângelo, que depois dele já nem tenho gosto pela natureza, especialmente porque sou incapaz de a contemplar com o mesmo olhar de génio com que ele o fez.


Miguel Ângelo Buonarotti – A Criação de Adão, c. 1570
Fresco, c. 280 x 570 cm | Roma, Vaticano, Capela Sistina

A emissão do Musica Aeterna do passado dia 27, dedicada à comemoração dos hoje assinalados 500 anos da revelação do tecto da Capela Sistina ao Papa Júlio II, está disponível em podcast. Absolutamente a não perder!

 

Lawrence Brown, Trombonist with Duke Ellington

Lawrence Brown was born August 3, 1907 in Kansas. He began his career with Charlie Echols and Paul Howard. In 1932 he joined Duke Ellington. His great technical command of the instrument, with its “creamy tone, neurotic vibrato and range” was featured with Ellington’s band every year in compositions such as “Blue Cellophane” and “Golden Cress,” (Carr, Fairweather, & Priestly) Brown left Ellington’s band in 1951 to join a band led by ex-Ellington sideman Johnny Hodges, where he stayed until 1955. After leaving Hodges, Brown took a position for CBS playing studio sessions for five years. Brown rejoined Ellington in 1960 and stayed with him until 1970. After leaving Ellington’s band Brown quit performing for good. He died in Los Angeles on September 5, 1988.Via.

André Campra

Em 2010 assinalaram-se os 350 anos do nascimento deste compositor francês contemporâneo de Jean-Baptiste Lully (1632-1687) e  Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Entre 1694 e 1700 ocupou o cargo de maître de musique na Catedral de Notre-Dame, construiu uma respeitável obra musical, desde óperas, cantatas e música sacra, onde se insere o Requiem, de 1723.
Morreu neste dia 29 de Junho, no ano de 1744.


400 anos da morte de Hans Leo Hassler

Compositor e organista alemão da alta Renascença e início do Barroco, Hassler era sobretudo conhecido como organista, e foi um dos primeiros a trazer as inovações do estilo veneziano através dos Alpes.
Em 1584, Hassler tornou-se o primeiro de muitos compositores alemães a viajar para a Itália para continuar os seus estudos. Devido às exigências dos patrocinadores católicos, e as suas próprias crenças protestantes, as composições de Hassler representaram uma habilidosa combinação de ambos os estilos musicais religiosos, que permitiram que as suas composições funcionassem em ambos os contextos.
Hassler não era apenas um compositor, mas também um organista activo e consultor de fabricantes de órgãos. Era continuamente reconhecido e era requisitado para experimentar novos instrumentos. Usando o seu vasto conhecimento em órgão, Hassler entrou no mundo da construção mecânica de instrumentos e desenvolveu um órgão de corda (como num relógio de cordas) que foi depois vendido ao imperador Rodolfo II.
Texto de Luis Ramos, Antena Dois.

Blade Runner – artwork by Syd Me

Blade Runner, baseado na obra de Philip K. Dick –  Do Androids Dream of Electric Sheep, é um dos filmes de ficção científica visualmente mais impressionantes alguma vez concebidos. Em 1982, a direcção de arte utilizou, para criar o visual do filme-negro do futuro, o Sketchbook Blade Runner , editado pelo criativo David Scroggy. Esgotado há muito, o livro está disponível online para deleite visual dos fãs, no Issuu. Inclui alguns dos melhores esboços de Syd Mead e do realizador Ridley Scott. Ainda hoje, passados 30 anos, Los Angeles 2019 nos parece futurista! 🙂

Para o vídeo, utilizei as imagens dos postais que integram a edição especial dos 25 anos e música da banda sonora.

«Vite! Vite! Mon barnais! Mon cheval!»

Jeanne d’Arc, chef de guerre ou simple mascotte (avril 1429 – mai 1430)?
Ses frères la rejoignent. On l’équipe d’une armure et d’une bannière blanche frappée de la fleur de lys, elle y inscrit Jesus Maria, qui est aussi la devise des ordres mendiants (les dominicains et les franciscains). En partance de Blois pour Orléans, Jeanne expulse ou marie les prostituées de l’armée de secours et fait précéder ses troupes d’ecclésiastiques. Arrivée à Orléans le 29 avril, elle apporte le ravitaillement et y rencontre Jean d’Orléans, dit « le Bâtard d’Orléans », futur comte de Dunois. Elle est accueillie avec enthousiasme par la population, mais les capitaines de guerre sont réservés. Avec sa foi, sa confiance et son enthousiasme, elle parvient à insuffler aux soldats français désespérés une énergie nouvelle et à contraindre les Anglais à lever le siège de la ville dans la nuit du 7 au 8 mai 1429. Via Wikipedia

Miles Davis: The Complete Live at The Plugged Nickel

Volto ao standard Stella by Starlight, integrado na série de oito discos gravados ao vivo no Clube Plugged Nickel de Chigado,  pouco antes do Natal de 1965. A composição do segundo quinteto, com Wayne Shorter a substituir George Coleman no saxofone tenor, recupera os solos da explosão criativa de finais da década de 50. Back to basics…! 🙂


Stella by Starlight (Live at the Plugged Nickel, Chicago, IL) (1st Set) (- December 22, 1965) · Miles Davis
The Complete Live At The Plugged Nickel – 1965

Bento de Espinosa, O Príncipe dos Filósofos

Bento de Espinosa, grande teórico do Racionalismo no século XVII, nasceu a 24 de Novembro de 1632 em Amesterdão e morreu neste dia 21 de Fevereiro, no ano de 1677, em A Haia. *

À Procura de Espinosa
Espinosa é pertinente para a neurobiologia apesar das suas reflexões sobre a mente humana não terem origem numa prática científica, mas sim numa preocupação geral com a condição humana. A preocupação suprema de Espinosa era a relação entre os seres humanos e a natureza. Espinosa tentou clarificar essa relação de forma a propor métodos eficazes para a salvação humana. Alguns desses métodos eram pessoais, sob o controlo do indivíduo, mas outros dependiam da ajuda que certas formas de organização social e política davam ao indivíduo. O pensamento de Espinosa descende do de Aristóteles, mas os alicerces biológicos são mais firmes, como seria de esperar. Espinosa parece ter entrevisto uma relação entre a felicidade pessoal e colectiva, por um lado, e a salvação humana e a estrutura do estado, por outro, muito antes de John Stuart Mill. Pelo menos no que diz respeito às consequências sociais do seu pensamento, Espinosa é hoje regularmente reconhecido.
Espinosa prescreveu o estado democrático ideal, marcado pela liberdade da palavra, «cada um pense o que quiser e diga o que pensa», pela separação prática do estado e da religião, e por um contrato social generoso que promovesse o bem estar dos cidadãos e a harmonia do governo. Espinosa prescreveu tudo isto mais de um século antes da Declaração da Independência Americana e da primeira emenda da Constituição Americana.
Quem é, então, este homem que pensava sobre a mente e corpo de um modo não só profundamente diferente da maior parte dos seus contemporâneos mas também notavelmente moderno? Quais as circunstâncias que produziram um espírito tão rebelde? Para tentar responder a estas perguntas precisamos de reflectir sobre ainda mais um Espinosa, o homem por detrás de três nomes próprios, Bento, Baruch, Benedictus, uma pessoa ao mesmo tempo corajosa e cautelosa, inflexível e acomodatícia, arrogante e modesta, admirável e irritante, próxima da matéria concreta e observável e, ao mesmo tempo, abertamente espiritual. Os sentimentos pessoais de Espinosa nunca são revelados directamente no estilo da sua prosa e apenas podem ser adivinhados, aqui e além, a partir de indícios esparsos.
Quase sem me dar conta, comecei à procura da pessoa por detrás da estranheza do trabalho. Queria apenas encontrar-me comEspinosa na minha imaginação, conversar um pouco, pedir-lhe para autografar a Ética. Escrever sobre a minha procura de Espinosa e sobre a história da sua vida passou a ser a terceira finalidade deste livro.
Espinosa nasceu na próspera cidade de Amesterdão em 1632, no meio da Idade de Ouro da Holanda. Nesse mesmo ano, perto da casa da família Espinosa, um jovem Rembrandt de 23 anos estava a pintar «A Lição de Anatomia do Doutor Tulp», o quadro que iniciou a sua fama.
O mecenas de Rembrandt, Constantijn Huygens, estadista e poeta, secretário do príncipe de Orange e amigo de John Done, acabava de ser pai de Christiaan Huygens, que viria a ser um dos mais celebrados astrónomos e físicos da história.
Descartes, o mais famoso filósofo desta era, tinha então 32 anos e vivia também em Amsterdão, no Prinsengraacht, e ao tempo preocupava-se com a forma como as suas ideias sobre a natureza humana seriam recebidas na Holanda  e no resto da Europa. Poucos anos mais tarde, Descartes viria a ensinar álgebra ao jovem Christiaan Huygens. Sem qualquer dúvida, Espinosa veio ao mundo rodeado por uma pletora de riquezas, intelectuais e financeiras, um verdadeiro embaraço de riquezas, no dizer de Simon Schama.

Bento foi o nome que lhe foi dado quando nasceu pelos seus pais Miguel e Hana Debora, judeus sefarditas portugueses que se tinham instalado em Amesterdão. Na sinagoga e entre os amigos, Espinosa era conhecido por Baruch, o nome que sempre o acompanhou na meninice e na adolescência passadas nesta comunidade afluente de mercadores e estudiosos judeus. Mas aos 24 anos, depois de ter sido expulso da sua própria sinagoga, Espinosa adoptou o nome de Benedictus, abandonou o conforto da casa de família e começou a calma e deliberada jornada cuja última paragem foi aqui no Paviljoensgracht. O nome português é Bento, o nome hebreu Baruch e o nome Benedictus em latim têm precisamente o mesmo significado: bendito. Que diferença fazia, um nome ou outro? Uma imensa diferença, diria eu; as palavras podiam ser superficialmente equivalentes, mas o conceito por detrás de cada uma delas era radicalmente diferente.[…]
In  Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, de António Damásio