Archive for the ‘ Pintura ’ Category

Maria de Médicis, de Rubens

Peter Paul Rubens (1577-1640) – o grande mestre do Barroco, visitou Itália pela primeira vez em 1600.
Bebeu as influências de Tintoretto, Rafael e Caravaggio, como foi referido no post anterior.
Ao seu atelier de Antuérpia chegou em 1622 uma encomenda de 21 pinturas sobre a vida de Maria de Médicis, viúva de Henrique IV de França.

Maria de Médicis, 1622-1625

A primeira mulher de Henrique IV – a rainha Margot – viu o casamento anulado por não lhe ter dado nenhum herdeiro.
Catarina de Médicis, sua mãe, era prima afastada de Maria de Médicis de Itália;
Maria deu quatro filhos a Henrique IV, entre os quais o futuro rei Louis XIII.

detalhe

O desembarque em Marselha – a 3 de Novembro de 1600 – é aqui representado alegoricamente.
Sobre a Rainha flutua um fauno;
Neptuno e as ninfas acompanham o navio, para garantir a sua segurança.

detalhe

Este trabalho de Rubens visa legitimar a governação de Maria de Médicis, nomeada Regente após a morte do Rei, assassinado no dia seguinte à coroação.
Começavam aqui os problemas com o príncipe herdeiro..
Os factos históricos retratados por Rubens nesta obra, adquirem assim uma importância intemporal.

Maria sejas louvada

Minotaure caressant du Mufle la Main d’une Dormeuse, 1933
Minotaure caressant du Mufle la Main d'une Dormeuse, 1933

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.
Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Bacchus, de Caravaggio

O característico tratamento da luz, salientada de forma dramática no claro-escuro da obra de Caravaggio (1573-1610) combina em Bacchus (c.1596), uma realidade simultaneamente estranha e intensamente penetrante.

Caravaggio - Bacchus, c.1596

No período das suas produções em Roma – para onde partiu em 1592 – em que trabalhou sob mecenato, Caravaggio utilizava frequentemente adolescentes nos seus temas.

Caravaggio - Bacchus, c.1596 - detalhe

Este Baco surge, não como deus antigo – na altura traço característico do Maneirismo – mas como uma figura efeminada, de feições algo rudes e olhar pouco expressivo, que nos oferece vinho segurando a taça com as unhas sujas, numa clara expressão do Realismo.

Caravaggio - Bacchus, c.1596 - detalhe

O fundo escuro, parte integrante do trabalho de Caravaggio, é aqui entendido como forma de espiritualidade associada ao culto do vinho.

Vénus e Marte, de Botticelli

A pintura florentina da segunda metade do séc. XV sofreu uma transformação cultural que evoluiu de uma cultura cívica para uma cultura palaciana, em grande medida pelo poder e influência dos Médicis.

Vénus e Marte, de Sandro Botticelli (1445-1510) ilustra essa mudança.

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Vénus e Marte - Sandro Botticelli, 1480

Vénus, a Deusa do Amor – aqui ricamente trajada e com uma postura vigilante – conquistou Marte, o Deus da Guerra, que – despojado de pensamentos bélicos – dorme no chão, rodeado pelos faunos.
Vénus e Marte refletem o amor espititual, que se sobrepõe à violência.

“O Pensamento Platónico alia-se ao Cristianismo sob a forma de tensão erótica”

É curioso como Vénus, em aparente estado de alerta, tem uma postura algo descontraída, enquanto Marte, com a cabeça reclinada, sugere algum movimento, pela postura dos braços.

venus-marte_sandro-botticelli_1445-1510_detail

Vénus e Marte - Sandro Botticelli, 1480 (detalhe)

As Banhistas, de Ingres

Jean-Auguste-Dominique Ingres ( 1780-1867), que elegeu este tema como um dos seus favoritos, expôs a sua obra em simultâneo com o trabalho de Delacroix descrito no post anterior, no Salão de Paris de1824. Para sua surpresa, foi aclamado como um dos artistas que se opunham ao Novo Romantismo.


A Banhista, 1808

Neste seu primeiro estudo sobre o nú feminino, o apelo estético reside na monumentalização da figura individual.


A Grande Odalisca, 1814

“Quanto mais simples forem as formas, maior a beleza e a força.”


O Banho Turco, 1862

Nesta obra-prima realizada nos últimos anos de vida, Ingres retoma as banhistas e odaliscas dos primeiros anos. Os motivos para estas formas femininas idealizadas que vivem apenas para a beleza e prazer, são baseados em relatos pormenorizados do oriente – descrições sobre os banhos no harém de Maomé – e as cartas onde Lady Montagu descreve os banhos turcos.

Pela beleza abstracta, a magnífica pele branca como leite, as formas graciosas dos seus corpos e os seus cabelos e pela sua sensualidade, as banhistas possuem uma inocência paradisíaca, sem gestos ou comportamentos indecorosos entre si.
A beleza intangível das mulheres – suspensa no tempo – é obtida com grande economia de meios, através dos subtis jogos de luz que lhes moldam as formas e a pele.

O décimo terceiro soneto

Sculpteur au Repos avec Modèle démasqué et sa Représentation sculptée, 1933

A palavra por que tanto me ralhaste
Vem do florentino. Fica é chamado
Aí o sexo da mulher. De traste
O grande Dante foi então apodado
Porque usou a palavra no poema
Foi injuriado, li hoje como fora
Pelo figo de Helena Páris outrora
(Mas este tirou mais proveito do esquema!)

Agora vês, que até o sombrio Dante
Se envolveu na disputa, que porfia
Por figo que afinal só se aprecia.
Não é só em Maquiavel que se proclama:
Na vida e no livro como é marcante
A briga pela parte que tem justa fama.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

O brilho da arte de Bosch.. no declínio da Idade Média

“A glória a que aspiro é a de ter vivido tranquilo […] sendo a filosofia incapaz de mostrar o caminho que conduz ao repouso da alma que a todos convém, que cada qual por seu lado o procure.”

Michel Eyquem de Montaige – Ensaios

Hieronymous Bosch | Triptico: The Temptation of St Anthony, c. 1500

Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Paixão eterna pelos demónios, pelo castigo físico e pela tentação da carne

Os heróis espirituais de Bosch eram os santos que suportavam a tortura física e psicológica e contudo permaneciam firmes. Entre estes, o seu favorito era Santo António, o tema deste tríptico.
Os trípticos de Bosch mostram-nos um mundo de sonhos e pesadelos e dão-nos uma ideia das fobias dos homens da Idade Média. As suas telas, carregadas de demónios, animais e pássaros bizarros, figuras meio homem meio bicho, cujas formas parecem brilhar e transformar-se perante os nossos olhos, revelam o lado mórbido das pestes, das guerras e do sobrenatural. Do realismo das criaturas imaginárias releva a sua convicção absoluta de que elas existiam mesmo! As imagens dos pesadelos parecem possuir um poder surrealista inexplicável! Bosch era considerado um surrealista do século XV, apenas um inventor de monstros e quimeras e as suas pinturas como fantasias milagrosas e estranhas, causando uma impressão de horror em lugar de agradável. A sua intenção não era dirigir-se ao consciente do observador mas, pelo contrário, transmitir-lhe uma certa verdade moral e espiritual, daí os seus quadros possuirem um significado preciso e premeditado.

Da vergonha na mulher

Sculpteur au Repos avec Marie-Thérèse et sa Représentation en Vénus pudique, 1933

Detesto se a mulher é de demorar
Gosto daquela, que sôfrega permita
Consolar-se logo, a vergonha expedita
Entre sedenta e esquiva sempre a arfar.
Mudá-la deve o acto desde os fundos
Até à distorção! Os corpos em rodopio
Estejam nos homens e no mulherio
Longe as cabeças como em dois mundos.
Vergonha a mais para lançar mão à carne
Do homem, prazer demais para que desarme
Julgue-se a mulher pelo metro do prazer.
Boa demais, para sentir na espera
Sôfrega demais, para não tomar o que quisera
É-lhe permitido o tino perder.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Soneto dum coito mediano

Os princípios morais ligados ao simbolismo da sexualidade são apenas uma questão de reflexo condicionado, fruto das regras e valores que ditam as diferenças culturais entre indivíduos do mesmo grupo.
A sua partilha deve tender para os tornar naturais, deixando assim, na minha perspectiva, de ser relevante a questão moral. Resta pois a questão estética e o seu simbolismo.
Identificar os traços que permitem definir uma obra como arte fazem parte de um processo cognitivo, com o qual aprendo a caracterizar a natureza simbólica de uma obra, se tem ou não valor estético.
Este caminho é solitário e mais difícil, pois consiste no desafio de saber justificar o meu juízo de valor sobre se um texto ou uma imagem são ou não obscenos, são ou não arte.
Vamos lá, então:

Scène bacchique au Minotaure, 1933

Até poder ter-te onde já canta
Espero que sejas a última jogada
E um pouco mais húmida que a outra, amada
(Ai, ainda é a esperança que na cova nos planta!)
Vejo que vai dar. Espero: devagar
Pensar nisso é doravante sina
Boa: menos amor, menos vaselina
E ela dá-me agora o coiro a suar
Com um cavalo, ai, foste conferir-me
Há cinco minutos, estou-me a cagar!
E enquanto cismo, para digerir e vir-me
Não sou o Emílio, que estás a chamar
Estou-me nas tintas, da mais alta gama
Com suor do rosto me faço a cama

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Sublimação!

Que forma tão sentida de admirar a Renascença e os seus vultos!

Sandro Botticelli (1445-1510) – Giovanna degli Albizzi Receiving a Gift of Flowers from Venus – 1486 – Fresco destacado e colocado em tela – 211 x 284 cm – Museu do Louvre, Paris

 

Para Botticelli

Pressinto que o mundo cresce de teus dedos
quando num clarão mortal se rasgam asas
e faces lívidas de anjos
choram suas raízes arrancadas do chão.

Quando o vento grita em teus cabelos
que não é o mar a seara que se ondula.

Quando um perfil destrói em si a noite
e o teu peito,
onde límpida era a sua côr.

Quando uma árvore frutifica a sua solidão
e se ilumina
com um súbito canto
ou um vulto quase irreal de ser tão breve.

Quando, de olhos sangrentos,
sentes nitidamente o anoitecer
e exausto abandonas a cabeça a mãos ausentes:
náufrago de veias que prolongam a terra,
transfigurado no rosto
onde a manhã te anuncia o seu regresso.

in Silabário, de José Bento