Archive for the ‘ Artes ’ Category

Aquamanil

A dinâmica forma, um peixe que se enrola em equilíbrio sobre uma base, isola esta peça no contexto da faiança portuguesa da 1ª metade do século XVII. Como o nome sugere, aquamanil era um recipiente destinado a levar ‘água às mãos’ e a sua utilização estava reservada à mesa em ocasiões de cerimónia.
A originalidade formal, o brilhante colorido a amarelo e azul, o desenho que destaca as escamas e aumenta caricaturalmente o olho vivo e os dentes aguçados deste peixe definem uma escrita apropriada à decoração da peça. Na cabeça e no buxo, as folhas de acanto recordam um dos motivos característicos da gramática decorativa portuguesa. Via.

Aquamanil - 1ª metade do século XVII - Faiança - 22,2 x 20,6 cm

De Amadeo a Paula Rego, 50 Anos de Arte Portuguesa (1910-1960)

María Jesús Ávila escreveu em 2005, no âmbito da Exposição “DE 1850 AOS PRIMEIROS MODERNISMOS”, o texto que a seguir se reproduz, como que antecipando a Exposição “De Amadeo a Paula Rego, 50 Anos de Arte Portuguesa (1910-1960)”, inaugurada anteontem no MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA – MUSEU DO CHIADO.
Maria João Caetano publicou ontem no DN um Especial dedicado à Exposição, que inclui uma entrevista ao Director do MNAC, Pedro LapaEsta página foi elaborada a partir do Programa da Exposição.

Os Modernismos, iniciados com grande esforço e empenho nos anos 10 do séc. XX, por serem iniciadores haveriam de se debater, ao longo das três primeiras décadas, entre memoráveis momentos de euforia e possibilidade de futuro e momentos de perigoso reaccionarismo, como era natural num meio em que ainda dominavam estruturas sociais e culturais próprias do séc. XIX.Amadeo de Souza-Cardoso - Cabeça, c.1913
As rupturas não existiram, só lentas transformações não estruturais, que esqueceram durante anos os logros de alguns, deixaram outros pelo caminho e noutros ainda provocaram viragens conservadoras. Situação que a mudança política ocorrida em 1926 e, em especial, a definição de uma “Política do Espírito” por António Ferro e a criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) em 1935, irá favorecer. Após o parêntese que constituem Amadeo de Souza-Cardoso e o surto futurista da década de 10, confuso teoricamente e reduzido, nas artes plásticas, aos breves exemplos que representam a Cabeça de Santa Rita e as experiências órficas de Eduardo Viana, os anos 20, embora abalados por um certo desânimo generalizado, haviam de conhecer alguns importantes episódios de activismo, edição de publicações e realização de obras. A renovação formal, tímida, processa-se através de referências à organização volumétrica de Cezánne, ao Picasso classicista e, na escultura, a Rodin. Encontra em José de Almada Negreiros, Eduardo Viana, Dordio Gomes, Carlos Botelho, Abel Manta, Francisco Franco, Diogo de Macedo e Ernesto Canto da Maia, algumas das suas melhores expressões. Na década seguinte, esta vertente dará lugar a um novo academismo, o de uma “equilibrada” expressão moderna, que haveria de conferir às artes plásticas portuguesas um carácter atemporal. Daqui destacar-se-ão pontualmente, e em percursos muito individualizados, o expressionismo de Mário Eloy, Júlio, Alvarez e Hein Semke, as experiências dimensionais e surrealistas de António Pedro e, em especial, as conquistas espaciais que, em Paris, Vieira da Silva desenvolve.

Camões e a Astronomia

Celebramos hoje o Príncipe dos Poetas. No dia em que passam quatrocentos e vinte e nove anos sobre a sua morte, vale a pena recordar dois conjuntos de textos que analisam as referências astronómicas utilizadas por Camões em “Os Lusíadas”:

Em primeiro lugar, a Professora Carlota Simões desenvolveu no Portal do Astrónomo oito temas (A viagem de Vasco da Gama – A LuaO SolAs UrsasO Cruzeiro do SulAs dez esferasO firmamentoOs céusO movimento dos auges e estrelas fixas ) que permitem conhecer um pouco da obra de Luciano Pereira da Silva – A Astronomia de “Os Lusíadas”.
Numa série de artigos publicados entre 1913 e 1915 na Revista da Universidade de Coimbra, LPS mostra que “Camões tinha um conhecimento claro e seguro dos princípios da astronomia, como ela se professava no seu tempo” e deduz que as ideias astronómicas de Camões decorrem das anotações de Pedro Nunes sobre os textos de Johannes de Sacrobosco, cuja obra Camões mostra conhecer com rigor, quando no Canto X coloca na voz da Deusa Tethis a descrição do mundo tal como esta é descrita no “Tratado da Sphera” , considerada a principal fonte astronómica de “Os Lusíadas”, a par da informação recolhida nos diários de bordo da viagem de Vasco da Gama e nas tábuas náuticas.

Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo,
Quem é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

Canto X – 80

Em segundo lugar, as Palestras do professor Félix Rodrigues, subordinadas ao tema A astronomia na obra de Camões – partes I – II – III –, no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Astronomia.

Giovanni Battista Tiepolo – Thetis Consoling Achilles, 1757

Transcendência Improvável

Da árvore solitária imana o sentimento de melancolia do poeta. 

Piet Mondrian – Avond (Evening); Red Tree, 1908.
Haags Gemeentemuseum, The Hague

O Homem que Contempla 

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
 

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

 

Rainer Maria Rilke, in Das Buch der Bilder O Livro das Imagens, 1902
Tradução de Maria João Costa Pereira

Emília

 Criar-me, recriar-me, esvaziar-me, até
que o que de mim um dia, morto, vá
para a terra, não seja eu; enganar honradamente,
plenamente, com vontade firme,
o crime, e deixar-lhe este espantalho negro
do meu corpo, como sendo eu!
                                                                     E esconder-me,
a sorrir, imortal, nas margens puras
do rio eterno, árvore
– num poente imarcescível –
da imaginação mágica e divina!

Ruan Ramón Jimenez, 1923?
Benjamín Palencia - Las edades de la vida, 1932

Benjamín Palencia - Las edades de la vida, 1932

Darwin: A Life in Poems

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‘Plankton’

The deck is dazzle, fish-stink, gauze-covered buckets.
  Gelatinous ingots, rainbows of wet flinching amethyst
  and flubbed, iridescent cream. All this
means he’s better; and working on a haul of lumpen light:

polyps, plankton, jellyfish and sea butterflies, the pteropods.
  “So low in the scale of nature, so exquisite in their forms!
  You wonder at so much beauty — created,
apparently, for such little purpose!” They lower his creel

to blue pores of subtropical ocean. Wave-flicker, white
  like a gun-flash over the blown heart of sapphire.
  Peacock eyes, beaten and swollen,
tossing on lazuline steel.

in Darwin: a life in poems (2009), de Ruth Padel – descendente de Darwin

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Grande Panorama de Lisboa

Da Cruz-Quebrada ao Beato são cerca de 14 quilómetros de frente ribeirinha. O Grande Panorama da Lisboa anterior ao Terramoto de 1755, reproduzido num monumental painel de azulejo com 23 metros de comprimento, está no Museu Nacional do Azulejo.  Tem também destaque aqui.

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Os novos primitivos

Les joueurs de football, 1908

Henri Rousseau - Les joueurs de football, 1908

 
Nous te saluons
Gentil Rousseau tu nous entends
Delaunay sa femme, monsieur Queval et moi
Laisse passer nos bagages en franchise à la porte du ciel
Nous t’apporterons des pinceaux des couleurs et des toiles
Afin que tes loisirs sacrés dans la lumière réelle
Tu les consacres à peindre comme tu tiras mon portrait
La face des étoiles.

Guillaume Apollinaire

Apólogo da Morte

Esta alegoria da morte representa o triunfo do imponente Ceifeiro. Com um pé em cima do mundo e outro sobre alguns símbolos de poder, segura um caixão debaixo do braço e, com a mão, apaga a vela-luz-da-vida.  Tal como em “Finis Gloriae Mundi”, caminhamos todos alegremente para o grande festim dos bichos, sejamos santos ou pecadores 🙂

 

Juan de Valdés Leal - In Ictu Oculi, 1670-72

Juan de Valdés Leal - In Ictu Oculi, 1670-72

 

Soneto LXXXI – Moral

Vi eu um dia a Morte andar folgando
por um campo de vivos que a não viam.
Os velhos, sem saber o que faziam,
a cada passo nela iam topando.

Na mocidade os moços confiando,
ignorantes da Morte a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam;
ela a todos co dedo os vai contando.

Então quis disparar e os olhos cerra:
tirou e errou: Eu, vendo seus empregos
tão sem ordem, bradei: Tem-te, homicida!

Voltou-se e respondeu: Tal vai de guerra!
Se vós todos andais comigo cegos,
que esperais que convosco ande advertida?

 

Francisco Manuel de Melo

A Moira Encantada

A descoberta do manuscrito de Garrett por Cristina Futscher Pereira, foi publicada aqui.

 

Por manhã de San’João,
Que inda a aurora mal raiava,
E as ervas e as flores
Fino orvalho rociava,
Levantou-se o irmão mais velho
Do leito aonde velava:
Eram três todos pastores,
Cada um seu gado guardava.
Levantou-se o irmão mais velho,
Dos outros se recatava;
Foi direito à Fonte Santa,
Por ver que sorte deitava
Na manhã de San’João
Manhã de benta alvorada.

Banhando na fonte pura
Uma donzela se estava,
Seus cabelos de oiro fino
Com seu pente penteava.
Cada vez que corre o pente
Aljôfares desatava;
O seio tem descoberto,
Seio que de alvo cegava;
Cobre-lhe água o mais de corpo,
O mais que se imaginava.
Tem uma chave na mão,
Chave de oiro que brilhava.

– «Que buscais, pastor,
Que buscais nesta alvorada?»
– «Eu me vim à Fonte Santa
A ver que sorte deitava
Que a pobre vida que levo
A tenho almadiçoada».

– «És diligente pastor,
E bom fado te fadava,
Que chegaste à Fonte Santa
Quando eu nela me banhava».
Passam dias, passam meses,
Um ano inteiro passava,
E ninguém na Fonte Santa
Não vê a Moira encantada,
Senão só nesta manhã,
Manhã de benta alvorada.

– «Sejas tu moira ou cristã,
Ou sejas demónio ou fada:
Tira-me da pobre vida
Que trago almadiçoada.»

– «Escolhe por tuas mãos
Escolhe o que mais te agrada,
Ou ser rico – ou se feliz,
Ter poder e nomeada».
– «A riqueza dá ventura,
Dá poder e nomeada:
Quero ser rico, donzela,
Que o mais depois o comprava».

Com sua chave de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Abrira-se uma caverna,
O pastor por ela entrava.
‘Té às entradas da terra
A sua vista penetrava;
Quanta riqueza há no mundo,
Toda a riqueza ali estava.
De fina prata os rochedos,
A areia de oiro brilhava,
Os seixos puros diamantes
Que os olhos lhe cegava.
Tomou quanto pôde e quis,
Milhões e milhões tomava.
Nem mais não viu a donzela
Que na fonte se banhava,
Nem mais viu nada no mundo
Do que o oiro que levava.
Não tornou mais à cabana.
Dos irmãos não se lembrava,
Foi-se direito à cidade,
Terra e haveres comprava.

Já o sol vem arraiando
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava.

Ali dizem estar a moira,
Aquela moira encantada
Que só na manhã bendita
Se mostra pela alvorada:
Vê-la, foi vista por muitos,
Por ninguém desencantada.

Já o sol dá na choupana,
E os dois irmãos acordava,
Saíram com seus rebanhos
Que cada um deles guardava.
Passam horas, passam dias,
Viram que o outro irmão não tornava.
Dizia o irmão segundo
Ao mais novo, que chorava:
– «Fortuna achou nosso irmão
Que à choupana não voltava!».
Ele triste respondia:
– «Pobre de quem não voltava».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores regava.
Levantou-se o irmão segundo
Apenas a alva alvejava.
Finge o mais novo que dorme
Mas não dormia, velava:
Contenta da sua sorte,
Mais sorte não cobiçava;
Por manhã de San’João.
Sua sorte não deitava.

Foi-se o outro à Fonte Santa,
A mesma donzela aí estava
Que o seu corpo delicado
Nas puras águas banhava
Mas os seus cabelos de oiro
Agora negros mostrava.
Uma coroa real
Sua cabeça coroava;
Ceptro que tinha na mão
De majestade cegava.
– «Bem-vindo sejas, pastor,
Bem-vindo nesta alvorada,
Que vieste à Fonte Santa
A ver a moira encantada:
A sorte de teu irmão
Em ti será melhorada:
Como ele podes ser rico,
Ou ter mando e nomeada,
Ou podes ser venturoso
Se a ventura mais te agrada».
– «Só uma sorte no mundo,
Uma sorte eu invejava,
Que é senhor e ter mando,
Tudo o mais por isso eu dava».

Sorriu de um triste sorriso
A donzela que o escutava:
Com o seu ceptro de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Logo um soberbo castelo
Da rocha se alevantava
E um pendão de nobres armas
Nas ameias tremulava:
De escudeiros e vassalos
A torre se povoava,
Grande pompa de cortejo
À porta da torre estava.
– «Aí tens grandeza e mando,
Tudo o que mais cobiçava
O teu coração, pastor,
Que mais nada desejava».

Entrou na torre o pastor,
Entrou na torre fadada,
Não disse adeus à donzela,
Não se lembrou de mais nada.
Era grande, era senhor,
Aos seus vassalos mandava.
Nem voltou mais à choupana
Nem dos irmãos se lembrava.

Lá vinha o sol arraiando,
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava:
Era a moira – a pobre moira
Cada vez mais encantada.

Já o sol dá na choupana,
O irmão móis moço espertava,
Leva o seu rebanho ao pasto
Que agora ele só guardava.
Passam dias, passam meses,
Viu que o irmão não voltava;
Triste, dizia consigo
– «Pobre do que não tornava!».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores rociava.
Com saudades dos irmãos
O mais moço despertava:
– «Foi por tal manhã como esta
Que um e outro se ausentava.
Esta querida choupana
Que nosso pai fabricava,
Onde ao leite de seu peito
A nossa mãe nos criava,
Nenhum mais cá tornava
Ambos seu fado os levava!
Que sorte seria aquela
Que o coração lhes mudava?
Vou-me eu à Fonte Santa
Vou também nesta alvorada».

À fonte se foi direito
Inda a alva não alvejava,
Deu co’a formosa donzela
Que na fonte se banhava.
Tão bela como os mais anos
E ainda mais bela estava.
Nem de pedras preciosas,
Nem de pérolas se toucava,
Nem ceptro, nem chave de oiro
Na sua mão não brilhava;
Tinha uma c’roa de rosas
Alva, que de alva cegava;
As suas claras madeixas
Pelos ombros debruçava;
Com um sorriso de amor
Os alvos dentes mostrava;
No puro azul de seus olhos
Um céu aberto mostrava.

– «A que vens aqui, pastor,
A que vens nesta alvorada?
Que queres da Fonte Santa
Da sua moira encantada?».

– «Novas quero, buscar novas
De dois irmãos que eu amava,
Que há um ano e dois que se foram,
Que deles não sei mais nada.»

– «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando,
É senhor de capa e espada».

– «Dize-me tu, ó donzela,
Por esta benta alvorada,
E San’João te dê ventura,
Que sejas desencantada,
Dize-me se são felizes
Co’a sorte que lhes foi dada».

– «A sua sorte neste mundo
A ninguém não é deitada,
De escolher cada um por si
A liberdade lhe é dada:
Feliz o que bem escolhe,
Infeliz quem mal se fada!
Pastor, tu que és tão discreto,
A ti que sorte te agrada,
Ser rico, ou ser venturoso,
Ter poder e nomeada?».

– «Felizes são meus irmãos
Com a sorte que lhes foi dada?».
– «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando
É senhor de capa e espada».
– «Quer-lhe alguém bem neste mundo?».
– «Seu poder, sua riqueza
De todos é invejada».
– «Adeus formosa donzela,
Adeus moirinha encantada!
Que eu me vou ao meu rebanho,
Que já a manhã é nada».

– Pastor, toma esta capela
Que por ti foi bem ganha.
Do puro orvalho do céu
Nesta manhã foi banhada,
De frescas rosas tecida,
Por San’João abençoada.
Terás por ela a ventura,
A ventura bem fadada,
Que a moira da Fonte Santa
Há mil anos encantada
Tua será de alma e corpo,
Por ti foi desencantada».

Ventura todos a querem
Por todos é desejada:
Não a tem quem a procura,
A quem não a busca é dada.