Archive for the ‘ Arte Pública ’ Category

Conversa de elevador

Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva a onde indica a estrada
Outro é sozinho.
Uma leva ao fim da mera estrada. Pára
Onde acabou.
Outra é a abstracta margem

……

No inútil desfilar de sensações
Chamado a vida.
No cambalear coerente de visões
Do […]

Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho Deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim
[…]

Fernando Pessoa

Arte em Movimento – Ascensor do Lavra

O projecto da Carris “Arte em Movimento” de apoio à arte contemporânea portuguesa, assenta na divulgação dos Ascensores e Elevador de Santa Justa, classificados desde 2002 como Monumentos Nacionais e estará em cena até 30 de Junho de 2010. A intervenção “A Viagem” no Ascensor do Lavra, cujo centenário se comemora em 2014, é de autoria de Vasco Araújo.

Ascensor do Lavra, 1914

O trajecto do Ascensor do Lavra, assim como a zona onde está inserido, remete-nos para um tempo-outro. O percurso e a paisagem bucólica que desvenda perfaz uma viagem que expande a nossa noção de tempo; durabilidade e permanência são dois conceitos com que nos confrontamos ao longo deste trajecto. O seu percorrer ao longo de uma ladeira muito escarpada e por entre muros seculares (quase que ininterruptamente constituídos por paredes cegas) transfigura-se numa viagem introspectiva. E o movimento da paisagem que se sucede no exterior é propício ao desamarrar de considerações por aquele que está parado no seu interior. A ideia do viajar (e potenciada pela deslocação ascendente ou descendente) pode ser considerada como uma metáfora dessa grande viagem que é a Vida. As grandes questões filosóficas que nos acossam desde tempos primórdios são a base dos escritos clássicos. É a literatura e os temas Humanistas, que autores como Eurípedes, Aristófanes, Homero, Shakespeare, Cesare Pavese ou Samuel Beckett abordam, que Vasco Araújo tem vindo a invocar no seu trabalho. A intervenção para o Elevador do Lavra, que o artista intitulou de “A Viagem”, pede de empréstimo excertos da obra de Fernando Pessoa que entremeia com pensamentos de sua própria autoria. Uma reflexão sobre a viagem – a que está decorrer no momento, o trajecto prosaico de começar num ponto e chegar a outro – intercalada com pensamentos, questões e invocações sobre a nossa viagem maior. A obra de Vasco Araújo, a par das várias referências literárias, incorpora variados materiais e suportes e a melhor maneira de descrever o seu trabalho será numa lógica formal expandida. Uma história, uma conversa, um escrito, um dado biográfico, uma memória, uma ópera, o presenciar, o viajar, o conhecer, um desenho, uma escultura ou uma arquitectura são elementos que se entrecruzam e informam o grande mapa que no seu conjunto inteiram as propostas de Vasco Araújo. No caso concreto da intervenção no Ascensor do Lavra, o artista articula uma identificação, de facto, de uma vivência daquele lugar. Em consequência da sua partilha, propõe que a experiência daquela viagem seja a da fruição de um lugar de encontro. “Ah! Os caminhos estão todos em mim” é uma das frases (de Pessoa) que imprimiram relevo nas placas que ocuparam o seu lugar nos assentos do ascensor. São pensamentos para acompanhar os passageiros, os viajantes, a comunidade. E no processo de leitura das frases que se encontram entre os passageiros, o olhar entre as pessoas e um entendimento/conversa silenciosa por via daquilo que é convocado nas frases é desencadeado. Um espaço de emancipação, de promoção da identidade de cada um é processo que o artista acciona. Via.

"Queria que as pessoas que utilizam este meio de transporte, ao lerem as frases na subida e na descida, reflectissem de certa forma neste momento e fizessem um paralelo entre os altos e baixos da vida" - Vasco Araújo

"Tenho muitos nomes. E outros terei quando voltar a descer... conforme o capricho da viagem."

Lisboa é dela

Nem sei se, mesmo durante a Campanha Eleitoral, Gisele não teria já mais outdoors em Lisboa, mas em mupis ganhou seguramente! Agora que (rapidamente, esperamos) vai começar a limpeza dos despojos da guerra, aí sim, a diva vai ser verdadeiramente o centro das atenções!

Gisele Bundchen - Campanha de Verão 2009 da Calzedonia

Gisele Bundchen - Campanha de Verão 2009 da Calzedonia

A Vitrine, de Joana Vasconcelos

A intervenção de Joana Vasconcelos “alimenta-se” da própria fachada do nº 12 da Rua do Alecrim, em reconstrução. Os materiais utilizados são da mesma natureza da cobertura,  as ráfias; As técnicas utilizadas na construção foram a tecelagem e o croché.  A Vitrine faz parte do Projecto Artbuilding, que promove a arte pública.

 

Arte Pública - Vitrine, de Joana Vasconcelos

Arte Pública - Vitrine, de Joana Vasconcelos

Luz Boa – Blue Line

É por aqui que podemos iniciar uma autêntica viagem ao Passado remoto da cidade. Bairro muito antigo, construído ao longo dos séculos ao sabor de conquistas e imigrações, a Mouraria mostra aqui um pouco da sua raça, colada a Alfama, o bairro da Fé.

Sons de fado começam a ouvir-se no circuito – e é possível que não seja somente o choro de um guitarrista a ensaiar a sua apresentação nocturna num dos inúmeros restaurantes típicos; serão certamente as vozes anónimas que o agrupamento belga Het Pakt reuniu na sua peça participada Fado Morgana.

Telas estendidas, nelas os rostos projectados, na imediata proximidade uma voz que, ao afastarmo-nos, se revela parte de um coro maior de Lisboetas, homenagem à Cidade e ao Fado, numa única cantiga, conhecida de todos – passar por lá é reconhecê-la!

Prosseguimos tacteando a Lisboa moura, medieval, pombalina, romântica e moderna. Seguimos pela Rua da Costa do Castelo, símbolo fascista que António Ferro escolheu para justificar a identidade lisboeta (ou a falta dela), o cinema português, as quatro paredes caiadas com um cheirinho a alecrim, contrastando com o amontoado de casas que se vão degradando sobre as colinas da cidade.

excertos do texto publicado aqui.

Luz Boa – Green Line

Aqui se instalou o único teatro de ópera em Portugal, feira de vaidades da alta e média burguesia novecentista.

Lune, de Bruno Peinado, ‘cai’ neste espaço ortogonal, limpo, quase asséptico, de evidente importância para a imagem política cultural, pela forma como discretamente se localiza no centro institucional de Lisboa.

A presença improvável de um astro poisado, nota surreal que é visão da própria rebeldia da Arte, que vence uma distância impossível num gesto simples: um balão insuflado, iluminado do interior, repousa provocadoramente nas imediações da “Grande Ópera”.

Ao fundo, os Armazéns do Chiado, que marcaram o espírito do comércio da Baixa durante todo o séc. XX. Se os Armazéns desapareceram na sequência de um incêndio de origem duvidosa, e ressurgiram como extraordinária operação de renovação urbana diariamente visitada por dezenas de milhares de pessoas, Luzboa reforça a imagem daquela fachada histórica, ponto de fuga da Rua Garrett…

excertos do texto publicado aqui.

Luz Boa – Red Line

Aqui fica o primeiro de três posts sobre o Projecto Luz-Boa 2006, originalmente publicados aqui

Descendo pela Rua da Misericórdia, recheada de belos exemplares de casas pertencentes à aristocracia pré e pós pombalina, chegamos ao Camões, ao Palácio do Marquês de Marialva que, após o terramoto, seria até ao século XIX uma zona insalubre conhecida como os Casebres do Loreto, por albergar pedintes e doentes.

Esta praça, recente de cem anos, ostenta a estátua de Camões, uma das mais bonitas e melhor concretizadas obras de estatuária em Lisboa. Mas é de tal forma desconsiderada, que construíram um parque de estacionamento por baixo, em cima das ruínas do antigo palácio do Marquês – que por sua vez já tinha sido construído sobre uma villa romana, o que se deduz pela quantidade de vestígios romanos que surgiram após as escavações para a construção do referido estacionamento.

excertos do texto publicado aqui.

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