Monstros e Portentos

aldrovandi_p337Os monstros não desaparecem com os mirabilia medievais, mas regressam no mundo moderno, embora o façam de outra forma e com outra função. Desde a Idade Média, tinha-se discutido sobre a diferença entre dois tipos de monstruosidade, os portentos e os monstros. Os portentos eram eventos prodigiosos e espantosos, mas naturais.
Muitos autores procuraram explicar as suas causas, como Ambroise Paré  (Des Monstres et  Prodiges, 1573), embora sem conseguirem evitar vê-los como premonições de acontecimentos fora do comum.
Desde os primeiros séculos medievais se tem afirmado que os portentos não deveriam considerar-se contra-natura mas sim contra a natureza conhecida.
Os verdadeiros monstros não eram pois humanos, mas indivíduos nascidos de progenitores da mesma raça e permitidos por Deus, enquanto sinais de uma linguagem alegórica. Os Descobrimentos dariam também a conhecer outros mundos, habitados por criaturas estranhas, indivíduos portentosos descobertos pelos exploradores e viajantes como  Gaspar Schott (Phisica Curiosa, 1662)  ou Ulisses Aldrovandi (Monstrorum Historia, 1658).

 

lycosthenes_p538Em 25 de Março de 1561, morria Conrad Lycosthenes, humanista e enciclopedista, autor do célebre Prodigiorum ac ostentorum chronicon, de 1557

 

 

 
Para quem tiver curiosidade, recomendo vivamente uma vista a este livro virtual, profusamente ilustrado com imagens do século XVI.

 

A partir da História do Feio, por Umberto Eco

variações sobre o mesmo tema

Sobre a proposta de visita para esta semana a uma das obras de referência do MNAA, a peça Renascentista Deposição no Túmulo de Cristóvão Figueiredo (1520-30), vale a pena exercitar o olhar sobre diferentes abordagens pictóricas deste tema por parte de dois Mestres do Barroco, CaravaggioRubens (1602)

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Cristovão de Figueiredo - Deposição no Túmulo

Se existiu um significativo momento de “classicismo” e de intensa religiosidade humanista na história da pintura portuguesa da primeira metade do século XVI é aqui que podemos encontrá-lo. Executada na década de 1520-30 para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, esta pintura associa a uma solene e pungente concepção do episódio bíblico, dois excepcionais retratos de personagens contemporâneos. A análise da obra e da figura do pintor, Cristóvão de Figueiredo, estarão a cargo de Adelaide Lopes e José Alberto Seabra, técnicos do Museu.


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Rubens - The Deposition, 1602

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Caravaggio - The Entombment, 1602-03

Grande Panorama de Lisboa

Da Cruz-Quebrada ao Beato são cerca de 14 quilómetros de frente ribeirinha. O Grande Panorama da Lisboa anterior ao Terramoto de 1755, reproduzido num monumental painel de azulejo com 23 metros de comprimento, está no Museu Nacional do Azulejo.  Tem também destaque aqui.

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Celebração da Primavera

Um Trampolim no Ártico?

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Sim. Para o urso pular!

Mas não de contentamento, pelo

caminho que as coisas estão a levar…

As 53 estações do Tokaido

Museu Gulbenkian, Galeria de Exposição Permanente – Até 31 de Maio de 2009

A série de gravuras «Estações do Tokaido» adquirida por Calouste Gulbenkian integra-se no conjunto de cerca de 200 estampas japonesas dos séculos XVIII e XIX. Assinadas por três grandes mestres Hiroshige (1797-1858), Kunisada (1786-1865) e Kuniyoshi (1797-1861), as 55 estampas, editadas c. 1845, por diferentes editores, ilustram lendas e contos relacionados com as estações do Tokaido. 
 O Caminho do Mar do Oriente

O Tokaido (O Caminho do mar do Oriente) era a principal via terrestre do Japão feudal. Percorria cerca de 500 km entre a antiga capital imperial, Quioto e a verdadeira capital – Edo (Tóquio), capital militar dos Tokugawa. No século XVII, Ietyasu Tokugawa, um poderoso dáimio (senhor feudal e membro da nobreza militar), conseguiu pacificar e unificar o Japão e estabelecer um sistema organizativo com o objectvo de limitar o poder dos senhores feudais. Ao longo do caminho, foram criados pela administração Tokugawa 53 seki (postos de vigia), controlados por guardas que proibiam a passagem aos viajantes que não possuíssem a documentação adequada para prosseguir a jornada.   
      
Entre os viajantes do Tokaido, destacavam-se as comitivas que faziam parte do séquito dos dáimios, enviadas para a corte do xógun (comandante militar do imperador, com residência oficial em Quioto), para aí permanecer durante um ano, e deste modo evitar a organização de qualquer rebelião contra o poder imperial. 
     

 

 

Os dáimios eram obrigados a prestar vassalagem ao imperador, tendo de percorrer o Tokaido para cumprir as visitas cerimoniais.  As 53 estações (sem contar com a do início e do término), situadas ao longo do caminho, abrigavam não apenas as comitivas dos senhores feudais mas todo o tipo de viajantes, mercadores, peregrinos e camponeses. Viajar nesta estrada, tão concorrida, era uma aventura pelas surpresas, riscos e dificuldades e também pelas intempéries que particularmente no Inverno assolavam a região. A maior parte dos viajantes demorava duas semanas a percorrer os 500 quilómetros a pé, alugando por vezes cavalos e palanquins para atravessar rios e lagos, desfrutando da paisagem ou das casas de chá. Outros, prolongavam a viagem, permanecendo por vezes vários dias na mesma estação.  

No percurso ao longo da costa (em parte o Pacífico, em parte o mar interior), su cedem-se paisagens magníficas e variadas, incluindo lugares onde as montanhas subitamente irrompem no mar. Esta estrada tem ainda muitos outros motivos de interesse: santuários, como o de madeira de Nikko, cataratas, lagos tranquilos como o Biwa, e o famoso monte Fuji, que podia ser observado ao longo do percurso.

O Tokaido era também uma rota necessária para o comércio de todo o género para abastecer as populações que em Edo, no início do século XIX, se estimavam em cerca de 1 milhão de habitantes.

 

 

 

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Hiroshige e o Tokaido
utagawa-kuniyoshi-estacao-16-kambara1O caminho do Tokaido teria provavelmente caído no esquecimento, se não tivesse sido imortalizado por uma série de 55 gravuras de  Ando Hiroshige (1797-1858), um dos maiores mestres da arte da estampa japonesa. 
Em 1832, Hiroshige viajou ao longo do Tokaido, de Edo até Quioto, como membro de uma delegação oficial transportando cavalos que deveriam ser apresentados na corte imperial. Os cavalos eram uma oferta simbólica  anual ao xógum, em sinal de reconhecimento pelo estatuto divino do imperador. 
As paisagens ao longo do percurso causaram uma profunda impressão ao artista, que foi realizando vários esboços durante a viagem de ida e de volta para Edo.
Depois do seu regresso, começou imediatamente a trabalhar nas primeiras estampas desta série.
No total, ao longo de toda a sua vida, realizou mais de três dúzias das estações do Tokaido, em colaboração com outros artistas.

 

 

 

 

Exposição relacionada: L`estampe japonaise – images d`un monde éphémère. Via RAF.

Relativismo Moral

O jovem pai de Aveiro foi acusado de negligência grosseira ao esquecer-se do seu bébé dentro do carro, onde morreu por hipertermia. Antes disso, tinha-se esquecido de deixar o seu bébé no infantário.
Amá-lo-ia menos que ao outro filho? Menos do que eu amo a minha filha?
No entanto, a superioridade moral vigente, alheia às responsabilidades próprias na formação dos novos escravos com que alimenta o mercado de trabalho, não hesita em julgar, a começar na praça pública – com que legitimidade?-, a tragédia familiar e a culpa eterna de um homem que nunca se perdoará por este esquecimento fatal. Sem compaixão.

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Iluminura – A Torre de Babilónia

As primeiras representações visuais da bíblica Torre de Babel vêm da Idade Média; A partir do século XI, encontram-se decorações arquitectónicas, que pretendiam dar ênfase às técnicas e materiais utilizados na construção da época.

Nesta iluminura de Jean de Courcy, embora, quer o Rei Nimrod – o lendário edificador da Torre – quer a Torre propriamente dita, pareçam à primeira vista europeus,  o artista fez um esforço para lhes conferir algum exotismo oriental. A armadura de Nimrod, os minaretes da Torre e os anjos, são típicos elementos da linguagem visual da Europa Medieval.

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La Bouquechardière - Jean de Courcy

Chronique dite de la Bouquechardière par Jean de Courcy (c.1350-1431).
Les Troyens, Maître de l’Echevinage de Rouen (15e siècle)
MS 728/312 folio 181v – Musee Conde, Chantilly, France

A dificuldade em identificar a eventual destruição da Torre em documentos de autores gregos que possam ter testemunhado esse período, levam a especular que possam ter existido duas Torres, a primeira construida por Nimrod, a segunda por Semiramis.

Journey to the Centre of the Earth

Que belo fim de tarde, no frenesim de Londres!  Em visita relâmpago, para (finalmente) ver a Exposição Babilónia – Mitos e Realidades – British Museum -, aproveito o tempo disponível para descomprimir de quatro dias na CeBIT. Cansado mas… vamos ver onde me levam as pernas. Depois de comprar um mimo para a boneca, tempo  ainda para beber um copo de tinto Merlot do Chile no All Bar One em Leicester Square e, em Covent Garden, degustar um naco de carne suculenta, muito bem acompanhado de outro tinto, desta vez um Malbec da Argentina. Não há crise que nos valha! 🙂

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Piccadilly Circus

Os Novos Clássicos

Celebra-se por estes dias meio século de um filme italiano à séria, La Dolce Vita (1959).
Federico Fellini, que não dirigia filmes, antes era dirigido por eles, contribuiu, com esta obra seminal, para mudar o cinema que se fazia no período do pós-guerra. Uma das cenas memoráveis deste fresco é protagonizada por Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fonte dos Trevos, em Roma. Via BBC.