Archive for the ‘ Efeméride ’ Category

Alexandre Herculano e o Ensino Público

No dia em que se comemora o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano, reuni nesta página alguns artigos publicados na imprensa e textos em blogs.
Neste post reproduzo o capítulo dedicado à análise do pensamento de Herculano sobre o Ensino Público, in “História do Pensamento Filosófico Português”, sob a direcção de Pedro Calafate e coordenação de Manuel Cândido Pimentel – Volume IV, O Século XIX, Tomo 2, pp.45-57.


A educação do período liberal conhece, pois, a importância dos ideais da «escola única». Daí a importância atribuída ao ensino primário, sendo que um dos intelectuais portugueses que mais sublinhou a importância deste grau inicial de ensino foi precisamente Alexandre Herculano, empenhado que estava na transformação do súbdito em cidadão, partindo dos instrumentos jurídicos já enunciados na Carta Constitucional de 1826, bem como no princípio constitucional de 1820 que afirmava o dever que a todos os cidadãos assiste de serem «justos e bons».

Na realidade, no célebre opúsculo significativamente intitulado «Instrução Pública» (1833), Herculano não deixa de elogiar a dinâmica instaurada na Europa pela Revolução Francesa, que, a despeito dos seus «desmandos», contribui, segundo refere, para a aceitação geral do princípio de que «a república deve dar aos cidadãos um instrução geral», elogiando, por isso mesmo, a Carta Constitucional, que consagra, como vimos, o mesmo princípio.

Fora com efeito a constituição francesa de 4 de Setembro de 1791 que avançara com a obrigatoriedade para o Estado francês de «criar e organizar uma instrução pública comum a todos os cidadãos e gratuita naquela parte que é indispensável a todos os homens». Foi este o ideal fundamental da chamada «escola única», também veiculado por Alexandre Herculano, na medida em que se identificava com a tese da criação de uma escola pública comum a todos os cidadãos, num quadro de universalidade e obrigatoriedade.

O núcleo do pensamento de Alexandre Herculano no domínio da educação volta-se para a concepção desta não apenas como um direito do indivíduo feito cidadão mas sobretudo como um direito da sociedade. Por isso, equaciona a instrução primária simultaneamente como garantia pública e como garantia individual, referindo-se-lhe, então, como «garantia mista».

No primeiro caso, enquanto garantia pública ou geral, a instrução primária era encarada em três vectores complementares, de natureza política, moral e económica: primeiro, como assegurando a espontaneidade e a independência do elemento capital dos governos representativos, ou seja, a eleição e a vitalidade do poder municipal, contra as tentativas centralizadoras do poder central, aspecto em que Herculano revela o seu acentuado municipalismo de feição romântica; segundo, como agente moralizador do país, diminuindo a necessidade de leis excepcionais, aspecto que considerava dever ser assegurado pelo ensino básico da religião, maugrado o seu conhecido anticlericalismo, e, finalmente, num contexto essencialmente pragmático, na medida em que a difusão e o alargamento da instrução pública favoreceria o acréscimo da indústria, aumentando a riqueza e promovendo o engrandecimento da nação.

Já como garantia individual, a educação básica, de vertente universal, «realiza o direito que tem qualquer cidadão de aperfeiçoar o seu entendimento, não só para se ajudar desse aperfeiçoamento no género de indústria a que se dedica mas também para poder avaliar o estado das coisas públicas, os actos e as opiniões dos que governam, erguendo-se assim, de feito, à dignidade de homem livre».(1)

Nesta caracterização, Herculano dava expressão a uma das traves mestras do seu pensamento, na medida em que sempre viu na essências das associações humanas, em todas as épocas e em todas as nações, a acção de um princípio fundamental: o sentimento inato da dignidade e da liberdade pessoal, conjugado com o princípio da desigualdade acidental entre os indivíduos. Por isso, condenava a monarquia centralizadora e o absolutismo dos reis por por contrariarem e ofenderem o princípio da dignidade individual, como condenava também o socialismo, por assentar, no seu parecer, na tese de uma quimérica igualdade entre os indivíduos. A solução ideal estaria no estudo das instituições medievais, mormente do municipalismo, a fim de as harmonizar com «a ilustração do século«.

Assim, o seu combate visava harmonizar a instrução, entendida como direito universal, com a vitalidade da vida política, sendo deveras interessantes as suas considerações a este respeito. De facto, Herculano sempre se apresentou como «liberal ferrenho», sendo, no entanto, bem conhecidas as suas diatribes contra a «democracia».

Urge por isso distinguir no seu pensamento, os dois conceitos: a democracia de que se não mostrou partidário, era o regime que implicava o conceito de soberania popular, a qual apenas poderia ser aceite se todos os indivíduos em Portugal estivessem em condições de exercer o voto num quadro de probidade e independência.
Não era isso que sucedia no seu tempo. Para que esse sistema representativo pudesse funcionar, seria mister que a cultura e a vida política fossem levadas a todas as extremidades do corpo nacional, transformando-se a instrução não apenas num direito já consignado mas num facto real.

Ora, é fora de dúvida que Herculano tinha – a despeito da defesa do princípio da universalidade da instrução pública – uma concepção elitista da sociedade, alicerçada no princípio da desigualdade social (não da desigualdade civil, que ofenderia o princípio da dignidade humana), concebendo, por isso, que «a ideia de pátria concebem-na as classes superiores, cujos horizontes intelectuais são mais vastos, e entre as quais a faculdade de generalização se desenvolve desde a meninice (…). São elas que constituem o laço desses diversos patriotismos locais, que lhes dão unidade, que sem os destruir os organizam, para estribar sobre eles o sentimento geral de nacionalidade».

Sobre este pano de fundo da igualdade essencial e civil e da desigualdade acidental dos indivíduos, a instrução pública surge-lhe como um «dever da sociedade e direito do indivíduo», mas, simultaneamente, como «dever do indivíduo e direito da sociedade», isto é, a instrução pública não é apenas um direito do cidadão, porque a educação é também uma garantia social, não é apenas um benefício do cidadão, mas também uma utilidade pública.

Desta dupla vertente da instrução pública deriva a sua consideração em dois níveis: uma instrução geral elementar obrigatória para todos; uma instrução geral superior facultada a todos e, por isso, não obrigatória. A primeira cumpriria a vertente do homem considerado como cidadão e membro da República; a segunda a vertente do homem considerado como indivíduo, à semelhança do que sucedia na Prússia, a qual estabelecera um ensino primário elementar e um ensino primário superior, este último sob a designação de «bürgerschulen» ou escolas burguesas, compreendendo ambos os níveis as mesmas matérias, mas em escala e graus de profundidade diferentes.

O primeiro nível assegura e garante fins principalmente sociais; já o segundo assegura fins principalmente individuais; o primeiro, repetimos, é obrigatório para todos; o segundo é facultado a todos, realizando-se assim o princípio da desigualdade a que acima fizemos referência, sem obstruir o princípio da igualdade civil.

O primeiro grau da instrução pública compreenderia a leitura, a escrita, os rudimentos da matemática e o catecismo religioso (no qual via a «moralidade possível» para a infância); o segundo compreenderia e extensão do ensino da escrita ao estudo aprofundado da gramática; a história e a geografia pátrias; a aritmética completa, a geometria, os rudimentos da física, da química e da botânica.

No entanto, ambos os fins se harmonizam, porque a instrução nas escolas primárias superiores habilita o indivíduo a desempenhar superiormente os seus deveres públicos numa escala ascendente; ao passo que a instrução elementar habilita todos os cidadãos a participar no elemento capital dos governos representativos, ou seja, na eleição dos seus representantes, ao mesmo tempo que favorecia o desenvolvimento da actividade económica do país.

Num esclarecedor juízo de valor a propósito da tese de Herculano de que o ler, escrever e contar, associados ao catecismo religioso, bastariam para fornecer as bases de uma educação cívica, valerá a pena ler as palavras do filósofo da educação que analisaremos no ponto imediatamente a seguir. Diz, com efeito, Francisco Adolfo Coelho: «Não se compreende até facilmente como é que um tal homem pensasse um momento que semelhante ensino bastasse para “habilitar os indivíduos para desempenharem as obrigações que lhes há-de impor a sociedade, como cidadãos de um país livre”.» (2)

Sucede, porém, como propõe de resto o mesmo Adolfo Coelho, que uma apreciação do pensamento de Herculano sobre a educação não pode esquecer que se tratava de um espírito essencialmente «prático», num país de vasto analfabetismo. A sua preocupação tinha uma componente política fundamental: o predomínio de alguns, quase nunca os melhores, cujo poder dependia ou se alimentava do despotismo e da ignorância das multidões votantes, a que chamava «a populaça».

Vésperas da Beata Virgem de Claudio Monteverdi

O próximo Musica Aeterna transmite, em ante-estreia mundial, as “Vésperas” de Monteverdi, produzidas de acordo com a técnica quinhentista e seiscentista do “cantar lontano” (cantar à distância), interpretadas pelo grupo “Cantar Lontano” de Marco Mencoboni, que actuou na Sé Patriarcal de Lisboa a 18 de Dezembro de 2008.

A efeméride dos 400 anos da primeira apresentação pública das Vésperas da Beata Virgem de Claudio Monteverdi, efectuada, por ocasião da festa da Anunciação e em honra das filhas do duque Francesco Gonzaga, na Basílica de Santa Bárbara, em Mântua, no dia 25 de Março de 1610. A transmissão integral deste verdadeiro monumento e, bem assim, de peças especificamente concebidas para a Semana Santa, que amanhã tem o seu início, da autoria dos contemporâneos Marc’Antonio Ingegneri, Emilio de’Cavalieri e Johann Rosenmüller. João Chambers

João Chambers, Lisbon musicologist, proposed us to give a preview of our version of Monteverdi’s Blessed Virgin Vesper for the portuguese public. Portuguese state radio Antena 2 will broadcast a world premiere on March 27th, 2010 giving a taste of the upcoming cd inside the program Musica Aeterna, devoted to early music. The transmission can be heard in streaming on the web connecting to this link.

O Codonauta tem na sua página do Youtube uma selecção notável das “Vésperas“, gravada em 1989 na Basílica de São Marcos, Veneza – The Monteverdi Choir | The London Oratory Junior Choir | The English Baroque Soloists | John Eliot Gardiner

Efemérides Românticas

O realizador de rádio António Cartaxo reuniu no livro “Efemérides românticas” a vida e obra artística de seis compositores cujas datas de nascimento ou morte são recordadas entre 2009 e 2011.
Félix Mendelssohn nasceu em 1809, Frédéric Chopin e Robert Schumann em 1810, e Franz Liszt em 1811.
São seis centenários ou bicentenários que aqui se celebram, tendo os astros querido duplas efemérides para Albéniz e para Mahler, nascidos em 1860, há 150 anos.

Com Sonho de Uma Noite de Verão e a Gruta de Fingal, de Mendelssohn, a música sinfónica dá um passo decisivo do Classicismo para o Romantismo. Por seu turno, no fim do século, as sinfonias de Mahler percorrem já as avenidas do pós-Romantismo. Entre ambos, os outros compositores que celebramos neste livro exprimem, cada um à sua maneira, a crença romântica na concepção da música como linguagem da emoção e como expressão directa da sua vida e da sua psicologia.
Para o autor, faz sentido marcar estas efemérides na medida em que “apesar de serem sempre tocados, nestas alturas de efemérides concentramos mais a nossa atenção naquilo que criaram, oq ue nos permite ouvir mais e apreciar a obra de determinado compositor”.

O livro é apresentado por Alexandre Delgado amanhã à tarde na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa.

Lisboa, 27 Jan (Lusa)

Hoje acordei assim. Romântico.

O artigo de Anthony Tommasini , crítico do The New York Times, estabelece uma interessante comparação entre Frédéric Chopin e Robert Schumann, em contraponto a J.S Bach, no que constitui um excelente prelúdio para as comemorações do 200º aniversário do nascimento dos dois compositores românticos.

A guitarra de Django Reinhardt atinge um século

Hoje, uma multidão rodeará o seu túmulo, na pequena localidade de Samois-sur-Seine, perto de Fontainebleau. Django Reinhardt, guitarrista e compositor de jazz, nasceu a 23 de Janeiro de 1910. O pai do jazz cigano foi um personagem misterioso, parco em palavras e pouco interessado no reconhecimento e na glória, tão imprevisível como desconcertante. No seu centenário, edições discográficas como Generation Django, com a participação de Biréli Lagrène e o defunto Henri Salvador, recordam um dos ciganos mais universais da história.

Filho de Laurence Négros Reinhardt, bailarina e cantora, e de Jean-Baptiste Eugène Weiss, violinista e guitarrista, Jean Baptiste Reinhardt nasceu no seio de uma família de artistas, na localidade belga de Liberchies. Aos oito anos, o clã Reinhardt estabeleceu-se num dos acampamentos ciganos que rodeavam Paris. Dele se dizia ser capaz de interpretar qualquer peça, só de ouvi-la uma vez; Com apenas 14 anos, tocava banjo, bandolim, guitarra e violino.

A 1 de Outubro de 1940, Reinhardt, acompanhado pelo Quinteto do Hot Club de França, que formou juntamente com o violinista Stéphane Grappelli, gravou Nuages, um êxito retumbante que todos os cantores conhecidos disputavam o privilégio de interpretar. Curiosamente, os seus problemas com as forças de ocupação começaram no dia em que foi convidado a actuar perante Hitler. Decidido a não comparecer, Django procurou refúgio por duas vezes na neutral Suíça, pedido que foi negado em ambas ocasiões pelo mesmo motivo: nem ser negro nem judeu.

A 31 de Janeiro de 1946, en plena celebração do Armistício, Reinhardt e Grappelli gravaram a célebre versão de A Marselhesa com ritmo swing, nos estúdios de Abbey Road, em Londres. O fim das hostilidades marcou o início do fim da sua carreira. Incapaz de se adaptar às novas tendências musicais, Reinhardt passou a dedicar cada vez mais tempo à pintura. A sua tournée pelos Estados Unidos com a orquestra de Duke Ellington foi um fracasso, completado pelo segundo concerto em Carnegie Hall ao qual chegou atrasado, por ter ficado a jogar bilhar com estranhos. Os últimos dias da vida de Django foram passados em Samois-sur-Seine. Faleceu a 16 de Maio de 1953, vítima de ataque cardíaco.
Texto traduzido do artigo de C. García Martínez – El Pais – 23/01/2010

The Velvet Revolution

In the space of just a few weeks in November 1989, the Communist system in Czechoslovakia was brought to its knees. Massive protests on the streets of Prague – often several hundred thousand strong – forced the resignation of the hard-line Communist Party leadership in what became known as “the velvet revolution.”
One of the names the demonstrators shouted was that of Alexander Dubcek. He was the leader of the famous “Prague Spring” in 1968 when attempts at reform were crushed by Soviet tanks. He made a triumphant return to Prague after years in political oblivion.

On November 17, 1989, a Friday, riot police suppressed a peaceful student demonstration in Prague. That event sparked a series of popular demonstrations from November 19 to late December. By November 20 the number of peaceful protesters assembled in Prague had swollen from 200,000 the previous day to an estimated half-million.
The real man of the hour, though, was Vaclav Havel, the playwright who was one of the leaders of the dissident Charter 77 movement. An outspoken critic of the Communists, he had spent time in prison for his beliefs. After the collapse of the Communists, he was unanimously elected President of Czechoslovakia.
Unlike some of its East European neighbours, Czechoslovakia was relatively successful economically following the fall of Communism. The most dramatic change has been in the transformation from a centralised state-controlled economy to a capitalist system. Almost 80% of industry and commerce is now in private hands.
1989 was a momentous year for eastern Europe. It was the year the Berlin Wall finally came down as pressure for reform grew in East Germany. And in Romania, the Ceascescu dictatorship, which had tried to resist the winds of change blowing elsewhere, was overthrown in a bloody uprising. Via.

Prague, Spring 2006

Patrick Cowley

Patrick Joseph Cowley (19-10-1950 / 12-11-1982), compositor de música disco e Hi-NRG (High Energy) cujo estilo é frequentemente comparado ao de Giorgio Moroder e a quem é atribuído o pioneirismo na música de dança electrónica, conheceu Sylvester nos finais da década de 70, com quem se juntou em estúdio para gravar You Wanna Funk.  Muito popular na cena gay no início da década de 80 foi o seu hit Menergy. A minha faixa preferida será sempre Megatron, cujo vinil ainda hoje me arrependo de ter oferecido! 😦

Patrick Cowley – Menergy, 1981

Sylvester & Patrick Cowley – Do You Wanna Funk

Patrick Cowley – Megatron Man, 1981

Patrick Cowley – I Wanna Take You Home, 1981

I Feel Love (Donna Summer) – Remix de Patrick Cowley, 1982

A Herança de Atena – Rembrandt

O último e mais belo nu de Rembrandt (1606-1669) como despudorado pretexto 🙂 para divulgar a página sobre o pintor holandês, elaborada a partir do texto gentilmente cedido por João Chambers, que co-produziu o programa Herança de Atena de 18 de Janeiro de 2009 com Ana Mântua, destinado a assinalar a passagem dos 340 anos da morte do Mestre!

Rembrandt Harmenszoon van Rijn - Bathsheba at Her Bath, 1654

Dia Mundial da Alimentação

Paul Cezanne - Still Life with Green Melon, 1902-06

Edouard Manet - Le Dejeuner sur L'Herbe, 1863

Pablo Picasso - Still-life with Fruit-dish on a Table, 1914-15

Pierre-Auguste Renoir - Le dejeuner, c. 1879

Whirlpool Galaxy

A Galáxia Whirlpool, conhecida como Messier 51a, encontra-se na Constelação de Canes Venatici, a uma distância de 30 milhões de anos-luz da Terra. Foi descoberta neste dia, no ano de 1773 por Charles Messier, astrónomo francês que viveu de 1730 a 1817 e se notabilizou poela descoberta de 20 cometas.

A Imagem de alta resolução da Nasa mostra a Galáxia Whirlpool que, tal como a Via Láctea, é uma galáxia de braços espirais, onde se nota a presença de manchas escuras de poeira em conjunto com zonas de elevada luminosidade