Arquivo de Janeiro, 2010

Arte em Movimento – Ascensor do Lavra

O projecto da Carris “Arte em Movimento” de apoio à arte contemporânea portuguesa, assenta na divulgação dos Ascensores e Elevador de Santa Justa, classificados desde 2002 como Monumentos Nacionais e estará em cena até 30 de Junho de 2010. A intervenção “A Viagem” no Ascensor do Lavra, cujo centenário se comemora em 2014, é de autoria de Vasco Araújo.

Ascensor do Lavra, 1914

O trajecto do Ascensor do Lavra, assim como a zona onde está inserido, remete-nos para um tempo-outro. O percurso e a paisagem bucólica que desvenda perfaz uma viagem que expande a nossa noção de tempo; durabilidade e permanência são dois conceitos com que nos confrontamos ao longo deste trajecto. O seu percorrer ao longo de uma ladeira muito escarpada e por entre muros seculares (quase que ininterruptamente constituídos por paredes cegas) transfigura-se numa viagem introspectiva. E o movimento da paisagem que se sucede no exterior é propício ao desamarrar de considerações por aquele que está parado no seu interior. A ideia do viajar (e potenciada pela deslocação ascendente ou descendente) pode ser considerada como uma metáfora dessa grande viagem que é a Vida. As grandes questões filosóficas que nos acossam desde tempos primórdios são a base dos escritos clássicos. É a literatura e os temas Humanistas, que autores como Eurípedes, Aristófanes, Homero, Shakespeare, Cesare Pavese ou Samuel Beckett abordam, que Vasco Araújo tem vindo a invocar no seu trabalho. A intervenção para o Elevador do Lavra, que o artista intitulou de “A Viagem”, pede de empréstimo excertos da obra de Fernando Pessoa que entremeia com pensamentos de sua própria autoria. Uma reflexão sobre a viagem – a que está decorrer no momento, o trajecto prosaico de começar num ponto e chegar a outro – intercalada com pensamentos, questões e invocações sobre a nossa viagem maior. A obra de Vasco Araújo, a par das várias referências literárias, incorpora variados materiais e suportes e a melhor maneira de descrever o seu trabalho será numa lógica formal expandida. Uma história, uma conversa, um escrito, um dado biográfico, uma memória, uma ópera, o presenciar, o viajar, o conhecer, um desenho, uma escultura ou uma arquitectura são elementos que se entrecruzam e informam o grande mapa que no seu conjunto inteiram as propostas de Vasco Araújo. No caso concreto da intervenção no Ascensor do Lavra, o artista articula uma identificação, de facto, de uma vivência daquele lugar. Em consequência da sua partilha, propõe que a experiência daquela viagem seja a da fruição de um lugar de encontro. “Ah! Os caminhos estão todos em mim” é uma das frases (de Pessoa) que imprimiram relevo nas placas que ocuparam o seu lugar nos assentos do ascensor. São pensamentos para acompanhar os passageiros, os viajantes, a comunidade. E no processo de leitura das frases que se encontram entre os passageiros, o olhar entre as pessoas e um entendimento/conversa silenciosa por via daquilo que é convocado nas frases é desencadeado. Um espaço de emancipação, de promoção da identidade de cada um é processo que o artista acciona. Via.

"Queria que as pessoas que utilizam este meio de transporte, ao lerem as frases na subida e na descida, reflectissem de certa forma neste momento e fizessem um paralelo entre os altos e baixos da vida" - Vasco Araújo

"Tenho muitos nomes. E outros terei quando voltar a descer... conforme o capricho da viagem."

Visita ao Jardim do Príncipe Real

Vai ter lugar no próximo Domingo, 31 de Janeiro de 2010, pelas 11h30, uma visita guiada ao Jardim do Príncipe Real. Esta visita é promovida pelo grupo “Amigos do Príncipe Real, é gratuita, e tem como objectivo dar a conhecer as características do jardim e as alterações que a Câmara Municipal de Lisboa está a implementar. A visita durará cerca de uma hora.

Os “Amigos do Príncipe Real” consideram esta visita a melhor forma de explicar as razões que nos têm oposto e que nos continuam a opor à intervenção da CML, ao mesmo tempo que viajamos da Grécia à Nova Caledónia, visitando as árvores do jardim. Sabe, por exemplo, porque é o Cedro do Buçaco duas vezes mentiroso? E sabe que está previsto o abate de 62 árvores no jardim desde Janeiro de 2009 e que a CML quer plantar árvores cuja plantação é ilegal em Portugal?

Venha visitar o jardim connosco. Encontro no acesso à Esplanada do Príncipe Real.

Reunião com Sr. Director Regional de Cultura de LVT

Caro(a) Amigo(a)

Serve o presente para informar da reunião havida hoje com o Senhor Director Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, Dr. João Soalheiro, a quem entregámos uma carta com um rol de preocupações relativamente a assuntos aos quais consideramos ser importante a DRC-LVT dar seguimento, e da interessantíssima troca de pontos de vista havida em relação a alguns deles, a saber:

1. REABERTURA de um conjunto de processos de classificação recentemente arquivados pelo Igespar, com especial destaque para o Cinema Odéon (pedido reforçado com pareceres do Prof. Eng. João Appleton e do Prof. Arq. José Manuel Fernandes), Grémio Literário, Prédios de Rendimento de Cândido Sottomayor (Av. Duque de Loulé) e Salão Nobre do Conservatório Nacional.

2. Ponto de situação da “obra” no portão lateral da SÉ de Lisboa.

3. ABERTURA de processos de classificação de edifícios e conjuntos urbanos paradigmas da Arquitectura Moderna do séc. XX.

Melhores cumprimentos

Paulo Ferrero, António Branco de Almeida e António Sérgio Rosa de Carvalho, pelo
Fórum Cidadania LX

Efemérides Românticas

O realizador de rádio António Cartaxo reuniu no livro “Efemérides românticas” a vida e obra artística de seis compositores cujas datas de nascimento ou morte são recordadas entre 2009 e 2011.
Félix Mendelssohn nasceu em 1809, Frédéric Chopin e Robert Schumann em 1810, e Franz Liszt em 1811.
São seis centenários ou bicentenários que aqui se celebram, tendo os astros querido duplas efemérides para Albéniz e para Mahler, nascidos em 1860, há 150 anos.

Com Sonho de Uma Noite de Verão e a Gruta de Fingal, de Mendelssohn, a música sinfónica dá um passo decisivo do Classicismo para o Romantismo. Por seu turno, no fim do século, as sinfonias de Mahler percorrem já as avenidas do pós-Romantismo. Entre ambos, os outros compositores que celebramos neste livro exprimem, cada um à sua maneira, a crença romântica na concepção da música como linguagem da emoção e como expressão directa da sua vida e da sua psicologia.
Para o autor, faz sentido marcar estas efemérides na medida em que “apesar de serem sempre tocados, nestas alturas de efemérides concentramos mais a nossa atenção naquilo que criaram, oq ue nos permite ouvir mais e apreciar a obra de determinado compositor”.

O livro é apresentado por Alexandre Delgado amanhã à tarde na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa.

Lisboa, 27 Jan (Lusa)

Hoje acordei assim. Romântico.

O artigo de Anthony Tommasini , crítico do The New York Times, estabelece uma interessante comparação entre Frédéric Chopin e Robert Schumann, em contraponto a J.S Bach, no que constitui um excelente prelúdio para as comemorações do 200º aniversário do nascimento dos dois compositores românticos.

A guitarra de Django Reinhardt atinge um século

Hoje, uma multidão rodeará o seu túmulo, na pequena localidade de Samois-sur-Seine, perto de Fontainebleau. Django Reinhardt, guitarrista e compositor de jazz, nasceu a 23 de Janeiro de 1910. O pai do jazz cigano foi um personagem misterioso, parco em palavras e pouco interessado no reconhecimento e na glória, tão imprevisível como desconcertante. No seu centenário, edições discográficas como Generation Django, com a participação de Biréli Lagrène e o defunto Henri Salvador, recordam um dos ciganos mais universais da história.

Filho de Laurence Négros Reinhardt, bailarina e cantora, e de Jean-Baptiste Eugène Weiss, violinista e guitarrista, Jean Baptiste Reinhardt nasceu no seio de uma família de artistas, na localidade belga de Liberchies. Aos oito anos, o clã Reinhardt estabeleceu-se num dos acampamentos ciganos que rodeavam Paris. Dele se dizia ser capaz de interpretar qualquer peça, só de ouvi-la uma vez; Com apenas 14 anos, tocava banjo, bandolim, guitarra e violino.

A 1 de Outubro de 1940, Reinhardt, acompanhado pelo Quinteto do Hot Club de França, que formou juntamente com o violinista Stéphane Grappelli, gravou Nuages, um êxito retumbante que todos os cantores conhecidos disputavam o privilégio de interpretar. Curiosamente, os seus problemas com as forças de ocupação começaram no dia em que foi convidado a actuar perante Hitler. Decidido a não comparecer, Django procurou refúgio por duas vezes na neutral Suíça, pedido que foi negado em ambas ocasiões pelo mesmo motivo: nem ser negro nem judeu.

A 31 de Janeiro de 1946, en plena celebração do Armistício, Reinhardt e Grappelli gravaram a célebre versão de A Marselhesa com ritmo swing, nos estúdios de Abbey Road, em Londres. O fim das hostilidades marcou o início do fim da sua carreira. Incapaz de se adaptar às novas tendências musicais, Reinhardt passou a dedicar cada vez mais tempo à pintura. A sua tournée pelos Estados Unidos com a orquestra de Duke Ellington foi um fracasso, completado pelo segundo concerto em Carnegie Hall ao qual chegou atrasado, por ter ficado a jogar bilhar com estranhos. Os últimos dias da vida de Django foram passados em Samois-sur-Seine. Faleceu a 16 de Maio de 1953, vítima de ataque cardíaco.
Texto traduzido do artigo de C. García Martínez – El Pais – 23/01/2010

Diálogos musicais entre o Ocidente e o Oriente

O concerto inaugural da 6.ª edição do Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo – Terras sem Sombra, conta com Jordi Savall e Pedro Esteván, dois músicos excepcionais bem conhecidos do público português, e com um programa fascinante intitulado Oriente-Ocidente: Diálogo entre as Músicas Antigas e as Músicas do Mundo.

Hoje, às 21h30, na Igreja Matriz de Santiago Maior, em Santiago do Cacém, o gambista e maestro catalão mostrará a sua arte em instrumentos como a lira de arco, o rebab e a viela em conjunto com as percussões de Pedro Esteván numa série de peças instrumentais oriundas da antiga Espanha cristã, judaica e muçulmana, da Itália medieval, de Marrocos, de Israel, da Pérsia, do Afeganistão e do antigo Império Otomano. Trata-se de um percurso bem emblemático da actividade de Savall, que ao longo de décadas tem conciliado as práticas históricas da música antiga com os repertórios de tradição oral de várias culturas numa frutuosa simbiose.As músicas propostas proporcionam também um convite à reflexão sobre o diálogo intercultural e os errantes rumos da história. Como escreve Amin Maalouf no programa deste primeiro concerto, ouvir estas músicas do Oriente e do Ocidente, subtilmente reunidas porJordi Savall, não é uma experiência comum, porque à emoção estética se junta um sentimento ainda mais intenso: o de se comunicar, por encantamento, com uma humanidade reconciliada”. O escritor e jornalista libanês recorda que o mundo árabe e o mundo judaico parecem ter-se esquecido da sua fecunda fraternidade de outrora (antes da segunda metade do século XV) e que “entre Oriente e Ocidente as pontes mentais e espirituais foram destruídas e não voltaram a erguer-se”. O Mediterrâneo deixou assim “de ser um mar fértil situado no centro do nosso universo cultural para se tornar apenas um campo de batalha e uma barreira”. Organizado pela produtora Arte das Musas e pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, com o apoio da Direcção-Geral das Artes e de vários municípios alentejanos, o Festival Terras sem Sombra tem-se destacado no panorama musical português pela originalidade dos seus programas, pela combinação entre intérpretes nacionais e internacionais reconhecidos, pela aposta nos jovens músicos e pela utilização de espaços arquitectónicos históricos com grande qualidade acústica e artística.

A edição deste ano, que decorre até 8 de Maio, conta com mais seis concertos e uma conferência por Rui Vieira Nery – A Música Antiga e a Máquina do Tempo: Redescoberta, Releitura, Reinvenção (20 de Março, na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres em Beja). Entretanto, o festival prossegue a 6 de Fevereiro na Basílica Real de Castro Verde, com o Mário Franco Ensemble e o programa Lux Perpetua: Improvisos sobre Música Sacra Medieval e Renascentista. No dia 20 de Fevereiro, na Igreja Matriz de Almodôvar, o Quarteto Arabesco faz a versão para quarteto de cordas de P. Lichtenthal (1780-1853) do Requiem de Mozart e no dia 6 de Março o grupo Vozes Alfonsinas apresenta Cantares antigos: Da Aquitânia ao Brasil na Igreja Matriz do Alvito. Um recital de oboé barroco, viola da gamba e cravo (Beja, 10 de Abril), um concerto pedagógico pelo Ensemble Alpha (Grândola, 24 de Abril) e a actuação do agrupamento Sete Lágrimas no encerramento (Grândola, 8 de Maio), com um dos seus mais belos trabalhos discográficos – Kleine Musik: música de Heinrich Schütz (1585-1672) e Ivan Moody (1964) – completam a programação.
Cristina Fernandes – Público, 23 de janeiro de 2010

Retrato de D. Isabel de Moura

Museu Nacional de Arte Antiga | 10 obras de Referência | Retrato de D. Isabel de Moura | Visita guiada no dia 27 de Janeiro.

É um dos poucos retratos portugueses da colecção de pintura do Museu Nacional de Arte Antiga de que se conhece o pintor e o retratado. Trata-se da efígie de D. Isabel de Moura, filha de D. Cristóvão de Almada, casada com Lopo Furtado de Mendonça, cujo retrato pelo mesmo autor também se conserva no Museu.
“Isolando a cabeça do seu contexto, concentrando-se assim toda a força na sua expressão”, o retrato de D. Isabel de Moura é na verdade um fragmento de uma pintura de que se conservou intacta toda a zona do rosto.

Retrato de D. Isabel de Moura, 1545 | Domingos Vieira, o Escuro (c.1600-c.1678) | Portugal, 2º quartel do século XVII (1630-1640)

Não é a obra íntegra mas sim um fragmento, este Retrato de D. Isabel de Moura que Domingos Vieira, o Escuro, pintou na 2ª metade do século XVII. Sendo bem estimável a qualidade psicológica imprimida ao rosto da senhora, muito apreciável é também o tratamento plástico do seu toucado tão característico da época. É curioso notar como neste fragmento que resultou em pequeno formato, o olhar directo, enquadrado pelo negro das sobrancelhas e do cabelo, ultrapassa a vibração das pregas ondeantes do toucado.

Amigos do Príncipe Real

Por razões que não importa agora dissecar, os Amigos do Príncipe Real não tornaram ainda pública a resposta ao artigo Príncipe Real: “Restauro é a palavra correcta” de Ana Vaz Milheiro, produzido para o Público de domingo passado, que o Paulo Ferrero oportunamente comentou no Cidadania LX.
Com a devida autorização, deixo aqui a resposta e o artigo que lhe deu origem.
Se Ana Vaz Milheiro entende que a “polémica” acabou, então não percebeu que o que está em causa é o direito à indignação, pelo modo pouco transparente como o processo do abate de árvores foi conduzido desde o início. Se tivesse tido a cortesia de ouvir os “críticos” antes de escrever o artigo, talvez tivesse sido poupada ao ridículo e ao descrédito. Assim, corre o risco de fazer “novos amigos”.

Senhora Directora,

Saiu no “Público” de Domingo 17 de Janeiro, no novo suplemento “Cidades”, um texto de opinião de Ana Vaz Milheiro, apresentada como crítica de arquitectura, sobre o caso do Jardim do Príncipe Real.
Esse texto, que é de mera opinião, mas que se apresenta como um artigo jornalístico merece-nos as mais severas reservas e, dado que nele são feitas referências directas ao texto da petição online da minha autoria creio que me assiste a prerrogativa de, ao abrigo do nº 1 do art.º 24 da Lei nº 2/99 de 13 de Janeiro (lei de Imprensa), invocar o «direito de resposta», tanto mais que a autora apenas ouviu uma das partes em confronto.
Assim:
A autora começa por destacar logo abaixo do sub-título que “Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania”, quando o caso do “Príncipe Real” está longe de ser um “não caso” como a autora, caso se informasse, como era seu dever, poderia constatar.
O grupo “Amigos do Príncipe Real”, constituído essencialmente por moradores e frequentadores na área do Príncipe Real, tem efectuado inúmeras démarches no sentido de informar e alertar a opinião púbica sobre esta situação, nomeadamente:
1. – um debate público levado a cabo no passado dia 18 de Dezembro nas instalações da ex-Faculdade de Ciências, à Rua da Escola Politécnica, para o qual foram convidadas as entidades oficiais com jurisdição sobre o jardim e diversos órgãos de informação, entre os quais o “Público”;
2. – o requerimento e consequente consulta do processo 14/CP/DEPSON/ND/2009 referente ao Jardim, nas instalações da Divisão de Fiscalização e Controlo do Espaço Público da CML, na Av. 24 de Julho, 171 C;
3. – elaboração e envio de um conjunto de recomendações, por parte de inúmeros subscritores da petição, às referidas instituições oficiais.

Deste modo, daqui reafirmamos à autora do artigo de opinião, o nosso comprovado empenho na defesa do Jardim do Príncipe Real enquanto património desta cidade e dos lisboetas, que não terminará enquanto não obtivermos da parte da CML, do IGESPAR e da AFN a satisfação plena do mais elementar direito dos cidadãos, o de serem informados e ouvidos nas decisões que os afectam.
Aguardamos, por isso, ver publicados no sítio da CML -conforme Recomendação aprovada por maioria pela Assembleia Municipal de Lisboa no passado dia 10 de Dezembro- as peças do processo e as respectivas análises fitossanitárias, que supostamente comprovam a doença das, até agora, 49 árvores abatidas.
Igualmente sintomático da falta de transparência e do menosprezo pelos cidadãos foi, aquando da consulta ao processo a 28 de Dezembro, ter-se constatado a falta das folhas 114 e 115, folhas essas onde deveria constar a listagem das árvores a abater. Chamando-se de imediato a atenção a quem de direito para essa falha grave, e requerendo-se o envio das mesmas, até hoje nenhuma justificação nos foi dada para essa omissão nem recebidas cópias dessas folhas em falta no processo.
Pelo exposto se pode avaliar que quem falhou a “oportunidade para elevar o sentido da cidadania” não foi este grupo de cidadãos mas antes quem, no comando das instituições, se furtou aos seus mais elementares deveres de informação e colaboração, legalmente consagrados no Código do Procedimento Administrativo.

Passando agora ao corpo do texto, a autora, que, implicitamente, se refere como colaboradora do suplemento “Cidades”, começa por ouvir a opinião de dois técnicos que qualifica de principais responsáveis pelo projecto. A autora esquece que a responsabilidade do projecto se coloca muito acima dos técnicos que o elaboraram. A responsabilidade do projecto é antes de mais política e administrativa. É a esse nível que as verdadeiras questões se colocam, e que devem ser respondidas e não o estão a ser.
A autora coloca, pertinentemente, a questão sobre “o que vai afinal acontecer àquele espaço histórico de Lisboa?” questão que “deveria ter sido respondida antes de se terem iniciado as obras de requalificação neste lugar emblemático”. Diz bem a autora, deveria ter sido respondida antes, mas por quem? Naturalmente que pelos promotores da “requalificação”, agora rebaptizada de restauro.
A autora alonga-se em seguida acerca da escolha dos Lódãos como árvores de alinhamento, citando o parecer que Aurora Carapinha, da Universidade de Évora, terá emitido sobre a escolha dessas árvores como espécie mais apropriada para o efeito. Há aqui um enorme equívoco por parte da autora. Desconhecemos o parecer de Aurora Carapinha mas não é isso que está em causa. Nunca questionámos a escolha dos Lódãos como substitutos das árvores de alinhamento abatidas, mas sim o abate indiscriminado das árvores existentes, quer as de alinhamento quer as 9 no interior do jardim, seis das quais em torno do lago central.
A maior parte das árvores de alinhamento abatidas, da espécie “Populus nigra”, gozava de boa saúde, muitas delas com menos de 20 anos de idade. Como seria legítimo esperar de pessoas idóneas e competentes, essas árvores só deveriam ser substituídas au fur et à mesure que se mostrassem inviáveis e/ou apresentassem fundamentado risco de quebra e queda.
Este abate das árvores de alinhamento, bem como das 9 no interior do Jardim é, por mais que não o queiram admitir, uma flagrante descaracterização do jardim.
Admitem os dois citados responsáveis que o jardim ficará “talvez um pouco menos “ensombrado””. Claro que sim, ficará quase transparente. Mas saberão esses responsáveis onde de facto o jardim era, e é, mais sombrio? É precisamente no canto NW onde se situam as três monumentais figueiras, as três Ficus macrophylla, protegidas por lei. Se querem tornar o jardim ainda menos “ensombrado” é aí que devem actuar.
O documento “Memória Descritiva”, dos próprios serviços da CML, de Janeiro de 2009, é a respeito da suposta doença das árvores muito elucidativo ao afirmar “Após uma análise visual concluiu-se que a generalidade do arvoredo existente apresenta necessidades de podas, sejam elas de formação ou de manutenção, mantendo um estado sanitário razoável na generalidade” (sublinhado nosso).
A afirmação de que esses esclarecimentos -quais, perguntamos nós?- não pacificaram as críticas não tem qualquer fundamento, pois a autora baralha a cronologia dos factos.
Não houve, como os arquivos do “Público” o comprovam, qualquer esclarecimento aos cidadãos, antes uma descarada e deliberada manipulação da opinião pública. O famoso folheto distribuído a uma pequena parte dos residentes falava em substituição de algumas árvores doentes. Ora, como se pode comprovar no caderno de encargos do projecto, apenso ao processo supra referido, desde o princípio que o objectivo consistia em abater todas as árvores de alinhamento e mais algumas no interior do jardim, num total de 62 árvores. É este o número de árvores a abater que consta do Caderno de Encargos, que, como é óbvio, é anterior à obra. Isto é um exemplo da deliberada manipulação da opinião pública que foi levada a cabo pela vereação da CML responsável pelos espaços verdes.
Confunde-se igualmente a autora quanto à data em que a petição online foi posta no ar. Foi a 24 de Novembro e não no início de Dezembro, como a autora que tanto cita o texto da petição poderá verificar se o voltar a ler com a devida atenção.
A autora continua nos parágrafos seguintes a dar voz aos que apelida como principais responsáveis pelo projecto que, como Aurora Carapinha, o consideram “minimalista”, falando agora em reabilitação e restauro em vez de requalificação.
se um mero restauro ou uma intervenção minimalista significa abater todas as árvores de alinhamento, como estava previsto, e parte considerável das do interior; destruir, através do uso, sem quaisquer cuidados, de maquinaria pesada -qual elefante em loja de porcelana- todas as caleiras em calçada, tampas de sumidouros, os próprios sumidouros; retirar todos os gradeamentos de protecção dos canteiros; destroçar as relvas; ferir as raízes das Ficus macrophylla, que são árvores classificadas; rebentar tampas de saneamento, etc., então há que perguntar o que será uma intervenção “maximalista”.
O caso do calcetamento dos dois espaços verdes a poente do jardim, com o transplante de uma pequena palmeira que existia num desses canteiros, a consequente morte da mesma e o seu arranque posterior, arruinando o calcetamento acabado de fazer, é exemplar do modo como certos trabalhos “minimalistas” são feitos.
Também exemplar da leviandade com que se propõe certo tipo de soluções é o caso da substituição de Robínias pseudoacácias por árvores da mesma espécie, conforme se pode ler num dos cartazes colocados na vedação após o “levantamento” da opinião pública. Árvores da mesma espécie? Não saberão os ditos responsáveis que a Robinia pseudoacácia é uma espécie infestante cuja plantação está proibida por lei?
Menciona também a autora a questão do pavimento em saibro estabilizado que é apresentado como uma solução que reporia a verdade histórica do pavimento original. O pavimento original, estamos em crer, seria de terra batida e não saibro estabilizado.
O saibro estabilizado não é a melhor escolha para um jardim que além de ser um jardim de fruição é também um jardim de intensa passagem. Milhares de transeuntes percorrem todos os dias a orla Norte do Jardim, centenas o atravessam vindos do lado Sul para apanharem os transportes no lado Norte. É evidente que o saibro por mais estabilizado que seja não vai resistir a esse intenso tráfego pedonal.
Refere, em seguida, que, segundo os principais responsáveis, alguns aspectos não vão sequer ser intervencionados como o caso do pavilhão da cafetaria. Ora aí sim é que se imporia uma intervenção para reconstituir o ambiente original. A pequena casa abrigo do guarda do jardim, quando este tinha um guarda, serve hoje de casa de banho de apoio à cafetaria e está abafada, absorvida por essa cafetaria/restaurante.
Um último aspecto que importa referir é o de, de acordo com os objectivos propostos pelos citados responsáveis, esta intervenção “promover uma manutenção fácil”.
Ora essa “manutenção fácil” passa, como se pode ler na planta do chamado plano geral de plantação, por reduzir significativamente as áreas relvadas, substituindo-as por zonas de arbustos rasteiros. Ou seja, modifica-se o aspecto geral do jardim, degradando-se uma das suas características de lazer mais importantes, por falta de meios para a sua manutenção. Inadmissível.
Cabe aqui perguntar: quantos anos dariam os gastos feitos nesta “requalificação” para pagar essa manutenção, assegurando ao mesmo tempo alguns dos tão necessários postos de trabalho?

Com os melhores cumprimentos e em nome dos “Amigos do Príncipe Real”

Jorge Teixeira Pinto

Príncipe Real: “Restauro é a palavra correcta”

A operação de requalificação do Príncipe Real, em Lisboa, classificada pelos especialistas como “minimalista” e por parte dos críticos como “descaracterizadora”, levanta um problema hoje corrente nas sociedades urbanas: a participação. Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania. Por Ana Vaz Milheiro


Agora que a polémica em torno da intervenção na Praça do Príncipe Real parece ter sido ultrapassada, o que vai afinal acontecer àquele espaço histórico de Lisboa? Esta é a questão que deveria ter sido respondida antes de se terem iniciado as obras de requalificação neste lugar emblemático.

A opinião é partilhada pelos principais responsáveis pelo projecto, os arquitectos paisagistas Fátima Leitão e João Rocha e Castro. A primeira como autora e o último enquanto chefe de divisão de Estudos e Projectos da Direcção Municipal de Ambiente Urbano da Câmara Municipal de Lisboa. Os dois acederam em explicar ao Cidades a estratégia seguida pela proposta de requalificação, concluída em Abril de 2009 e actualmente em curso. A proposta é resultado do trabalho de uma equipa formada a partir de quatro divisões municipais, abrangeu diversas áreas disciplinares como a arquitectura paisagista, a agronomia ou a engenharia florestal. E a mobilização de importantes meios camarários decorreu do significado urbano desta praça, com vista privilegiada sobre a cidade, localizada numa das suas áreas mais qualificadas.

A Praça do Príncipe Real ou Jardim França Borges tem a sua forma actual desde 1869, devendo-se o seu traçado ao jardineiro João Francisco da Silva. O lugar é consequência de uma série de transformações. Durante o século XVIII, por exemplo, funcionou ali uma lixeira e, por altura do terramoto, serviu de acampamento para regimentos militares. Também ali se celebrou a primeira missa da Patriarcal de Lisboa, que viria a arder em 1769. Mais recentemente, depois da construção do reservatório de água, na década de 60 do século XIX, recebeu o nome que tem hoje e iniciou-se a construção do actual jardim, que respeitava os padrões daquele tipo de equipamento urbano, muito característico nas cidades oitocentistas europeias, e que ficou vulgarmente conhecido como “jardim romântico”: um tabuleiro central organizado em torno do lago do reservatório, com canteiros recortados segundo um esquema “orgânico” (mais livre), sobre um tapete pavimentado de asfalto (originalmente foi utilizado saibro).

Os lódãos

O jardim rapidamente se transformou num espaço privilegiado de “recreio” e “lazer” entre os habitantes da capital. Hoje, a Praça do Príncipe Real é ocupada por diversas actividades, desde a montagem semanal do mercado de produtos biológicos ao sábado de manhã, passando pelas sazonais feiras de artesanato e de alfarrabistas e velharias. Possui, portanto, um público bastante alargado, não apenas composto por residentes da área. Foi esse público que se manifestou contra os primeiros abates de árvores que se registaram no arranque das obras durante o final do mês de Novembro. No centro da discórdia estava a substituição dos choupos que ladeiam o tabuleiro central por outra espécie de árvores – lódãos -, mais adequadas, segundo os projectistas, à tipologia do jardim pré-existente. Esta opinião foi confirmada por diversos especialistas, caso de Gonçalo Ribeiro Teles.

Mas seria a arquitecta paisagista Aurora Carapinha, da Universidade de Évora, a defender as opções do projecto, em parecer de 26 de Novembro, procurando responder à polémica entretanto levantada: “Consideramos a espécie arbórea escolhida lódão (Celtis australis) acertada” à situação do jardim, “ao contrário dos choupos (Populus nigra) existentes, mais apropriados para zonas baixas, húmidas. Também a forma, cor, densidade da canópia do lódão são atributos que qualificam esta árvore como uma boa escolha para alinhamento e arruamento”. É ainda Fátima Leitão quem explica ao Cidades que os choupos, “ao fim de 30-40 anos, começam a apodrecer e a deixar cair pernadas”, situação que já se verificava no Príncipe Real. A arquitecta paisagista lembra igualmente que a configuração actual dada pela presença dos choupos é relativamente recente, não tendo ainda cumprido as três décadas.

Estes esclarecimentos, talvez pelo seu teor mais técnico, não pacificaram imediatamente as críticas. Na petição on-line lançada no início de Dezembro, depois de distribuído o folheto produzido pela câmara, colocado nas caixas de correio dos moradores da zona, que insistia no carácter qualificador de toda a operação, podia contudo ler-se: “Ora o que se está a verificar, duas semanas após o início da requalificação, é a descaracterização do antigo jardim romântico à inglesa (…), tendo sido (…) cortadas algumas das árvores centenárias em torno do lago. Temos sérias dúvidas se (…) mereciam tal sorte pois não apresentavam sinais de doença nem muito menos de estarem sem vida. “

É por isso que a parte mais importante do parecer de Aurora Carapinha seria precisamente a sua posição perante a concepção geral da intervenção, ao classificar a proposta como “minimalista”, por não anular “a historicidade do jardim nem o seu valor de património paisagístico”. Esta é também a convicção de João Castro: “Aqui reabilitação é a palavra correcta ou mesmo, até, restauro.”

A estratégia seguida pela projectista, e apoiada pelo chefe de divisão, parte de três acções muito objectivas: “Manter o testemunho do passado; evitar o desenho (que se sobreponha ao seu traçado histórico); e promover uma manutenção fácil.” Já Fátima Leitão especifica as decisões tomadas: “Manter a estrutura de canteiros e caminhos, substituir o pavimento por saibro estabilizado, substituir a iluminação e o mobiliário urbano danificado (bancos, mesas de jogo, etc.), reparar as valetas e tampas em pedra e recuperar a vegetação existente, eliminando alguns arbustos.”

Algumas destas soluções, como a reintrodução do saibro ou a opção por regrar a iluminação pública (ao invés de deixar os diferentes modelos de candeeiros que hoje coexistem), foram anteriormente testadas num jardim próximo: o miradouro de São Pedro de Alcântara. Este pode muito bem servir como exemplo a quem deseje antecipar como será o “novo” jardim do Príncipe Real. Genericamente, garante Fátima Leitão, não será muito diferente do que é actualmente. Talvez um pouco menos “ensombrado” depois de feitas as “correcções” no arvoredo. Seguiram-se aqui, segundo João Castro, as boas práticas de intervenção em lugares patrimoniais: “Tudo é reversível pela simplicidade da requalificação.”

Os projectos anteriores

De onde surgiu então toda a polémica? É provável que a memória de outras tentativas de intervenção tenha pesado. Esta é a terceira vez que o jardim é objecto de um projecto de requalificação.

A primeira passava por abolir o tabuleiro central, ligando-o ao edificado adjacente através de um pavimento uniforme. Esta opção foi na época considerada demasiado “intrusiva” por descaracterizar o sentido do desenho primitivo.

A segunda previa a construção de um parque de estacionamento subterrâneo sob a via, com entradas laterais à praça que isolavam o tabuleiro tornando-o uma “ilha” e causando um significativo impacto paisagístico e de enquadramento urbano. Este projecto, desencadeado há cerca de cinco anos, geraria grande contestação, motivando igualmente uma petição pública. Os próprios projectistas envolvidos tinham dúvidas quanto aos princípios adoptados e na época consideraram válidos os protestos por terem permitido rectificar um processo no qual não depositavam certezas absolutas.

O caso agora é diferente. Os seus autores insistem em qualificar a intervenção como “recuperação parcial”, uma vez que “não se altera a forma ou o conteúdo funcional do jardim”, como se pode ler no programa de requalificação. Alguns aspectos não serão sequer intervencionados, como o parque infantil ou o pavilhão da cafetaria. E a peça mais emblemática do conjunto – o caramanchão que suporta o cedro do Buçaco (Cupressus lusitanica) – só verá a sua estrutura de ferro recuperada de modo faseado de maneira a não prejudicar a sobrevivência da árvore.

Para lá dos aspectos mais demagógicos envolvidos em torno do abate de algumas árvores, cuja manutenção seria altamente improvável, como manifestaram vários especialistas, o exemplo da Praça do Príncipe Real coloca um tema caro às sociedades europeias contemporâneas: o problema da participação pública nas decisões de planeamento das cidades. Demonstra como as populações estão dispostas a accionar os meios de intervenção disponíveis com o objectivo de travarem operações sobre as quais recaem dúvidas. Conseguindo-se evitar o populismo de que estas acções também padecem, é possível garantir uma participação mais informada. Para já, o Príncipe Real revelou-se um “não caso”, mas poderia ter sido uma oportunidade para elevar o sentido da cidadania.

Ana Vaz Milheiro é crítica de arquitectura

Cabo da Roca e Praia da Ursa, mesmo ao lado

Aqui…

Onde a terra se acaba e o mar começa…

(Camões)

Cabo da Roca, Janeiro de 2010

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