Posts Tagged ‘ Ocidente – Oriente ’

Viagem musical pela Istambul de Orhan Pamuk

Segundo a Academia Sueca, o autor foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura 2006 porque, ‘na busca pela alma melancólica da sua cidade, descobriu novos símbolos para o confronto e o cruzamento de culturas’.
Alvo dos nacionalistas turcos pela sua defesa da causa arménia e curda, Pamuk é autor de uma obra que descreve as tensões da sociedade turca, entre o Oriente e o Ocidente, e tem-se, repetidamente, pronunciado contra os fundamentalismos e pelo entendimento entre as culturas.
Uma mensagem cuja importância é mais do que evidente na actual conjuntura e que vale para todos os fundamentalismos: religiosos, políticos, étnicos.
Via Agenda Cultural de Lisboa

Jordi Savall e Dimitri Psonis na Igreja de St. Maria do Castelo

Foi muito intimista, o concerto de ontem na Igreja de St. Maria do Castelo, integrado no 17º Festival Internacional de Música de Castelo Branco e do qual já aqui tinha dado nota. O ideal, como dizia hoje um amigo, seria se houvesse menos luz; No entanto, a posição privilegiada em que me encontrava permitiu gravar a maior parte das peças em vídeo, apesar da fraca expectativa em relação à qualidade do produto final; Ainda assim, tenciono partilhar o que puder no tubo. No final, tive ocasião de cumprimentar os músicos e constatar que Savall é de facto um ser humano luminoso e afável.

Várias vezes destruída ao longo dos séculos e sucessivamente reedificada, a igreja de Santa Maria do Castelo, localizada no interior da primitiva alcáçova, é actualmente o resultado de inúmeras intervenções arquitectónicas.
Desconhecemos a data da sua fundação, sendo certo que já existia em 1213, pois a igreja aparece referenciada nessa data, no foral de Pedro Alvito.
Na centúria de seiscentos, tal como aparece na planta da vila, a igreja apresentava ainda uma traça tipicamente românica, de planta rectangular com abside arredondada. Esta essência românica conservar-se-ia pelo menos até ao início do século XVIII, segundo as descrições no Tombo da Ordem, de 1706.
Apesar de ter sido muito afectada por sucessivos confrontos nos séculos XVII e XVIII (1640 – Guerra da Independência; 1704 – Guerra da Sucessão de Castela; 1762 – Invasões Franco-Espanholas e 1807 – Invasões Francesas), foram sobretudo as obras realizadas no último quartel do século XIX que contribuíram para a descaracterização da traça original, deixando apenas vestígios na fachada Norte, que ficou parcialmente soterrada.

“O portal principal, guarnecido com círculo de meia laranja em pedra, fundado em quatro colunas – obra antiga que dizem ser dos templários, com uma janela exterior. Porta travessa a Sul e seis frestas gateiras três por cada banda que dam luz à dita igreja… No interior, um coro situado sobre a porta principal o qual ao prezente esta de todo arruinado”

Jordi Savall: A dimensão espiritual da música vencerá a barbárie

O consagrado músico catalão, uma das figuras tutelares do universo da música antiga, esteve recentemente em Santiago do Cacém, na abertura do 6.º Festival Terras Sem Sombra. Antes de deixar falar a música, partilhou as convicções humanistas que guiam a sua arte.

Tranquilidade contagiante, a de Jordi Savall: de movimentos, da postura em palco, do verbo, do olhar. Talvez advenha da sabedoria que foi adquirindo ao longo de uma vida que em 2011 alcançará as sete décadas. E foi tranquilamente que nos deixou entrever algumas das coordenadas que guiam a sua prática de homem-artista no mundo, demiurgo entre a comunidade humana.
Nos últimos anos, Savall tem dedicado especial atenção aos encontros (e choques) de povos, tradições e culturas que espaços geográficos determinados corporizaram no passado. Por trás, está a crença de que “a música é sempre fonte de diálogo” e tem “um poder” que, “quando é profundo e pleno de emoção, pode mudar-nos”. Daí ser “responsabilidade” dos músicos “mostrar que épocas houve com uma herança comum a Oriente e Ocidente”, fruto de “um diálogo muito próximo de culturas”. Com esses seus discos, Savall quer “mostrar que o diálogo é possível, tal como foi ao longo de muitos séculos no passado”. A sustentar isto, a convicção de “música e cultura” serem “as únicas portas que podemos utilizar, pois todas as outras fracassaram”.
Exemplo maior desse propósito na sua discografia será Jerusalem, cidade das duas pazes (2008): “Quando iniciei esse projecto – recorda Savall – todos me diziam que era uma loucura, uma utopia. No princípio, foi, de facto; mas no final foi um exemplo para os políticos!” Esse projecto, que integrou músicos palestinianos, fê-lo dar-se conta das “muito baixas possibilidades de desenvolvimento humano” prevalecentes na Palestina, “impeditivas – considera – de esforços mais abrangentes e coordenados” no domínio musical. É isso que, observa, “limita o sucesso e o alcance” de iniciativas “importantes e difíceis” como a Orquestra do Divã Ocidental-Oriental de Daniel Barenboim.
Em Jerusalem, conta, “os conflitos entre músicos transmutaram- -se em crossovers: a tradição de cada um acabou por se mesclar e fundir com a do outro, porque há um fun- do comum”. Daí que o seu diagnóstico seja: “os problemas são mais mentais do que reais”.
Para Savall, “a música dá sentido ao ser humano” e “revela a sensibilidade que encerra a linguagem humana”, porquanto ela “dá sentido às palavras”. Detecta “tantas músicas como homens existem, com uma origem comum, tal como sucede na linguagem”. De que decorre ser a música “síntese de um povo e da sua experiência histórica”, razão para serem “as músicas populares as que melhor e com mais emoção definem essa história, já que são músicas sobreviventes”. E tal como um espelho, também “a música ajuda as comunidades a sobreviver”.
Virando-se para o nosso tempo, Savall detecta “uma degeneração da sensibilidade” que se revela “em quem pretende escutar só a parte estética da música”. Savall é taxativo: “por esse caminho, termina-se em Auschwitz!”, aludindo aos tantos carrascos nazis que eram melómanos dedicados e cultivados.
Daí ser “muito importante não esquecer, não perder nunca a dimensão, o referente espiritual da música, pois é ele que dá sentido ao todo e faz que se manifeste o sentido do sagrado”.
O seu mais recente disco é um exemplo da sua convicção de que “a música serve para entender a história” e de que esta “toma de novo vida através da música”, pois, “quando feita com seriedade e provida de força emocional e espiritual, a música faz com que reflictamos”.
Um outro reflexo entrevê-o no património, pois “o que nos faz ser reconhecidos no universo não são só os produtos que exportamos. É também a cultura, e nesta, a música tem enorme importância”. Lamenta não haver em geral “consciência da importância do património musical” e, entre a Europa latina, “só a França” tem política de preservação “positiva e eficaz”.
Bernardo Mariano | Diário de Notícias, 13 de Março de 2010

Diálogos musicais entre o Ocidente e o Oriente

O concerto inaugural da 6.ª edição do Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo – Terras sem Sombra, conta com Jordi Savall e Pedro Esteván, dois músicos excepcionais bem conhecidos do público português, e com um programa fascinante intitulado Oriente-Ocidente: Diálogo entre as Músicas Antigas e as Músicas do Mundo.

Hoje, às 21h30, na Igreja Matriz de Santiago Maior, em Santiago do Cacém, o gambista e maestro catalão mostrará a sua arte em instrumentos como a lira de arco, o rebab e a viela em conjunto com as percussões de Pedro Esteván numa série de peças instrumentais oriundas da antiga Espanha cristã, judaica e muçulmana, da Itália medieval, de Marrocos, de Israel, da Pérsia, do Afeganistão e do antigo Império Otomano. Trata-se de um percurso bem emblemático da actividade de Savall, que ao longo de décadas tem conciliado as práticas históricas da música antiga com os repertórios de tradição oral de várias culturas numa frutuosa simbiose.As músicas propostas proporcionam também um convite à reflexão sobre o diálogo intercultural e os errantes rumos da história. Como escreve Amin Maalouf no programa deste primeiro concerto, ouvir estas músicas do Oriente e do Ocidente, subtilmente reunidas porJordi Savall, não é uma experiência comum, porque à emoção estética se junta um sentimento ainda mais intenso: o de se comunicar, por encantamento, com uma humanidade reconciliada”. O escritor e jornalista libanês recorda que o mundo árabe e o mundo judaico parecem ter-se esquecido da sua fecunda fraternidade de outrora (antes da segunda metade do século XV) e que “entre Oriente e Ocidente as pontes mentais e espirituais foram destruídas e não voltaram a erguer-se”. O Mediterrâneo deixou assim “de ser um mar fértil situado no centro do nosso universo cultural para se tornar apenas um campo de batalha e uma barreira”. Organizado pela produtora Arte das Musas e pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, com o apoio da Direcção-Geral das Artes e de vários municípios alentejanos, o Festival Terras sem Sombra tem-se destacado no panorama musical português pela originalidade dos seus programas, pela combinação entre intérpretes nacionais e internacionais reconhecidos, pela aposta nos jovens músicos e pela utilização de espaços arquitectónicos históricos com grande qualidade acústica e artística.

A edição deste ano, que decorre até 8 de Maio, conta com mais seis concertos e uma conferência por Rui Vieira Nery – A Música Antiga e a Máquina do Tempo: Redescoberta, Releitura, Reinvenção (20 de Março, na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres em Beja). Entretanto, o festival prossegue a 6 de Fevereiro na Basílica Real de Castro Verde, com o Mário Franco Ensemble e o programa Lux Perpetua: Improvisos sobre Música Sacra Medieval e Renascentista. No dia 20 de Fevereiro, na Igreja Matriz de Almodôvar, o Quarteto Arabesco faz a versão para quarteto de cordas de P. Lichtenthal (1780-1853) do Requiem de Mozart e no dia 6 de Março o grupo Vozes Alfonsinas apresenta Cantares antigos: Da Aquitânia ao Brasil na Igreja Matriz do Alvito. Um recital de oboé barroco, viola da gamba e cravo (Beja, 10 de Abril), um concerto pedagógico pelo Ensemble Alpha (Grândola, 24 de Abril) e a actuação do agrupamento Sete Lágrimas no encerramento (Grândola, 8 de Maio), com um dos seus mais belos trabalhos discográficos – Kleine Musik: música de Heinrich Schütz (1585-1672) e Ivan Moody (1964) – completam a programação.
Cristina Fernandes – Público, 23 de janeiro de 2010

%d bloggers like this: