Arquivo de 15 de Agosto, 2006

Jules Verne em Amiens (1871-1905)

Depois de uma permanência em Crotoy, durante a guerra de 1870, Jules Verne se fixou em Amiens por diversas razões; uma delas foi a dificuldade em trabalhar em Paris. “Essa cidade me enerva, muita agitação, muito ruído. Não se encontra uma hora de calma e tranqüilidade”, assim escreveu ao seu amigo Félix Duquesnel.

Ele escolheu uma organização racional entre o seu trabalho, suas relações parisienses e o mar. Os sucessos das suas obras eram consideráveis; dentre elas A volta ao mundo em oitenta dias; encontrou o caminho a seguir sem nenhuma situação geográfica onde a calma provincial e o conforto de Amiens estabelecia uma harmonia que permitia satisfazer suas preocupações como escritor. De fato, as cartas entre Paris e Amiens chegavam ao seu destino em um dia. Escrevia-se pelo correio como se faz atualmente através das mensagens eletrônicas.

Se por um lado, além de Amiens não estar situada muito longe de Paris, pois a viagem entre as duas cidades durava uma hora e trinta minutos, por outro lado, circulavam dezessete trens por dia entre elas. Desse modo, Jules Verne encontrava os seus amigos, os compositores, as pessoas de teatro, o seu editor e podia se reunir com a comissão de redação da Revista de educação e recreação, da qual fazia parte e, se quisesse, podia retornar no mesmo dia.. Reunia-se freqüentemente com Hetzel, no Café Caron, entre as ruas Saint-Pères e Université, restaurante que conservou a sua cozinha familiar e a decoração dos anos de 1830, onde almoçavam junto ao ponto mais obscuro da sala. Sem dúvida, aproveitava as suas idas a Paris para se encontrar com Estelle Hénin, uma bela e culta jovem parisiense que foi sua amante entre 1867 e 1885, ano da sua morte, o que deixou o romancista profundamente deprimido.

Casado em 1857 com uma jovem viúva de Amiens, Honorine de Viane, instalou-se, em julho de 1871, na cidade natal de sua esposa, com o seu filho Michel e as duas filhas do primeiro casamento de Honorine. O seu primeiro endereço foi no número 23 do boulevard Guyencourt. Um ano mais tarde, num intervalo de cinco meses, as filhas de Honorine se casaram. Em setembro de 1873, mudou-se para uma casa de número 4 do boulevard Longueville, hoje boulevard Jules Verne. Seu ritmo de trabalho permanece imutável. Quando escrevia, dormia e acordava cedo. Escrevia das 5 horas às 11 da manhã. Depois do almoço consagrava algum tempo à leitura em sua residência e a biblioteca municipal e mais freqüentemente no Clube da Sociedade Industrial. À noite, após um curto passeio a pé, ele voltava para casa indo dormir às nove horas.

A casa de Longueville estava situada no novo bairro de Henriville que, em 1830, surgiu com a demolição das antigas fortificações e era situada ao sul da cidade. Modernas e amplas essas casas estavam voltadas para um grande jardim em torno do qual se justapunham casas todas elas do mesmo estilo de Luís Filipe. O boulevard só tinha sido construído de um lado; do outro lado, pela fossa das antigas fortificações, passava a nova linha de estrada de ferro Paris-Boulogne-Calais. Além da via férrea, uma vasta seqüência de árvores se alongava pelo boulevard du Mail; assim limitados unilateralmente por casas da monarquia republicana e do segundo império, os boulevares de Longueville e du Mail conduziam à estação a 500 metros a direita da casa do escritor para o parque de Longueville e a esquerda que servia de Praça das Armas e o Campo de feira, durante os vinte dias de São João.

Num ato simbólico da sua instalação em Amiens, Jules Verne efetuou uma ascensão em balão acima da cidade. Ele escreveu no Journal de Amiens um artigo, reeditado no Moniteur de la Somme: Vingt-quatre minutes en ballon.

En ballon, aucun mouvement, ni horizontal, ni vertical, n’est perceptible. L’horizon paraît toujours se maintenir à la même hauteur. Il gagne en rayon, voilà tout, tandis que la terre, au-dessous de la nacelle, se creuse comme un entonnoir. En même temps, silence absolu, calme complet de l’atmosphère, que troublent seuls les gémissements de l’osier qui nous porte. 1

Este episódio serviu para a redação da versão definitiva da Ilha Misteriosa que se inicia pelo naufrágio de um balão perdido em cima do Oceano Pacífico.

Em 1882, a família Verne mudou-se do boulevard Longueville para se instalar a 100 metros, na esquina da rua Charles Dubois. Esta casa muito mais ampla do que a anterior, compunha-se de dois andares, e uma torre de quatro andares que terminava por um terraço e dependências para domésticas. A face do prédio principal e as dependências dão para a entrada de um grande jardim. Uma escadaria permitia alcançar o terraço de onde se tinha uma vista soberba da cidade dominada por sua célebre catedral.

Em 1886, Jules Verne foi vítima de um atentado que o deixou enfermo. A vida provinciana o levou a participar de algumas atividades associativas. Membro da Academia de Amiens desde 1882 e da Sociedade Industrial, acabou membro do Conselho da Caixa Econômica e do Conselho de Teatro. Levou uma vida modéstia vivendo nessa cidade para satisfazer o gosto de sua esposa, embora preferisse a vida mundana dos salões à solidão laboriosa de seu gabinete de trabalho.

O coroamento dessa vida modesta foi a eleição para o Conselho Municipal de Amiens, em 1888, quando foi encarregado do teatro onde ele freqüentava assiduamente. Em 1898 pronunciou um discurso sobre a distribuição de prêmios no Liceu e inaugurou um circo em 1889.

A lenda familiar dos Vernes relata que Jules, com a idade de 11 anos, fugiu de casa clandestinamente a bordo de um navio de três mastros La Coralie, que partia para as Índias. A autenticidade desse acidente está muito longe de ser confirmada, no entanto, a paixão de Jules Verne pelo mar e pelos seus navios foi uma realidade. Uma outra lenda, que Jules procurou sempre desmentir, diz que as viagens extraordinárias são obras de um sedentário, que nunca teria viajado. No entanto, a maior parte dos numerosos romances foi inspirada em viagens reais. Com efeito, sua primeira viagem o levou à Grã-Bretanha em 1859, relatada em seu romance Voyage a reculons em Angleterre et em Ecosse, que permaneceu inédito até 1989. Seus romances Les Indes noires e Le Rayon-vert são inspirados nessa viagem. Além disso, Une ville flottante é um relato romanceado da sua travessia do Atlântico a bordo do Great-Eastern, o maior transatlântico da época.

Os iates

Júlio Verne possuiu três iates Em 1865, adquiriu uma chalupa de pesca que batizou de Saint-Michel, em homenagem ao filho. Em sua primeira viagem, procurou o seu irmão Paul, em Bordéus. Ele escreveu a Hetzel: “Eu não pude resistir ao desejo de ir procurá-lo por mar e trazê-lo por mar. Uma travessia de cinco a seis dias, eis tudo; e você sabe, nada de boa viagem sem uma ponta de Oceano”.

Quando a chalupa estava sendo reformada em 1868, escreveu: “O barco avança! Ele será encantador, estou apaixonado por esse conjunto de prancha como rapaz de 20 anos por uma amante. Prometo que lhe serei ainda mais fiel.”

Uma parte das 20.000 léguas submarinas foi escrita no barco. Desde a Inglaterra, escreveu a Hetzel: “Eu estou ancorado em Gravesand, no momento, de onde escrevo, e acabo de terminar o primeiro volume das 20.000 léguas submarinas, tudo como se estivesse no meu gabinete na rua de Sèvres! É bastante belo, que estímulo à imaginação”.

Em 1876, o Saint-Michel foi substituído pelo Saint-Michel II, que tinha um arcabouço de 19 toneladas e 13 metros de comprimento.

Em 1877, Verne comprou do Marquês de Préaulx um soberbo iate, a vela e a vapor, que media 30 metros de comprimento e uma tripulação de 10 homens, a que deu o nome de Saint-Michel III: “Que loucura! Quantas viagens em perspectivas, quantos campos de impressão e quantas idéias a recolher.”

Com o Saint-Michel III entre 1878 e 1885, no Mediterrâneo, realizou grandes cruzeiros a partir dos quais nasceram os romances Mathias Sandorf e Clovis Dardentor.

Seus últimos anos

Nove anos mais tarde é a morte da sua alma. Vendeu esse magnífico barco provavelmente por razões financeiras, em 15 de fevereiro de 1886. Com a venda do Saint-Michel III, iniciou-se o período mais negro da sua vida. Em 9 de março, seu sobrinho Gaston atingiu-o com duas balas de revólver por razões que permanecem até hoje misteriosa. Desde então tornou-se coxo para o resto da vida. Em 17 de março, morreu Hetzel, seu editor, a quem considerava como o seu pai. No mesmo ano, seu filho único, Michel, pai de duas crianças, muito endividado, divorciou-se, casando-se de novo. O ano de 1887, começou com a morte de sua mãe.

Em 1900, Júlio Verne deixou a residência em que morou durante 18 anos na rua Charles Dubois, que havia alugado durante 10 anos, por uma outra, no boulervard Longueville que, menos espaçosa que a anterior, tornava a sua vida mais fácil. Depois de um longo período de enfermidade, faleceu em 24 de março de 1905. Hoje no cemitério de Madeleine, sobre o túmulo do escritor, uma escultura de Albert Roze representa Júlio Verne com um dos braços estendido para o céu como se desejasse proteger-se do Sol. É o último gesto de um homem ainda vigoroso que tem dilacerado a sua mortalha e repele sua pedra como para afirmar que os seus personagens ainda permanecem vivos.

Os temas das obras

Três são os principais temas tratados ao longo desta incrível produção literária: a máquina, a viagem e o fantástico, nos quais se movem os personagens do universo ou do universo univerniano.

A máquina

Algumas máquinas são os meios de transportes, como o Nautilus de Nemo, o obus lunar, o Albatroz de Robur, o elefante de aço (La Maison à vapeur), a jangada, balsa gigante que descia o Amazonas, o canhão gigante de Schultze, destinado a semear a morte pelo envio de obus de gás carbônico (Les 500 millions de la Bégun), o canhão gigante destinado a enviar um obus para a Lua, o forno que transforma o carbono em diamante, as invenções de Orfanik que dão a vida a cantora morta, todas essas máquinas de Júlio Verne foram inspiradas em pesquisas contemporâneas ao escritor. Devemos sublinhar aqui como é diferente a ficção científica que nasceu no fim do século XIX, em particular, com Wells, que qualificava o escritor como puramente imaginativo, estimando que ele mesmo não inventou nada, visto que dizia sempre que as suas idéias apoiavam-se em conhecimentos científicos da sua época, cuja realização ultrapassariam os limites do fazer e do conhecimento técnico contemporâneo ao visionário francês.

Viagens

As viagens de descoberta das regiões ainda desconhecidas ou viagens turísticas servem como tramas aos relatos. Os heróis vernianos se caracterizam pelo desejo de fazer o levantamento topográfico da Terra, a descoberta dos sítios inexplorados, a vontade de alcançar o fim do mundo para ir plantar a bandeira de sua pátria (Haterras au Póle Nord, Nemo au Pólo Sud) ou um farol (Les Naufragés du Jonathan, Le Phare du bout du monde); de alcançar o centro da Terra, de descobrir a origem do universo (Voyage au centre de la Terre, Hector Servadac), ou o seu fim (L’Ile mystérieuse, L’Eternel Adam).

Os heróis de Júlio Verne sonham no interior de um mundo cujos limites são bem determinados. No entanto, na obra verniana não faltam descrições líricas obras de um autêntico poeta, citemos por exemplo, a descrição das cavernas subterrâneas descobertas por Lidenbrock ao longo da sua descida em direção ao centro da Terra, as plantas e os animais das paisagens submarinas (Vingt mille lieues sous les mers).

Nas viagens convêm salientar, particularmente, a inserção da diversidade de conhecimentos, dentre os quais a geografia, que ocupou um lugar preponderante em todos os seus romances. Neste caso, temos os denominados romances geográficos. Ver tabela …..

Fantástico

Existe também nas Voyages extraordinaires uma inspiração fantástica. No Le Secret de Wilhelm Storitz, um alquimista descobre o segredo da invisibilidade e o seu filho utiliza esse processo para perseguir uma jovem que lhe recusava sua atenção.

No Le Sphinx des glaces, nas regiões polares, descobriu curiosos fenômenos, dentre os quais um maciço gigantesco, de ferro, que funcionava como um ímã colossal, e com a aparência de uma esfinge, próxima ao pólo sul. No coração da África, os mais perfeitos macacos e o mais imperfeito dos homens vivem numa impenetrável floresta, Le Village aérien.

Uma obra literária

Sua relação singular com a educação fez de Jules Verne um escritor para jovens; o interesse documentário pela ciência e tecnologia o fez um autor de romances científicos; o interesse pela geografia transformou-o como um escritor de romances geográficos; seu sucesso na antecipação o fez um autor de ficção-científica; a aventura fez com que fosse classificado escritor de romances de aventura e, em virtude de destas características foi considerado pela crítica literária como autor popular de segunda ordem; por ter relegado a um segundo plano as análises psicossociológicas dos seus personagens, passou a ser tido sem profundidade; pelo estilo transparente e de fácil leitura foi considerado de estilo praticamente inexistente.

Nada mais falso, senão vejamos.

Verne reteve a lição de Balzac e compreendeu que mesmo de modo imaginário, o universo deve ser coerente. No conjunto das viagens extraordinárias se preocupa em manter múltiplas associações intertextuais, como por exemplo, retorno de personagens, auto-referencias, alusões, variações, etc. que sublinham a preocupação e o prazer de Verne de criar uma obra coerente. Seus romances estão associados entre si, como por exemplo, Robur-le-Conquérant se refere ao Cinq Millions de la Bégum. Le Sans dessus dessous é a extensão do romance na frase de Maston,em De la Terre à la Lune: “Unissons nos effeorts, inventons des machines et redressons l’axe de la Terre!” (capítulo XIX). O capitão Nemo que é o personagem central de Vingt Mille lieues sous le mers (1869-70), retorna 16 anos mais velho para relatar os seus últimos dias em L’Île mystérieuse (1874-75). Mas esse procedimento de retomar os personagens não se limita a isso; dois romances anteriores recordam as atividades de Nemo. Le Sphinx des glaces (1897), um longo texto evoca a conquista do pólo sul por Nemo e no Maître du monde (1904), a energia elétrica utilizada por robô é comparada àquela usada por Nemo para alimentar os motores do seu Nautilus. Indubitavelmente existe um reenvio de um romance a outro. Verne parece ter a consciência do seu poder de criação literária. Ele retoma os seus textos, refazendo-os, comentando-os e dando uma unidade à sua obra.

A imaginação de Verne constitui uma verdadeira máquina que absorve uma enorme quantidade de informações para transformá-la em matéria romanesca. Um dos seus contemporâneos, o matemático Joseph Bertrand, se extasiava diante da capacidade do cerebro de Júlio Verne:

merveilleux engin transformateur qui, des matériaus apportés par les savants de son intimité, tirait, avec la logique la plus cartésienne, les conséquences des faits scientifiques dont il rassemblait toutes les données 2

Espírito extraordinariamente curioso, foi um grande leitor. Nutria sua cultura nas enciclopédias e nos periódicos que lia sistematicamente todos os dias. Soube como ninguém revelar os sonhos da sua época, expondo as visões de um novo mundo.

Suas especulações baseavam-se numa documentação científica impressionante que acumulava antes de iniciar os seus romances. A essas pesquisas se associava uma imaginação literária e poética de grande sensibilidade político-social que valorizava a importância da ciência e da tecnologia.

Como disse o filósofo e escritor Michel Serres: “desde a morte de Verne falta um escritor que dê à ciência o valor que ela merece”. Até hoje, o próprio nome Júlio Verne evoca as imagens de um mundo, onde o cientista era uma mente preocupada em preservar um futuro feliz e justo para a Humanidade – como, por exemplo, a do Capitão Nemo, capaz de destruir os seus inventos, pois acreditava que os governos ainda não estavam prontos para recebê-los. Em conseqüência dos seus textos de visionário, o nome de Jules Verne tornou-se um mito universal e imortal.

Júlio Verne e os pioneiros da Astronáutica

Neste ano do centenário de morte de Júlio Verne (1828-1905), uma rápida inspecção nos catálogos das editoras publicados no exterior, dentre eles os italianos e franceses, é suficiente para mostrar que a literatura verniana ainda seduz as novas gerações e até os idosos, como o escritor italiano Umberto Eco confessou recentemente em crônica publicada na revista Entre Livros. Aliás, as antecipações de Júlio Verne provocam um fascínio superior aos outros romances de antecipação, pois as invenções previstas que se tornaram uma realidade são muito inferiores às de Verne. Com efeito, “nenhum submarino atômico será algum dia tecnologicamente mais espantoso do que o Nautilus, e nenhum dirigível ou avião a jato poderá ter algum dia o fascínio do majestoso navio a hélice de Robur, o conquistador”, como escreveu Umberto Eco.

A conquista do espaço é um velho sonho da humanidade. Logo que se constatou que os astros eram corpos sólidos, o homem começou a pensar em visitá-las. Entretanto, por falta de meios tecnológicos suficientes, seus planos ficaram limitados aos relatos dos escritores que, influenciados pelo desenvolvimento do início do século XIX, deram origem à literatura de ficção científica. De todos os relatos sobre os meios de conquista do espaço, os mais importantes foram os do escritor francês Júlio Verne, que publicou em 1865 o imortal livro: De la Terre à la Lune. Neste livro, os fatos científicos são sensivelmente tão exatos, como o permitiriam os conhecimentos da época. Embora tenha sido o escritor francês Achille Eyraud quem primeiro imaginou o emprego de foguetes a reação, como está relatado no seu livro Voyage à Venus, publicado em 1863, foram Julio Verne e, mais tarde, o escritor H. G. Wells os grandes divulgadores das idéias que influenciariam os pioneiros da Astronáutica.

O primeiro cientista a compreender a utilidade dos foguetes na Astronáutica e a estudar as bases teóricas de sua utilização foi o cientista russo Konstantin Edwardovitch Tsiolkovski (1857-1935) que assim escreveu sobre Júlio Verne: “Durante muito tempo pensei no foguete como todo mundo, considerando-o apenas um meio de diversão, com algumas aplicações pouco importantes na vida corrente. Não me lembro exatamente quando me veio a idéia de fazer os cálculos dos seus movimentos. Provavelmente, os primeiros germes dessa idéia foram fornecidos pelo fantástico Julio Verne e, em conseqüência deste grande autor, meu pensamento orientou-se nesta direção, estimulando o desejo que, mais tarde, impulsionou o espírito do meu trabalho”.

Não foi, entretanto, Tsiolkovski o único a sofrer as influências do escritor francês; o engenheiro norte-americano Robert Hutchings Goddard (1882-1945), pai da moderna tecnologia dos foguetes, em um ensaio autobiográfico escrito em 1927 e publicado em 1959 na revista Astronautics, reconheceu a influência das obras de ciência-ficção, tais como os clássicos de De la Terre à la Lune de Julio Verne e The War of lhe Worlds de H. G. Wells, com as seguintes palavras: “Eles afetaram maravilhosamente a minha imaginação, incitando-me a pensar sobre os caminhos e meios possíveis à realização dessas maravilhas”.

Outro pioneiro que teve o seu interesse pela astronáutica estimulado pelos grandes romancistas da ciência-ficção do século XIX, em especial por Julio Verne, foi o terceiro grande responsável pelas idéias fundamentais da ciência espacial, o engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989). Ainda menino, aos onze anos leu Da terra à Lua e Ao redor da Lua, de Júlio Verne, cujas idéias muito o fascinaram, estimulando seu raciocínio em direção às questões sobre viagens espaciais. Assim escreveu Oberth em sua autobiografia: “Tinha onze anos quando recebi de presente de minha mãe os célebres livros de Julio Verne, que já li ao menos cinco ou seis vezes, até os saber de memória”.


Nos anos 20 e 30 do século XX, na França, a idéia dos vôos espaciais foi dominada pela figura do engenheiro Robert Esnault-Pelterie; um dos únicos pioneiros da astronáutica que se distinguiu inicialmente por uma importante contribuição à aeronáutica antes de se dedicar às questões relativas às viagens interplanetárias.

Valentin Petrovitch-Glushko (1908-1989), um dos engenheiros responsáveis pelo desenvolvimento do maior foguete da atualidade, o Energia, nasceu em Odessa em 1908. Seu pai foi um empregado de escritório e sua mãe era enfermeira. Nos últimos anos da escola, o jovem Glushko começou a estudar astronomia, realizando suas próprias observações de Vênus, Júpiter e Marte. Simultaneamente, publicou artigos sobre a ciência dos astros nos jornais locais. “Com a idade de 13 anos”, confessou mais tarde, “quando estudava na escola técnica, li os livros de Júlio Verne, Da Terra à Lua e Ao redor da Lua, que definiram o interesse de toda minha vida”.

O próprio engenheiro alemão Wernher Von Braun (1912-1977), que dirigiu os primeiros lançamentos de satélites e foguetes norte-americanos, confessou inúmeras vezes que os autores de ficção científica, dentre eles Julio Verne, haviam-se entusiasmado profundamente na juventude.

Tal influência, entretanto, não se fez somente junto àqueles que estabeleceram as bases fundamentais da Astronáutica, pois a leitura, na juventude, de Júlio Verne iria animar também outros homens de ciência, tais como os astrônomos, biólogos, físicos, matemáticos etc.

Assim, o grande físico norte-americano George Gamow (1904-1968) que, além de ter sido o responsável pela moderna cosmologia, escreveu também inúmeros livros de divulgação científica, traduzidos em quase todos os idiomas, confessou que desde a idade de sete anos ficou fascinado pelas histórias de Julio Verne que a sua mãe lia em voz alta.

Livros como os de Júlio Verne certamente fizeram e ainda fazem muito mais no sentido de inspirar as vocações de futuros cientistas, do que todos os ensinamentos ministrados nas escolas, pois a dedicação desses jovens nas aulas de Ciências foi, sem dúvida, motivada por aquelas leituras.

Como toda sociedade tem que cultivar a Ciência, pois ela está intimamente associada à evolução de nossa civilização, é fundamental procurar incentivar o interesse dos jovens pelas ciências o mais cedo possível, através de leituras voltadas para as histórias de antecipação científica, como, aliás, se pode fazer indiretamente por intermédio de filmes ou histórias em quadrinhos, onde ocorrem relatos de conquista espacial. Isto é o que se vem acontecendo em outros países, como nos EUA, onde se procura desenvolver o caráter criativo da criança desde cedo. Assim também ocorreu com as histórias de Júlio Verne, que entusiasmou os pioneiros da Astronáutica.

1 No balão nenhum movimento, nem horizontal e nem vertical é perceptível. O horizonte parece sempre se manter na mesma altura. Ganha-se em raio de visibilidade, eis tudo, tanto que a terra, abaixo da nacele se encurva como um funil. Ao mesmo tempo, o silêncio absoluto, a calma completa da atmosfera só perturbada pelo gemido do vimi que nos leva.

2 Maravilhoso engenho transformador que dos materiais traduzidos pelos cientistas de sua intimidade, extraiu, com a lógica mais cartesiana, as conseqüências dos fatos científicos dos quais reuniu todo os dados.

Postais de Portugal – Douro


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Seurat, o novo impressionista

Quando Georges Seurat [1859-1891] apresentou Um Domingo à Tarde na Ilha de la Grande Jatte (1884-1886), foi aclamado como o expoente dos pintores neo-impressionistas.

Les bourgeois de Paris, que parecem em excursão numa das ilhas do Sena, são na verdade figuras estáticas, desligadas entre si, conferindo assim um teor muito estruturado à composição.

1926.224 - A Sunday on La Grande Jatte — 1884

Durante cerca de dois anos fez mais de sessenta estudos para esta composição, meticulosamente elaborada com minúsculos pontos de tinta.

As cambiantes dos tons básicos – obtidas pela distância entre as manchas de cor e pelos contrastes criados pela delimitação das áreas – de alguma forma, representam o início do cubismo.

A técnica pontilhista de Seurat, atinge a plenitude num dos seus últimos trabalhos, Os Modelos, de 1887.

Júlio Verne em Crotoy (1869- 1871)

Depois de mudar-se dos grandes bulevares e dos teatros para o bairro de Auteuil, em 1863, Júlio Verne deixou definitivamente Paris em meados de março de 1869. Com a idade de 41 anos, instalou-se na região de Amiens onde sua esposa Honorine voltou a conviver com os parentes. No curso dos anos que precederam essa mudança, toda a família passou as férias no pequeno porto de pesca de Crotoy, na margem norte da baía de Somme. Jules Verne alugou neste ano, na Rua Lefèvre, próximo ao porto, uma casa de um andar – La Solitude – com uma pequena dependência na qual fez o seu escritório.

Em Crotoy, Júlio Verne redescobriu a sua paixão pelo mar, não pelo mar distante que fascinou a sua infância, mas aquele que entraria na sua vida e em seus escritos. Picardia, ao mesmo tempo em que sua carreira literária se estabelecia em modo definitivo iniciam-se as suas grandes aventuras marítimas. Adquiriu o seu primeiro iate de 8 a 10 toneladas que batizou com o prenome do seu filho, Saint-Michel.

O mar se tornou a sua verdadeira fonte inspiradora no que permanecerá durante cerca de 20 anos. Em seu iate, Jules Verne tomou notas, pensou no infinito das grandes aventuras humanas. Reconstituiu a sua energia, sonhou com a liberdade, e redigiu o que permanecerá como um dos seus maiores romances, Vingt mille lieues sous les mers (vinte mil léguas submarinas, 1869-1870). Este romance foi concebido desde 1866 por ocasião de umas férias de verão na casa dos seus pais em Chantenay. Ele começou a sua redação no início de 1868 e terminou em junho de 1869. Ele escreveu no seu iate, deixando o texto de lado para escrever Autour de la Lune (Ao redor da Lua), retomando as vinte mil léguas mais tarde. Foram necessários cinco anos para concluir o seu romance e criar um dos mais notáveis personagens verniano: o capitão Nemo.

Nemo é um herói feito de paradoxo, onde coabita um egoísmo cego com a rejeição total do interesse pessoal. Como Hatteras, sua obra constitui um sonho apaixonado, preocupado em conquistar um conhecimento útil ao bem coletivo. Na realidade, é a imagem do autor: Nemo é introvertido e um grande pensador. Homem de ação, Nemo constitui por seu imenso ideal pouco comum um aventureiro diferente de todos. Esses dois heróis de Jules Verne se parecem por sua audácia, temeridade, convicção racional e obstinada.

Enquanto o capitão conduziu a sua energia súper-humana para a loucura, o capitão Nemo permaneceu prudentemente como se houvesse conservado a lição do predecessor. Procurou livremente o universo que lhe é permitido descobrir – um território infinito que ele insere nos seus conhecimentos – para uma epopéia inédita, estimulada por uma razão direcionada para o combate entre o bem e o mal. É, na realidade, um terrorista pacifista.

Esse personagem é uma síntese do homem do seu tempo, cujas novas formas morais estavam em construção. É um homem que aspira a uma sociedade de cidadãos responsáveis pela razão, mas cuja razão é ainda precária e frágil. A correspondência entre Verne e o seu editor Hetzel, a propósito de Nemo, permite detectar um desacordo entre esses dois que ultrapassa o problema dramatúrgico. Na realidade, as idéias de Verne e Hetzel convergem em matéria moral. Os dois estão igualmente convencidos que a humanidade deve caminhar para uma sociedade mais lúcida e mais justa.

Mas, nesses pontos comuns, a aplicação dos conceitos morais tende a seguir uma divergência. A ciência sobre a visão de Hetzel é a moral positivista de Augusto Comte, que sucede a moral teológica e metafísica. Jules Verne aceita essa evolução; no entanto, não quer opor esses dois conceitos radicalmente. Essa distinção permite melhor compreender as discussões que separam esses dois homens. Na verdade, Verne ultrapassa o pensamento moralista do seu editor. Nemo é o maior personagem concebido por Jules Verne. Segundo o escritor francês Jean-Paul Dekiss, Nemo constituiu o retorno de Prometeu que o escritor antecipou de 20 anos ao de Nietzsche em Assim falou Zaratustra.

Seu gosto pelo jogo etimológico das palavras, estimulou Verne a dar a Nemo um duplo sentido. Literalmente o vocábulo latino Nemo significa ninguém, que não vem de nenhuma parte, sem objetivo pessoal, fora da sociedade civilizada que ele rejeitava, e aparentemente não possuiu nenhuma identidade particular. Na realidade, Nemo se funde na água e se dissolve na totalidade do mar do globo. Nemo é portanto um personagem humano, irredutível no seu desejo de independência. Aliás, na sua fortaleza submarina, tudo possuía a marca desta independência: o capitão Nemo tinha como lema do Nautilus a expressão latina Mobilis in Mobili, ou seja, móvel num elemento móvel. Nemo era totalmente livre, era e é ainda a personificação do ser humano, mestre de si e do seu destino. Essa exposição mais longa sobre o personagem Nemo se justifica pela associação que se pode fazer entre o escritor e seu personagem, a quem Jules Verne dedicou dois volumosos romances. Depois das Vinte mil léguas, Nemo retorna na L’Île mystérieuse (A Ilha misteriosa, 1874-75).

Júlio Verne em Crotoy (1869- 1871)

Depois de mudar-se dos grandes bulevares e dos teatros para o bairro de Auteuil, em 1863, Júlio Verne deixou definitivamente Paris em meados de março de 1869. Com a idade de 41 anos, instalou-se na região de Amiens onde sua esposa Honorine voltou a conviver com os parentes. No curso dos anos que precederam essa mudança, toda a família passou as férias no pequeno porto de pesca de Crotoy, na margem norte da baía de Somme. Jules Verne alugou neste ano, na Rua Lefèvre, próximo ao porto, uma casa de um andar – La Solitude – com uma pequena dependência na qual fez o seu escritório.

Em Crotoy, Júlio Verne redescobriu a sua paixão pelo mar, não pelo mar distante que fascinou a sua infância, mas aquele que entraria na sua vida e em seus escritos. Picardia, ao mesmo tempo em que sua carreira literária se estabelecia em modo definitivo iniciam-se as suas grandes aventuras marítimas. Adquiriu o seu primeiro iate de 8 a 10 toneladas que batizou com o prenome do seu filho, Saint-Michel.

O mar se tornou a sua verdadeira fonte inspiradora no que permanecerá durante cerca de 20 anos. Em seu iate, Jules Verne tomou notas, pensou no infinito das grandes aventuras humanas. Reconstituiu a sua energia, sonhou com a liberdade, e redigiu o que permanecerá como um dos seus maiores romances, Vingt mille lieues sous les mers (vinte mil léguas submarinas, 1869-1870). Este romance foi concebido desde 1866 por ocasião de umas férias de verão na casa dos seus pais em Chantenay. Ele começou a sua redação no início de 1868 e terminou em junho de 1869. Ele escreveu no seu iate, deixando o texto de lado para escrever Autour de la Lune (Ao redor da Lua), retomando as vinte mil léguas mais tarde. Foram necessários cinco anos para concluir o seu romance e criar um dos mais notáveis personagens verniano: o capitão Nemo.

Nemo é um herói feito de paradoxo, onde coabita um egoísmo cego com a rejeição total do interesse pessoal. Como Hatteras, sua obra constitui um sonho apaixonado, preocupado em conquistar um conhecimento útil ao bem coletivo. Na realidade, é a imagem do autor: Nemo é introvertido e um grande pensador. Homem de ação, Nemo constitui por seu imenso ideal pouco comum um aventureiro diferente de todos. Esses dois heróis de Jules Verne se parecem por sua audácia, temeridade, convicção racional e obstinada.

Enquanto o capitão conduziu a sua energia súper-humana para a loucura, o capitão Nemo permaneceu prudentemente como se houvesse conservado a lição do predecessor. Procurou livremente o universo que lhe é permitido descobrir – um território infinito que ele insere nos seus conhecimentos – para uma epopéia inédita, estimulada por uma razão direcionada para o combate entre o bem e o mal. É, na realidade, um terrorista pacifista.

Esse personagem é uma síntese do homem do seu tempo, cujas novas formas morais estavam em construção. É um homem que aspira a uma sociedade de cidadãos responsáveis pela razão, mas cuja razão é ainda precária e frágil. A correspondência entre Verne e o seu editor Hetzel, a propósito de Nemo, permite detectar um desacordo entre esses dois que ultrapassa o problema dramatúrgico. Na realidade, as idéias de Verne e Hetzel convergem em matéria moral. Os dois estão igualmente convencidos que a humanidade deve caminhar para uma sociedade mais lúcida e mais justa.

Mas, nesses pontos comuns, a aplicação dos conceitos morais tende a seguir uma divergência. A ciência sobre a visão de Hetzel é a moral positivista de Augusto Comte, que sucede a moral teológica e metafísica. Jules Verne aceita essa evolução; no entanto, não quer opor esses dois conceitos radicalmente. Essa distinção permite melhor compreender as discussões que separam esses dois homens. Na verdade, Verne ultrapassa o pensamento moralista do seu editor. Nemo é o maior personagem concebido por Jules Verne. Segundo o escritor francês Jean-Paul Dekiss, Nemo constituiu o retorno de Prometeu que o escritor antecipou de 20 anos ao de Nietzsche em Assim falou Zaratustra.

Seu gosto pelo jogo etimológico das palavras, estimulou Verne a dar a Nemo um duplo sentido. Literalmente o vocábulo latino Nemo significa ninguém, que não vem de nenhuma parte, sem objetivo pessoal, fora da sociedade civilizada que ele rejeitava, e aparentemente não possuiu nenhuma identidade particular. Na realidade, Nemo se funde na água e se dissolve na totalidade do mar do globo. Nemo é portanto um personagem humano, irredutível no seu desejo de independência. Aliás, na sua fortaleza submarina, tudo possuía a marca desta independência: o capitão Nemo tinha como lema do Nautilus a expressão latina Mobilis in Mobili, ou seja, móvel num elemento móvel. Nemo era totalmente livre, era e é ainda a personificação do ser humano, mestre de si e do seu destino. Essa exposição mais longa sobre o personagem Nemo se justifica pela associação que se pode fazer entre o escritor e seu personagem, a quem Jules Verne dedicou dois volumosos romances. Depois das Vinte mil léguas, Nemo retorna na L’Île mystérieuse (A Ilha misteriosa, 1874-75).

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