Posts Tagged ‘ Bertolt Brecht ’

O nono soneto

 

Le peintre masque et son modele, 1954

Quando a foder aprendeste, ensinei-te
A foder, tal que de mim esquecesses
E teu prazer do meu prato comesses
Como se amor fosse, não eu, o teu deleite.
Disse-te: mal não faz, quando me esqueces
Como se doutro te viesse o derriço!
Eu não me dou a mim, dou-te é um piço
Não é por ser meu que te traz benesses.

Se bem pretendia que te metesses
Na própria pele, não era nada a intenção
Que numa te tornasses, que não pondera
Quando, por acaso, um lhe está à mão.
Queria que de mil homens não carecesses
Para saberes o que do homem te espera.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

O nono soneto

LE PEINTRE ET SON MODÈLE (The Painter and his Model), 1954

Quando a foder aprendeste, ensinei-te
A foder, tal que de mim esquecesses
E teu prazer do meu prato comesses
Como se amor fosse, não eu, o teu deleite.

Disse-te: mal não faz, quando me esqueces
Como se doutro te viesse o derriço!
Eu não me dou a mim, dou-te é um piço
Não é por ser meu que te traz benesses.

Se bem pretendia que te metesses
Na própria pele, não era nada a intenção
Que numa te tornasses, que não pondera
Quando, por acaso, um lhe está à mão.
Queria que de mil homens não carecesses
Para saberes o que do homem te espera.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Soneto n.º 10 – Da vergonha na mulher

Vieillard Assis Avec Une Femme, Et Danseuse – 1968

Detesto se a mulher é de demorar
Gosto daquela, que sôfrega permita
Consolar-se logo, a vergonha expedita
Entre sedenta e esquiva sempre a arfar.

Mudá-la deve o acto desde os fundos
Até à distorção! Os corpos em rodopio
Estejam nos homens e no mulherio
Longe as cabeças como em dois mundos.

Vergonha a mais para lançar mão à carne
Do homem, prazer demais para que desarme
Julgue-se a mulher pelo metro do prazer.

Boa demais, para consentir na espera
Sôfrega demais, para não tomar o que quisera
É-lhe permitido o tino perder.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Canção de Baal

Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968
Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968

Se a mulher tem coxas gordas,
na relva dou-lhe um encosto

À saia e calça arejo as bordas,
ao sol – porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz,
na relva eu esfrego o rosto

O ventre, os dentes e o nariz:
limpinhos – que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso,
mas descomposto

Eu rio e dou-lhe a mão, logo:
amável, que é assim que eu gosto.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Maria sejas louvada

Minotaure caressant du Mufle la Main d’une Dormeuse, 1933
Minotaure caressant du Mufle la Main d'une Dormeuse, 1933

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.
Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

O décimo terceiro soneto

Sculpteur au Repos avec Modèle démasqué et sa Représentation sculptée, 1933

A palavra por que tanto me ralhaste
Vem do florentino. Fica é chamado
Aí o sexo da mulher. De traste
O grande Dante foi então apodado
Porque usou a palavra no poema
Foi injuriado, li hoje como fora
Pelo figo de Helena Páris outrora
(Mas este tirou mais proveito do esquema!)

Agora vês, que até o sombrio Dante
Se envolveu na disputa, que porfia
Por figo que afinal só se aprecia.
Não é só em Maquiavel que se proclama:
Na vida e no livro como é marcante
A briga pela parte que tem justa fama.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Da vergonha na mulher

Sculpteur au Repos avec Marie-Thérèse et sa Représentation en Vénus pudique, 1933

Detesto se a mulher é de demorar
Gosto daquela, que sôfrega permita
Consolar-se logo, a vergonha expedita
Entre sedenta e esquiva sempre a arfar.
Mudá-la deve o acto desde os fundos
Até à distorção! Os corpos em rodopio
Estejam nos homens e no mulherio
Longe as cabeças como em dois mundos.
Vergonha a mais para lançar mão à carne
Do homem, prazer demais para que desarme
Julgue-se a mulher pelo metro do prazer.
Boa demais, para sentir na espera
Sôfrega demais, para não tomar o que quisera
É-lhe permitido o tino perder.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Soneto dum coito mediano

Os princípios morais ligados ao simbolismo da sexualidade são apenas uma questão de reflexo condicionado, fruto das regras e valores que ditam as diferenças culturais entre indivíduos do mesmo grupo.
A sua partilha deve tender para os tornar naturais, deixando assim, na minha perspectiva, de ser relevante a questão moral. Resta pois a questão estética e o seu simbolismo.
Identificar os traços que permitem definir uma obra como arte fazem parte de um processo cognitivo, com o qual aprendo a caracterizar a natureza simbólica de uma obra, se tem ou não valor estético.
Este caminho é solitário e mais difícil, pois consiste no desafio de saber justificar o meu juízo de valor sobre se um texto ou uma imagem são ou não obscenos, são ou não arte.
Vamos lá, então:

Scène bacchique au Minotaure, 1933

Até poder ter-te onde já canta
Espero que sejas a última jogada
E um pouco mais húmida que a outra, amada
(Ai, ainda é a esperança que na cova nos planta!)
Vejo que vai dar. Espero: devagar
Pensar nisso é doravante sina
Boa: menos amor, menos vaselina
E ela dá-me agora o coiro a suar
Com um cavalo, ai, foste conferir-me
Há cinco minutos, estou-me a cagar!
E enquanto cismo, para digerir e vir-me
Não sou o Emílio, que estás a chamar
Estou-me nas tintas, da mais alta gama
Com suor do rosto me faço a cama

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Da sedução dos anjos

Sculpteur avec un Groupe sculpté (Hommage à Carpeaux), 1934

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P’ra que do choque no fim te não caia.
Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –
Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Soprava o vento pela fresta

Autoportrait Trois Formes – Peintre couronné, Sculpteur en Buste et Minotaure amoureux 1933
Autoportrait Trois Formes - Peintre couronné, Sculpteur en Buste et Minotaure amoureux 1933

Soprava o vento pela fresta
A menina comia nêspera
Antes de dar em segredo
O níveo corpo ao folguedo:
Mas antes provou ter tacto
Pois só o queria nu no acto
Um corpo bom como um figo
Não se vai foder vestido.
Para ela em tempos de ais
Nunca o gozo era demais.
Lavava-se bem depois:
Nunca o carro antes dos bois.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

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