Archive for the ‘ Museus ’ Category

A Companhia do Capitão Reinier Reael

Cedida pelo Rijksmuseum ao Museu do Prado (3 de Dezembro de 2009 a 28 de Fevereiro de 2010), a obra-prima Companhia do Capitão Reinier Reael de Franz Hals e Pieter Codde, datada de 1637, é representativa dos retratos de milícias, género característico da pintura holandesa do século XVII.
Jan van Dijk alcunhou-a de Companhia Magra, devido à elegância dos militares.

Franz Hal y Pieter Codde - a compañía del capitán Reael, 1637

‘Just to see that painting would make the journey to Amsterdam worthwhile.’ wrote Vincent van Gogh in 1885, after having seen this work in the Rijksmuseum. He particularly liked the ‘orange banner in the left corner,’ he had ‘seldom seen a more divinely beautiful figure’. The painting that caused such a sensation was the group portrait of the crossbowmen’s militia under Captain Reinier Reael, painted by Frans Hals and Pieter Codde in 1637. The painting has been known for centuries as the ‘Meagre Company’, because the figures portrayed all appear remarkably thin.
Commuter
In 1633 Frans Hals was commissioned to paint the portraits of Captain Reynier Reael and Lieutenant Cornelis Michielsz. Blaeuw with their militia unit. He had to paint the picture in Amsterdam, where the militiamen lived. Hals himself lived in Haarlem; which meant that he had to travel back and forth regularly.
The Amsterdam civic guard had asked Frans Hals because of his reputation for lively civic guard portraits, and because he avoided staid, formally posed group portraits. But the militiamen could not have taken into account that Hals might start to find commuter travel tedious.
Expenses
When, after three years, only half the painting was ready, the militiamen demanded that Hals complete the painting in ten days, otherwise he wouldn’t receive a cent. Despite the excellent fee – 1,025 guilders – he refused. Let the militiamen come to Haarlem, was Hals’s his reply. He had already spent
far too much time and money in Amsterdam, without receiving any travel or accommodation expenses. He had ‘wasted much in Aemstelredamme in the tavern’, as he explained to the crossbowmen in a letter.
Pieter Codde
Hals’s clients refused to go to Haarlem. They looked for another painter to complete the work and found the Amsterdammer Pieter Codde. Finishing a canvas of this magnitude was no easy task for Codde, who usually worked in small formats with great precision.
The left side, up to the figure in light clothes in the centre, is by Frans Hals. He also painted most of the hands and faces. The rest is by Pieter Codde.
Rough and smooth
Although he tried to adapt to Hals’s style, Codde’s half is clearly less powerful, it is smoother and more precise and therefore less profound. The rendering of the various textures provides an excellent illustration.
While Hals’s brushstrokes are clearly defined, Codde’s brushwork is hardly visible. This is clear from a comparison of the black in the clothes of two officers, one by Codde and one by Hals.
Fashionable
Captain Reael’s men are wearing all the various fashions of the mid-seventeenth century, from conservative black broadcloth garments to bright, light-yellow costumes. Two figures are elegantly portrayed in light, glistening fabrics with a profusion of lace: the ensign on the left and the lieutenant in the centre. They are wearing sashes in the ‘club colours’ of their company: orange. The crossbowmen are also wearing different models of collar: millstone ruffs, simple surreptitious collars and large flat collars. They were made of delicate lace and never lasted very long. They only surviving example of a seventeenth-century collar is in the Rijksmuseum collection.

A real seventeenth-century collar

A real seventeenth-century collar
This collar is made of particularly fine batiste or cambric. As the name suggests, the material originally came from the Flemish town of Kamerijk or Cambrai. It was introduced to the Northern Netherlands by the Flemish refugees who arrived in the late sixteenth century. Haarlem weavers specialised in the fabric. Because of its shape, this kind of collar was known as a millstone ruff. These became fashionable in the second half of the sixteenth century under the influence of the Spanish rulers. Early millstone ruffs were starched with regular pleats. This example, however, is looser and less tidy. It is of a type that was popular with young, fashionable men around 1615 to 1635. This is the only surviving pleated ruff in the world. Via.

Terrina, de Tomás Brunetto

10 Obras de referência 2009 do Museu nacional de Arte Antiga | Visita guiada | Dia 25 de Novembro de 2009, 18:00

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Terrina - Tomás Brunetto, 1767-1771 -MNAA

A criação da nova Real Fábrica das Sedas induziu o aparecimento de várias unidades fabris nomeadamente a Real Fábrica da Louça do Rato, fundada em 1767. Esta estratégia desenvolvimentista estatal veio a ser apropriada e protagonizada por Sebastião José de Carvalho e Mello, depois marquês de Pombal, que se assumiu como um dos seus principais clientes. Encomendando peças de grande aparato, que o seu estatuto exigia, tendo atenção a sumptuosidade das suas residências, sinalizou para a corte, grandes aristocratas e burguesia influente, o novo gosto que viria a tornar-se “oficial”. A terrina em forma de cisne, de fabrico e pintura manuais e decorada com o brasão de família do 1º Conde de Oeiras, inscreve-se nesta preocupação de aquisições. Tal registo heráldico é fundamental para concluir que a peça foi executada na 1ª fase de produção da Manufactura, quando era seu director artístico Tomás Brunetto, que a manteve no nível mais elevado de fabrico de sempre. Na verdade, só em 1769 é que o conde de Oeiras é titulado como 1º marquês de Pombal.
Visita orientada por José de Monterroso Teixeira

Museu do Côa abre mesmo sem autarquias e sem privados

Administração Central assumirá a gestão do equipamento, com abertura prevista para Março

O Museu do Côa vai abrir mesmo que o modelo de gestão adoptado não inclua a participação de autarquias e privados.
A Administração Central pode assumir sozinha o equipamento, com abertura prevista para a Primavera de 2010.
“A questão do modelo de gestão é um falso problema”, disse, ao JN, Fernando Real, do Grupo de Trabalho do Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, que se extinguirá após a abertura do espaço museológico. “Esta dificuldade só se levantou porque estávamos num período pré-eleitoral, em que houve algum ruído”, realça o responsável, garantindo que a forma de gerir aquela estrutura “sempre esteve pensada” e que “há mesmo estudos de viabilidade económica e financeira”.
Fernando Real explica que
“a Administração Central tem responsabilidades na gestão financeira de um empreendimento desta natureza”, até porque o museu pertence ao Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC) e o Governo tem “um compromisso perante a região, o país e a UNESCO de de-senvolver este equipamento”.

Por isso, o também assessor da direcção do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) e que presidiu ao extinto Instituto Português de Arqueologia, diz que
não faz sentido continuar-se a falar na falta de um modelo de gestão para protelar a abertura do Museu do Côa. “Não percebo muito bem onde se quer chegar. Deve haver algum interesse que se me escapa”, enfatiza.
E foi por causa daquele alegado
“megaproblema” que também tem vindo a ser adiada a aprovação, em Conselho de Ministros, do Plano de Ordenamento do território que corresponde ao PAVC. E isto 13 anos após a sua criação. Fernando Real assegura que o documento “está concluído e pronto a ser aprovado”, e, segundo diz, “vai facilitar a vida às autarquias em termos de licenciamentos naquela área”.
A inauguração do Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa é que
só deverá ocorrer em Fevereiro ou Março de 2010, coincidindo com o período em que no Douro Superior se fazem as festas das amendoeiras em flor. “Pessoalmente, acho que seria uma altura estratégica para o inaugurar”, opina Fernando Real, pois “não fará sentido abri-lo numa época baixa, em que faz frio e em que as estradas terão gelo”. E como “atrás de tempo, tempo vem”, a Primavera afigura-se-lhe como a estação do ano mais propícia para abrir ao público uma estrutura que custou 17,5 milhões de euros e que não teve derrapagens orçamentais.
Mas, antes de se cortar a fita, vai ser necessário colmatar algumas lacunas. O IGESPAR ainda tem de receber a obra do empreiteiro, uma vez que faltam pequenos acabamentos, que representam cerca de 2% do total da obra.
“O edifício não poderá ser recebido enquanto não estiver totalmente pronto”.
Dentro de duas semanas, deverá ficar resolvido um problema ligado à refrigeração da central de informática. Os trabalhos já foram adjudicados e só se aguarda pela sua execução. Falta ainda colocar um varandim no miradouro do museu para evitar quedas, a colocação de acessórios nos sanitários e resolver problemas de iluminação, entre outros. Ou seja, um somatório de pormenores que até ao final deste ano deverão estar concluídos.
Por Eduardo Pinto do JN.

Édipo e a Esfinge

Jean-Auguste Ingres e Francis Bacon lado a lado no Museu Berardo

Em 1983, Francis Bacon (1909-1992) inspirou-se numa composição do famoso pintor francês Jean Auguste-Dominique Ingres (1780-1867) sobre o tema mitológico do diálogo entre Édipo e a Esfinge. O empréstimo excepcional do Musée du Louvre tornará possível a confrontação entre a obra de Ingres, Oedipus and the Sphynx (iniciada em 1808 mas alterada para ser exposta no Salon em 1827) e a obra de Francis Bacon – Oedipus and the Sphinx (after Ingres) – 1983, que pertence à Colecção Berardo.

Jean Auguste-Dominique Ingres - Oedipus and the Sphynx, 1808-25
Jean Auguste-Dominique Ingres – Oedipus and the Sphynx, 1808-25 – Oil on canvas, 189 x 144 cm
Musée du Louvre, Paris

Em Oedipus Tyrannus de Sófocles,  Édipo foi ter com a Esfinge que bloqueava a estrada para Tebas e desafiava qualquer viajante a responder a um enigma ou a morrer. Édipo conseguiu resolver o enigma…

Francis Bacon - Oedipus and the Sphinx (after Ingres), 1983

Francis Bacon - Oedipus and the Sphinx (after Ingres), 1983

Scenes from the Story of the Argonauts

Biagio d’Antonio – Scenes from the Story of the Argonauts, ca. 1465 – Tempera on panel

Master of the Argonauts

These two panels with lively depictions of scenes from the stories of Jason and the Argonauts were designed either as the fronts of cassoni or as spalliere, hung at above shoulder height. As with other complex narrative constructions of the period, such as some of Ghiberti’s compositions for the bronze doors of the Baptistery of Florence, the stories proceed across the picture plane and in depth, and the illusionistic manipulation of space through perspective is central to their effect.
Most of the tale is told according to the epic poem Argonautica written in Greek by Apollonius of Rhodes and studied in the Medici circle. Vernacular versions supplied some of the details, and in this sense the panels resemble those painted in celebration of the Tornabuoni-Albizzi marriage some years later, to which Biagio d’Antonio also contributed.

Biagio d'Antonio - Scenes from the Story of the Argonauts, ca. 1465

Panel 1: Charge of King Pelias to Jason, his nephew, to retrieve the Golden Fleece from a cave in Colchis on the Black Sea (in each scene, Jason is in golden armor, pink cloak, and winged helmet). Jason seeks adventurers to follow him. Jason and Orpheus, with his viol, consult the centaur Chiron atop Mount Pelion. Jason’s ship, the Argo, sails along the Mysian coast. Hylas, Hercules’ squire, is pulled into a pool by nymphs and never seen again. The Calydonian boar hunt at the far right is not in Apollonius’ account.

The Tale of the Argonauts (left to right):

Biagio d'Antonio - Scenes from the Story of the Argonauts, ca. 1465 (left)

Biagio d'Antonio - Scenes from the Story of the Argonauts, ca. 1465 (center)

Biagio d'Antonio - Scenes from the Story of the Argonauts, ca. 1465 (right))

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Scenes from the Story of the Argonauts, cassone panel, ca. 1465

Panel 2: Jason arrives at Colchis greeted by King Aeëtes with his daughters Medea and Chalciope. Jason begins to carry out his appointed tasks under the protection of the sorceress Medea. He is able to grab the Golden Fleece from the labyrinth and flees with Medea. Aeëtes sends Medea’s brother in pursuit; he may be the young man riding in haste across the castle’s moat.

In this panel and its companion, the story of Jason and the Argonauts unfolds in a continuous narrative.

Scenes from the Story of the Argonauts, cassone panel, ca. 1465 (left)

Here, at the left, Jason is charged by King Pelias to retrieve the Golden Fleece. Jason is then shown mounting his horse, and consulting the centaur Chiron on Mount Pelion, along with Hercules and Orpheus.

Scenes from the Story of the Argonauts, cassone panel, ca. 1465 (center)

In the distance is Jason’s ship, the Argo. This unidentified master was an assistant in Biagio di Antonio’s workshop.

Scenes from the Story of the Argonauts, cassone panel, ca. 1465 (right)

Source: The Metropolitan Museum of Art, New York

Anos 70 – Atravessar Fronteiras

Organizada pelo Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão (CAMJAP) e pelo Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e comissariada por Raquel Henriques da Silva, Anos 70 – Atravessar Fronteiras propõe duas áreas temáticas: a necessidade de intervir e experimentar; série e variação.
A exposição reúne um conjunto de obras oriundas da colecção do CAMJAP, mas também da Fundação de Serralves, do Museu do Chiado, do Museu Colecção Berardo, da Culturgest e de diversas colecções privadas. Traça-se assim um panorama da arte em Portugal, pontuando-a com momentos da arte internacional. Em complemento, realiza-se uma mostra expositiva de artistas nascidos nos anos 70 e apresenta-se alguma documentação.
Em Portugal, a dinâmica dos primeiros anos da década de 70 manifesta com clareza que a revolução estava já em marcha e que a mesma muito deve à criatividade provocatória e cívica dos artistas e outros agentes culturais. Dos cerca de 100 artistas presentes, há figuras tutelares há muito consagradas e jovens artistas em início de carreira.
O critério de selecção foi histórico, numa perspectiva de “obra aberta”: operou-se por áreas temáticas ou afinidades inesperadas, propondo aos visitantes que construam o seu próprio percurso. Foi ainda possível encomendar a alguns artistas obras que haviam deixado de existir – o caso de uma instalação de Alberto Carneiro ou do Portugal de José Aurélio -, ou a reconstrução e reapresentação de outras, como as instalações de Ana Vieira, Alberto Pimenta e Rui Orfão. Via.

Helena Lapas S/Título, 1970 Tapeçaria bordado 200 x 110cm Col. Helena Lapas

Artur Rosa Homenagem a Josef Albers, 1972 XL/XXXIV Serigrafia a três cores sobre papel Papel: 56,2 x 56,3 cm

Renée Gagnon Muro da dança, 1978 Gravura 70,5 x 100 cm Col. Renée Gagnon

 

“Casa das Histórias” de Paula Rego

"Casa das Histórias" de Paula Rego - clique para entrar...

Human Cargo – Tríptico de Paula Rego

“É um tríptico sobre o tráfico humano. Foi tudo montado no meu estúdio. Com escadas, polícias, velas, meninas. E, no fundo do quadro, a minha amiga Tilly que leva a mochila cheia.”

Paula Rego.

Human Cargo - Tríptico, 2008. Colecção Marlborough Fine Art, Londres. Lápis conté e aguada sobre papel

Human Cargo - Tríptico, 2008. Colecção Marlborough Fine Art, Londres. Lápis conté e aguada sobre papel

Human Cargo - Tríptico, 2008. Colecção Marlborough Fine Art, Londres. Lápis conté e aguada sobre papel

A ‘Casa das Histórias’ de Paula Rego

Uma história simples. Paula Rego é a artista - deu as obras. Eduardo Souto de Moura foi o arquitecto - desenhou o edifício.

Por Vanessa Rato – Público

Não é propriamente o tipo de história a que estamos habituados. Portugal: num país onde são mais comuns as colecções que procuram museu e que conhece, como alternativa, museus sem orçamento para constituir colecções, eis, de repente, este caso: o da Casa das Histórias Paula Rego.
Avenida da República, Cascais, à direita depois da Cidadela, afastando-nos ligeiramente da baía e do centro histórico, uma avenida ampla, algo árida. Faixas de rodagem, carros para cá e para lá, uns quantos prédios e moradias escondidos por grades e sebes, e, agora, no número 300, um muro baixo e reboludo, pouco mais do que à altura do nosso peito, a deixar ver um relvado espesso e fofo como um tapete de lã cruzado por um discreto caminho de pedra e cortado a dada altura por uma elegante frente de eucaliptos frondosos. Lá ao fundo, por detrás desta harmoniosa moldura natural, uma construção cor de barro, um edifício térreo e quase cego do qual irrompem duas torres em forma de pirâmide, tudo num vermelho Ferrari que desmaiou e começou a fazer-se rosa-velho.
Aparição misteriosa esta, perfume vago a exotismo tumular de civilização antiga, mas, ao mesmo tempo, com qualquer coisa discreta e muito cá de casa, escala inesperadamente humana e quente, sem os sobressaltos e espantos epifânicos que a maioria da arquitectura museológica contemporânea mais conhecida tem vindo a impor na paisagem internacional.
Duas torres
Um piso térreo com uma entrada baixa e duas torres: esta é a Casa das Histórias Paula Rego vista de fora, a mesma que se prevê que o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva e Paula Rego, ela própria, inaugurem oficialmente hoje pelas 11h00, e que na inauguração ao público, às 18h00, receberá largas centenas de convidados.
Desde que assumiu funções, em 2006, Cavaco Silva – e Portugal com ele – teve oportunidade de assistir a dois momentos do género, o primeiro logo no ano da sua tomada de posse, quando a Fundação Ellipse abriu portas em Alcoitão; o segundo em 2007, quando o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém reabriu como Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, em Lisboa.
Dois museus, duas controvérsias: após anos de tensões, ameaças e polémicas, Cavaco Silva aprovou, mas afirmou ter dúvidas sobre o modelo do Museu Berardo – questionou a distribuição de poderes entre o Estado e Joe Berardo, o conhecido coleccionador e investidor que cedeu a sua conhecida colecção por dez anos ao país mediante a criação de um pólo permanente para a sua exposição; quanto à Fundação Ellipse, continua com destino incerto meses depois de lançadas as investigações sobre as actividades do Banco Privado Português (BPP) e do seu ex-presidente, João Rendeiro – a empresa de auditoria Delloite apurou em Fevereiro que a Colecção Ellipse, um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do país, com cerca de 800 obras de alguns dos mais relevantes artistas internacionais, pertence em 83 por cento ao BPP, e não a Rendeiro, como se pensava, tendo aconselhado a venda como medida de saneamento das contas do banco.
Perante isto, à primeira vista, parece simples a história do museu dedicado a Paula Rego, “uma das maiores pintoras vivas” do mundo, segundo o Finantial Times, que, a propósito da inauguração da Casa das Histórias, dedicou recentemente um longo artigo à pintora, a mais internacional artista portuguesa viva, ou a mais portuguesa das artistas inglesas, dependendo da perspectiva.
Uma história simples, dizíamos: primeiras conversações entre Paula Rego e a Câmara Municipal de Cascais, presidida por António Capucho, em 2004. Menos de dois anos volvidos e com o projecto de arquitectura entregue a Eduardo Souto de Moura, a artista, radicada em Londres há mais de 30 anos mas nascida no Estoril, onde ainda tem uma casa de família, estava a assinar um contrato de doação e empréstimo por dez anos de uma centena de obras de pintura, desenho e gravura, trabalhos correspondentes a um percurso de cinco décadas, dos anos 1960 à actualidade.
Com um orçamento de obra de 5,3 milhões de euros, vindos do Programa de Investimento e Qualificação do Turismo, a primeira pedra do museu foi lançada no início de 2008 e, meio ano depois, ficava apontada uma directora, Dalila Rodrigues, antiga directora do Museu Nacional de Arte Antiga.
É Dalila Rodrigues que nos recebe para uma primeira visita ao espaço, já com a exposição inaugural montada.

A visita de Paula
“A ideia é que o museu seja também a concretização da visão de Paula Rego“, diz-nos à partida.
O percurso é cronológico e divido em quatro grandes zonas temáticas. Na primeira sala, trabalhos correspondentes aos dez primeiros anos, de uma Life Painting datada de 1954, altura em que Paula Rego era aluna da Slade School of Fine Arts, de Londres, a obras como Quando Tínhamos uma Casa de Campo (1961) ou O Exílio (1963), técnicas mistas com colagem que cruzam já o statement político com referências da esfera familiar e pessoal da artista.
Depois, o salto é para os anos 1980, quando Paula Rego abandona a colagem e se dedica a um figurativismo cada vez mais assumido em obras como O Macaco Vermelho Bate na Mulher (1981) ou a grande série Óperas (1983), das quais se apresentam, em simultâneo, cinco grandes telas e cinco pequenas aguarelas preparatórias. A etapa seguinte – 1994 a 2005 – assume como marco a introdução do pastel na obra de Paula Rego com Mulher Cão, trabalho apresentado na sala de exposições temporária e que abre caminho para obras cada vez mais realistas e, simultaneamente, teatrais, como Entre as Mulheres (1997), da série O Crime do Padre Amaro, o conhecido e imponente Anjo (1998) ou o tríptico The Pillowman (2005). Apesar de presente noutros momentos, a gravura compõe a última etapa – 1988-2007 – de trabalhos das conhecidas séries Nursery Rhymes, a primeira em que a artista usou esta técnica, e Jane Eyre, baseada na obra homónima de Charlotte Brontë, a litografias mais recentes como as séries Príncipe Pig.
A sala de exposições temporárias está pensada como última visita. É onde até 18 de Março se expõe um conjunto de obras emprestadas pela Galeria Marlborough, a representante internacional de Paula Rego, com trabalhos icónicos como a Filha do Polícia (1986), a série Avestruzes Bailarinas (1995), baseadas em Walt Disney, ou O Vasto Mar de Sargaço (2000), inspirado na obra homónima de Jean Rhys.
“O museu ideal para mim é aqui. É um sítio mágico, muito especial. Não poderia ter um sítio melhor”, dizia Paula Rego na altura da assinatura do protocolo de empréstimo e doação de obras, explicando desejar um espaço “despretensioso, divertido, vivo”. No início da semana, com a primeira exposição montada, explicava-nos: “Os trabalhos são o menos importante de um museu. O que é importante aqui são as nossas histórias, as nossas histórias portuguesas, que dão vida a tudo”.

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“Os portugueses têm uma vitalidade escondida”


Um museu em nome próprio é, normalmente, o momento último de consagração de um artista – evento raro de se dar em vida. Paula Rego, claramente, não necessitava de um museu em Cascais para a sua consagração. É uma questão de afectos.
Nascida no Estoril em 1934, apesar de radicada em Londres há mais de 30 anos, depois de ter sido aluna da Slade School of Fine Arts na década de 1950, a artista preserva uma casa de família no Estoril, onde fica quando vem a Portugal.
Depois de um protocolo de empréstimo e doação de mais de uma centena de obras da sua colecção pessoal por dez anos à Casa das Histórias, diz: “O meu sonho seria renovar o interesse por pessoas como o [José] Leite de Vasconcelos”, diz, referindo-se ao linguista, filólogo e etnógrafo que coligiu muitos dos contos portugueses em que a sua obra se tem vindo a inspirar. Paula Rego começa por contar a história que ultimamente lhe tem ocorrido com frequência – a do lenhador que chega a casa com fome e da sua mulher que, não tendo nada para lhe oferecer, acaba por cortar e cozinhar um dos próprios seios: “São histórias cruas e muitas vezes cruéis, mas têm uma vitalidade extraordinária. Isso interessa-me mais do que os quadros. Eles partem da força e liberdade dessas histórias. O meu sonho seria trazer para o quotidiano a nossa vitalidade. Os portugueses têm uma vitalidade muitas vezes escondida. É o medo.” Trinta e cinco anos passados sobre a Revolução o medo persiste? “Persiste. E de que maneira. O medo existe mesmo sem ter razão de ser”.
Paula Rego foi a artista que em 1960 fez o óleo Salazar a Vomitar a Pátria, hoje entre as muitas obras da artista na colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian: “O que é importante aqui [no museu] são as histórias, as nossas histórias portuguesas, que dão vida a tudo e não têm igual nas histórias do resto do mundo. Se há alguma vitalidade nos meus bonecos vem através do corpo todo, não é uma coisa cerebral, é qualquer coisa a que estamos habituados desde pequenos”.
a A idade suaviza: “À medida que as pessoas vão envelhecendo, vão passando a gostar de arquitectura não tão radical, mas onde é agradável viver”, diz-nos Eduardo Souto de Moura sentado na esplanada da Casa das Histórias. A sua nova obra partiu e foi desenhada à volta de uma única preexistência – uma preexistência que entretanto desapareceu: uma série de árvores que o arquitecto quis preservar mas que acabaram por ser cortadas, ou porque estavam a morrer ou porque eram infestantes. Ficou o edifício – o positivo do espaço livre entre as árvores desaparecidas: uma distribuição de salas em U à volta de um pátio central, onde foi replantado um carvalho, e uma articulação de volumes interiores a três tempos, tentando acompanhar a escala mais doméstica e o carácter intimista da gravura (parte substancial do espólio do museu) com tectos mais baixos, as necessidades de exposição de pintura de grande escala, com pés-direitos de cerca de cinco metros, e a respiração neutra dos espaços intermédios.
Construído em betão pigmentado a vermelho, a cor contrastante do verde do relvado que o rodeia e o tom de muitas casas da zona de Lisboa, Cascais e Sintra, o edifício ancora-se na tradição da arquitectura portuguesa, nomeadamente numa reinterpretação da obra de Raul Lino, que tem em Sintra uma casa pintada exactamente da cor do museu e pontuada por dois torreões (apesar de, formalmente, as pirâmides da Casa das Histórias se aproximarem mais das icónicas chaminés geminadas do Palácio da Vila). “Já há algum tempo que andava a perseguir e redesenhar o Raul Lino”, explica Souto de Moura, “o que percebi a dada altura foi que, ao tirar os beirais e alguns outros elementos secundários de decoração, ficavam casas vienenses, obras universais modernas. Percebi que ele é mais do que o inventor da casa portuguesa; é um precursor do racionalismo.”
A pedra escura usada no caminho de acesso ao museu e na esplanada é local: azulino de Cascais. “O Távora dizia sempre que a arquitectura boa é aquela onde as pessoas se sentem bem. E é. O importante na arquitectura é a naturalidade das coisas. Mas tudo isto demora uns anos a descobrir.”
Foi directora do Museu de Grão Vasco, de Viseu, e do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Agora, Dalila Rodrigues tem “o privilégio de um artista vivo”.
Especializada nos séculos XV e XVI, explica como “é impossível a obra de Paula Rego deixar um historiador de arte indiferente”: “Sempre admirei a sua capacidade de reinventar a pintura figurativa. Isso transformou o meu interesse diletante [na sua obra] numa área de estudo e pesquisa”.
Com um orçamento de lançamento do museu de dois milhões de euros, mas ainda sem orçamento de funcionamento – deverá ser aprovado no final do mês -, Dalila Rodrigues não avança detalhes sobre a programação do museu, para além da exposição temporária a dedicar daqui a seis meses à obra do marido de Paula Rego, Victor Willing (1928-1988).
Com duas exposições previstas por ano, explica apenas pretender que tanto as exposições com os ciclos de conferências com convidados nacionais e internacionais – a partir de Janeiro – convoquem os mestres que Paula Rego recria e subverte a par com temas fundamentais na obra da artista como a importância matricial do desenho que Paula Rego assume como verdadeira prática. Será “a história da arte como território amplo de trabalho”, ficando a criação emergente “fora de questão”. “Não será a linha de orientação do museu.”

Museu do Côa

Um ano depois de uma visita clandestina às obras, no passado fim-de-semana não tive a mesma sorte.
As legendas das fotos foram retiradas da Memória Descritiva dos autores do Projecto (Arquitectos Pedro Tiago Lacerda Pimentel e Camilo Bastos Rebelo)

O território sugere neste caso uma dupla leitura, pois é o suporte natural da paisagem, com que se pretende intervir e dialogar, mas é também a consequência da intervenção do homem numa natureza modelada, enfatizando a condição artificial.

No caso do Museu parece ser importante o sentido afirmativo do corpo, quer na sua leitura de intervenção na paisagem, quer quanto à sua natureza tipológica que deve ser formalizada enquanto massa física, não deixando quaisquer ambiguidades e equívocos quanto à sua localização e conteúdo…

Para a plasticidade da matéria do corpo interessa considerar três temas: a massa, textura e a sua cor

(...) sugerida nas eiras de secagem da amêndoa que pontuam alguns terrenos da envolvente...

(...) a condição de intervenção na paisagem é executada com elementos naturais promovendo continuidade, onde a geometria de carácter abstracto se impõe destacando a intervenção. (...) a estratégia é a de trabalhar um corpo, desenhado especificamente para um lugar promovendo um diálogo intimo entre artificial/natural e aumentando deste modo a complexidade temática da composição do mesmo.

O betão interessa pelas suas características plásticas e tectónicas...

No entanto, este, usado na sua cor natural, cinzento, promoveria alguma ruptura com o terreno onde predomina o castanho amarelado do xisto. Deste modo a proposta é que a matéria do corpo seja betão com inertes e pigmento de xisto resultando numa massa híbrida