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Claude Monet (1840-1926) “Ramo de Girassóis”, 1881

Óleo sobre tela, 101 x 81,3 cm | Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. Doação de Mrs. H.O. Havemeyer, 1929
Esta tela foi apresentada na sétima exposição ” impressionista “1882, obtendo uma excelente recepção dada a sua natureza enérgica e ousada. Neste momento da sua carreira, Monet começava a distanciar-se da sua anterior identidade enquanto uma das principais figuras do que então era o “movimento impressionista ” firmemente estabelecido, desenvolvendo uma técnica e explorando fromas de projecto artístico – em particular, variações seriais – de carácter marcadamente diferente.
Monet escolhia estes girassóis no seu próprio jardim em Vétheuil, representado aqui o aspecto fresco das flores, mas também o rápido definhar da folhagem. As flores encontram-se no que aparenta ser uma jarra chinesa ou japonesa de loiça azul e branca, que por sua vez assenta numa toalha ou num tapete de vibrante padrão vermelho. Os girassóis projectam-se em sentido ascendente, contorcendo-se e ultrapassando o limite da tela à direita e quase tocando à esquerda. Duas flores no alto e uma outra, em representação frontal, ao centro, formam um triângulo de três espécimes magníficos.
Após uma observação atenta, a sua vibração cromática deve-se a uma interacção de amarelos e vermelhos cuidadosamente construída , evidenciando-se graças ao opulento fundo de azuis e rosas difusos e aos intensos vermelhos, azuis e verdes da toalha. O recurso a contrastes de cores complementares aplicadas em pinceladas e retocadas diversas vezes é característico da alteração registada na técnica de Monet nesta fase. O que torna esta obra tão irresistível é o contraste estabelecido entre o notável efeito visual deste ramo selvagem e o fervilhar quase incoerente da superfície pintada da toalha ou da folhagem quando observada de perto.
Neil Cox, comissário da exposição A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa (1840-1955)
por: Teresa Pizarro, in
 Molduras – Antena 2

“A persistência da imagem na retina”

O princípio, atribuído a Joseph-Antoine Plateau (1801-1883), traduz-se no fenómeno da velocidade de transmissão das imagens ao cérebro, que as interpreta como movimento se a sua sequência for animada. Foi essa ilusão que os Irmãos Lumière criaram através do seu Cinematógrafo com a projecção, em 28 de Dezembro de 1895, da Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière. Nascia assim o cinema!

«Dream Lover»

«Odeio Valentino! Nós, os homens, todos os homens, odiamos Valentino! E estamos no direito de o odiar! Odeio o seu nariz clássico, a sua cara romana, odeio a ambiguidade do seu sorriso e o brilho dos seus dentes brancos; odeio o corte oriental dos seus olhos e esse olhar fixo e penetrante como o de Svengali; (…) odeio-o por ter feito amor no ecrã com belezas como as de Dorothy Dalton, Nita Naldi, Gloria Swanson, e porque muitas, muitas mais, dariam qualquer coisa para ter estado no lugar daquelas.»

Prenda da Melhor Filha do Mundo!

A fascinating document of Keith Jarrett’s solo concert in Rio de Janeiro on April 9, 2011. The pianist pulls a broad range of material from the ether: thoughtful/reflective pieces, abstract sound-structures, pieces that fairly vibrate with energy. The double album climaxes with a marvellous sequence of encores. 40 years ago Keith Jarrett recorded his first ECM disc, the solo piano “Facing You”. He has refined his approach to solo music many times since then, always finding new things to play. So it is here, in this engaging solo recording from Brazil.
Almost exactly forty years ago, Keith Jarrett’s association with ECM began with the recording of a solo piano album. “Facing You” (1971) was soon followed by the initiation of the solo concerts, evenings of piano improvisations, documented now on a range of influential live recordings which include “Solo Concerts (Bremen-Lausanne)”, “The Köln Concert”, “Sun Bear Concerts”, “Concerts (Bregenz-München”), “Dark Intervals”, “Paris Concert”, “Vienna Concert”, “La Scala”, “Radiance”, “The Carnegie Hall Concert” and “Testament, Paris-London”. The span of music addressed on these albums is vast, but they share a common genesis in improvisation, as well as a most remarkable artistic consistency. If it is no longer uncommon for improvisers to fill an evening’s music-making alone, Jarrett remains unrivalled in his capacity to uncover new forms in the moment: the concept of ‘spontaneous composition’ is more than an ideal here.
Latest in the series of ongoing solo concert recordings is “Rio”. Jarrett had played Brazil only once before, more than two decades ago, and said, before his South American concerts, that he felt he had “unfinished business” there: “I really had no idea what I meant, but this concert is it. Everything I played in Rio was improvised, and there is no way that I could have gotten to this particular musical place a second time, or in a different country: not even in a different hall or with a different audience, or on a different night.”
“Rio” documents the entire spontaneous concert at the Theatro Municipal, Rio de Janeiro on April 9, 2011. The music that emerges, on this instance, has an intensely lyrical core, reflected in the fifteen short pieces that make up the concert. There is an intimate quality, too, which draws the listener toward it, from the first moments. Jarrett feels the concert was one of his best: “jazzy, serious, sweet, playful, warm, economical, energetic, passionate, and connected with the Brazilian culture in a unique way. The sound in the hall was excellent and so was the enthusiastic audience.”
Via ecmrecords.com

O mecenato papal na Roma do século XVI, através do génio de Kapsberger

De Johannes Hieronymus Kapsberger, autor de génio veneziano de ascendência alemã (1580-1651) que desenvolveu em Roma o estilo dos instrumentos de corda dedilhada, sugiro a peça Passacaglia do Libro quarto d’intavolatura di chitarrone (1640), interpretada pelo norueguês Rolf Lislevand (alaúde e tiorba).
A escolha foi inspirada pela audição do Musica Aeterna de 10 de Dezembro de 2011.


Árvore de Natal

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“Voyage à travers l’impossible”, de Méliès – 1904

No dia em que se celebram os 150 anos do nascimento do realizador de “Le voyage dans la lune”  de 1902, considerado o primeiro filme de ficção científica, recordo outra criação de Georges Méliès (1861-1938):  “Voyage à travers l’impossible” de 1904.
O texto foi retirado da página de Pedro Foyos, que decidiu evocar o extraordinário percurso de vida  do “mágico do cinema”.

Na esteira de A Viagem à Lua (1902), este filme celebra historicamente a consolidação da ficção científica nos alvores maravilhosos do cinema. Georges Méliès, no apogeu da criatividade, apercebera-se que o género cativava públicos diferenciados, a começar pelas crianças, e insistiu na fórmula das viagens fantásticas pelos espaços siderais. A Viagem à Lua havia sido, de facto, um grande êxito. O pioneiro francês, sob a torrente dos incentivos e louvores arrebatados, resolveu-se, então, a levar mais longe a sua fantasia soberba.

Desta vez, a viagem seria extravagantemente impossível, incluindo uma passagem pelo Sol. Nem mais, nem menos. Nos seus quase trinta minutos de projecção,Viagem Através do Impossível é uma obra-prima da incipiente e ingénua expressão cinematográfica, com o génio de Méliès a operar magias e deslumbramentos inesperados. Anunciado, na época, como o mais fantástico filme de sempre, esta obra é claramente uma versão aumentada e melhorada de A Viagem à Lua, repetindo algumas das conceções primordiais do guião anterior, inclusive a forma como a expedição colide com o Sol (aqui representado, como sucedia com a Lua, por uma face humana, resplandecente). Os exploradores – doze sábios acompanhados das respectivas esposas – procedem do Instituto da Geografia Incoerente (!) e defrontam-se com vicissitudes inúmeras, de um cómico pueril. Quadros belos e primitivos como as quimeras infantis. De trambolhão em trambolhão, muitos desastres tresloucados (uma grande explosão, inclusive, conduzi-los-á ao hospital…), acabam por levar a bom termo o homérico cometimento, sendo acolhidos, no regresso, com frenéticas demonstrações de folia.

Com a extensão invulgar, para o tempo, de 380 metros (a popularidade da fita foi tão grande que o cineasta adicionar-lhe-ia três cenas extra, perfazendo meia hora de projecção – facto inédito), continuam a prevalecer neste filme as convenções estéticas do teatro filmado, com Méliès desdobrando-se nas funções de produtor, distribuidor, realizador, argumentista, encenador, maquetista, director do guarda-roupa e… actor. Era a época do cinema puramente artesanal. Não muito depois, sob o ímpeto suicida de concorrer com a Pathé, que começava a assentar as primeiras pedras do edifício da grande indústria cinematográfica, Méliès declinaria gradualmente para a produção caudalosa, repetitiva, excessiva e vulgar.
Naquele ano de 1904, todavia, ele era ainda o artífice quase isolado que maravilhava multidões com fantasias e trucagens nunca vistas. No seu estúdio envidraçado de Montreuil – o primeiro do mundo – pintava cenários prodigiosos que refulgiam ao Sol. As filmagens, realizadas sempre com a luz natural envolvente, subordinavam-se às coordenadas solares. Um dia, ao dar-se conta de que o Sol era, em simultâneo, a convergência e a irradiação da sua arte, pintou-o e viajou até ele. A viagem não é impossível.
Texto de Pedro Foyos

 

Terrence Malick

O realizador de ‘A Árvore da Vida‘, obra prima absoluta do cinema e um dos grandes filmes deste século, completa hoje 68 anos. 
Integrado num Ciclo paralelo à Retrospectiva Nicholas Ray, nos dias 19 e 21 de Dezembro a Cinemateca exibe  “BADLANDS” – Os Noivos Sangrentos, de 1973.

A primeira longa-metragem de Malick é um thriller inspirado num caso verídico que teve lugar nos anos 50 no sudoeste dos EUA, e ecoa o percurso de Bonnie e Clyde na década de 30. Martin Sheen e Sissy Spacek formam o par de jovens que têm de enfrentar a oposição paterna para a sua união. Daí resulta o assassinato do pai da rapariga e, depois, uma série de crimes e uma feroz perseguição, com a imprensa a explorar o carácter passional dos acontecimentos. As influências de Malick, como os seus fi lmes posteriores confi rmariam, não se reduzem a Ray; mas, depois de Ray, quem mais soube filmar assim os anos 50 e os “rebeldes sem causa”?

Bach transcendente

Por Cristina Fernandes, in Ípsilon – 16-Novembro-2011

Uma superlativa interpretação de Philippe Herreweghe e do Collegium Vocale Gent

Nas duas últimas décadas Philippe Herreweghe tem sido responsável por algumas das mais belas gravações das Cantatas de Bach. Ao contrário de outros maestros que se lançaram na ambiciosa aventura da integral (como é o caso de Ton Koopman, John Eliot Gardiner ou Masaaki Suzuki), Herreweghe tem optado antes por uma selecção criteriosa de cantatas, unidas por vínculos temáticos diversos, sem a preocupação de ser exaustivo.
Este último volume, intitulado “Jesu, deine Passion“, constitui uma espécie de coroa de glória desse percurso, já que é excepcional a todos os níveis. Toda a música que Bach escreveu é de qualidade superior, mas as quatro Cantatas agora registadas (BWV 22, 23, 127 e 159) representam pontos culminantes do génio do compositor pela sua exaltante inspiração e pela densidade da própria construção musical.
As Cantatas BWV 22 e 23, destinadas ao primeiro domingo antes da Quaresma, funcionaram como “peças de concurso”, quando Bach se candidatou ao lugar de Kantor da Igreja de São Tomé em Leipzig, pelo que é natural que o compositor se tenha esmerado na sua concepção. As BWV 127 e 159 foram escritas para o mesmo serviço litúrgico nos anos seguintes.
A interpretação de Herreweghe e dos seus músicos é primorosa, tanto nos planos técnico e estilístico, como no modo em que combina emoção e espiritualidade. As intervenções do coro revelam uma luminosa transparência, os solistas – a soprano Dorothee Mields, o contralto Matthew White, o tenor Jan Kobow e o baixo Peter Kooy – cantam com enorme convição e um sentido retórico apurado da relação texto-música e os instrumentistas são exemplares, com destaque para os belíssimos solos de oboé (com o grande Marcel Ponseele), que dialogam com as vozes em múltiplas árias. Também as flautas de bisel têm intervenções eloquentes (por exemplo, na ária “Die Seele ruht”, cantada com delicada sensibilidade por Dorothee Mields) ou os trompetes no recitativo “Wenn einstens die Posaunen Schallen”, verdadeira cena dramática evocadora do Juízo Final. A Cantata BWV 159 recorda o universo da “Paixão segundo São Mateus”, destacando-se a poderosa ária de baixo “Es ist vollbracht” e a ária de contralto “Ich folge di nach”, que se desenrola em contraponto com o soprano que entoa a estrofe do conhecido coral “Ich will hier bei dir stehen”.

“Música Antigua” – Cantigas de Santa Maria

A  Mostra Espanha 2011 traz as Cantigas Galaico-Portuguesas a Coimbra. O grupo Música Antigua, que no próximo dia 5 de Dezembro se apresentará em concerto no XIV Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza sob a direcção de Eduardo Paniagua, recupera e interpreta as Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio, bem como a música contemporânea deste singular rei poeta. O concerto na cidade dos estudantes realiza-se a 30 de Novembro, às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente – Fundação Cultural da Universidade de Coimbra.

Até ao século XIV, o idioma utilizado na poesia e nas canções nos reinos de Castela, Leão e Portugal era o antigo idioma galego, tecnicamente designado galaico-português. Na corte de Afonso X, o Sábio, a língua castelhana é definitivamente considerada como o idioma oficial para os documentos científicos e históricos, suplantando o latim.

Paula vega (soprano), Luis Vincent (countertenor), Cesar Carazo (tenor, viol), Wafir Sheik (‘ud), Luis Delgado (zanfona, vihuela, dotar, santur, tromba marina, tambourine, percussion), Eduardo Paniagua (psaltery, recorders, ney, fahl, shawm, krumhorn, tar, bells, tambourine, percussion)