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Jules Verne em Amiens (1871-1905)

Depois de uma permanência em Crotoy, durante a guerra de 1870, Jules Verne se fixou em Amiens por diversas razões; uma delas foi a dificuldade em trabalhar em Paris. “Essa cidade me enerva, muita agitação, muito ruído. Não se encontra uma hora de calma e tranqüilidade”, assim escreveu ao seu amigo Félix Duquesnel.

Ele escolheu uma organização racional entre o seu trabalho, suas relações parisienses e o mar. Os sucessos das suas obras eram consideráveis; dentre elas A volta ao mundo em oitenta dias; encontrou o caminho a seguir sem nenhuma situação geográfica onde a calma provincial e o conforto de Amiens estabelecia uma harmonia que permitia satisfazer suas preocupações como escritor. De fato, as cartas entre Paris e Amiens chegavam ao seu destino em um dia. Escrevia-se pelo correio como se faz atualmente através das mensagens eletrônicas.

Se por um lado, além de Amiens não estar situada muito longe de Paris, pois a viagem entre as duas cidades durava uma hora e trinta minutos, por outro lado, circulavam dezessete trens por dia entre elas. Desse modo, Jules Verne encontrava os seus amigos, os compositores, as pessoas de teatro, o seu editor e podia se reunir com a comissão de redação da Revista de educação e recreação, da qual fazia parte e, se quisesse, podia retornar no mesmo dia.. Reunia-se freqüentemente com Hetzel, no Café Caron, entre as ruas Saint-Pères e Université, restaurante que conservou a sua cozinha familiar e a decoração dos anos de 1830, onde almoçavam junto ao ponto mais obscuro da sala. Sem dúvida, aproveitava as suas idas a Paris para se encontrar com Estelle Hénin, uma bela e culta jovem parisiense que foi sua amante entre 1867 e 1885, ano da sua morte, o que deixou o romancista profundamente deprimido.

Casado em 1857 com uma jovem viúva de Amiens, Honorine de Viane, instalou-se, em julho de 1871, na cidade natal de sua esposa, com o seu filho Michel e as duas filhas do primeiro casamento de Honorine. O seu primeiro endereço foi no número 23 do boulevard Guyencourt. Um ano mais tarde, num intervalo de cinco meses, as filhas de Honorine se casaram. Em setembro de 1873, mudou-se para uma casa de número 4 do boulevard Longueville, hoje boulevard Jules Verne. Seu ritmo de trabalho permanece imutável. Quando escrevia, dormia e acordava cedo. Escrevia das 5 horas às 11 da manhã. Depois do almoço consagrava algum tempo à leitura em sua residência e a biblioteca municipal e mais freqüentemente no Clube da Sociedade Industrial. À noite, após um curto passeio a pé, ele voltava para casa indo dormir às nove horas.

A casa de Longueville estava situada no novo bairro de Henriville que, em 1830, surgiu com a demolição das antigas fortificações e era situada ao sul da cidade. Modernas e amplas essas casas estavam voltadas para um grande jardim em torno do qual se justapunham casas todas elas do mesmo estilo de Luís Filipe. O boulevard só tinha sido construído de um lado; do outro lado, pela fossa das antigas fortificações, passava a nova linha de estrada de ferro Paris-Boulogne-Calais. Além da via férrea, uma vasta seqüência de árvores se alongava pelo boulevard du Mail; assim limitados unilateralmente por casas da monarquia republicana e do segundo império, os boulevares de Longueville e du Mail conduziam à estação a 500 metros a direita da casa do escritor para o parque de Longueville e a esquerda que servia de Praça das Armas e o Campo de feira, durante os vinte dias de São João.

Num ato simbólico da sua instalação em Amiens, Jules Verne efetuou uma ascensão em balão acima da cidade. Ele escreveu no Journal de Amiens um artigo, reeditado no Moniteur de la Somme: Vingt-quatre minutes en ballon.

En ballon, aucun mouvement, ni horizontal, ni vertical, n’est perceptible. L’horizon paraît toujours se maintenir à la même hauteur. Il gagne en rayon, voilà tout, tandis que la terre, au-dessous de la nacelle, se creuse comme un entonnoir. En même temps, silence absolu, calme complet de l’atmosphère, que troublent seuls les gémissements de l’osier qui nous porte. 1

Este episódio serviu para a redação da versão definitiva da Ilha Misteriosa que se inicia pelo naufrágio de um balão perdido em cima do Oceano Pacífico.

Em 1882, a família Verne mudou-se do boulevard Longueville para se instalar a 100 metros, na esquina da rua Charles Dubois. Esta casa muito mais ampla do que a anterior, compunha-se de dois andares, e uma torre de quatro andares que terminava por um terraço e dependências para domésticas. A face do prédio principal e as dependências dão para a entrada de um grande jardim. Uma escadaria permitia alcançar o terraço de onde se tinha uma vista soberba da cidade dominada por sua célebre catedral.

Em 1886, Jules Verne foi vítima de um atentado que o deixou enfermo. A vida provinciana o levou a participar de algumas atividades associativas. Membro da Academia de Amiens desde 1882 e da Sociedade Industrial, acabou membro do Conselho da Caixa Econômica e do Conselho de Teatro. Levou uma vida modéstia vivendo nessa cidade para satisfazer o gosto de sua esposa, embora preferisse a vida mundana dos salões à solidão laboriosa de seu gabinete de trabalho.

O coroamento dessa vida modesta foi a eleição para o Conselho Municipal de Amiens, em 1888, quando foi encarregado do teatro onde ele freqüentava assiduamente. Em 1898 pronunciou um discurso sobre a distribuição de prêmios no Liceu e inaugurou um circo em 1889.

A lenda familiar dos Vernes relata que Jules, com a idade de 11 anos, fugiu de casa clandestinamente a bordo de um navio de três mastros La Coralie, que partia para as Índias. A autenticidade desse acidente está muito longe de ser confirmada, no entanto, a paixão de Jules Verne pelo mar e pelos seus navios foi uma realidade. Uma outra lenda, que Jules procurou sempre desmentir, diz que as viagens extraordinárias são obras de um sedentário, que nunca teria viajado. No entanto, a maior parte dos numerosos romances foi inspirada em viagens reais. Com efeito, sua primeira viagem o levou à Grã-Bretanha em 1859, relatada em seu romance Voyage a reculons em Angleterre et em Ecosse, que permaneceu inédito até 1989. Seus romances Les Indes noires e Le Rayon-vert são inspirados nessa viagem. Além disso, Une ville flottante é um relato romanceado da sua travessia do Atlântico a bordo do Great-Eastern, o maior transatlântico da época.

Os iates

Júlio Verne possuiu três iates Em 1865, adquiriu uma chalupa de pesca que batizou de Saint-Michel, em homenagem ao filho. Em sua primeira viagem, procurou o seu irmão Paul, em Bordéus. Ele escreveu a Hetzel: “Eu não pude resistir ao desejo de ir procurá-lo por mar e trazê-lo por mar. Uma travessia de cinco a seis dias, eis tudo; e você sabe, nada de boa viagem sem uma ponta de Oceano”.

Quando a chalupa estava sendo reformada em 1868, escreveu: “O barco avança! Ele será encantador, estou apaixonado por esse conjunto de prancha como rapaz de 20 anos por uma amante. Prometo que lhe serei ainda mais fiel.”

Uma parte das 20.000 léguas submarinas foi escrita no barco. Desde a Inglaterra, escreveu a Hetzel: “Eu estou ancorado em Gravesand, no momento, de onde escrevo, e acabo de terminar o primeiro volume das 20.000 léguas submarinas, tudo como se estivesse no meu gabinete na rua de Sèvres! É bastante belo, que estímulo à imaginação”.

Em 1876, o Saint-Michel foi substituído pelo Saint-Michel II, que tinha um arcabouço de 19 toneladas e 13 metros de comprimento.

Em 1877, Verne comprou do Marquês de Préaulx um soberbo iate, a vela e a vapor, que media 30 metros de comprimento e uma tripulação de 10 homens, a que deu o nome de Saint-Michel III: “Que loucura! Quantas viagens em perspectivas, quantos campos de impressão e quantas idéias a recolher.”

Com o Saint-Michel III entre 1878 e 1885, no Mediterrâneo, realizou grandes cruzeiros a partir dos quais nasceram os romances Mathias Sandorf e Clovis Dardentor.

Seus últimos anos

Nove anos mais tarde é a morte da sua alma. Vendeu esse magnífico barco provavelmente por razões financeiras, em 15 de fevereiro de 1886. Com a venda do Saint-Michel III, iniciou-se o período mais negro da sua vida. Em 9 de março, seu sobrinho Gaston atingiu-o com duas balas de revólver por razões que permanecem até hoje misteriosa. Desde então tornou-se coxo para o resto da vida. Em 17 de março, morreu Hetzel, seu editor, a quem considerava como o seu pai. No mesmo ano, seu filho único, Michel, pai de duas crianças, muito endividado, divorciou-se, casando-se de novo. O ano de 1887, começou com a morte de sua mãe.

Em 1900, Júlio Verne deixou a residência em que morou durante 18 anos na rua Charles Dubois, que havia alugado durante 10 anos, por uma outra, no boulervard Longueville que, menos espaçosa que a anterior, tornava a sua vida mais fácil. Depois de um longo período de enfermidade, faleceu em 24 de março de 1905. Hoje no cemitério de Madeleine, sobre o túmulo do escritor, uma escultura de Albert Roze representa Júlio Verne com um dos braços estendido para o céu como se desejasse proteger-se do Sol. É o último gesto de um homem ainda vigoroso que tem dilacerado a sua mortalha e repele sua pedra como para afirmar que os seus personagens ainda permanecem vivos.

Os temas das obras

Três são os principais temas tratados ao longo desta incrível produção literária: a máquina, a viagem e o fantástico, nos quais se movem os personagens do universo ou do universo univerniano.

A máquina

Algumas máquinas são os meios de transportes, como o Nautilus de Nemo, o obus lunar, o Albatroz de Robur, o elefante de aço (La Maison à vapeur), a jangada, balsa gigante que descia o Amazonas, o canhão gigante de Schultze, destinado a semear a morte pelo envio de obus de gás carbônico (Les 500 millions de la Bégun), o canhão gigante destinado a enviar um obus para a Lua, o forno que transforma o carbono em diamante, as invenções de Orfanik que dão a vida a cantora morta, todas essas máquinas de Júlio Verne foram inspiradas em pesquisas contemporâneas ao escritor. Devemos sublinhar aqui como é diferente a ficção científica que nasceu no fim do século XIX, em particular, com Wells, que qualificava o escritor como puramente imaginativo, estimando que ele mesmo não inventou nada, visto que dizia sempre que as suas idéias apoiavam-se em conhecimentos científicos da sua época, cuja realização ultrapassariam os limites do fazer e do conhecimento técnico contemporâneo ao visionário francês.

Viagens

As viagens de descoberta das regiões ainda desconhecidas ou viagens turísticas servem como tramas aos relatos. Os heróis vernianos se caracterizam pelo desejo de fazer o levantamento topográfico da Terra, a descoberta dos sítios inexplorados, a vontade de alcançar o fim do mundo para ir plantar a bandeira de sua pátria (Haterras au Póle Nord, Nemo au Pólo Sud) ou um farol (Les Naufragés du Jonathan, Le Phare du bout du monde); de alcançar o centro da Terra, de descobrir a origem do universo (Voyage au centre de la Terre, Hector Servadac), ou o seu fim (L’Ile mystérieuse, L’Eternel Adam).

Os heróis de Júlio Verne sonham no interior de um mundo cujos limites são bem determinados. No entanto, na obra verniana não faltam descrições líricas obras de um autêntico poeta, citemos por exemplo, a descrição das cavernas subterrâneas descobertas por Lidenbrock ao longo da sua descida em direção ao centro da Terra, as plantas e os animais das paisagens submarinas (Vingt mille lieues sous les mers).

Nas viagens convêm salientar, particularmente, a inserção da diversidade de conhecimentos, dentre os quais a geografia, que ocupou um lugar preponderante em todos os seus romances. Neste caso, temos os denominados romances geográficos. Ver tabela …..

Fantástico

Existe também nas Voyages extraordinaires uma inspiração fantástica. No Le Secret de Wilhelm Storitz, um alquimista descobre o segredo da invisibilidade e o seu filho utiliza esse processo para perseguir uma jovem que lhe recusava sua atenção.

No Le Sphinx des glaces, nas regiões polares, descobriu curiosos fenômenos, dentre os quais um maciço gigantesco, de ferro, que funcionava como um ímã colossal, e com a aparência de uma esfinge, próxima ao pólo sul. No coração da África, os mais perfeitos macacos e o mais imperfeito dos homens vivem numa impenetrável floresta, Le Village aérien.

Uma obra literária

Sua relação singular com a educação fez de Jules Verne um escritor para jovens; o interesse documentário pela ciência e tecnologia o fez um autor de romances científicos; o interesse pela geografia transformou-o como um escritor de romances geográficos; seu sucesso na antecipação o fez um autor de ficção-científica; a aventura fez com que fosse classificado escritor de romances de aventura e, em virtude de destas características foi considerado pela crítica literária como autor popular de segunda ordem; por ter relegado a um segundo plano as análises psicossociológicas dos seus personagens, passou a ser tido sem profundidade; pelo estilo transparente e de fácil leitura foi considerado de estilo praticamente inexistente.

Nada mais falso, senão vejamos.

Verne reteve a lição de Balzac e compreendeu que mesmo de modo imaginário, o universo deve ser coerente. No conjunto das viagens extraordinárias se preocupa em manter múltiplas associações intertextuais, como por exemplo, retorno de personagens, auto-referencias, alusões, variações, etc. que sublinham a preocupação e o prazer de Verne de criar uma obra coerente. Seus romances estão associados entre si, como por exemplo, Robur-le-Conquérant se refere ao Cinq Millions de la Bégum. Le Sans dessus dessous é a extensão do romance na frase de Maston,em De la Terre à la Lune: “Unissons nos effeorts, inventons des machines et redressons l’axe de la Terre!” (capítulo XIX). O capitão Nemo que é o personagem central de Vingt Mille lieues sous le mers (1869-70), retorna 16 anos mais velho para relatar os seus últimos dias em L’Île mystérieuse (1874-75). Mas esse procedimento de retomar os personagens não se limita a isso; dois romances anteriores recordam as atividades de Nemo. Le Sphinx des glaces (1897), um longo texto evoca a conquista do pólo sul por Nemo e no Maître du monde (1904), a energia elétrica utilizada por robô é comparada àquela usada por Nemo para alimentar os motores do seu Nautilus. Indubitavelmente existe um reenvio de um romance a outro. Verne parece ter a consciência do seu poder de criação literária. Ele retoma os seus textos, refazendo-os, comentando-os e dando uma unidade à sua obra.

A imaginação de Verne constitui uma verdadeira máquina que absorve uma enorme quantidade de informações para transformá-la em matéria romanesca. Um dos seus contemporâneos, o matemático Joseph Bertrand, se extasiava diante da capacidade do cerebro de Júlio Verne:

merveilleux engin transformateur qui, des matériaus apportés par les savants de son intimité, tirait, avec la logique la plus cartésienne, les conséquences des faits scientifiques dont il rassemblait toutes les données 2

Espírito extraordinariamente curioso, foi um grande leitor. Nutria sua cultura nas enciclopédias e nos periódicos que lia sistematicamente todos os dias. Soube como ninguém revelar os sonhos da sua época, expondo as visões de um novo mundo.

Suas especulações baseavam-se numa documentação científica impressionante que acumulava antes de iniciar os seus romances. A essas pesquisas se associava uma imaginação literária e poética de grande sensibilidade político-social que valorizava a importância da ciência e da tecnologia.

Como disse o filósofo e escritor Michel Serres: “desde a morte de Verne falta um escritor que dê à ciência o valor que ela merece”. Até hoje, o próprio nome Júlio Verne evoca as imagens de um mundo, onde o cientista era uma mente preocupada em preservar um futuro feliz e justo para a Humanidade – como, por exemplo, a do Capitão Nemo, capaz de destruir os seus inventos, pois acreditava que os governos ainda não estavam prontos para recebê-los. Em conseqüência dos seus textos de visionário, o nome de Jules Verne tornou-se um mito universal e imortal.

Júlio Verne e os pioneiros da Astronáutica

Neste ano do centenário de morte de Júlio Verne (1828-1905), uma rápida inspecção nos catálogos das editoras publicados no exterior, dentre eles os italianos e franceses, é suficiente para mostrar que a literatura verniana ainda seduz as novas gerações e até os idosos, como o escritor italiano Umberto Eco confessou recentemente em crônica publicada na revista Entre Livros. Aliás, as antecipações de Júlio Verne provocam um fascínio superior aos outros romances de antecipação, pois as invenções previstas que se tornaram uma realidade são muito inferiores às de Verne. Com efeito, “nenhum submarino atômico será algum dia tecnologicamente mais espantoso do que o Nautilus, e nenhum dirigível ou avião a jato poderá ter algum dia o fascínio do majestoso navio a hélice de Robur, o conquistador”, como escreveu Umberto Eco.

A conquista do espaço é um velho sonho da humanidade. Logo que se constatou que os astros eram corpos sólidos, o homem começou a pensar em visitá-las. Entretanto, por falta de meios tecnológicos suficientes, seus planos ficaram limitados aos relatos dos escritores que, influenciados pelo desenvolvimento do início do século XIX, deram origem à literatura de ficção científica. De todos os relatos sobre os meios de conquista do espaço, os mais importantes foram os do escritor francês Júlio Verne, que publicou em 1865 o imortal livro: De la Terre à la Lune. Neste livro, os fatos científicos são sensivelmente tão exatos, como o permitiriam os conhecimentos da época. Embora tenha sido o escritor francês Achille Eyraud quem primeiro imaginou o emprego de foguetes a reação, como está relatado no seu livro Voyage à Venus, publicado em 1863, foram Julio Verne e, mais tarde, o escritor H. G. Wells os grandes divulgadores das idéias que influenciariam os pioneiros da Astronáutica.

O primeiro cientista a compreender a utilidade dos foguetes na Astronáutica e a estudar as bases teóricas de sua utilização foi o cientista russo Konstantin Edwardovitch Tsiolkovski (1857-1935) que assim escreveu sobre Júlio Verne: “Durante muito tempo pensei no foguete como todo mundo, considerando-o apenas um meio de diversão, com algumas aplicações pouco importantes na vida corrente. Não me lembro exatamente quando me veio a idéia de fazer os cálculos dos seus movimentos. Provavelmente, os primeiros germes dessa idéia foram fornecidos pelo fantástico Julio Verne e, em conseqüência deste grande autor, meu pensamento orientou-se nesta direção, estimulando o desejo que, mais tarde, impulsionou o espírito do meu trabalho”.

Não foi, entretanto, Tsiolkovski o único a sofrer as influências do escritor francês; o engenheiro norte-americano Robert Hutchings Goddard (1882-1945), pai da moderna tecnologia dos foguetes, em um ensaio autobiográfico escrito em 1927 e publicado em 1959 na revista Astronautics, reconheceu a influência das obras de ciência-ficção, tais como os clássicos de De la Terre à la Lune de Julio Verne e The War of lhe Worlds de H. G. Wells, com as seguintes palavras: “Eles afetaram maravilhosamente a minha imaginação, incitando-me a pensar sobre os caminhos e meios possíveis à realização dessas maravilhas”.

Outro pioneiro que teve o seu interesse pela astronáutica estimulado pelos grandes romancistas da ciência-ficção do século XIX, em especial por Julio Verne, foi o terceiro grande responsável pelas idéias fundamentais da ciência espacial, o engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989). Ainda menino, aos onze anos leu Da terra à Lua e Ao redor da Lua, de Júlio Verne, cujas idéias muito o fascinaram, estimulando seu raciocínio em direção às questões sobre viagens espaciais. Assim escreveu Oberth em sua autobiografia: “Tinha onze anos quando recebi de presente de minha mãe os célebres livros de Julio Verne, que já li ao menos cinco ou seis vezes, até os saber de memória”.


Nos anos 20 e 30 do século XX, na França, a idéia dos vôos espaciais foi dominada pela figura do engenheiro Robert Esnault-Pelterie; um dos únicos pioneiros da astronáutica que se distinguiu inicialmente por uma importante contribuição à aeronáutica antes de se dedicar às questões relativas às viagens interplanetárias.

Valentin Petrovitch-Glushko (1908-1989), um dos engenheiros responsáveis pelo desenvolvimento do maior foguete da atualidade, o Energia, nasceu em Odessa em 1908. Seu pai foi um empregado de escritório e sua mãe era enfermeira. Nos últimos anos da escola, o jovem Glushko começou a estudar astronomia, realizando suas próprias observações de Vênus, Júpiter e Marte. Simultaneamente, publicou artigos sobre a ciência dos astros nos jornais locais. “Com a idade de 13 anos”, confessou mais tarde, “quando estudava na escola técnica, li os livros de Júlio Verne, Da Terra à Lua e Ao redor da Lua, que definiram o interesse de toda minha vida”.

O próprio engenheiro alemão Wernher Von Braun (1912-1977), que dirigiu os primeiros lançamentos de satélites e foguetes norte-americanos, confessou inúmeras vezes que os autores de ficção científica, dentre eles Julio Verne, haviam-se entusiasmado profundamente na juventude.

Tal influência, entretanto, não se fez somente junto àqueles que estabeleceram as bases fundamentais da Astronáutica, pois a leitura, na juventude, de Júlio Verne iria animar também outros homens de ciência, tais como os astrônomos, biólogos, físicos, matemáticos etc.

Assim, o grande físico norte-americano George Gamow (1904-1968) que, além de ter sido o responsável pela moderna cosmologia, escreveu também inúmeros livros de divulgação científica, traduzidos em quase todos os idiomas, confessou que desde a idade de sete anos ficou fascinado pelas histórias de Julio Verne que a sua mãe lia em voz alta.

Livros como os de Júlio Verne certamente fizeram e ainda fazem muito mais no sentido de inspirar as vocações de futuros cientistas, do que todos os ensinamentos ministrados nas escolas, pois a dedicação desses jovens nas aulas de Ciências foi, sem dúvida, motivada por aquelas leituras.

Como toda sociedade tem que cultivar a Ciência, pois ela está intimamente associada à evolução de nossa civilização, é fundamental procurar incentivar o interesse dos jovens pelas ciências o mais cedo possível, através de leituras voltadas para as histórias de antecipação científica, como, aliás, se pode fazer indiretamente por intermédio de filmes ou histórias em quadrinhos, onde ocorrem relatos de conquista espacial. Isto é o que se vem acontecendo em outros países, como nos EUA, onde se procura desenvolver o caráter criativo da criança desde cedo. Assim também ocorreu com as histórias de Júlio Verne, que entusiasmou os pioneiros da Astronáutica.

1 No balão nenhum movimento, nem horizontal e nem vertical é perceptível. O horizonte parece sempre se manter na mesma altura. Ganha-se em raio de visibilidade, eis tudo, tanto que a terra, abaixo da nacele se encurva como um funil. Ao mesmo tempo, o silêncio absoluto, a calma completa da atmosfera só perturbada pelo gemido do vimi que nos leva.

2 Maravilhoso engenho transformador que dos materiais traduzidos pelos cientistas de sua intimidade, extraiu, com a lógica mais cartesiana, as conseqüências dos fatos científicos dos quais reuniu todo os dados.

Jules Verne em Amiens (1871-1905)

Depois de uma permanência em Crotoy, durante a guerra de 1870, Jules Verne se fixou em Amiens por diversas razões; uma delas foi a dificuldade em trabalhar em Paris. “Essa cidade me enerva, muita agitação, muito ruído. Não se encontra uma hora de calma e tranqüilidade”, assim escreveu ao seu amigo Félix Duquesnel.

Ele escolheu uma organização racional entre o seu trabalho, suas relações parisienses e o mar. Os sucessos das suas obras eram consideráveis; dentre elas A volta ao mundo em oitenta dias; encontrou o caminho a seguir sem nenhuma situação geográfica onde a calma provincial e o conforto de Amiens estabelecia uma harmonia que permitia satisfazer suas preocupações como escritor. De fato, as cartas entre Paris e Amiens chegavam ao seu destino em um dia. Escrevia-se pelo correio como se faz atualmente através das mensagens eletrônicas.

Se por um lado, além de Amiens não estar situada muito longe de Paris, pois a viagem entre as duas cidades durava uma hora e trinta minutos, por outro lado, circulavam dezessete trens por dia entre elas. Desse modo, Jules Verne encontrava os seus amigos, os compositores, as pessoas de teatro, o seu editor e podia se reunir com a comissão de redação da Revista de educação e recreação, da qual fazia parte e, se quisesse, podia retornar no mesmo dia.. Reunia-se freqüentemente com Hetzel, no Café Caron, entre as ruas Saint-Pères e Université, restaurante que conservou a sua cozinha familiar e a decoração dos anos de 1830, onde almoçavam junto ao ponto mais obscuro da sala. Sem dúvida, aproveitava as suas idas a Paris para se encontrar com Estelle Hénin, uma bela e culta jovem parisiense que foi sua amante entre 1867 e 1885, ano da sua morte, o que deixou o romancista profundamente deprimido.

Casado em 1857 com uma jovem viúva de Amiens, Honorine de Viane, instalou-se, em julho de 1871, na cidade natal de sua esposa, com o seu filho Michel e as duas filhas do primeiro casamento de Honorine. O seu primeiro endereço foi no número 23 do boulevard Guyencourt. Um ano mais tarde, num intervalo de cinco meses, as filhas de Honorine se casaram. Em setembro de 1873, mudou-se para uma casa de número 4 do boulevard Longueville, hoje boulevard Jules Verne. Seu ritmo de trabalho permanece imutável. Quando escrevia, dormia e acordava cedo. Escrevia das 5 horas às 11 da manhã. Depois do almoço consagrava algum tempo à leitura em sua residência e a biblioteca municipal e mais freqüentemente no Clube da Sociedade Industrial. À noite, após um curto passeio a pé, ele voltava para casa indo dormir às nove horas.

A casa de Longueville estava situada no novo bairro de Henriville que, em 1830, surgiu com a demolição das antigas fortificações e era situada ao sul da cidade. Modernas e amplas essas casas estavam voltadas para um grande jardim em torno do qual se justapunham casas todas elas do mesmo estilo de Luís Filipe. O boulevard só tinha sido construído de um lado; do outro lado, pela fossa das antigas fortificações, passava a nova linha de estrada de ferro Paris-Boulogne-Calais. Além da via férrea, uma vasta seqüência de árvores se alongava pelo boulevard du Mail; assim limitados unilateralmente por casas da monarquia republicana e do segundo império, os boulevares de Longueville e du Mail conduziam à estação a 500 metros a direita da casa do escritor para o parque de Longueville e a esquerda que servia de Praça das Armas e o Campo de feira, durante os vinte dias de São João.

Num ato simbólico da sua instalação em Amiens, Jules Verne efetuou uma ascensão em balão acima da cidade. Ele escreveu no Journal de Amiens um artigo, reeditado no Moniteur de la Somme: Vingt-quatre minutes en ballon.

En ballon, aucun mouvement, ni horizontal, ni vertical, n’est perceptible. L’horizon paraît toujours se maintenir à la même hauteur. Il gagne en rayon, voilà tout, tandis que la terre, au-dessous de la nacelle, se creuse comme un entonnoir. En même temps, silence absolu, calme complet de l’atmosphère, que troublent seuls les gémissements de l’osier qui nous porte. 1

Este episódio serviu para a redação da versão definitiva da Ilha Misteriosa que se inicia pelo naufrágio de um balão perdido em cima do Oceano Pacífico.

Em 1882, a família Verne mudou-se do boulevard Longueville para se instalar a 100 metros, na esquina da rua Charles Dubois. Esta casa muito mais ampla do que a anterior, compunha-se de dois andares, e uma torre de quatro andares que terminava por um terraço e dependências para domésticas. A face do prédio principal e as dependências dão para a entrada de um grande jardim. Uma escadaria permitia alcançar o terraço de onde se tinha uma vista soberba da cidade dominada por sua célebre catedral.

Em 1886, Jules Verne foi vítima de um atentado que o deixou enfermo. A vida provinciana o levou a participar de algumas atividades associativas. Membro da Academia de Amiens desde 1882 e da Sociedade Industrial, acabou membro do Conselho da Caixa Econômica e do Conselho de Teatro. Levou uma vida modéstia vivendo nessa cidade para satisfazer o gosto de sua esposa, embora preferisse a vida mundana dos salões à solidão laboriosa de seu gabinete de trabalho.

O coroamento dessa vida modesta foi a eleição para o Conselho Municipal de Amiens, em 1888, quando foi encarregado do teatro onde ele freqüentava assiduamente. Em 1898 pronunciou um discurso sobre a distribuição de prêmios no Liceu e inaugurou um circo em 1889.

A lenda familiar dos Vernes relata que Jules, com a idade de 11 anos, fugiu de casa clandestinamente a bordo de um navio de três mastros La Coralie, que partia para as Índias. A autenticidade desse acidente está muito longe de ser confirmada, no entanto, a paixão de Jules Verne pelo mar e pelos seus navios foi uma realidade. Uma outra lenda, que Jules procurou sempre desmentir, diz que as viagens extraordinárias são obras de um sedentário, que nunca teria viajado. No entanto, a maior parte dos numerosos romances foi inspirada em viagens reais. Com efeito, sua primeira viagem o levou à Grã-Bretanha em 1859, relatada em seu romance Voyage a reculons em Angleterre et em Ecosse, que permaneceu inédito até 1989. Seus romances Les Indes noires e Le Rayon-vert são inspirados nessa viagem. Além disso, Une ville flottante é um relato romanceado da sua travessia do Atlântico a bordo do Great-Eastern, o maior transatlântico da época.

Os iates

Júlio Verne possuiu três iates Em 1865, adquiriu uma chalupa de pesca que batizou de Saint-Michel, em homenagem ao filho. Em sua primeira viagem, procurou o seu irmão Paul, em Bordéus. Ele escreveu a Hetzel: “Eu não pude resistir ao desejo de ir procurá-lo por mar e trazê-lo por mar. Uma travessia de cinco a seis dias, eis tudo; e você sabe, nada de boa viagem sem uma ponta de Oceano”.

Quando a chalupa estava sendo reformada em 1868, escreveu: “O barco avança! Ele será encantador, estou apaixonado por esse conjunto de prancha como rapaz de 20 anos por uma amante. Prometo que lhe serei ainda mais fiel.”

Uma parte das 20.000 léguas submarinas foi escrita no barco. Desde a Inglaterra, escreveu a Hetzel: “Eu estou ancorado em Gravesand, no momento, de onde escrevo, e acabo de terminar o primeiro volume das 20.000 léguas submarinas, tudo como se estivesse no meu gabinete na rua de Sèvres! É bastante belo, que estímulo à imaginação”.

Em 1876, o Saint-Michel foi substituído pelo Saint-Michel II, que tinha um arcabouço de 19 toneladas e 13 metros de comprimento.

Em 1877, Verne comprou do Marquês de Préaulx um soberbo iate, a vela e a vapor, que media 30 metros de comprimento e uma tripulação de 10 homens, a que deu o nome de Saint-Michel III: “Que loucura! Quantas viagens em perspectivas, quantos campos de impressão e quantas idéias a recolher.”

Com o Saint-Michel III entre 1878 e 1885, no Mediterrâneo, realizou grandes cruzeiros a partir dos quais nasceram os romances Mathias Sandorf e Clovis Dardentor.

Seus últimos anos

Nove anos mais tarde é a morte da sua alma. Vendeu esse magnífico barco provavelmente por razões financeiras, em 15 de fevereiro de 1886. Com a venda do Saint-Michel III, iniciou-se o período mais negro da sua vida. Em 9 de março, seu sobrinho Gaston atingiu-o com duas balas de revólver por razões que permanecem até hoje misteriosa. Desde então tornou-se coxo para o resto da vida. Em 17 de março, morreu Hetzel, seu editor, a quem considerava como o seu pai. No mesmo ano, seu filho único, Michel, pai de duas crianças, muito endividado, divorciou-se, casando-se de novo. O ano de 1887, começou com a morte de sua mãe.

Em 1900, Júlio Verne deixou a residência em que morou durante 18 anos na rua Charles Dubois, que havia alugado durante 10 anos, por uma outra, no boulervard Longueville que, menos espaçosa que a anterior, tornava a sua vida mais fácil. Depois de um longo período de enfermidade, faleceu em 24 de março de 1905. Hoje no cemitério de Madeleine, sobre o túmulo do escritor, uma escultura de Albert Roze representa Júlio Verne com um dos braços estendido para o céu como se desejasse proteger-se do Sol. É o último gesto de um homem ainda vigoroso que tem dilacerado a sua mortalha e repele sua pedra como para afirmar que os seus personagens ainda permanecem vivos.

Os temas das obras

Três são os principais temas tratados ao longo desta incrível produção literária: a máquina, a viagem e o fantástico, nos quais se movem os personagens do universo ou do universo univerniano.

A máquina

Algumas máquinas são os meios de transportes, como o Nautilus de Nemo, o obus lunar, o Albatroz de Robur, o elefante de aço (La Maison à vapeur), a jangada, balsa gigante que descia o Amazonas, o canhão gigante de Schultze, destinado a semear a morte pelo envio de obus de gás carbônico (Les 500 millions de la Bégun), o canhão gigante destinado a enviar um obus para a Lua, o forno que transforma o carbono em diamante, as invenções de Orfanik que dão a vida a cantora morta, todas essas máquinas de Júlio Verne foram inspiradas em pesquisas contemporâneas ao escritor. Devemos sublinhar aqui como é diferente a ficção científica que nasceu no fim do século XIX, em particular, com Wells, que qualificava o escritor como puramente imaginativo, estimando que ele mesmo não inventou nada, visto que dizia sempre que as suas idéias apoiavam-se em conhecimentos científicos da sua época, cuja realização ultrapassariam os limites do fazer e do conhecimento técnico contemporâneo ao visionário francês.

Viagens

As viagens de descoberta das regiões ainda desconhecidas ou viagens turísticas servem como tramas aos relatos. Os heróis vernianos se caracterizam pelo desejo de fazer o levantamento topográfico da Terra, a descoberta dos sítios inexplorados, a vontade de alcançar o fim do mundo para ir plantar a bandeira de sua pátria (Haterras au Póle Nord, Nemo au Pólo Sud) ou um farol (Les Naufragés du Jonathan, Le Phare du bout du monde); de alcançar o centro da Terra, de descobrir a origem do universo (Voyage au centre de la Terre, Hector Servadac), ou o seu fim (L’Ile mystérieuse, L’Eternel Adam).

Os heróis de Júlio Verne sonham no interior de um mundo cujos limites são bem determinados. No entanto, na obra verniana não faltam descrições líricas obras de um autêntico poeta, citemos por exemplo, a descrição das cavernas subterrâneas descobertas por Lidenbrock ao longo da sua descida em direção ao centro da Terra, as plantas e os animais das paisagens submarinas (Vingt mille lieues sous les mers).

Nas viagens convêm salientar, particularmente, a inserção da diversidade de conhecimentos, dentre os quais a geografia, que ocupou um lugar preponderante em todos os seus romances. Neste caso, temos os denominados romances geográficos. Ver tabela …..

Fantástico

Existe também nas Voyages extraordinaires uma inspiração fantástica. No Le Secret de Wilhelm Storitz, um alquimista descobre o segredo da invisibilidade e o seu filho utiliza esse processo para perseguir uma jovem que lhe recusava sua atenção.

No Le Sphinx des glaces, nas regiões polares, descobriu curiosos fenômenos, dentre os quais um maciço gigantesco, de ferro, que funcionava como um ímã colossal, e com a aparência de uma esfinge, próxima ao pólo sul. No coração da África, os mais perfeitos macacos e o mais imperfeito dos homens vivem numa impenetrável floresta, Le Village aérien.

Uma obra literária

Sua relação singular com a educação fez de Jules Verne um escritor para jovens; o interesse documentário pela ciência e tecnologia o fez um autor de romances científicos; o interesse pela geografia transformou-o como um escritor de romances geográficos; seu sucesso na antecipação o fez um autor de ficção-científica; a aventura fez com que fosse classificado escritor de romances de aventura e, em virtude de destas características foi considerado pela crítica literária como autor popular de segunda ordem; por ter relegado a um segundo plano as análises psicossociológicas dos seus personagens, passou a ser tido sem profundidade; pelo estilo transparente e de fácil leitura foi considerado de estilo praticamente inexistente.

Nada mais falso, senão vejamos.

Verne reteve a lição de Balzac e compreendeu que mesmo de modo imaginário, o universo deve ser coerente. No conjunto das viagens extraordinárias se preocupa em manter múltiplas associações intertextuais, como por exemplo, retorno de personagens, auto-referencias, alusões, variações, etc. que sublinham a preocupação e o prazer de Verne de criar uma obra coerente. Seus romances estão associados entre si, como por exemplo, Robur-le-Conquérant se refere ao Cinq Millions de la Bégum. Le Sans dessus dessous é a extensão do romance na frase de Maston,em De la Terre à la Lune: “Unissons nos effeorts, inventons des machines et redressons l’axe de la Terre!” (capítulo XIX). O capitão Nemo que é o personagem central de Vingt Mille lieues sous le mers (1869-70), retorna 16 anos mais velho para relatar os seus últimos dias em L’Île mystérieuse (1874-75). Mas esse procedimento de retomar os personagens não se limita a isso; dois romances anteriores recordam as atividades de Nemo. Le Sphinx des glaces (1897), um longo texto evoca a conquista do pólo sul por Nemo e no Maître du monde (1904), a energia elétrica utilizada por robô é comparada àquela usada por Nemo para alimentar os motores do seu Nautilus. Indubitavelmente existe um reenvio de um romance a outro. Verne parece ter a consciência do seu poder de criação literária. Ele retoma os seus textos, refazendo-os, comentando-os e dando uma unidade à sua obra.

A imaginação de Verne constitui uma verdadeira máquina que absorve uma enorme quantidade de informações para transformá-la em matéria romanesca. Um dos seus contemporâneos, o matemático Joseph Bertrand, se extasiava diante da capacidade do cerebro de Júlio Verne:

merveilleux engin transformateur qui, des matériaus apportés par les savants de son intimité, tirait, avec la logique la plus cartésienne, les conséquences des faits scientifiques dont il rassemblait toutes les données 2

Espírito extraordinariamente curioso, foi um grande leitor. Nutria sua cultura nas enciclopédias e nos periódicos que lia sistematicamente todos os dias. Soube como ninguém revelar os sonhos da sua época, expondo as visões de um novo mundo.

Suas especulações baseavam-se numa documentação científica impressionante que acumulava antes de iniciar os seus romances. A essas pesquisas se associava uma imaginação literária e poética de grande sensibilidade político-social que valorizava a importância da ciência e da tecnologia.

Como disse o filósofo e escritor Michel Serres: “desde a morte de Verne falta um escritor que dê à ciência o valor que ela merece”. Até hoje, o próprio nome Júlio Verne evoca as imagens de um mundo, onde o cientista era uma mente preocupada em preservar um futuro feliz e justo para a Humanidade – como, por exemplo, a do Capitão Nemo, capaz de destruir os seus inventos, pois acreditava que os governos ainda não estavam prontos para recebê-los. Em conseqüência dos seus textos de visionário, o nome de Jules Verne tornou-se um mito universal e imortal.

Júlio Verne e os pioneiros da Astronáutica

Neste ano do centenário de morte de Júlio Verne (1828-1905), uma rápida inspecção nos catálogos das editoras publicados no exterior, dentre eles os italianos e franceses, é suficiente para mostrar que a literatura verniana ainda seduz as novas gerações e até os idosos, como o escritor italiano Umberto Eco confessou recentemente em crônica publicada na revista Entre Livros. Aliás, as antecipações de Júlio Verne provocam um fascínio superior aos outros romances de antecipação, pois as invenções previstas que se tornaram uma realidade são muito inferiores às de Verne. Com efeito, “nenhum submarino atômico será algum dia tecnologicamente mais espantoso do que o Nautilus, e nenhum dirigível ou avião a jato poderá ter algum dia o fascínio do majestoso navio a hélice de Robur, o conquistador”, como escreveu Umberto Eco.

A conquista do espaço é um velho sonho da humanidade. Logo que se constatou que os astros eram corpos sólidos, o homem começou a pensar em visitá-las. Entretanto, por falta de meios tecnológicos suficientes, seus planos ficaram limitados aos relatos dos escritores que, influenciados pelo desenvolvimento do início do século XIX, deram origem à literatura de ficção científica. De todos os relatos sobre os meios de conquista do espaço, os mais importantes foram os do escritor francês Júlio Verne, que publicou em 1865 o imortal livro: De la Terre à la Lune. Neste livro, os fatos científicos são sensivelmente tão exatos, como o permitiriam os conhecimentos da época. Embora tenha sido o escritor francês Achille Eyraud quem primeiro imaginou o emprego de foguetes a reação, como está relatado no seu livro Voyage à Venus, publicado em 1863, foram Julio Verne e, mais tarde, o escritor H. G. Wells os grandes divulgadores das idéias que influenciariam os pioneiros da Astronáutica.

O primeiro cientista a compreender a utilidade dos foguetes na Astronáutica e a estudar as bases teóricas de sua utilização foi o cientista russo Konstantin Edwardovitch Tsiolkovski (1857-1935) que assim escreveu sobre Júlio Verne: “Durante muito tempo pensei no foguete como todo mundo, considerando-o apenas um meio de diversão, com algumas aplicações pouco importantes na vida corrente. Não me lembro exatamente quando me veio a idéia de fazer os cálculos dos seus movimentos. Provavelmente, os primeiros germes dessa idéia foram fornecidos pelo fantástico Julio Verne e, em conseqüência deste grande autor, meu pensamento orientou-se nesta direção, estimulando o desejo que, mais tarde, impulsionou o espírito do meu trabalho”.

Não foi, entretanto, Tsiolkovski o único a sofrer as influências do escritor francês; o engenheiro norte-americano Robert Hutchings Goddard (1882-1945), pai da moderna tecnologia dos foguetes, em um ensaio autobiográfico escrito em 1927 e publicado em 1959 na revista Astronautics, reconheceu a influência das obras de ciência-ficção, tais como os clássicos de De la Terre à la Lune de Julio Verne e The War of lhe Worlds de H. G. Wells, com as seguintes palavras: “Eles afetaram maravilhosamente a minha imaginação, incitando-me a pensar sobre os caminhos e meios possíveis à realização dessas maravilhas”.

Outro pioneiro que teve o seu interesse pela astronáutica estimulado pelos grandes romancistas da ciência-ficção do século XIX, em especial por Julio Verne, foi o terceiro grande responsável pelas idéias fundamentais da ciência espacial, o engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989). Ainda menino, aos onze anos leu Da terra à Lua e Ao redor da Lua, de Júlio Verne, cujas idéias muito o fascinaram, estimulando seu raciocínio em direção às questões sobre viagens espaciais. Assim escreveu Oberth em sua autobiografia: “Tinha onze anos quando recebi de presente de minha mãe os célebres livros de Julio Verne, que já li ao menos cinco ou seis vezes, até os saber de memória”.


Nos anos 20 e 30 do século XX, na França, a idéia dos vôos espaciais foi dominada pela figura do engenheiro Robert Esnault-Pelterie; um dos únicos pioneiros da astronáutica que se distinguiu inicialmente por uma importante contribuição à aeronáutica antes de se dedicar às questões relativas às viagens interplanetárias.

Valentin Petrovitch-Glushko (1908-1989), um dos engenheiros responsáveis pelo desenvolvimento do maior foguete da atualidade, o Energia, nasceu em Odessa em 1908. Seu pai foi um empregado de escritório e sua mãe era enfermeira. Nos últimos anos da escola, o jovem Glushko começou a estudar astronomia, realizando suas próprias observações de Vênus, Júpiter e Marte. Simultaneamente, publicou artigos sobre a ciência dos astros nos jornais locais. “Com a idade de 13 anos”, confessou mais tarde, “quando estudava na escola técnica, li os livros de Júlio Verne, Da Terra à Lua e Ao redor da Lua, que definiram o interesse de toda minha vida”.

O próprio engenheiro alemão Wernher Von Braun (1912-1977), que dirigiu os primeiros lançamentos de satélites e foguetes norte-americanos, confessou inúmeras vezes que os autores de ficção científica, dentre eles Julio Verne, haviam-se entusiasmado profundamente na juventude.

Tal influência, entretanto, não se fez somente junto àqueles que estabeleceram as bases fundamentais da Astronáutica, pois a leitura, na juventude, de Júlio Verne iria animar também outros homens de ciência, tais como os astrônomos, biólogos, físicos, matemáticos etc.

Assim, o grande físico norte-americano George Gamow (1904-1968) que, além de ter sido o responsável pela moderna cosmologia, escreveu também inúmeros livros de divulgação científica, traduzidos em quase todos os idiomas, confessou que desde a idade de sete anos ficou fascinado pelas histórias de Julio Verne que a sua mãe lia em voz alta.

Livros como os de Júlio Verne certamente fizeram e ainda fazem muito mais no sentido de inspirar as vocações de futuros cientistas, do que todos os ensinamentos ministrados nas escolas, pois a dedicação desses jovens nas aulas de Ciências foi, sem dúvida, motivada por aquelas leituras.

Como toda sociedade tem que cultivar a Ciência, pois ela está intimamente associada à evolução de nossa civilização, é fundamental procurar incentivar o interesse dos jovens pelas ciências o mais cedo possível, através de leituras voltadas para as histórias de antecipação científica, como, aliás, se pode fazer indiretamente por intermédio de filmes ou histórias em quadrinhos, onde ocorrem relatos de conquista espacial. Isto é o que se vem acontecendo em outros países, como nos EUA, onde se procura desenvolver o caráter criativo da criança desde cedo. Assim também ocorreu com as histórias de Júlio Verne, que entusiasmou os pioneiros da Astronáutica.

1 No balão nenhum movimento, nem horizontal e nem vertical é perceptível. O horizonte parece sempre se manter na mesma altura. Ganha-se em raio de visibilidade, eis tudo, tanto que a terra, abaixo da nacele se encurva como um funil. Ao mesmo tempo, o silêncio absoluto, a calma completa da atmosfera só perturbada pelo gemido do vimi que nos leva.

2 Maravilhoso engenho transformador que dos materiais traduzidos pelos cientistas de sua intimidade, extraiu, com a lógica mais cartesiana, as conseqüências dos fatos científicos dos quais reuniu todo os dados.

Júlio Verne em Crotoy (1869- 1871)

Depois de mudar-se dos grandes bulevares e dos teatros para o bairro de Auteuil, em 1863, Júlio Verne deixou definitivamente Paris em meados de março de 1869. Com a idade de 41 anos, instalou-se na região de Amiens onde sua esposa Honorine voltou a conviver com os parentes. No curso dos anos que precederam essa mudança, toda a família passou as férias no pequeno porto de pesca de Crotoy, na margem norte da baía de Somme. Jules Verne alugou neste ano, na Rua Lefèvre, próximo ao porto, uma casa de um andar – La Solitude – com uma pequena dependência na qual fez o seu escritório.

Em Crotoy, Júlio Verne redescobriu a sua paixão pelo mar, não pelo mar distante que fascinou a sua infância, mas aquele que entraria na sua vida e em seus escritos. Picardia, ao mesmo tempo em que sua carreira literária se estabelecia em modo definitivo iniciam-se as suas grandes aventuras marítimas. Adquiriu o seu primeiro iate de 8 a 10 toneladas que batizou com o prenome do seu filho, Saint-Michel.

O mar se tornou a sua verdadeira fonte inspiradora no que permanecerá durante cerca de 20 anos. Em seu iate, Jules Verne tomou notas, pensou no infinito das grandes aventuras humanas. Reconstituiu a sua energia, sonhou com a liberdade, e redigiu o que permanecerá como um dos seus maiores romances, Vingt mille lieues sous les mers (vinte mil léguas submarinas, 1869-1870). Este romance foi concebido desde 1866 por ocasião de umas férias de verão na casa dos seus pais em Chantenay. Ele começou a sua redação no início de 1868 e terminou em junho de 1869. Ele escreveu no seu iate, deixando o texto de lado para escrever Autour de la Lune (Ao redor da Lua), retomando as vinte mil léguas mais tarde. Foram necessários cinco anos para concluir o seu romance e criar um dos mais notáveis personagens verniano: o capitão Nemo.

Nemo é um herói feito de paradoxo, onde coabita um egoísmo cego com a rejeição total do interesse pessoal. Como Hatteras, sua obra constitui um sonho apaixonado, preocupado em conquistar um conhecimento útil ao bem coletivo. Na realidade, é a imagem do autor: Nemo é introvertido e um grande pensador. Homem de ação, Nemo constitui por seu imenso ideal pouco comum um aventureiro diferente de todos. Esses dois heróis de Jules Verne se parecem por sua audácia, temeridade, convicção racional e obstinada.

Enquanto o capitão conduziu a sua energia súper-humana para a loucura, o capitão Nemo permaneceu prudentemente como se houvesse conservado a lição do predecessor. Procurou livremente o universo que lhe é permitido descobrir – um território infinito que ele insere nos seus conhecimentos – para uma epopéia inédita, estimulada por uma razão direcionada para o combate entre o bem e o mal. É, na realidade, um terrorista pacifista.

Esse personagem é uma síntese do homem do seu tempo, cujas novas formas morais estavam em construção. É um homem que aspira a uma sociedade de cidadãos responsáveis pela razão, mas cuja razão é ainda precária e frágil. A correspondência entre Verne e o seu editor Hetzel, a propósito de Nemo, permite detectar um desacordo entre esses dois que ultrapassa o problema dramatúrgico. Na realidade, as idéias de Verne e Hetzel convergem em matéria moral. Os dois estão igualmente convencidos que a humanidade deve caminhar para uma sociedade mais lúcida e mais justa.

Mas, nesses pontos comuns, a aplicação dos conceitos morais tende a seguir uma divergência. A ciência sobre a visão de Hetzel é a moral positivista de Augusto Comte, que sucede a moral teológica e metafísica. Jules Verne aceita essa evolução; no entanto, não quer opor esses dois conceitos radicalmente. Essa distinção permite melhor compreender as discussões que separam esses dois homens. Na verdade, Verne ultrapassa o pensamento moralista do seu editor. Nemo é o maior personagem concebido por Jules Verne. Segundo o escritor francês Jean-Paul Dekiss, Nemo constituiu o retorno de Prometeu que o escritor antecipou de 20 anos ao de Nietzsche em Assim falou Zaratustra.

Seu gosto pelo jogo etimológico das palavras, estimulou Verne a dar a Nemo um duplo sentido. Literalmente o vocábulo latino Nemo significa ninguém, que não vem de nenhuma parte, sem objetivo pessoal, fora da sociedade civilizada que ele rejeitava, e aparentemente não possuiu nenhuma identidade particular. Na realidade, Nemo se funde na água e se dissolve na totalidade do mar do globo. Nemo é portanto um personagem humano, irredutível no seu desejo de independência. Aliás, na sua fortaleza submarina, tudo possuía a marca desta independência: o capitão Nemo tinha como lema do Nautilus a expressão latina Mobilis in Mobili, ou seja, móvel num elemento móvel. Nemo era totalmente livre, era e é ainda a personificação do ser humano, mestre de si e do seu destino. Essa exposição mais longa sobre o personagem Nemo se justifica pela associação que se pode fazer entre o escritor e seu personagem, a quem Jules Verne dedicou dois volumosos romances. Depois das Vinte mil léguas, Nemo retorna na L’Île mystérieuse (A Ilha misteriosa, 1874-75).

Júlio Verne em Crotoy (1869- 1871)

Depois de mudar-se dos grandes bulevares e dos teatros para o bairro de Auteuil, em 1863, Júlio Verne deixou definitivamente Paris em meados de março de 1869. Com a idade de 41 anos, instalou-se na região de Amiens onde sua esposa Honorine voltou a conviver com os parentes. No curso dos anos que precederam essa mudança, toda a família passou as férias no pequeno porto de pesca de Crotoy, na margem norte da baía de Somme. Jules Verne alugou neste ano, na Rua Lefèvre, próximo ao porto, uma casa de um andar – La Solitude – com uma pequena dependência na qual fez o seu escritório.

Em Crotoy, Júlio Verne redescobriu a sua paixão pelo mar, não pelo mar distante que fascinou a sua infância, mas aquele que entraria na sua vida e em seus escritos. Picardia, ao mesmo tempo em que sua carreira literária se estabelecia em modo definitivo iniciam-se as suas grandes aventuras marítimas. Adquiriu o seu primeiro iate de 8 a 10 toneladas que batizou com o prenome do seu filho, Saint-Michel.

O mar se tornou a sua verdadeira fonte inspiradora no que permanecerá durante cerca de 20 anos. Em seu iate, Jules Verne tomou notas, pensou no infinito das grandes aventuras humanas. Reconstituiu a sua energia, sonhou com a liberdade, e redigiu o que permanecerá como um dos seus maiores romances, Vingt mille lieues sous les mers (vinte mil léguas submarinas, 1869-1870). Este romance foi concebido desde 1866 por ocasião de umas férias de verão na casa dos seus pais em Chantenay. Ele começou a sua redação no início de 1868 e terminou em junho de 1869. Ele escreveu no seu iate, deixando o texto de lado para escrever Autour de la Lune (Ao redor da Lua), retomando as vinte mil léguas mais tarde. Foram necessários cinco anos para concluir o seu romance e criar um dos mais notáveis personagens verniano: o capitão Nemo.

Nemo é um herói feito de paradoxo, onde coabita um egoísmo cego com a rejeição total do interesse pessoal. Como Hatteras, sua obra constitui um sonho apaixonado, preocupado em conquistar um conhecimento útil ao bem coletivo. Na realidade, é a imagem do autor: Nemo é introvertido e um grande pensador. Homem de ação, Nemo constitui por seu imenso ideal pouco comum um aventureiro diferente de todos. Esses dois heróis de Jules Verne se parecem por sua audácia, temeridade, convicção racional e obstinada.

Enquanto o capitão conduziu a sua energia súper-humana para a loucura, o capitão Nemo permaneceu prudentemente como se houvesse conservado a lição do predecessor. Procurou livremente o universo que lhe é permitido descobrir – um território infinito que ele insere nos seus conhecimentos – para uma epopéia inédita, estimulada por uma razão direcionada para o combate entre o bem e o mal. É, na realidade, um terrorista pacifista.

Esse personagem é uma síntese do homem do seu tempo, cujas novas formas morais estavam em construção. É um homem que aspira a uma sociedade de cidadãos responsáveis pela razão, mas cuja razão é ainda precária e frágil. A correspondência entre Verne e o seu editor Hetzel, a propósito de Nemo, permite detectar um desacordo entre esses dois que ultrapassa o problema dramatúrgico. Na realidade, as idéias de Verne e Hetzel convergem em matéria moral. Os dois estão igualmente convencidos que a humanidade deve caminhar para uma sociedade mais lúcida e mais justa.

Mas, nesses pontos comuns, a aplicação dos conceitos morais tende a seguir uma divergência. A ciência sobre a visão de Hetzel é a moral positivista de Augusto Comte, que sucede a moral teológica e metafísica. Jules Verne aceita essa evolução; no entanto, não quer opor esses dois conceitos radicalmente. Essa distinção permite melhor compreender as discussões que separam esses dois homens. Na verdade, Verne ultrapassa o pensamento moralista do seu editor. Nemo é o maior personagem concebido por Jules Verne. Segundo o escritor francês Jean-Paul Dekiss, Nemo constituiu o retorno de Prometeu que o escritor antecipou de 20 anos ao de Nietzsche em Assim falou Zaratustra.

Seu gosto pelo jogo etimológico das palavras, estimulou Verne a dar a Nemo um duplo sentido. Literalmente o vocábulo latino Nemo significa ninguém, que não vem de nenhuma parte, sem objetivo pessoal, fora da sociedade civilizada que ele rejeitava, e aparentemente não possuiu nenhuma identidade particular. Na realidade, Nemo se funde na água e se dissolve na totalidade do mar do globo. Nemo é portanto um personagem humano, irredutível no seu desejo de independência. Aliás, na sua fortaleza submarina, tudo possuía a marca desta independência: o capitão Nemo tinha como lema do Nautilus a expressão latina Mobilis in Mobili, ou seja, móvel num elemento móvel. Nemo era totalmente livre, era e é ainda a personificação do ser humano, mestre de si e do seu destino. Essa exposição mais longa sobre o personagem Nemo se justifica pela associação que se pode fazer entre o escritor e seu personagem, a quem Jules Verne dedicou dois volumosos romances. Depois das Vinte mil léguas, Nemo retorna na L’Île mystérieuse (A Ilha misteriosa, 1874-75).

Júlio Verne em Paris (1847-1870)

Um poeta aos quinze anos

No início dos anos de 1850, Júlio Verne se instalou em Paris para terminar seus estudos de Direito. Não sabia ainda que seria escritor mas sabia que não seria jurista. O estudo de advocacia sugeriu ao seu pai que Júlio assumiria a sua sucessão em Nantes. Esperando que as suas poesias lhe dessem glória e fortuna, Júlio aproveitou o máximo da vida parisiense, na medida que a modesta pensão paterna lhe permitia. Suas cartas aos pais registram a sua vida diária assim como as suas dificuldades. Para fazer face às dificuldades de um jovem que objetivava a carreira literária – freqüentar os salões e adquirir uma coleção de livros – Júlio começou a publicar os seus primeiros textos no periódico Musée des familles, dirigido por Pierre-Chevalier.

Júlio Verne foi sempre considerado um autor dramático; desde os 17 anos, escreveu dramas românticos inspirados em Victor Hugo, mas foi com vaudeville e operetas que ele obteve os primeiros sucessos. Em 1850, graças a Alexandre Dumas, sua primeira peça Les Pailles Rompues (Contratos Rompidos), foi apresentada em Paris no teatro Lyrique, no Châtelet, do qual se tornou mais tarde secretário. Essa mesma peça foi reprisada em Nantes no teatro Graslin, e Colin-mallard do qual fiel amigo Artistide Hignard escreveu a música. Estes pequenos sucessos se transformaram em verdadeiros triunfos alguns anos mais tarde, em 1874, quando ele adaptou para o palco, em colaboração com Dom Ennery, o Le tour du monde em quatre-vingt jours, Michel Strogoff e Les enfants du capitaine Grant. A capacidade do dramaturgo associado ao grande espetáculo enchia todas as noites durante meses, a platéia dos teatros do Châtelet e de Le Porte Saint-Martin. É o teatro sua primeira vocação: assim como os seus romances, Júlio Verne deve ao teatro a sua glória e fortuna que o imortalizou durante a sua vida e o faria muito conhecido, mais tarde, pela mão dos cineastas após a sua morte.

Influência de Edgar Allan Poe

Ao descobrir os fantásticos contos de Edgar Allan Poe, através das traduções em francês de Baudelaire, Verne decidiu consagrar-lhe um grande estudo no Musée de familles. Essa monografia foi redigida em 1862, mas só publicada em abril de 1864.

“Edgar Allan Poe inventou”, escreveu Júlio Verne “uma nova forma na literatura; criou um gênero à parte que só poderia proceder dele mesmo e do qual ele parece possuir o segredo; pode-se dizer o chefe de uma escola do misterioso, que ele recuou ao limite do impossível; ele terá os seus imitadores”.

Sem dúvida, um deles foi Júlio Verne, que começou a escrever o romance Voyage en l’air, mais tarde, denominado Cinq semaines en ballon.

Em carta a seu pai, em fevereiro de 1862, ao fazer alusão ao conto Lê Canard au ballon (“A balela do balão”), de Poe, escreveu Verne:

“Eu não penso embarcar, no meu próprio balão, um pato nem mesmo um peru que será um peru da farsa, mas seres humanos. Este aeróstato deverá, portanto, ser provido de um mecanismo irrepreensível”.

Verne procurou associar a estranheza ao rigor científico. Na realidade, Poe constituiu o sinal que permitiu a Júlio Verne encontrar o seu próprio gênero literário totalmente pessoal, embora outras influências tenham estimulado o aparecimento da serie “Voyages extraordinaires”, um deles foi sem dúvida o escritor Daniel Defoe através de sua obra “Robinson Crusoé”.

O nascimento de um romancista


Hetzel
Entusiasmado pela Voyage em l’air, o editor Pierre-Jules Hetzel – mais tarde, amigo e conselheiro – aceitou publicá-lo com a condição que o título fosse substituído por Cinq semaines en ballon (Cinco semanas em balão) . O contrato desse livro foi assinado em 23 de outubro de 1862 e o romance apareceu em 31 de janeiro de 1863. A venda desse primeiro romance de um escritor ainda desconhecido teve uma tiragem inicial de 2.000 exemplares. Durante a vida do autor foram vendidos cerca de 76 mil exemplares .

Assim surgiu o romance científico, e mesmo o geográfico, que comportava também de maneira discreta uma sátira social. Na realidade, essa obra correspondia ao estado de espírito que dominava Júlio Verne, nesta época, ou seja, desejo que aspirava se tornar um novo Balzac. Fundamentando-se para alcançar este objetivo descrever a sociedade moderna pela audácia e crueldade das suas imagens, como expôs na entrevista a Brisson, em 1898.

O editor

Antes de instalar a sua editora em 18 Rue Jacob, Hetzel conheceu uma primeira vida de editor e homem político. Em 1844, lançou Le diable à Paris, periódico no qual colaboraram Balzac, Théophile Gautier, Alfred de Musset, Gerard de Nerval, Charles Nodier, Georges Sand, Stendhal e Eugène Sue, tendo como ilustradores Gavami, Grandville e Bertall; a essa plêiade de intelectuais e de escritores se associou Victor Hugo e Jules Sandeau. Além de sua atividade de editor, Hetzel foi tradutor e escritor. Com o pseudônimo de P-J Stahl, contribuiu para as colunas do Magasin d’éducation et de récréation. Republicano, participou da revolução de fevereiro de 1848, tendo servido ao governo provisório como chefe de gabinete de Lamartine, ministro de negócios exteriores. Em conseqüência, teve que se exilar na Bélgica, durante o governo de Napoleão III, só retornando a França em 1859.

Uma biblioteca de educação e recreação.

No entanto, Hetzel projetava a elaboração de uma biblioteca associada à educação e à recreação. Com esse objetivo convenceu o jovem escritor e romancista a se lançar em uma nova “Comédie humaine” estimulando-o a prosseguir no gênero das viagens imaginárias dando lhes uma dimensão épica, onde o maravilhoso se apoiava nas descobertas cientificas da época. Deste modo, apoiado no estímulo do seu editor, Júlio Verne elaborou um romance satírico, Paris au XXe siécle, o qual se concentrava na forma da Voyage extraordinaire.

“É moderno, é novo, é a magia científica” assim anunciava aos seus amigos. “Se eu conseguir sucesso, abandono tudo porque encontrei o caminho que há anos ruminava poder um dia desenvolver.”

Lamentavelmente, esse romance sobre Paris, escrito entre 1860 e 1862, permaneceu na gaveta durante 150 anos2 , pois foi recusado por Hetzel em 1863. Trata-se de uma sátira da sociedade do segundo império numa visão de antecipação. Alguns elementos desse romance foram aproveitados em Une ville idéale (1875), La Journée d’un journaliste américan en 2889 (1889) e L’Île à hélice (1895). No entanto, essa recusa não significou que outras Voyages extraordinaires não fossem escritas: Voyage au centre de la Terre (1864), De la Terre à la Lune (1864-65) e Les enfants du capitaine Grant (1864-65).

Depois do sucesso desses romances, Júlio Verne assinou com Hetzel um segundo contrato em 11 de dezembro de 1865, em que se comprometia a fornecer três volumes por ano de obras que tivessem as mesmas características das editadas anteriormente para o mesmo público e com a mesma extensão. Mais tarde, em 1871, um novo contrato reduz a quantidade de três a dois volumes por ano. Verne aceitou o novo contrato, pois como dizia em carta de abril de 1864 ao seu editor: “quero me tornar antes de tudo, um escritor”.

Na realidade, dessa colaboração com Hetzel permaneceu até 1886, quando seu filho tomou a sucessão e continuou a publicar as Voyages extraordinaires (Viagens Extraordinárias), que representam um total de 62 títulos reunidos em 47 volumes. Na editora de Hetzel, Jules Verne não foi só um autor fértil, mas também o co-diretor do Magasin d’éducation et de récréation (Revista da Educação e da Recreação) , periódico fundado por Hetzel e Jean Mace.

A intenção era reatar com a tradição didática do século XVIII. De fato, essa publicação bi-mensal alternando pequenos trechos de ficção, contos, lições morais e artigos de divulgação científica, tinha como objetivo subliminar propor as famílias um periódico moderno e bem ilustrado no qual predominava “um ensino sério e atraente ao mesmo tempo que agradava aos pais com o proveito das crianças.”

O primeiro número do Magasin d’éducation et de récréation, de 20 de março de 1864, publicou o primeiro episódio do Voyage et aventures du capitaine Hatteras, de Júlio Verne, cujo nome aparece entre os redatores da revista na parte Educação dirigida por Jean Mace. No entanto, foi necessário esperar 1867 para que o objetivo educativo da obra verniana fosse nitidamente formulado, quando foi criada a coleção Voyage extraordinaires na qual foram reeditados, sob o formato maior, com ilustrações e com modificações no texto, os primeiros romances: Cinq semaines en ballon, Voyage au centre de la Terre e Voyage et aventures du capitaine Hatteras. Este último foi precedido de uma advertência do editor que vai constituir o verdadeiro programa a ser adotado pelo autor.

“Les romans de M. Jules Verne sont d’ailleurs arrivés à leur point. Quand on voit le public empressé courir aux conférences qui se sont ouvertes sur mille points de la France, quand on voit qu’à côté des critiques d’art et de théâtre, il a fallu faire place dans nos journaux aux comptes rendus de l’Académie des Sciences, il faut bien se dire que l’art pour l’art ne suffit plus à notre époque, et que l’heure est venue où la science a sa place faite dans la littérature. […]” “Les oeuvres nouvelles de M. Verne viendront s’ajouter successivement à cette édition, que nous aurons soin de tenir toujours au courant. Les ouvrages parus et ceux à paraître embrasseront ainsi dans leur ensemble le plan que s’est proposé l’auteur, quand il a donné pour sous-titre à son oeuvre celui de Voyages dans les mondes connus et inconnus. Son but est, en effet, de résumer toutes les connaissances géographiques, géologiques, physiques, astronomiques, amassées par la science moderne, et de refaire, sous la forme attrayante et pittoresque qui lui est propre, l’histoire de l’univers.(*)”

Esta apresentação-advertencia escrita por Verne e retocada pelo editor apresentava dois pontos de vista aparentemente divergentes. O primeiro correspondia indubitavelmente à intenção de Hetzel de “resumir todos os conhecimentos ……… recolhidos pela ciência moderna”. Tratava sem dúvida de educar sobre uma forma atraente e pitoresca. O outro ponto de vista de origem verniana estava associado às idéias de Flaubert, Zola e Hugo sobre abertura da literatura a sua época, opondo-se às teorias românticas: “é necessário dizer que a arte pela arte não é mais suficiente em nossa época e que é chegada hora onde a ciência tem a sua posição feita na literatura”.

Na verdade, o projeto de Júlio Verne constituía um verdadeiro desafio para um romancista. Como reunir os conhecimentos científicos numa perspectiva didática e ao mesmo tempo em que se criava uma ficção? Como se engajar num empreendimento enciclopédico quando não se tem uma formação científica. Júlio Verne conseguiu, como ninguém jamais o fez até hoje, em todos os seus romances que se seguiram, sem nenhuma crise de inspiração, elaborar romances científicos e geográficos que, além de apresentar uma maturidade e uma coerência, constitui admirável exemplo de criação literária.

Great Eastern

Em março de 1867, Jules Verne embarcou para os Estados Unidos no Great Eastern – o maior transatlântico da época – acompanhado do seu irmão Paul; passou uma semana em Nova York e visitou a Catarata do Niágara. As notas redigidas durante essa viagem dão origem a um romance completo – Une ville flottante (Uma cidade flutuante). Antes de chegar a Nova York, escreveu a Hetzel:

Eu sinto a necessidade de lhe dizer que amo muito a França e não muito menos a América. Ah! Se você tivesse vindo conosco, o seu coração teria palpitado mais de uma vez, pois os incidentes e, infelizmente, os acidentes não faltaram durante a viagem. Acredito que o meu livro sobre o Great Eastern será mais variado do que eu pretendia que o fosse, graças às provas por que passamos nestes últimos 15 dias. Assistimos a ventos insuportáveis: o Great Eastern, apesar da sua massa, dançava como uma pluma sobre o oceano.

Antes do fim de abril, Júlio Verne estava de volta a Paris, onde esperava o seu editor. De 1867 a fevereiro de 1868, Júlio Verne trabalhou intensamente, em colaboração com Théophile Lavallée, na elaboração de La Géographie de la France et de ses colonies (uma geografia da França e das suas colônias, 1866-68) em virtude de uma encomenda do seu editor Hetzel, que neste intervalo de tempo ocupava-se da revisão do romance Les enfants du capitaine Grant (1865-67).

Júlio Verne em Paris (1847-1870)

Um poeta aos quinze anos

No início dos anos de 1850, Júlio Verne se instalou em Paris para terminar seus estudos de Direito. Não sabia ainda que seria escritor mas sabia que não seria jurista. O estudo de advocacia sugeriu ao seu pai que Júlio assumiria a sua sucessão em Nantes. Esperando que as suas poesias lhe dessem glória e fortuna, Júlio aproveitou o máximo da vida parisiense, na medida que a modesta pensão paterna lhe permitia. Suas cartas aos pais registram a sua vida diária assim como as suas dificuldades. Para fazer face às dificuldades de um jovem que objetivava a carreira literária – freqüentar os salões e adquirir uma coleção de livros – Júlio começou a publicar os seus primeiros textos no periódico Musée des familles, dirigido por Pierre-Chevalier.

Júlio Verne foi sempre considerado um autor dramático; desde os 17 anos, escreveu dramas românticos inspirados em Victor Hugo, mas foi com vaudeville e operetas que ele obteve os primeiros sucessos. Em 1850, graças a Alexandre Dumas, sua primeira peça Les Pailles Rompues (Contratos Rompidos), foi apresentada em Paris no teatro Lyrique, no Châtelet, do qual se tornou mais tarde secretário. Essa mesma peça foi reprisada em Nantes no teatro Graslin, e Colin-mallard do qual fiel amigo Artistide Hignard escreveu a música. Estes pequenos sucessos se transformaram em verdadeiros triunfos alguns anos mais tarde, em 1874, quando ele adaptou para o palco, em colaboração com Dom Ennery, o Le tour du monde em quatre-vingt jours, Michel Strogoff e Les enfants du capitaine Grant. A capacidade do dramaturgo associado ao grande espetáculo enchia todas as noites durante meses, a platéia dos teatros do Châtelet e de Le Porte Saint-Martin. É o teatro sua primeira vocação: assim como os seus romances, Júlio Verne deve ao teatro a sua glória e fortuna que o imortalizou durante a sua vida e o faria muito conhecido, mais tarde, pela mão dos cineastas após a sua morte.

Influência de Edgar Allan Poe

Ao descobrir os fantásticos contos de Edgar Allan Poe, através das traduções em francês de Baudelaire, Verne decidiu consagrar-lhe um grande estudo no Musée de familles. Essa monografia foi redigida em 1862, mas só publicada em abril de 1864.

“Edgar Allan Poe inventou”, escreveu Júlio Verne “uma nova forma na literatura; criou um gênero à parte que só poderia proceder dele mesmo e do qual ele parece possuir o segredo; pode-se dizer o chefe de uma escola do misterioso, que ele recuou ao limite do impossível; ele terá os seus imitadores”.

Sem dúvida, um deles foi Júlio Verne, que começou a escrever o romance Voyage en l’air, mais tarde, denominado Cinq semaines en ballon.

Em carta a seu pai, em fevereiro de 1862, ao fazer alusão ao conto Lê Canard au ballon (“A balela do balão”), de Poe, escreveu Verne:

“Eu não penso embarcar, no meu próprio balão, um pato nem mesmo um peru que será um peru da farsa, mas seres humanos. Este aeróstato deverá, portanto, ser provido de um mecanismo irrepreensível”.

Verne procurou associar a estranheza ao rigor científico. Na realidade, Poe constituiu o sinal que permitiu a Júlio Verne encontrar o seu próprio gênero literário totalmente pessoal, embora outras influências tenham estimulado o aparecimento da serie “Voyages extraordinaires”, um deles foi sem dúvida o escritor Daniel Defoe através de sua obra “Robinson Crusoé”.

O nascimento de um romancista


Hetzel
Entusiasmado pela Voyage em l’air, o editor Pierre-Jules Hetzel – mais tarde, amigo e conselheiro – aceitou publicá-lo com a condição que o título fosse substituído por Cinq semaines en ballon (Cinco semanas em balão) . O contrato desse livro foi assinado em 23 de outubro de 1862 e o romance apareceu em 31 de janeiro de 1863. A venda desse primeiro romance de um escritor ainda desconhecido teve uma tiragem inicial de 2.000 exemplares. Durante a vida do autor foram vendidos cerca de 76 mil exemplares .

Assim surgiu o romance científico, e mesmo o geográfico, que comportava também de maneira discreta uma sátira social. Na realidade, essa obra correspondia ao estado de espírito que dominava Júlio Verne, nesta época, ou seja, desejo que aspirava se tornar um novo Balzac. Fundamentando-se para alcançar este objetivo descrever a sociedade moderna pela audácia e crueldade das suas imagens, como expôs na entrevista a Brisson, em 1898.

O editor

Antes de instalar a sua editora em 18 Rue Jacob, Hetzel conheceu uma primeira vida de editor e homem político. Em 1844, lançou Le diable à Paris, periódico no qual colaboraram Balzac, Théophile Gautier, Alfred de Musset, Gerard de Nerval, Charles Nodier, Georges Sand, Stendhal e Eugène Sue, tendo como ilustradores Gavami, Grandville e Bertall; a essa plêiade de intelectuais e de escritores se associou Victor Hugo e Jules Sandeau. Além de sua atividade de editor, Hetzel foi tradutor e escritor. Com o pseudônimo de P-J Stahl, contribuiu para as colunas do Magasin d’éducation et de récréation. Republicano, participou da revolução de fevereiro de 1848, tendo servido ao governo provisório como chefe de gabinete de Lamartine, ministro de negócios exteriores. Em conseqüência, teve que se exilar na Bélgica, durante o governo de Napoleão III, só retornando a França em 1859.

Uma biblioteca de educação e recreação.

No entanto, Hetzel projetava a elaboração de uma biblioteca associada à educação e à recreação. Com esse objetivo convenceu o jovem escritor e romancista a se lançar em uma nova “Comédie humaine” estimulando-o a prosseguir no gênero das viagens imaginárias dando lhes uma dimensão épica, onde o maravilhoso se apoiava nas descobertas cientificas da época. Deste modo, apoiado no estímulo do seu editor, Júlio Verne elaborou um romance satírico, Paris au XXe siécle, o qual se concentrava na forma da Voyage extraordinaire.

“É moderno, é novo, é a magia científica” assim anunciava aos seus amigos. “Se eu conseguir sucesso, abandono tudo porque encontrei o caminho que há anos ruminava poder um dia desenvolver.”

Lamentavelmente, esse romance sobre Paris, escrito entre 1860 e 1862, permaneceu na gaveta durante 150 anos2 , pois foi recusado por Hetzel em 1863. Trata-se de uma sátira da sociedade do segundo império numa visão de antecipação. Alguns elementos desse romance foram aproveitados em Une ville idéale (1875), La Journée d’un journaliste américan en 2889 (1889) e L’Île à hélice (1895). No entanto, essa recusa não significou que outras Voyages extraordinaires não fossem escritas: Voyage au centre de la Terre (1864), De la Terre à la Lune (1864-65) e Les enfants du capitaine Grant (1864-65).

Depois do sucesso desses romances, Júlio Verne assinou com Hetzel um segundo contrato em 11 de dezembro de 1865, em que se comprometia a fornecer três volumes por ano de obras que tivessem as mesmas características das editadas anteriormente para o mesmo público e com a mesma extensão. Mais tarde, em 1871, um novo contrato reduz a quantidade de três a dois volumes por ano. Verne aceitou o novo contrato, pois como dizia em carta de abril de 1864 ao seu editor: “quero me tornar antes de tudo, um escritor”.

Na realidade, dessa colaboração com Hetzel permaneceu até 1886, quando seu filho tomou a sucessão e continuou a publicar as Voyages extraordinaires (Viagens Extraordinárias), que representam um total de 62 títulos reunidos em 47 volumes. Na editora de Hetzel, Jules Verne não foi só um autor fértil, mas também o co-diretor do Magasin d’éducation et de récréation (Revista da Educação e da Recreação) , periódico fundado por Hetzel e Jean Mace.

A intenção era reatar com a tradição didática do século XVIII. De fato, essa publicação bi-mensal alternando pequenos trechos de ficção, contos, lições morais e artigos de divulgação científica, tinha como objetivo subliminar propor as famílias um periódico moderno e bem ilustrado no qual predominava “um ensino sério e atraente ao mesmo tempo que agradava aos pais com o proveito das crianças.”

O primeiro número do Magasin d’éducation et de récréation, de 20 de março de 1864, publicou o primeiro episódio do Voyage et aventures du capitaine Hatteras, de Júlio Verne, cujo nome aparece entre os redatores da revista na parte Educação dirigida por Jean Mace. No entanto, foi necessário esperar 1867 para que o objetivo educativo da obra verniana fosse nitidamente formulado, quando foi criada a coleção Voyage extraordinaires na qual foram reeditados, sob o formato maior, com ilustrações e com modificações no texto, os primeiros romances: Cinq semaines en ballon, Voyage au centre de la Terre e Voyage et aventures du capitaine Hatteras. Este último foi precedido de uma advertência do editor que vai constituir o verdadeiro programa a ser adotado pelo autor.

“Les romans de M. Jules Verne sont d’ailleurs arrivés à leur point. Quand on voit le public empressé courir aux conférences qui se sont ouvertes sur mille points de la France, quand on voit qu’à côté des critiques d’art et de théâtre, il a fallu faire place dans nos journaux aux comptes rendus de l’Académie des Sciences, il faut bien se dire que l’art pour l’art ne suffit plus à notre époque, et que l’heure est venue où la science a sa place faite dans la littérature. […]” “Les oeuvres nouvelles de M. Verne viendront s’ajouter successivement à cette édition, que nous aurons soin de tenir toujours au courant. Les ouvrages parus et ceux à paraître embrasseront ainsi dans leur ensemble le plan que s’est proposé l’auteur, quand il a donné pour sous-titre à son oeuvre celui de Voyages dans les mondes connus et inconnus. Son but est, en effet, de résumer toutes les connaissances géographiques, géologiques, physiques, astronomiques, amassées par la science moderne, et de refaire, sous la forme attrayante et pittoresque qui lui est propre, l’histoire de l’univers.(*)”

Esta apresentação-advertencia escrita por Verne e retocada pelo editor apresentava dois pontos de vista aparentemente divergentes. O primeiro correspondia indubitavelmente à intenção de Hetzel de “resumir todos os conhecimentos ……… recolhidos pela ciência moderna”. Tratava sem dúvida de educar sobre uma forma atraente e pitoresca. O outro ponto de vista de origem verniana estava associado às idéias de Flaubert, Zola e Hugo sobre abertura da literatura a sua época, opondo-se às teorias românticas: “é necessário dizer que a arte pela arte não é mais suficiente em nossa época e que é chegada hora onde a ciência tem a sua posição feita na literatura”.

Na verdade, o projeto de Júlio Verne constituía um verdadeiro desafio para um romancista. Como reunir os conhecimentos científicos numa perspectiva didática e ao mesmo tempo em que se criava uma ficção? Como se engajar num empreendimento enciclopédico quando não se tem uma formação científica. Júlio Verne conseguiu, como ninguém jamais o fez até hoje, em todos os seus romances que se seguiram, sem nenhuma crise de inspiração, elaborar romances científicos e geográficos que, além de apresentar uma maturidade e uma coerência, constitui admirável exemplo de criação literária.

Great Eastern

Em março de 1867, Jules Verne embarcou para os Estados Unidos no Great Eastern – o maior transatlântico da época – acompanhado do seu irmão Paul; passou uma semana em Nova York e visitou a Catarata do Niágara. As notas redigidas durante essa viagem dão origem a um romance completo – Une ville flottante (Uma cidade flutuante). Antes de chegar a Nova York, escreveu a Hetzel:

Eu sinto a necessidade de lhe dizer que amo muito a França e não muito menos a América. Ah! Se você tivesse vindo conosco, o seu coração teria palpitado mais de uma vez, pois os incidentes e, infelizmente, os acidentes não faltaram durante a viagem. Acredito que o meu livro sobre o Great Eastern será mais variado do que eu pretendia que o fosse, graças às provas por que passamos nestes últimos 15 dias. Assistimos a ventos insuportáveis: o Great Eastern, apesar da sua massa, dançava como uma pluma sobre o oceano.

Antes do fim de abril, Júlio Verne estava de volta a Paris, onde esperava o seu editor. De 1867 a fevereiro de 1868, Júlio Verne trabalhou intensamente, em colaboração com Théophile Lavallée, na elaboração de La Géographie de la France et de ses colonies (uma geografia da França e das suas colônias, 1866-68) em virtude de uma encomenda do seu editor Hetzel, que neste intervalo de tempo ocupava-se da revisão do romance Les enfants du capitaine Grant (1865-67).

Júlio Verne em Nantes (1828-1847)

Pierre Verne, oriundo de Provins, assumiu em 1826 a função de procurador público em Nantes, onde se casou, no ano seguinte, com Sophie Allotte de la Fuye. Dessa união nasceram cinco filhos: Jules, Paul, Anna, Mathilde e Marie.

A ilha de Feydeau, onde se encontra a casa natal de Jules Verne, era uma ilha fluvial situada entre os dois braços do Loire. O imóvel de número 2, do cais Jean-Bart (hoje Cours des 50 Otages), onde ele passou os primeiros quatorze anos da sua vida, dominava a confluência do Loire com o Erdre. A casa de campo de Chantenay, permitia acompanhar a atividade do porto. Jules Verne só viu o mar pela primeira vez, com a idade de 12 anos, mas as ilhas, os portos e os navios que serão temas favoritos da maior parte de suas obras, desde de muito tempo já faziam parte da sua vida e dos seus sonhos.

Na família Verne, praticava-se a poesia de circunstância: os eventos de nascimentos e de casamentos eram ocasiões a serem celebradas em versos de alegria e de amor. Jules começou a redigir as suas primeiras poesias muito jovem. “Desde a idade dos 12 ou 14 anos”, declarou a um jornalista, em 1904, “tinha sempre um lápis comigo e quando estava na escola não parava de escrever, elaborando sobretudo poemas desde a adolescência.” Preencheu dois cadernos de poesia que o acompanharam por toda sua vida e que permaneceram inéditos até a sua morte e só foram publicados em 1989. Poesia lírica ou satírica, amorosa ou rima de cancioneiros eram os gêneros que mais o atraíam.

Mais tarde, foi também letrista, fornecendo ao seu amigo, o compositor Aristide Hignard, poemas que foram musicados. Suas canções reunidas apareceram em 1857, com o título Rimas e melodias.

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