Posts Tagged ‘ João Chambers ’

As Idades do Mundo #4

quarto programa da série As Idades do Mundo, de  Ana Mântua e João Chambers, é dedicado aos “movimentos pós-impressionistas e o caminho da modernidade: o simbolismo, uma nova apreensão da realidade visível e a música de Maurice Ravel, Claude Debussy, Gabriel Fauré, Camille Saint-Saëns, Hector Berlioz, Gustav Mahler e Jean Delibes.”

Paul Gauguin – Be Mysterious, 1890

Musica Aeterna – Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786)

Comemorada no passado dia 24, a efeméride dos três séculos da nascença de Frederico II, “o Grande”, da Prússia (1712-1786), o qual, na política interna, personificou a imagem do “despotismo iluminado”, realçada, para além de obras do próprio, através de repertório dos contemporâneos Franz Benda, Ludwig Christian Hesse, Johann Gottfried Müthel, Carl Heinrich Graun, Carl Philipp Emanuel Bach, Christoph Schaffrath, Georg Anton Benda e Johann Philipp Kirnberger. Por João Chambers.
Parte IParte II

Adolph von Menzel - A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

Adolph von Menzel (1815-1905) – A Flute Concert of Frederick the Great at Sanssouci, 1852

As Idades do Mundo #2

O segundo programa da série As Idades do Mundo, de  Ana Mântua e João Chambers, é dedicado a Jheronimus Bosch. Quem não puder ouvir a emissão de domingo às 10h00 na Antena 2, tem a possibilidade de aceder ao  Arquivo a partir de segunda-feira.

As “Imagens do Mundo” e da Humanidade através das visões de Jheronimus Bosch (?-1516) e da música de Joachimus de Monte, Cristianus Hollander, Jean Richafort, Nicolas Gombert e de autores anónimos, extraída dos “Livros de Coro do Colégio das Sete Horas Litúrgicas” da Igreja de São Pedro, na cidade de Leiden, nos Países Baixos, sobrevivente da fúria iconoclasta e destruidora, dos dias 25 e 26 de agosto de 1566, que discordava da existência, não particularmente devota, de alguns membros da ordem religiosa local.

As Idades do Mundo

A rubrica Caleidoscópio da Antena 2 difunde desde ontem uma série de 12 programas de audição obrigatória. Domingo às 10h00 | Ana Mântua/João Chambers

“Tomando como ponto de partida a obra-prima do pintor português Francisco de Holanda De Aetatibus Mundi Imagines, ou Imagens das Idades do Mundo, realizada no triénio 1545-1547, onde, numa linguagem totalmente inovadora e através de mais de centena e meia de ilustrações, se narra a história do mundo a partir do primeiro dia da Criação, concebemos uma série de doze programas que toma como denominação parte daquele título.
As características cíclicas da história da Humanidade, aliadas à permanente influência e contaminação de vários tipos de linguagens e de imagéticas, proporcionaram o eterno retorno às concepções do passado, nem que fosse apenas para as renegar, sendo os mesmos temas, por diversas vezes e ao longo dos tempos, retomados e apreendidos de diferentes formas pelos seus autores.
Tal como afirma o filósofo francês Gilles Deleuze ao caracterizar a cultura universal como “a civilização da imagem”, o tema principal destas emissões será o da sua força e a poderosa capacidade de arrebatamento, deleite ou, simplesmente, horror.
Privilegiando a música e a palavra que lhe está associada, abordaremos, ao longo dos próximos domingos, personalidades ímpares do génio artístico universal, as quais contribuíram, de forma indelével, para a renovação da imagem do mundo em diferentes momentos da História.”
Por Luís Ramos.

Musica Aeterna – seis séculos do nascimento de Joana d’Arc

Dias 07 e 14 de Janeiro, na Antena 2.

Considerando a documentação, toda de uma excepcional riqueza histórica, a sobreviver até aos nossos dias, constituída pelos vários volumes dos dois processos que lhe instauraram – o de condenação em 1431 e o de reabilitação em 1456 –, Joana d’Arc mantém-se como uma das personagens mais conhecidas e enigmáticas do século XV. Na verdade, esta circunstância refere-se, em primeiro lugar, ao contraste que tornou a sua acção, a par das fontes históricas que a documentam, profundamente desconcertante. Desde camponesa iletrada, ou seja, a parca instrução limitava-se a pouco mais do que saber recitar de cor várias orações, aos ecos de sermões escutados ou até às conversas com personalidades influentes, foi guindada a uma posição de grande destaque na História de França.
João Chambers

O mecenato papal na Roma do século XVI, através do génio de Kapsberger

De Johannes Hieronymus Kapsberger, autor de génio veneziano de ascendência alemã (1580-1651) que desenvolveu em Roma o estilo dos instrumentos de corda dedilhada, sugiro a peça Passacaglia do Libro quarto d’intavolatura di chitarrone (1640), interpretada pelo norueguês Rolf Lislevand (alaúde e tiorba).
A escolha foi inspirada pela audição do Musica Aeterna de 10 de Dezembro de 2011.


Musica Aeterna – Richard Hooker (1554-1600)

Os textos aqui reproduzidos, foram amavelmente cedidos por João Chambers, a quem ficamos a dever a absolutamente admirável emissão do Musica Aeterna do passado sábado, dia 5 de Novembro, e que tem hoje a segunda parte.

PRIMEIRA PARTE
A vida e a obra do eclesiástico e influente teólogo Richard Hooker (1554-1600), cuja ênfase na razão e na tolerância influenciaram, de sobremaneira, o pensamento anglicano, explicitadas através de repertório dos contemporâneos William Byrd, Alfonso Ferrabosco, “o Filho”, Robert Carver, Nicholas Ludford, John Dowland, John Sheppard, John Cooper, Christopher Tye, Peter Philips, Thomas Tallis e Robert Hales (Sábado, 5 de Novembro de 2011).

A finalizar a primeira de uma série de duas emissões dedicadas a Richard Hooker, eclesiástico e influente teólogo, natural de Exeter, que viveu de 1554 a 1600 e cuja ênfase na razão e na tolerância influenciaram, sobremaneira, o pensamento em voga na época, escutámos de Thomas Tallis, autor de génio contemporâneo que, para além de Gentleman da prestigiada Chapel Royal, foi responsável máximo por todo o repertório apresentado na corte de Henrique VIII, o motete para quarenta vozes intitulado Spem in alium. Elaborado, sob encomenda de Thomas Howard, quarto duque de Norfolk, cerca de uma década antes da morte durante o reinado de Maria Tudor, filha do monarca, esta sublime criação teve como intérprete o conjunto I Fagiolini num superlativo desempenho dotado de uma expressividade e de um misticismo absolutamente tocantes. Dirigiu Robert Hollingworth.
SEGUNDA PARTE
A vida e a obra de Richard Hooker, eminente teólogo que defendeu e fundamentou uma posição equilibrada em relação à Reforma enquanto fenómeno europeu, conforme delineada pelo compromisso isabelino e pelos “Trinta e Nove Artigos”, e cujo pensamento ficou associado à apologia de uma “via média” e à génese do anglicanismo, ilustradas através de criações dos contemporâneos Thomas Tomkins, William Byrd, Nicholas Ludford, Robert Carver, Orlando Gibbons, Alfonso Ferrabosco, “o Pai”, John Cooper, Robert White, Peter Philips e Thomas Campian (Sábado, 12 de Novembro de 2011).

Musica Aeterna – 750 anos do nascimento de D. Dinis

Nove dias andados do mês de Outubro de 1261: os 750 anos do nascimento de D. Dinis, o qual, para além de admirado pela perfeição técnica e pela imaginação literária, ficou para a História como o grande responsável por um longo período de paz e de prosperidade tardo-medieval. A transmissão de poesia alusiva de Luís de Camões, Dante Alighieri e Fernando Pessoa, de uma citação de Franco Sacchettie de repertório de Afonso X, “o Sábio”, Frei Manuel Cardoso, Arnaut Daniel, Duarte Lobo, Martin Codax e autores anónimos da província de Aragão, quase todos contemporâneos do também incluído monarca na Ibéria e na Península Itálica dos séculos XIII e XIV. João Chambers.
8 de Outubro de 2011 | 14:00 – 16:00 | Antena 2.

Georg Friedrich Händel – 270 anos de ‘Messias’

Para assinalar os 270 anos da conclusão do Oratorio “Messiah”, escolhi parte do texto que João Chambers utilizou no Musica Aeterna de Abril de 2009, destinado a assinalar a passagem dos 250 anos da morte de Handel; A escolha musical, desta vez, recai sobre o agrupamento vocal e instrumental Les Arts Florissants, dirigido por William Christie.
Espero que gostem. 🙂

A concepção da oratória “O Messias”, que passaria à posteridade como um dos apogeus da História da Música Ocidental e ocupa um lugar de destaque em todo o seu espólio, constitui um dos muitos paradoxos em que o mundo da arte é fértil. Composta em apenas três semanas, mais concretamente, entre 22 de Agosto e 14 de Setembro de 1741, seria apenas estreada no ano seguinte, no Music Hall em Fishamble Street, durante uma viagem efectuada a Dublin talvez já na expectativa de um convite por parte das autoridades irlandesas. Numa récita de beneficência em favor de presos e doentes internados em várias instituições locais iria então surgir, de novo, a estranha relação entre harmonia, asilos e hospícios sempre tão fecunda ao longo dos tempos.

Após o seu regresso a Londres, Handel foi obrigado a alterar o título daquela sua genial criação, de modo a poder calar as críticas que o acusavam não só de profanar um tema sacro e interpretá-lo num lugar tão pouco idóneo como, também, pelo facto de se ter servido de intérpretes que nada tinham a ver com o culto da liturgia. Todas estas vicissitudes viriam a contribuir para que, de início, não tivesse despertado o fervor popular que, anos mais tarde, acabaria por vir a provocar. Com efeito, seria apenas a partir de 1750, ano da morte de Johann Sebastian Bach, durante a temporada da Quaresma do Teatro do Covent Garden, em Londres, que começou a ter apresentações regulares, tendo acabado por se tornar numa verdadeira “instituição” da arte dos sons inglesa. Foi, ainda, durante esse mesmo ano que renovou habilmente a ligação entre a obra e diversos locais de caridade, tendo iniciado a tradição de a fazer executar em benefício do Hospício dos Expostos, do qual era provedor, começando, então, a manifestar-se uma alteração de sentimentos por parte do público que o passou a receber com entusiásticas ovações.

Baseado num texto homogéneo e equilibrado da autoria de Charles Jennens, o libreto não aborda qualquer tema sacro mas tão-somente o da reflexão sobre o mistério da redenção e da relação entre Deus e o Homem. Demonstrando grande preocupação com a profecia e a meditação, o respectivo teor foi inteiramente retirado da versão autorizada da Bíblia e do Book of Common Prayer, cuja utilização num contexto profano, muito ofendeu “pessoas escrupulosas” tal como Jennens rotulava esses puritanos. A alternância quase simétrica de recitativos, árias e coros não enfraquece a linha dramática, a qual foi conseguida com recurso a uma grande economia de meios harmónicos e graças a uma orquestração que, não servindo de apoio ao texto, ajuda, no entanto, a elevar o espírito dos ouvintes. A criteriosa compilação bíblica revestiu-se de uma forte concepção de conjunto e, através da combinação hábil de textos extraídos do Antigo e do Novo Testamento, procurou ilustrar o cumprimento das profecias messiânicas do primeiro nos acontecimentos constantes dos Evangelhos. Dividida em três partes, as suas passagens referem-se às profecias da vida de Cristo, à Sua redenção e, em epílogo, à imortalidade da alma cristã.
Faltando um fio dramático e unificador de forma a impor um sentido forte de estrutura, a primeira função de Handel, ao adaptar o texto de Jennens, foi criar um enquadramento musical capaz de tratar passagens potencialmente desconexas enquanto procurava manter a continuidade do pensamento subjacente. Tal objectivo foi conseguido através de um esquema global de tonalidades e harmonias em que a obra se estrutura e na qual vai, pouco a pouco, gerindo a construção e a resolução da tensão. Tudo isto foi complementado com uma distribuição ponderada dos vários ingredientes formais, ou seja, recitativos, árias e coros, pelas secções de texto mais apropriadas, dando a devida atenção ao peso relativo de cada uma na sua concepção global. Deste modo, possibilitou a percepção de um sentido quase dramático da progressão da música que, simultaneamente, ilustra e reforça a respectiva narrativa à medida que se vai desenrolando.

Apesar do pouco tempo que a composição terá demorado esta absolutamente notável oratória não é, de forma alguma, uma obra precipitada. Embora Handel tenha reutilizado como secções corais dois duetos amorosos que tinha anteriormente composto, contém, na realidade, poucas citações de peças preexistentes. Tal circunstância leva a crer que terá despendido tempo e paciência consideráveis no Amen final, do qual subsistem, nada menos, do que sete esboços, embora o manuscrito autógrafo original contenha também diversas emendas transcritas pelo seu próprio punho.

Durante a sua existência, o “Messias” jamais iria conhecer uma forma definitiva, uma vez que ele próprio ia frequentemente inovando de modo a adaptá-lo não só aos cantores disponíveis mas também às circunstâncias especiais de cada representação. Este hábito de “alteração” regular prolongar-se-ia muito para além da morte, tendo a célebre readaptação de Mozart aberto possibilidades a outras tentativas, bem intencionadas mas desastrosamente mal orientadas, em reforçar a propositadamente sóbria orquestração. Porém, nas últimas décadas do século XX e fruto de intensas e sérias investigações musicológicas tem, felizmente, vindo a ser adoptada uma abordagem diferente na interpretação do repertório anterior ao Romantismo, tendo este verdadeiro monumento, que sempre ocupou um lugar de destaque na História da Música Ocidental, servido de perfeito exemplo ao admirável e sempre em constante evolução movimento de renovação interpretativa.

Musica Aeterna – Giorgio Vasari

As emissões do Musica Aeterna de 23 e 30 de Julho de 2011 são dedicadas aos cinco séculos do nascimento de Giorgio Vasari.

Nascido, a 30 de julho de 1511, no seio de uma família humilde, em Arezzo, cidade hoje tornada famosa sobretudo devido aos admiráveis frescos de Piero della Francesca para a Capela de São Francisco, Vasari, segundo o próprio testemunho, teve um antepassado a exercer a profissão de ceramista, ou vasaro em idioma italiano, daí a origem do apelido que o haveria de perpetuar para as gerações futuras. Constituindo parte do território da Toscana, logo não muito longe de Florença, tal situação geográfica vantajosa proporcionou-lhe o acesso aos exigentes e restritos círculos artísticos locais. Assim, quando contava apenas treze anos de idade, o pai, que sempre o encorajou a interessar-se pelo desenho, convenceu o cardeal Sílvio Passerini, representante do recém-eleito Clemente VII, a permitir ali ingressar como aprendiz. Mais tarde, na pioneira e magistral “Vidas”, textos que, apesar das inexactidões e das posições parciais tomadas, o consagram como um notável historiador pelo estudo da existência e da obra de cerca de centena e meia de artistas e a sua integração numa embrionária teoria da arte, iria enaltecer o facto de Luca Signorelli, familiar afastado, ter sido o principal responsável pelos primeiros ensinamentos que lhe foram ministrados.
João Chambers.

MUSICA AETERNA DE 23-07-2011| Assinalados no próximo dia 30, os cinco séculos do nascimento de Giorgio Vasari, influente arquitecto, teórico e crítico da Renascença, para além de autor da notável “Vidas”, ilustrados através de criações da autoria de Andrea Gabrieli, Annibale Padovanno, Carlo Gesualdo, Heinrich Isaac, Josquin Desprez, Alfonso Ferrabosco, “o Pai”, Giovanni Pierluigi da Palestrina, Diego Ortiz, Alessandro Striggio e de um autor anónimo, todos contemporâneos e ativos na Península Itálica do século XVI. João Chambers.
MUSICA AETERNA DE 30-07-2011| Comemorada hoje mesmo, a efeméride dos 500 anos do nascimento de Giorgio Vasari, geral e justificadamente considerado como uma das personalidades mais fascinantes da Península Itálica do século XVI, realçada através de peças da autoria dos contemporâneos e também ali activos Giovanni Pierluigi da Palestrina, Jean Richafort, Marc’Antonio Ingegneri, Alexander Agricola, Giovanni Gabrieli, Orlando di Lasso, Giulio Caccini, Costanzo Porta, Heinrich Isaac, Alessandro Striggio e Marco dall’Aquila. João Chambers.

A 3 de Fevereiro de 2011, o Caderno P2 do Público incluiu um artigo sobre Vasari intitulado:

Com quem ficará o espólio de Vasari?

Trocou cartas com cinco papas. E elas são uma das razões para que o espólio do pintor e escritor renascentista tenha tanta importância. Uma polémica sem fim à vista

São Lucas Pintando a Virgem
A história é longa e complicada. Envolve o espólio do mestre renascentista Giorgio Vasari, um magnata  russo, o Estado italiano e várias reviravoltas judiciais e personagens secundárias sugadas para esta novela internacional sem fim à vista.
O pintor, arquitecto, escritor e historiador renascentista Giorgio Vasari nasceu em Arezzo, na Toscana, em 1511, e o seu grande feito – para além de ter começado a pintar o tecto da Catedral de Florença – foi ter escrito diversas biografias de alguns dos mais importantes artistas do Renascimento italiano.
Por esse motivo tinha, à data da sua morte, um imenso espólio de correspondência trocada com alguns dos mais célebres protagonistas do seu tempo: o pintor Miguel Ângelo, cinco papas renascentistas e vários membros da importantíssima família Médici, entre outros. Tinha igualmente entre os seus pertences uma importantíssima colecção de desenhos e pinturas.
O arquivo de Vasari esteve desaparecido durante cerca de 300 anos até que reapareceu, no início do século XX, na posse de um tal conde Spinelli, descendente do executor do testamento do mestre. Passou então para a antiga casa habitada por Vasari, em Arezzo, a 80 quilómetros a sudeste deFlorença, continuando na posse dos descendentes de Spinelli, a família Festari.
150 milhões de euros
O enredo desta história adensou-se em Setembro de 2009. Foi nessa altura que os herdeiros do falecido proprietário do espólio àquela data, Giovanni Festari, mergulhados em dívidas ao fisco, começaram a procurar activamente um comprador para o arquivo.
Por intermédio de um empresário, os herdeiros entraram em contacto com um magnata russo chamado Vasily Stepanov, da empresa russa Ross Engineering (Grupo Ross) e os termos do contrato ficaram assinados. A venda era certa.
“Foi-me dito que aquele arquivo era uma daquelas oportunidades que só aparece uma vez na vida e que eu poderia vir a ter uma colecção que mais ninguém possui”, disse Stepanov ao The Art Newspaper.
A mesma fonte indica ainda que Stepanov estava disposto a pagar 150 milhões de euros pelo acervo. “Os meus associados responsáveis por estas diligências asseguraram-me que o preço era acertado e justo”, disse o russo, declarando igualmente que os arquivos seriam um tesouro mundial digno de uma exposição no Museu Hermitage, em São Petersburgo.
Porém, este preço e as condições da venda desencadearam imediatamente uma polémica, ainda em 2009. Muitos questionaram a verdadeira identidade do comprador e outros tantos acharam estranho o facto de Stepanov estar interessado em pagar um preço tão elevado – oito ou dez vezes mais do que o valor real do arquivo, argumentaram então vários especialistas.
Estes dois argumentos serviram, segundo muitos, para pressionar o Governo italiano, que tinha direitos de preferência para a aquisição e podia apresentar uma contraproposta.
Como ninguém parecia interessado em ver passar este acervo para mãos estrangeiras, a pressão pública foi aumentando – mesmo depois de oadvogado dos herdeiros, Guido Cosulich, ter tranquilizado o Estado italiano afirmando que o espólio não sairia de Arezzo.
Já em Março de 2010, o Ministério Público ordenou o arresto do arquivo Vasari pela polícia da Toscana e deu início a uma investigação criminal por fraude contra o Estado italiano, de acordo com um porta-voz do Ministério da Cultura, igualmente citado peloThe Art Newspaper. No âmbito deste inquérito, Stepanov teria de apresentar-se ao ministério e provar que a Ross Engineering existia, bem como confirmar a sua intenção de prosseguircom a aquisição.
No meio disto tudo, uma reviravolta surpreendente: dado o incumprimento no pagamento de impostos por parte dos quatro herdeiros Festari (umadívida de 700 mil euros), a agência estatal de impostos Equitalia decidiu levar o arquivo Vasari a leilão, no qual o Ministério da Cultura pretendia arrematar o negócio.
Leilão cancelado
A venda nunca chegou, porém, a realizar-se. Um juiz toscano cancelou este leilão depois de um recurso apresentado pelos herdeiros argumentandoque as estimativas da leiloeira para a venda (2,6 milhões) eram muito baixas.
Ainda em Março de 2010 outra reviravolta: um tribunal de Arezzo deu o leilão como válido e deliberou que seria indicada uma nova data para as licitações.
Finalmente, na última reviravolta de todas, soube-se esta semana que o comprador russo pretende desistir do negócio. Vasily Stepanov disse ao The Art Newspaper ter recebido informações que sugerem que, “desde o início, os italianos não tinham nenhuma intenção de vender o arquivo”. Stepanov reafirmou, porém, ter sempre agido de boa-fé: “Assim que me apercebi das suas verdadeiras intenções, decidi romper os meus contactoscom eles. Considero o negócio terminado”, disse.
Os herdeiros Festari contradizem, porém, esta versão dos factos: “Nunca houve intenção de coagir o Estado italiano. Na verdade, em Setembro de2010, os Festari pediram ao Estado para abdicar do seu direito de compra do espólio ao preço estabelecido pelo mercado de forma a dar continuidade ao contrato com o Grupo Ross”, indicou um porta-voz da família.
Aconteça o que acontecer, seja ou não vendida em leilão ao Estado italiano, o espólio de Vasari permanece valioso e imutável às disputas judiciais.