Arquivo de 11 de Agosto, 2006

Jules Verne

Verne (1828-1905) foi, antes de tentar a sorte como novelista, um empenhado aprendiz de dramaturgo, trabalhando com Dumas Filho e Michel Carré, ensaiando o libretismo para duas operetas, além de uma comédia. A estas primícias não terá sido estranha uma precoce aptidão para a música, bem como uma vantajosa relação de amizade com o autor de Os Três Mosqueteiros. De permeio, uma licenciatura em Direito acentuando os traços distintivos de meticulosidade e capacidade de formalização.


A autonomia e originalidade do génio verniano só se começou a manifestar quando, em 1862, travou conhecimento com Pierre-Jules Hetzel, que veio constituir-se em sólido esteio editorial das suas obras. À publicação de Cinco semanas em balão (1863) seguiram-se a Viagem ao Centro da TerraDa Terra à Lua (1866), Os Filhos do Capitão Grant (1868) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1869), cujo enorme sucesso lhe permitiu ascender a cavaleiro da Legião de Honra, distinção tanto mais notável por haver sido conferida por Napoleão III, que tinha contra si o «partido das letras», com Hugo à cabeça e no qual militavam também os Dumas, Zola e Renan. À hora da hecatombe de Sedan – nesse funesto ano de 1870 – Verne encontrava-se, como voluntário, na mole dos destroços dos sonhos imperiais de Napoleón, le petit. (1864),

A fama proporcionou-lhe uma vida de grande conforto, que as viagens pela Escócia, Irlanda, Mediterrâneo, Escandinávia e EUA (no decurso da qual, a bordo da maravilha tecnológica da época, o «Great Eastern», tocou os Açores), a aquisição de iate a vapor e de um château eloquentemente atestam, mas que não o inibiram de intervir politicamente ao lado dos radicais-socialistas. Traduzido para todas as grandes línguas, incluindo o japonês e o árabe, foi aclamado e reverenciado em vida como expoente das crenças do século: o progresso científico e tecnológico ascendente e linear, a conquista, domesticação e apropriação da natureza pelo homem, o triunfo do homem branco e o colonialismo…

O segredo do triunfo de Jules Verne terá residido na engenhosa fusão de extravagância, exotismo e teatralidade, que integrou num quadro de positividade, plausibilidade e antecipação tecnológica que veio a revelar-se, mais que profética, prospectiva. Divulgador científico, usou com mestria vasto arsenal de conhecimentos para emprestar autenticidade às novelas de antecipação, ou a habilidade literária para popularizar obras de cunho historiográfico e geográfico: exploradores do século XIX e navegadores do século XVIII. Não conhecendo limites temáticos nem geográficos, do centro da Terra aos abismos do mar e até à Lua, os cenários em que decorrem as suas novelas são animados por enredos em que a intriga política contemporânea imprime verosimilhança à aventura: Mathias Sandorf, o resistente húngaro; Miguel Strogoff, o correio do czar na luta contra os tártaros; Casa a vapor, no dédalo de ódios da revolta dos cipaios contra o poder britânico na Índia; Os filhos do Capitão Grant, episódio na guerra da secessão americana. Portugal não deixa de estar presente em algumas das novelas. Lembramos, com assinalável surpresa, que, emDa Terra à Lua, o nosso país participou com «30 000 cruzados» na expedição lunar de Barbicane, que o temível Nautilus passou por águas portuguesas na sua errática e violenta saga submarina e que em A volta ao mundo em 80 dias Passepartout se encontrou, em Singapura, com numerosos passageiros «indianos, singaleses, chineses, malaios e portugueses que, na sua maior parte, ocupavam camarotes de segunda».

Uma dimensão inquietante perpassa, porém, nessa vasta galeria de situações em que se exalta o maquinismo, a certeza científica, o triunfo da razão e o nascimento de uma nova era. Referimos, certamente, a assídua visitação a mundos artificiais escondidos, intencionalmente escondidos, ao poder marginal, na sombra, oculto, que desafia o vulnerável mundo das convenções civilizadas. O poder do capitão Nemo é marginal à ordem que aparentemente mantém o mundo. Um poder paralelo que ameaça, a todo o momento – mais perigoso que a força cega dos elementos porque inteligente –, a própria subsistência da humanidade. Neste particular, a exaltação da máquina transporta uma primeira interrogação, subsequentemente muito difundida, sobre os limites morais das aventuras da técnica. Verne parece antecipar Ernest Jünger, H. G. Wells e Conrad.

Jules Verne

Verne (1828-1905) foi, antes de tentar a sorte como novelista, um empenhado aprendiz de dramaturgo, trabalhando com Dumas Filho e Michel Carré, ensaiando o libretismo para duas operetas, além de uma comédia. A estas primícias não terá sido estranha uma precoce aptidão para a música, bem como uma vantajosa relação de amizade com o autor de Os Três Mosqueteiros. De permeio, uma licenciatura em Direito acentuando os traços distintivos de meticulosidade e capacidade de formalização.


A autonomia e originalidade do génio verniano só se começou a manifestar quando, em 1862, travou conhecimento com Pierre-Jules Hetzel, que veio constituir-se em sólido esteio editorial das suas obras. À publicação de Cinco semanas em balão (1863) seguiram-se a Viagem ao Centro da TerraDa Terra à Lua (1866), Os Filhos do Capitão Grant (1868) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1869), cujo enorme sucesso lhe permitiu ascender a cavaleiro da Legião de Honra, distinção tanto mais notável por haver sido conferida por Napoleão III, que tinha contra si o «partido das letras», com Hugo à cabeça e no qual militavam também os Dumas, Zola e Renan. À hora da hecatombe de Sedan – nesse funesto ano de 1870 – Verne encontrava-se, como voluntário, na mole dos destroços dos sonhos imperiais de Napoleón, le petit. (1864),

A fama proporcionou-lhe uma vida de grande conforto, que as viagens pela Escócia, Irlanda, Mediterrâneo, Escandinávia e EUA (no decurso da qual, a bordo da maravilha tecnológica da época, o «Great Eastern», tocou os Açores), a aquisição de iate a vapor e de um château eloquentemente atestam, mas que não o inibiram de intervir politicamente ao lado dos radicais-socialistas. Traduzido para todas as grandes línguas, incluindo o japonês e o árabe, foi aclamado e reverenciado em vida como expoente das crenças do século: o progresso científico e tecnológico ascendente e linear, a conquista, domesticação e apropriação da natureza pelo homem, o triunfo do homem branco e o colonialismo…

O segredo do triunfo de Jules Verne terá residido na engenhosa fusão de extravagância, exotismo e teatralidade, que integrou num quadro de positividade, plausibilidade e antecipação tecnológica que veio a revelar-se, mais que profética, prospectiva. Divulgador científico, usou com mestria vasto arsenal de conhecimentos para emprestar autenticidade às novelas de antecipação, ou a habilidade literária para popularizar obras de cunho historiográfico e geográfico: exploradores do século XIX e navegadores do século XVIII. Não conhecendo limites temáticos nem geográficos, do centro da Terra aos abismos do mar e até à Lua, os cenários em que decorrem as suas novelas são animados por enredos em que a intriga política contemporânea imprime verosimilhança à aventura: Mathias Sandorf, o resistente húngaro; Miguel Strogoff, o correio do czar na luta contra os tártaros; Casa a vapor, no dédalo de ódios da revolta dos cipaios contra o poder britânico na Índia; Os filhos do Capitão Grant, episódio na guerra da secessão americana. Portugal não deixa de estar presente em algumas das novelas. Lembramos, com assinalável surpresa, que, emDa Terra à Lua, o nosso país participou com «30 000 cruzados» na expedição lunar de Barbicane, que o temível Nautilus passou por águas portuguesas na sua errática e violenta saga submarina e que em A volta ao mundo em 80 dias Passepartout se encontrou, em Singapura, com numerosos passageiros «indianos, singaleses, chineses, malaios e portugueses que, na sua maior parte, ocupavam camarotes de segunda».

Uma dimensão inquietante perpassa, porém, nessa vasta galeria de situações em que se exalta o maquinismo, a certeza científica, o triunfo da razão e o nascimento de uma nova era. Referimos, certamente, a assídua visitação a mundos artificiais escondidos, intencionalmente escondidos, ao poder marginal, na sombra, oculto, que desafia o vulnerável mundo das convenções civilizadas. O poder do capitão Nemo é marginal à ordem que aparentemente mantém o mundo. Um poder paralelo que ameaça, a todo o momento – mais perigoso que a força cega dos elementos porque inteligente –, a própria subsistência da humanidade. Neste particular, a exaltação da máquina transporta uma primeira interrogação, subsequentemente muito difundida, sobre os limites morais das aventuras da técnica. Verne parece antecipar Ernest Jünger, H. G. Wells e Conrad.

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