Arquivo de 15 de Abril, 2004

Hábitos de Amar

Não é exacto que o prazer só perdura.

Muita vez vivido, cresce ainda mais.

Repetir as mil versões prévias, iguais

É aquilo que a nossa atracção segura:

O frémito do teu traseiro há muito

A pedi-las!

Oh, a tua carne é ardil!

E a segunda é, que traz venturas mil,

Que a tua voz presa exija o desfruto!

Esse abrir de joelhos!

Esse deixar-se coitar!

E o tremer, que à minha carne sinal solta

Que saciada a ânsia, logo te volta!

Esse serpear lasso!

As mãos a buscar- me.

Tua a sorrir!

Ai, vezes que se faça:

Não fossem já tantas, não tinha tanta graça!

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Damages Presidential Library Washington, DC (Reuters)

A tragic and sad fire has destroyed the personal library of President George W. Bush.

Both of his books have been lost.

The president is reportedly devastated – apparently, he had not finished colouring the second one.

Reuters

«Mensagem» de Fernando Pessoa

2º Parte – Mar Português
POSSESSIO MARIS

IX – ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

X – MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

XI – A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei DE. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ‘spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

XII – PRECE
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

De Halley ao Século XX

“Quando morrem os mendigos não aparecem cometas.

Os céus somente se inflamam na morte dos príncipes”


“Júlio César”, W. Shakespeare

Edmond Halley

Edmond Halley (1656-1742) deixou o seu nome na História da Ciência.

Newton tinha demonstrado que os cometas, como os planetas, se moviam em secções cónicas faltando, no entanto, apurar-se qual das secções.

Halley mostrou que a órbita do cometa de 1680 era, certamente, uma parábola.

Ele próprio, impulsiona e financia a publicação dos Principia de Newton em 1678.

Na primeira edição, Newton, reconhece implicitamente o seu erro ao aderir à hipótese das trajectórias rectilíneas de Kepler e inclui os cálculos de Halley nos Principia.

Classifica os cometas como uma “classe de planetas” e, tomando os dados das observações, afirma que estes só são vísiveis quando estão relativamente perto do Sol.

Esse facto leva Newton a estabelecer que o brilho observado é devido à luz solar que se reflecte nas caudas.

As caudas deveriam formar-se a partir da atmosfera do cometa no decurso da sua aproximação ao Sol.

Halley calcula, também, os elementos orbitais de 24 cometas de que se dispunham de suficientes observações.

Dessa lista fazem parte o cometa de 1680 e o de 1682 que viria a receber o seu nome.

Halley enfrentou o problema reconstruindo a trajectória de um cometa na sua parte invisível.

Considerou todos os registos históricos disponiveis numa cadeia que se estendia até Séneca e Plínio. Com a teoria de Newton, Halley compara as características orbitais dos cometas de 1531, que tinha sido observado por Apian, o de 1607 observado por Kepler e o de 1682, observado por ele próprio, e encontra muitas semelhanças na inclinação da órbita em relação ao plano da eclíptica, na distância do cometa ao Sol no periélio e no nodo – o ponto onde a órbita do cometa cruza o plano do sistema solar.

De seguida, confrontando as datas dos aparecimentos, encontrou um retorno periódico que era, exactamente, o que dizia a teoria newtoniana se as órbitas dos cometas fossem elipses.

Apesar disso, existiam ainda algumas variações dos elementos orbitais de um aparecimento para outro, que embora pequenas, não convenceram Halley de que tinha chegado à solução do problema.

Um cálculo aproximado dos efeitos da gravidade de Júpiter e de Saturno no movimento do cometa, revelou-se muito concordante com as perturbações observadas.

Posto isto, Halley afirmou que os três aparecimentos eram de um mesmo astro, uma vez que se repetiam em cada 75 ou 76 anos.

Previu que o cometa regressaria em 1758 e acertou.

Os seus resultados foram publicados no famoso Astronomie Cometicae Synopsis, em 1705.

dúvida metódica

O Rogério Santos das Teorias da Comunicação e das Industrias Culturais é da área do jornalismo ou da publicidade?!

%d bloggers like this: