Cris­tiano Holtz – Suites de pièces pour le clavecin

O cravista brasileiro residente em Portugal Cristiano Holtz decidiu dedicar o seu último CD à música de Handel, seleccionando as suites nºs 3, 7 e 8 do primeiro volume das “Suites de Pièces pour le Clavecin” (1720-25), a suite V do segundo volume (1727) e peças como o “Air” HWV 471 (da colecção de minuetos de 1729), o encantador Minueto em Sol menor HWV 434 e a Sonatina HWV 582.
Um recital ao vivo na Casa-Museu Anastácio Gonçalves, em Maio, serviu de apresentação ao projecto, que vem confirmar a segurança do intérprete, bem como o seu espírito criterioso em matéria de repertório, tendo em conta que a excelente música para cravo de Handel ocupa um lugar mais reduzido na discografia do que a obra dos seus contemporâneos J.S.Bach, Domenico Scarlatti ou Rameau.
O cravo com graves poderosos (graças ao registo de 16 pés) construído por Matthias Kramer a partir de modelos de Christian Zell (c.1683-1763) e Johann Christoph Fleischer (1676-c.1728) contribui para a riqueza da imagem sonora de um registo que proporciona uma diversificada amostra em termos de técnicas de composição, estilos e recursos expressivos.
As suites de Handel nem sempre seguem o modelo convencional na sucessão de danças, contendo por vezes prelúdios e andamentos em escrita fugada como os “Allegri” HWV 433 e 428, que Holtz executa com uma “toucher” brilhante e uma polifonia clara. Nas Gigas ou o “Presto” da Suite HWV 428, mostra agilidade e desenvoltura, contrastando com a profunda introspecção expressiva do “Air” da mesma Suite e a elegância das “Allemandes”. Mesmo na exuberante Suite nº 7, HWV 432, Holtz prefere a dimensão majestosa da música, a arquitectura da construção, em detrimento de um virtuosismo superficial que apenas realçasse a vertente lúdica da composição.
A partir do texto de Cristina Fernandes para o Público de 12 de Agosto de 2011
Cris­tiano Holtz semble pré­fé­rer à une in­té­grale (ou à son amorce) de la mu­sique pour cla­ve­cin de Haen­del une an­tho­lo­gie com­po­sée comme un menu dé­gus­ta­tion : entre chaque Suite, issue du pre­mier ou du se­cond vo­lume, fi­gure en effet une pe­tite pièce, ici un air, là un me­nuet, comme un en­tre­met. Le choix des to­na­li­tés des quatre Suitesre­te­nues, toutes en mi­neur, et ac­ces­soi­re­ment la photo de cou­ver­ture, une four­chette cui­vrée du XVIIIe siècle, donnent une idée de la sa­veur du repas : raf­finé mais so­lide et sé­rieux, peu pro­pice aux mé­langes fan­tai­sistes.
Le cla­ve­ci­niste bré­si­lien sert en effet un Haen­del ma­jes­tueux et grave, fier de ses mou­ve­ments amples et me­su­rés dès le pré­lude de la Suite HWV 433 qui ouvre le pro­gramme. Dans ces épi­sodes d’al­lure im­pro­vi­sée (le sty­lus phan­tas­ti­cus de HWV 428) comme les al­le­gros fu­gués, l’ar­tiste avance avec as­su­rance, gui­dée par une main gauche d’une rare sta­bi­lité. La vo­lonté d’in­ves­tir l’es­pace acous­tique et de pro­fi­ter d’un cla­ve­cin so­nore, aux basses d’orgue, conçu d’après des ins­tru­ments de Chris­tian Zell et Chris­toph Flei­scher s’illustre dans chaque pièce, y com­pris les gigues, plus pré­oc­cu­pées de sur­face que de jeu de jambes. Vo­lon­tiers or­ches­tral (presto de HWV 428) voire lul­liste (ou­ver­ture de HWV 432) par son port royal, le jeu de Cris­tiano Holtz sait aussi évo­quer le chant dou­lou­reux (l’in­tense Air de HWV 428 ju­di­cieu­se­ment placé au centre du disque) ou se lais­ser aller à la dé­sin­vol­ture nar­quoise (Me­nuet en sol mi­neur HMV 434).
Pierre Han­taï dé­clare que son an­cien élève ap­pré­hende “l’œuvre pour cla­ve­cin de Han­del avec une vraie pro­fon­deur, comme une grande et noble mu­sique.” On ne sau­rait le contre­dire. Cette pa­ru­tion s’ajoute aux ré­fé­rences : Oli­vier Bau­mont (Erato) et Ot­ta­vio Dan­tone (Arts).
PAR PHILIPPE VENTURINI | LE RÉPERTOIRE DES CD DE A À Z | 21 JUILLET 2011 | Via http://www.qobuz.com/

“Le voyage dans la lune”, de Méliès – 1902

Considerado o primeiro filme de ficção científica, “Le voyage dans la lune” foi inspirado na obra de Júlio Verne. O prolífico Georges Méliès (1861-1938) oferece-nos uma excitante aventura futurista, plena de animação e efeitos especiais, um regalo para a vista! – que o diga o homem da lua, que levou com a nave no olho. 🙂
A rodagem em 14 frames por minuto, em lugar das actuais 24, faz desta obra prima um filme muito à frente! 🙂

Formosura Que Excedeis

Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atando força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar, acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis o nosso nada.
in Rosa do Mundo, de Santa Teresa de Ávila (1515-1582)
Assírio & Alvim, 2001 – tradução de José Bento
Jacques Blanchard – Venus and the Three Graces Surprised by a Mortal, c. 1631 – 1633
Musée du Louvre

Renascença Lusitana

[…]
As Virgens dos Pintores da Renascença são Ninfas dos Bosques Sagrados enamoradas de . A auréola divina que as envolve não é luz de alma, é luz da aurora.
Tenho bem presente na memória a Maria Madalena de Rafael que eu vi, há anos, no Museu do Prado.
É uma Ninfa com um cruxifixo escuro nas mãos indiferentes.
Mas o Povo Português, criando a Saudade, que é o Desejo e a Dor, que é Vénus e Maria, o Espírito semita e o Corpo ária, viveu a própria Renascença, a qual encontrou, portanto, na alma da nossa Raça, a sua expressão vivente e espontânea, a sua força viva que, posta de novo em movimento, criará uma nova Civilização. O Espírito Lusitano abrirá na História uma nova Era.
Sim: a Saudade é a Renascença vivida pela alma de um Povo e não criada pelo artifício das artes plásticas, como aconteceu na Itália. A Saudade é o espírito lusitano na sua super-vida, no seu aspecto religioso. Ela contém em si, em vista do exposto, uma nova Religião. Se descende, como demonstramos, de duas religiões (Paganismo e Cristianismo), a Saudade é, sem dúvida, uma nova Religião. E nova Religião quer dizer nova Arte, nova Filosofia, um novo Estado, portanto.
[…]
Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
A Saudade e o Saudosismo

Peter Paul Rubens – Ninfas e Sátiros, 1615-38-40 (imagem de alta resolução, extraída daqui)

Cenas Religiosas dos séculos XIV-XVII

Encuentros. Escenas religiosas de los siglos XIV al XVIII 

De 2 de Agosto a 4 de Setembro de 2011 | Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid
Da selecção de obras da Colecção Permanente em exposição, escolhi duas, porque entendo serem verdadeiramente excepcionais! Vale a pena abri-las, bem como os links das restantes mencionadas.
Con ocasión de la celebración de la Jornada Mundial de la Juventud que tendrá lugar en Madrid del 16 al 21 de agosto, el Museo Thyssen-Bornemisza organizará una exposición que reunirá una selección de pinturas de gran calidad procedentes de los fondos de la Colección Permanente de Pintura Antigua. Las obras, que abarcan cronológicamente desde el siglo XIV al siglo XVIII, ilustran diversos encuentros de Cristo en tres etapas de su vida.
Entre las obras expuestas, los visitantes podrán admirar la tabla Cristo y la samaritana, obra de Duccio di Buoninsegna, gran maestro de la pintura sienesa del siglo XIV, y compararla con este mismo encuentro descrito por Il Guercino, destacado pintor del Seicento cuya composición desprende gran naturalismo y serenidad. Dentro de la escuela de pintura italiana destaca la pareja de lienzos de Giovanni Paolo Panini, La expulsión de los mercaderes del templo y La piscina probática, pintados en Roma hacia 1724 y cuyas escenas, con numerosos grupos de personajes, se organizan en el marco de monumentales arquitecturas.

Alberto Durero – Jesús entre los doctores, 1506
Las escuelas del Norte estarán bien representadas en la exposición. Uno de los primeros encuentros es el tema de la tabla de Durero Jesús entre los doctores, considerada una de las obras maestras de la Colección tanto por su técnica como por la originalidad de su composición. Mientras que el cobre de Jan Brueghel I narra el milagro de Cristo en la tempestad del mar de Galilea en un paisaje de gran realismo y paleta cromática muy viva. Dos escenas de interior describen otros instantes del proceder del Salvador como son los casos de Marinus van Reymerswaele con La vocación de san Mateo y Matthias Stom con su lienzo La Cena de Emaús, cuya técnica de claroscuro recuerda el estilo de la pintura de Caravaggio. Via.

Marinus van Reymerswaele – La vocación de san Mateo, c. 1530

Musica Aeterna – Giorgio Vasari

As emissões do Musica Aeterna de 23 e 30 de Julho de 2011 são dedicadas aos cinco séculos do nascimento de Giorgio Vasari.

Nascido, a 30 de julho de 1511, no seio de uma família humilde, em Arezzo, cidade hoje tornada famosa sobretudo devido aos admiráveis frescos de Piero della Francesca para a Capela de São Francisco, Vasari, segundo o próprio testemunho, teve um antepassado a exercer a profissão de ceramista, ou vasaro em idioma italiano, daí a origem do apelido que o haveria de perpetuar para as gerações futuras. Constituindo parte do território da Toscana, logo não muito longe de Florença, tal situação geográfica vantajosa proporcionou-lhe o acesso aos exigentes e restritos círculos artísticos locais. Assim, quando contava apenas treze anos de idade, o pai, que sempre o encorajou a interessar-se pelo desenho, convenceu o cardeal Sílvio Passerini, representante do recém-eleito Clemente VII, a permitir ali ingressar como aprendiz. Mais tarde, na pioneira e magistral “Vidas”, textos que, apesar das inexactidões e das posições parciais tomadas, o consagram como um notável historiador pelo estudo da existência e da obra de cerca de centena e meia de artistas e a sua integração numa embrionária teoria da arte, iria enaltecer o facto de Luca Signorelli, familiar afastado, ter sido o principal responsável pelos primeiros ensinamentos que lhe foram ministrados.
João Chambers.

MUSICA AETERNA DE 23-07-2011| Assinalados no próximo dia 30, os cinco séculos do nascimento de Giorgio Vasari, influente arquitecto, teórico e crítico da Renascença, para além de autor da notável “Vidas”, ilustrados através de criações da autoria de Andrea Gabrieli, Annibale Padovanno, Carlo Gesualdo, Heinrich Isaac, Josquin Desprez, Alfonso Ferrabosco, “o Pai”, Giovanni Pierluigi da Palestrina, Diego Ortiz, Alessandro Striggio e de um autor anónimo, todos contemporâneos e ativos na Península Itálica do século XVI. João Chambers.
MUSICA AETERNA DE 30-07-2011| Comemorada hoje mesmo, a efeméride dos 500 anos do nascimento de Giorgio Vasari, geral e justificadamente considerado como uma das personalidades mais fascinantes da Península Itálica do século XVI, realçada através de peças da autoria dos contemporâneos e também ali activos Giovanni Pierluigi da Palestrina, Jean Richafort, Marc’Antonio Ingegneri, Alexander Agricola, Giovanni Gabrieli, Orlando di Lasso, Giulio Caccini, Costanzo Porta, Heinrich Isaac, Alessandro Striggio e Marco dall’Aquila. João Chambers.

A 3 de Fevereiro de 2011, o Caderno P2 do Público incluiu um artigo sobre Vasari intitulado:

Com quem ficará o espólio de Vasari?

Trocou cartas com cinco papas. E elas são uma das razões para que o espólio do pintor e escritor renascentista tenha tanta importância. Uma polémica sem fim à vista

São Lucas Pintando a Virgem
A história é longa e complicada. Envolve o espólio do mestre renascentista Giorgio Vasari, um magnata  russo, o Estado italiano e várias reviravoltas judiciais e personagens secundárias sugadas para esta novela internacional sem fim à vista.
O pintor, arquitecto, escritor e historiador renascentista Giorgio Vasari nasceu em Arezzo, na Toscana, em 1511, e o seu grande feito – para além de ter começado a pintar o tecto da Catedral de Florença – foi ter escrito diversas biografias de alguns dos mais importantes artistas do Renascimento italiano.
Por esse motivo tinha, à data da sua morte, um imenso espólio de correspondência trocada com alguns dos mais célebres protagonistas do seu tempo: o pintor Miguel Ângelo, cinco papas renascentistas e vários membros da importantíssima família Médici, entre outros. Tinha igualmente entre os seus pertences uma importantíssima colecção de desenhos e pinturas.
O arquivo de Vasari esteve desaparecido durante cerca de 300 anos até que reapareceu, no início do século XX, na posse de um tal conde Spinelli, descendente do executor do testamento do mestre. Passou então para a antiga casa habitada por Vasari, em Arezzo, a 80 quilómetros a sudeste deFlorença, continuando na posse dos descendentes de Spinelli, a família Festari.
150 milhões de euros
O enredo desta história adensou-se em Setembro de 2009. Foi nessa altura que os herdeiros do falecido proprietário do espólio àquela data, Giovanni Festari, mergulhados em dívidas ao fisco, começaram a procurar activamente um comprador para o arquivo.
Por intermédio de um empresário, os herdeiros entraram em contacto com um magnata russo chamado Vasily Stepanov, da empresa russa Ross Engineering (Grupo Ross) e os termos do contrato ficaram assinados. A venda era certa.
“Foi-me dito que aquele arquivo era uma daquelas oportunidades que só aparece uma vez na vida e que eu poderia vir a ter uma colecção que mais ninguém possui”, disse Stepanov ao The Art Newspaper.
A mesma fonte indica ainda que Stepanov estava disposto a pagar 150 milhões de euros pelo acervo. “Os meus associados responsáveis por estas diligências asseguraram-me que o preço era acertado e justo”, disse o russo, declarando igualmente que os arquivos seriam um tesouro mundial digno de uma exposição no Museu Hermitage, em São Petersburgo.
Porém, este preço e as condições da venda desencadearam imediatamente uma polémica, ainda em 2009. Muitos questionaram a verdadeira identidade do comprador e outros tantos acharam estranho o facto de Stepanov estar interessado em pagar um preço tão elevado – oito ou dez vezes mais do que o valor real do arquivo, argumentaram então vários especialistas.
Estes dois argumentos serviram, segundo muitos, para pressionar o Governo italiano, que tinha direitos de preferência para a aquisição e podia apresentar uma contraproposta.
Como ninguém parecia interessado em ver passar este acervo para mãos estrangeiras, a pressão pública foi aumentando – mesmo depois de oadvogado dos herdeiros, Guido Cosulich, ter tranquilizado o Estado italiano afirmando que o espólio não sairia de Arezzo.
Já em Março de 2010, o Ministério Público ordenou o arresto do arquivo Vasari pela polícia da Toscana e deu início a uma investigação criminal por fraude contra o Estado italiano, de acordo com um porta-voz do Ministério da Cultura, igualmente citado peloThe Art Newspaper. No âmbito deste inquérito, Stepanov teria de apresentar-se ao ministério e provar que a Ross Engineering existia, bem como confirmar a sua intenção de prosseguircom a aquisição.
No meio disto tudo, uma reviravolta surpreendente: dado o incumprimento no pagamento de impostos por parte dos quatro herdeiros Festari (umadívida de 700 mil euros), a agência estatal de impostos Equitalia decidiu levar o arquivo Vasari a leilão, no qual o Ministério da Cultura pretendia arrematar o negócio.
Leilão cancelado
A venda nunca chegou, porém, a realizar-se. Um juiz toscano cancelou este leilão depois de um recurso apresentado pelos herdeiros argumentandoque as estimativas da leiloeira para a venda (2,6 milhões) eram muito baixas.
Ainda em Março de 2010 outra reviravolta: um tribunal de Arezzo deu o leilão como válido e deliberou que seria indicada uma nova data para as licitações.
Finalmente, na última reviravolta de todas, soube-se esta semana que o comprador russo pretende desistir do negócio. Vasily Stepanov disse ao The Art Newspaper ter recebido informações que sugerem que, “desde o início, os italianos não tinham nenhuma intenção de vender o arquivo”. Stepanov reafirmou, porém, ter sempre agido de boa-fé: “Assim que me apercebi das suas verdadeiras intenções, decidi romper os meus contactoscom eles. Considero o negócio terminado”, disse.
Os herdeiros Festari contradizem, porém, esta versão dos factos: “Nunca houve intenção de coagir o Estado italiano. Na verdade, em Setembro de2010, os Festari pediram ao Estado para abdicar do seu direito de compra do espólio ao preço estabelecido pelo mercado de forma a dar continuidade ao contrato com o Grupo Ross”, indicou um porta-voz da família.
Aconteça o que acontecer, seja ou não vendida em leilão ao Estado italiano, o espólio de Vasari permanece valioso e imutável às disputas judiciais.

 

Lucian Freud

Uma das principais vozes da reinvenção da arte figurativa
Morreu Lucian Freud, o pintor do corpo e da carne
Por Tiago Pereira Carvalho, Jornal Público

Este retrato a óleo do pintor Francis Bacon, pintado entre 1956 e 1957 pelo seu amigo Lucian Freud, foi vendido em leilão, salvo erro em 2009, por cerca de 7 milhões de euros. A obra mostra Francis Bacon com o olhar fixo em direcção ao chão. Freud pintou o quadro quase encostado a Bacon e, segundo os críticos, é um trabalho que revela a grande amizade entre os dois pintores. O retrato é o último que Freud fez de Bacon, depois de outro pintado durante três meses em 1952 e que foi roubado em 1988 de uma exposição em Berlim.

Bosch e o seu Círculo

Bosch e o seu Círculo 
De 14 de Julho a 25 de Setembro de 2011 | Museu Nacional de Arte Antiga

Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final, executado por um colaborador próximo de Hieronymus Bosch e o Tríptico das Provações de Job, executado por alguém que imitou o estilo do Mestre. A exposição debruça-se sobre as variantes ou os traços comuns de processo criativo destes trípticos, análise também apoiada em exames laboratoriais. Será a primeira vez que se juntam, em Portugal, três grandes pinturas de Bosch e do seu círculo.

A SALA mais procurada pelos visitantes do Museu do Prado, sobretudo por um público jovem, curioso e fascinado, é decerto aquela em que se expõem os três célebres trípticos de Jheronimus Bosch (Hertogenbosch, 1453?-1516). A razão é basicamente idêntica à que Filipe II, coleccionador devotado e compulsivo do pintor, sugeria numa carta aos filhos quando da sua visita a Lisboa em 1581: «Lamento que vós e vosso irmão não tivésseis tido a oportunidade de assistir à procissão [do Corpo de Deus] da maneira como aqui se faz, visto que nela se incorporam alguns diabos semelhantes aos dos quadros de Bosch que, julgo, vos causariam admiração». Neste Verão de 2011, o MNAA tem o privilégio de também reunir na galeria de pintura europeia, numa única sala, três trípticos do universo figurativo de Bosch, graças não já à fortuna de um antigo coleccionismo régio, mas a uma excelente parceria de empréstimos realizada com o Museu Groninge de Bruges (Bélgica), de onde provêm as duas obras confrontadas com o tríptico residente, o das Tentações de Santo AntãoOs três trípticos compõem, na sala 61, um interessante dispositivo de descoberta e comparação visuais, ensaiando uma proposta rara de contacto com a experiência visionária de Bosch, das categorias com que esta se impregnou e consolidou – o monstruoso, o grotesco, o demoníaco, o escatológico –, através de um reportório iconográfico dominante na sua pintura, profundamente religiosa e moralizante (não «herética», nem «surrealista»), dedicada à exploração dos exemplos morais da vida penitencial dos eremitas ou aos fins últimos da humanidade, como o de uma ideia, doutrinal, para o fim dos tempos.

TRÍPTICO DO JUÍZO FINAL | Oficina de Jheronimus Bosch | Século XVI, 1ª metade
Óleo sobre madeira de carvalho | 99,2 x 60,5 cm (painel central) | 99,5 x 28,7 cm (volantes)
Bruges, Museu Groninge
Proveniência: colecção E. Cavet, vendido no Hôtel Drouot, Paris, em 1906. Entra em 1907 na colecção Seligman , Paris. Comprado por Auguste Beernaert que o doa à cidade de Bruges, passando ao Museu Comunal.
Essa ideia encontra-se magnificamente encenada no Tríptico do Juízo Final, em cuja pintura central preside, na parte superior, o Cristo Pantocrator, inscrito num círculo de luz e ladeado por uma corte de Apóstolos e pelos anjos das trombetas apocalípticas. A linha de horizonte é comum aos três painéis, pretendendo unificá-los como referentes a um só lugar, espelho de toda a Terra, desvendando-se no volante direito os inquietantes fogos, construções, seres demoníacos e suplícios que caracterizam o Inferno e as suas Portas e que já «invadem», amplamente, o espaço da representação central, onde se não conta a clássica ressurreição dos mortos mas uma alegórica loucura humana e as desgraças que ela arrasta consigo. Pelo contrário, no volante esquerdo, a paisagem e os seres que a habitam configuram as delícias de um lugar paradisíaco, ameno e musical, onde se ergue a Fonte da Vida e de onde se evolam, como diminutas figurinhas aladas, na parte superior, os que alcançam o Paraíso Celeste. No tríptico da Academia de Belas-Artes de Viena, que é compositiva e estilisticamente o mais próximo deste, é o episódio dos Anjos Caídos que se representa no volante equivalente, associado à visão do Pecado Original e da Expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrenal. Por outro lado, no Juízo Final de Bruges, há vários pormenores figurativos que parecem ser retomados a partir do Tríptico das Tentações de Santo Antão.

TRÍPTICO DAS TRIBULAÇÕES DE JOB – Continuador de Jheronimus Bosch | Século XVI, 2ª metade
Óleo sobre madeira de carvalho | 98,3 x 72,1 cm (painel central) | 98 x 30,3 cm (volantes)
Bruges, Museu Groninge
Proveniência: Conhecida desde 1890, a obra foi depositada pela Igreja de Hoecke (arredores de Bruges) no Museu Comunal de Bruges em 1931.
A relação com a obra do MNAA é bem evidente, do ponto de vista temático e iconográfico, no que se refere ao Tríptico das Tribulações de Job. O painel central trata o protagonista defrontando-o com as tentações de múltiplas figuras aduladoras e maléficas, como sucede ao príncipe dos eremitas na pintura de Lisboa. Ele resistirá, pela vocação do despojamento e a inquebrantável razão da fé, num exemplo multiplicado pela atitude dos eremitas inscritos nos volantes: Santo Antão, à esquerda, mais uma vez assolado por demónios e pela tentação da Carne; S. Jerónimo, à direita, nas suas práticas penitenciais diante do crucifixo. Ambas as representações, nos volantes, são largamente devedoras do chamado Tríptico dos Eremitas, obra considerada autógrafa de Bosch que pertence ao Palácio Ducal de Veneza.

PAINEL CENTRAL
Se o Tríptico do Juízo Final é considerado, pela sua apreciável qualidade de execução pictural, uma peça ainda cronologicamente próxima de Bosch e atribuível a um seu discípulo competente e com acesso a modelos de oficina, já o Tríptico das Tribulações de Job não poderá deixar de considerar-se trabalho de um continuador ou imitador da segunda metade do século XVI (como aliás indicam os brasões inscritos nos reversos dos volantes ou as características da moldura do tríptico). Numa obra com tão ampla fortuna e posteridade, como a de Bosch, são especialmente importantes os problemas técnicos e de distinção autoral. A reunião destes três trípticos em Lisboa será assim ocasião para uma série de exames científicos, à estrutura material e ao processo criativo destas pinturas, conduzidos por uma equipa do projecto internacional «Bosch Research & Conservation Project», cujos resultados, obtidos a partir da análise de todas as pinturas atribuídas a Bosch, serão divulgados em 2016, ano do 5º centenário da morte do pintor.

SANTO ANTÃO (VOLANTE ESQUERDO)

S. JERÓNIMO (VOLANTE DIREITO)

Pour toi seule, aimable Inès

Foi um privilégio ter assistido a este Concerto para Inês, brilhantemente idealizado por Miguel Jalôto, que dirigiu o mui competente Ludovice Ensemble, no âmbito do Festival Cistermúsica, Alcobaça.
Este pequeno excerto do texto do monge cisterciense Louis-Adrien du Perron de Castera (1705-1752) pertence à tradução para francês de “Os Lusíadas”, de 1735. A declamação da actriz Louise Moaty foi pungente e o espectáculo muito comovente.

“Belle Ynès tu étoîs dans une solitude agréable
sur la rive du Mondego;
ta bouche ensengnoit aux échos des forêts & des montagnes
le nom chéri que tu portois gravé dans ton cœur,
le nom de ton Prince, dont la présence
faisoit tes délices , & dont le moindre éloignement
te coutoit tant de larmes!”
La Lusiade […] – 1735 | Louis-Adrien du Perron de Castera (1705-1752)

Que têm em comum a Coca-Cola e o Barca Velha?

A Marca Amarela!
Nas últimas 24 horas, tive de ir duas vezes ao Porto-Alto, onde almocei no Restaurante-Marisqueira A Torre. Hoje comi sentado ao balcão um prego da vazia, muito digno! Reparei então na vitrine e, em tom de brincadeira, perguntei ao empregado que fazia ali o cartaz da Coca-Cola ao lado do Barca Velha, do Quinta Vale de Meão, do Mouchão e do Pêra Manca; Aproximou-se e, discretamente, explicou-me que aquela zona tem inúmeros armazéns de chineses, gente que chega ao restaurante em carros potentes, são bons clientes e gostam de misturar Barca Velha com Coca-Cola…